quinta-feira, 22 de julho de 2021

O PRATINHO TRANSPARENTE

 Estou na piscina, mas não sou quem está na piscina. Eu estou em casa dos meus pais, tenho 14 anos, faço scones na cozinha e espero amigos que vão chegar. O meu fato de banho azul, que comprei na Vitória, tem flores amarelas e a minha mãe comprou-mo em Badajoz, porque ainda não sabe que vai haver uma Íntima na rua do Comércio. Eu estou ansiosa, acho que feliz, porque também ainda não sei que vai haver um fato de banho azul quando já não houver a minha mãe. Tenho 14 anos. Estou apaixonada pelo João, paixão eterna porque não adivinho que não vou casar com ele e ser feliz para sempre, que vai acontecer tempo de solidão e lágrimas quando eu tiver o fato de banho azul. Agora não espero ninguém. Este meu eu não me conheceu aos 14 anos, fez-se aos poucos, sem sequer pedir licença. O meu eu de 14 anos sabe que a Mena vai chegar, a Faneca também, todos os amigos vão  vir e vão olhar para o lado, ou dar um mergulho, quando eu partir para um mundo só meu e do João, porque o calor da mão dele me faz voar, porque eu amo-o desconhecendo o amanhã.

Chegam as ovelhas do vizinho, e eu não as oiço porque aqui não há ovelhas, não há vizinhos. A minha mãe não tira os scones do forno, mas eu vejo-a a separá-los, a colocá-los na cesta com o guardanapo branco, a colocar nozes de manteiga no pratinho transparente. 

Ter-se-á partido o pratinho transparente? 

segunda-feira, 12 de julho de 2021

FUTEBOL

 O jogo de ontem, que opôs Inglaterra a Itália, agarrou-me ao ecrã.  Eu, que não  gosto de futebol e não percebo nada daquilo, senti o meu coração dividido entre o país onde sempre fui imensamente feliz, a Itália da História e dos sabores, e a Inglaterra, onde bate mais de metade do meu coração. Sentada em frente da televisão recuperei a travessia de Siena para Milão, debaixo de neve, num pequeno carro alugado onde a mala mal cabia. Milão, Florença excessiva, Siena, S. Gimignano, a Toscânia onde, penso eu sempre, todos os impossíveis acontecem. Depois, Roma. E passeei de novo pelas praças, pelas trattorias, pelas mil igrejas, pelo cais do rio Tibre. Ah, e  os telhados de Roma, as varandas, as ruas de lojas com preços proibidos, o Hotel Inglaterra a contar do português D. Pedro II. E o jogo continuava, jovens no chão, encontrões, todos numa louca corrida ao golo, à vitória, à taça. A taça de vinho fresco, o Pinot Grigio Delle, o abraço entontecido, a alma encadeada de presente a acontecer. Prolongamento. Os ingleses a perderem a cabeça, o jovem William a revelar ansiedade, o pequeno George de olhoar desiludido, Buckingham Palace a encantar-me, o verde inglês, as madeiras escuras, os pubs cinzentos e a apple pie tão saborosa. 

Veio o prolongamento. E eu voltei a Notting Hill, caminhei até ao Swan, olhei o parque enorme e ousei dizer coisas de pensar na speakers corner, sem medo que alguém me condenasse. Penalties. Golo na minha felicidade, ali mesmo em Chester, olhando as rows, pensando que, apesar de tudo, Marvão é mais meu. A Itália a falhar, como é possível? e o Coliseu a assustar-me, a fazer-me sentir de facto insignificante. Inglaterra falhou e Windsor a receber-me com chuvinha cinzenta, casa de chá na rua estreita,   alguém a falar português também.

De repente, Itália erguia a taça. E a Fontana de Trevi, 26 metros de histórias contar, a acolher-me com ostras e vinho fresco!

Ah, que grande jogo! E que vitória merecida! Viva Itália!

FÉRIAS!

 Preciso de férias. Não de uma breve interrupção de rotina, isso, felizmente, até tenho tido, mas de férias mesmo. Não, não preciso de viajar, de ir para um hotel, de praia, de um SPA, de nada disso. O que eu preciso mesmo é de desligar a cabeça, não pensar em trabalho, em problemas, tirar o relógio e gozar de tempo sem horas. A ciência já provou que é a cabeça, o cérebro, que comanda tudo, e eu sinto, mais do que sei, que a minha cabeça está cheia de mais, precisa de limpar muita informação, de excluir muitos registos, para poder recomeçar a viver.

É isso. Tenho andado a existir, a cumprir existências sem sonhos, preciso, com urgência, de arranjar na minha mente espaço para a utopia que é pasto de sonhos.

sexta-feira, 2 de julho de 2021

ENERGIAS

 Não sou muito crente em energias, forças alternativas, etc. Talvez por educação, ou, se calhar, por ser muito conservadora (?) , sempre me dá vontade de rir a ideia que há lugares, e pessoas, que trazem energias positivas, ou negativas. Ora, como eu não páro de aprender e, por isso, de mudar de ideias, hoje senti a tal energia positiva! Fui à cidade, cumprindo as necessárias tarefas domésticas e, a  seguir, resolvi ir tomar café à Rua do Comércio, entrar na Igreja um bocadinho. Ao sair do café, o pequenino Sons e Sabores, senti-me estranhamente invadida de bem-estar e paz. De repente, não doíam as saudades, não me sufocava a solidão, não sentia angústias, estava BEM! 

Vim para casa mais leve, apesar do pastel de nata que comi, e sinto-me perfeitamente descontraída. Será que há mesmo energias??

segunda-feira, 14 de junho de 2021

CICLOS

 Já Camões dizia que "Todo o mundo é composto de mudança" e, sem dúvida, nada é tão constante como a mudança. Aos 61 anos, encerro um ciclo e começo outro. Durante 12 anos, que agora me parecem ter voado, estive a trabalhar no Centro de Formação de Associação de Escolas, mais com professores, com colegas, do que com alunos. 

Aprendi muitíssimo, conheci pessoas absolutamente fantásticas, ganhei ainda mais admiração pelos professores. Li muito, fiz duas pós-graduações, participei em muitas sessões de trabalho, consolidei o meu projeto ideal de escola e cristalizei (?) a minha convicção de que são as utopias que nos movem.

Agora, termino essa colaboração com o CFAE. Não sei se voltarei à sala de aula a tempo inteiro, se abraçarei outros projectos. Sei que é com tranquilidade e com a certeza de missão cumprida que fecho este ciclo. Há muitas pessoas a quem quero dizer obrigada, mas terei tempo, de Deus quiser, para o fazer.

Agora, neste momento, só quero que Deus me ajude a continuar com saúde para trabalhar!

quarta-feira, 9 de junho de 2021

DATAS

 Tenho com as datas uma relação estranha. Penso que não é o dia em si, a efeméride, a recordação de uma marca no calendário, que faz mais vivas as memórias, ou torna mais significativos os factos. No entanto, há datas que me ferem intensamente. Hoje, faz 16 anos que o meu Pai morreu e eu, que penso nele todos os dias, que o recordo em mim, que continuo conversando com ele no meu silêncio, sofro mais ainda. 

Foi um dia horrível. O meu Pai morreu nos meus braços, estávamos sozinhos no quarto dele, e eu ainda o vejo, ainda o cheiro e sinto presente. 

Hoje, sozinha, sem  ter com quem recuperar memórias, sem resposta às muitas vivências que revisito, o meu coração sangra. 

O meu Pai faz-me muita falta!

terça-feira, 1 de junho de 2021

URGE AGIR

 Sou claramente humanista. Privilegio a individualidade, o direito à diferença, o respeito pelo outro. Sei que somos porque há o outro/s e que o homem é um ser social. Compreendo, sinceramente, que no mundo global no qual vivemos, neste mundo paradoxalmente tão pequeno e tão grande, tem de haver lugar para todos. Por isso mesmo, defendo que Portugal, tal como os outros países considerados mais desenvolvidos, deve acolher os migrantes. 

Em Portalegre vejo, cada vez mais, pessoas que vêm de longe, que trazem olhares exóticos, experiência e culturas que me são estranhas. Penso que estas pessoas merecem mais dignidade, mais atenção por parte de quem as acolhe. A sociedade portuguesa não deve, apenas, acolher, tem de ajudar a conseguir (não dar!) condições de vida, trabalho, dignidade. Sinto vergonha ao ver gente de turbante, descalça, a pedir esmola na minha cidade. Democracia não é isto. Não pode ser isto.