domingo, 16 de agosto de 2009

O Sobreiro


No meu quintal há este sobreiro enorme. Há outros. Mais largos, mais entroncados, de copa mais vistosa, mais perfeitos até. Mas este, é o meu preferido. Olho-o de longe, porque tenho medo de encontrar répteis no caminho até ele..., e respeito-o muitíssimo. Este sobreiro parece decidido a chegar ao céu. Cresce, mantém o tronco bem direito e recusa-se até a caber inteiro numa fotografia.
Muitas vezes desejo encontrar pessoas assim: de tronco direito, de cabeça erguida, com a certeza de, seja em que terreno for, serem sempre capazes de chegar mais longe sem pisar ninguém. O meu sobreiro tem perto árvores de fruto, maçãs e marmelos, tem ao lado castanheiros cheios de ouriços bicudos, mas não se intimida, não se verga, não destrói nada. Cresce apenas, decidido a alcançar o infinito, produzindo o que de melhor tem - cortiça da boa -, e sem invejar ou apoucar os seus vizinhos.
No fundo, acho eu..., só a mim o sobreiro apouca e humilha. É que me sinto tão ridícula ao pé desta força da natureza!!

sábado, 15 de agosto de 2009

Dia de Nossa Senhora

A minha filha Filipa devia, de acordo com os médicos, ter nascido neste dia. de certeza não se chamaria Conceição, mas, fosse por medo de nome tão doloroso, ou apenas para tornar claro que saberia fazer as escolhas próprias, só nasceu a 24. No entanto, neste dia 15 de Agosto, lembro-me sempre do que não foi mas poderia ter sido. E lembro-me, especialmente, de Nossa Senhora. Como mulher, não acredito nada na história da virgindade. Ora havia Deus de A condenar ao desconhecimento de uma das mais fantásticas dimensões da humanidade?! Não creio, seria crueldade excessiva... Assim, para mim, Nossa Senhora é uma Mãe sofredora e atenta. Imagino, acho que nem imagino, o sofrimento vivido ao ver matarem-lhe o filho, e aproximo-me da dor da Mãe. Vejo-a desesperada, pensando decerto que não faz sentido os filhos morrerem antes das Mães, e imagino-a gritando incompreensão e mágoa. Como sou Mãe também, sei o que significa a dor de um filho e, por isso, converso com ela, conselheira experiente, quando me sinto mais perdida. Às vezes, nas noites que a minha insónia faz imensas, conto-lhe de mim, de sentires, de desejos e revolta, de mágoa e de esperanças. Acho que ela me ouve. Chego a ouvir, muito ao de leve, o roçar de asas de anjo trazendo-me alguma paz.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

O Silêncio dos Bons

Decididamente, este governo PS não pára de lançar enormidades. Mesmo agora, a pouco mais de um mês do fim de mandato - que Deus é grande e não dorme! - continua a publicar o que, como Mãe, Mulher e Professora, considero verdadeiras aberrações. Desta vez, foi o diploma sobre a obrigatoriedade da disciplina de educação sexual... Não há formação séria para a mesma, não se sabe como vai funcionar, não se conhecem conteúdos (?) nem processos, mas diz-se que é obrigatória!! Incrível!! Surpreendente e cómico, se não fosse dramático.
Defendo, há muitos anos já, que é um erro reduzir a sexualidade a uma disciplina, ao seu lado meramente biológico. Para mim, deveria falar-se em educação dos afectos, numa visão transversal a todas as disciplinas, contemplando a dimensão humana, o respeito pelo eu e pelo outro, a dignificação das relações entre pessoas e não, como se insiste em fazer, reduzir a sexualidade ao perigo de DST ou ao combate a comportamentos de risco. Para mim, uma criança, um jovem, é um ser humano, complexo, tecido de vivências diversas e sempre, mas sempre, movido por afectos. Para além de todos os motivos e razões que fazem a minha razão, há ainda o facto de considerar que o estado está a meter-se demais na vida das gentes. As famílias devem ser as principais educadoras, os pais devem poder escolher o que querem para os seus filhos também em termos educativos. A liberdade faz-se de autonomia e não de imposições! Que estado tem o direito de impor uma determinada linha sexual?! Que raiva!
Revolta-me o que este governo continua a fazer com a (des)educação. Hoje, ao longo do dia, tem ecoado em mim a frase poderosa de Martin Luther King "Não são os gritos dos maus que me preocupam. É o silêncio dos bons!"

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

A pressa

Ouvi um dia, não sei quando nem onde, uma história de um negro, algures na África imensa, que, depois de por oito dias ter caminhado a alta velocidade, terá parado debaixo de uma árvore aparentando não ter pressa nenhuma. O seu senhor, dono talvez porque era uma história de tempos idos, ter-lhe-á perguntado porque parara. Calma e sabiamente, ele respondeu:"Viemos tão depressa que perdi a minha alma, ficou para trás. Agora, tenho de esperar que ela me encontre." Muitas vezes, e por variados motivos, esta história me surge. Hoje, lembrei-me mais uma vez dela. Porque o tempo está a correr a uma velocidade alucinante e eu, sempre tentando fazer render cada minuto bom - têm sido dias bons! - começo a perder a minha alma. Hoje, num longo serão sozinha, vou ficar muito quieta a ver se ela me encontra...

sábado, 8 de agosto de 2009

Raul Solnado

Um dia, ele disse "Há dois tipos de discurso, o grande e o pequeno. O pequeno é: obrigado. O grande é: muito obrigado!" Hoje, quando ele desapareceu, apetece-me fazer-lhe um discurso enorme: - Um imenso muito e muito obrigada! Pelas gargalhadas da infância, da adolescência e da idade adulta. Pelas memórias que guardo. Pela ternura daquele senhor que parecia fazer parte da família.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Outro Tempo

Este é o tempo da gravidez da minha filha. Vejo o Manel Bernardo a mexer, a minha menina-mulher a viver em pleno e peço à vida que seja suave e complacente. Peço-lhe que deixe passar tempos de sentidos, que não atraiçoe a minha menina-mãe, que permita que os sonhos dela, deles, se façam verdade. Às vezes, tenho medo. Medo apavorado e intenso dos desvairos de uma existência que insiste em ignorar a essência. Nesses momentos, respiro fundo e afasto os fantasmas-reais que me atormentam. Agora, vivo outro tempo. Tempo com conversas longas, futuro a fazer-se, sentido nas horas que fazemos de boas conversa. Este é o tempo que faz, para mim, todo o sentido. Deus mo conserve!!

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

A outra solidão


Saí de casa com calma, sem rumo, pensando nessa coisa que dizem ser vida, em encontros e desencontros, saudades e recordações, projectos e sonhos, e rumei a Marvão. É o meu refúgio de sempre. Dantes, com as minhas filhas pequenas, fugia para lá com elas, nas longas manhãs de domingo, para conversarmos e brincarmos no parque infantil. Um dia, uma manhã de Abril, encontramos o parque infestado de bichas-cadelas (as horríveis rapas) e fugimos dali com a Filipa a ordenar,sempre foi boa para dar ordens..., que acelerasse de forma a que elas fossem atropeladas! Mas, tirando esse incidente, que hoje recordamos as três entre gargalhadas, passámos lá óptimas manhãs. No domingo, sozinha, voltei a Marvão e, em vez de bichas-canelas, descobri muitos bichos-homens ruidosos. Indiferente aos turistas, na sua maioria espanhóis buscando comida barata, descobri o outro lado da solidão. O bom. Descobri que é muito bom mesmo, às vezes, estar sozinha e fazer o que nos dá na real (ou republicana) gana. Foi o que eu fiz! Andei pelas ruas escadeadas, espreitei a igreja, reparei no parque infantil recuperado e, tristemente, cercado de grades qual jaula para feras, e comprei um travessão de barro para o meu cabelo num artesanato de dono inglês. Depois, tomei um café com um pacote de açucar, que não uso nunca, onde se lia "um dia, vou ser feliz. Hoje é o dia!" e foi mesmo! um dia feliz do outro lado da minha solidão!