quinta-feira, 29 de março de 2012

Ruínas

Vestiu o corta-vento, calçou as velhas galochas e fez-se ao caminho. Gostava daqueles passeios solitários, das caminhadas sobre pedras e montes, de se deixar envolver pela neblina matinal, húmida, sentindo a solidão a fazer-se companhia. Ia às ruínas. Era um lugar que conhecia bem, poderia (talvez) por ali caminhar de olhos vendados, e gostava de sentir a aspereza de muitos destroços, a doçura de muitas ternuras, a macieza de alguns viveres. Sabia bem que de pouco, quase nada, lhe serviam as botas de borracha, mas a protecção exterior iludia a vulnerabilidade interior. Levava a alma a reboque, os sentires enovelados mas, ainda assim, a passada era segura e decidida. Nas ruínas reencontrava-se e, embora não parafraseando Pessoa e não querendo construir castelos com as pedras do caminho, sentia que poderia ter já uma cidadela. O corta-vento dava calor e, por isso, tirou-o, expondo o corpo à intempérie. Sempre assim viveria: de alma aberta às intempéries, viessem elas de onde viessem!

terça-feira, 27 de março de 2012

Agressão Urbana

Apetece-me provocar um levantamento popular, uma revolução em Portalegre, uma guerra violenta! Apetece-me gritar aos quatro ventos, pegar em paus e sair para a rua, organizar manifestações e abaixo-assinados. Não estou a conseguir aceitar a mais recente violência urbana na minha cidade!
No coração da cidade de José Duro e Régio, no centro de um nordeste alentejano que sinto carregado de magia, ali mesmo no Rossio, vão construir um mamarracho de cimento e aço, bicos e curvas, numa modernidade chocante. O Palácio Póvoas, apesar de achinesado, já chora de vergonha e humilhação. Não merecia esta vizinhança! O projecto, que vai destruir o velho Facha, surge anunciando uma Cafetaria - bem à espanhola - e terá flores no telhado e bicos de alçada(?). A Câmara Municipal da minha cidade aprovou em pleno e, ontem mesmo, só houve dois votos contra na Assembleia Municipal... Não dormi! Como se pode assim, de ânimo leve, atentar contra a dignidade de uma cidade com mais de 500 anos de História?! Não bastaria já o prédio encostado às velhas muralhas, o pavoroso monumento aos dadores de sangue, o monstro de cimento a crescer na avenida 1º de Maio, os imóveis absurdos a meio da Serra (Parque Natural?!) ?
Sei que de nada serve a minha indignação mas, ainda assim, não consigo calar-me. Sofro com a minha cidade. Sangro ao passar no Rossio antevendo o que aí vem...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Mudanças

Quem não sabe de nada, opina sobre Educação. E muita gente que não sabe de nada, dirige o país. Ora, está-se mesmo a ver o que dá: - saem disparates e disparates sobre Educação!
Agora, a ideia peregrina são os Mega Agrupamentos... juntam-se crianças desde o pré-escolar até ao secundário e pretende-se que, assim, os miúdos aprendam. Nada de mais errado! Crianças de três anos e jovens de 18 aprendem, de certeza, de forma diferente, têm necessidades educativas diferentes, exigem atitudes e desempenhos diferentes! O que está a acontecer é que apenas se olha para o dinheiro, encara-se a Educação só sob o prisma economicista e, UMA VEZ MAIS, ignoram-se as pessoas. A minha escola, garantem, vai ter um Mega Agrupamento. Os meus meninos jovens vão ter uma Mega Escola. As aprendizagens é que, temo, vão ser uma Mega Fraude! Mas vai sair baratinho...

domingo, 25 de março de 2012

Amigos

Abraçam-se, enrolam-se um no outro, não se perdem de vista um só momento. São amigos de verdade, o Tango protege o Manel fazendo-lhe de barreira nas rampas e degraus, e o Manel abraça-o com força, faz-lhe mil festas, beija-o (face aos protestos indignados da mãe) e diz-lhe na sua pureza - o Manel adora o Tango.Gosto de os ver, ternos, alegres, gozando a Serra, enchendo de sentido a minha existência.
O Manel e o Tango lembram-me como é bom aceitar tudo sem fazer perguntas, confiar nos outros, sorrir e sentir  carinho real, sem cobranças nem julgamentos.
Nestes dias, são eles que me fazem voltar a olhar o céu e pensar na renovação!

sábado, 24 de março de 2012

A Inquilina

Não paga renda, não é convidada, não tem contrato selado mas, todos os anos, chega com a família e aloja-se atrás da lanterna que ilumina a minha porta. É viscosa, gorda, atrevida, e já me olha de lado, língua de fora, indiferente à corrida que dou para entrar em casa sem que ela me caia em cima. A minha inquilina, a dona osga, normalmente chega a meio de Maio, sem malas mas com a filharada às costas, e fica até Outubro. Vem passar o tempo quente à Serra....
Este ano, chegou muito mais cedo e já está instalada. Deve ter sentido o calor excessivo, ou se calhar entrou no desemprego, e já ocupou o espaço que, sendo dela, é meu.
Não morro de amores pela minha inquilina. De facto, eu detesto répteis, e as osgas, particularmente, causam-me arrepios. No entanto, admito que já estabeleci com esta família, deve ser já a quarta ou quinta geração, uma certa ligação afectiva. Gosto de as ver caçando moscas, acho graça à forma indignada como  me olham quando desligo a lâmpada e sinto uma certa inveja por poderem passar o dia de papo para o ar. É que elas não sabem da crise, não conhecem o ministro Gaspar, não descodificam a palavra poupança. ~
Têm muita sorte, as minhas inquilinas!

sexta-feira, 23 de março de 2012

Depressão e Fortaleza

As depressões são doenças sérias, doem mesmo e, infelizmente, são cada vez mais frequentes. Os jornais e os psiquiatras dizem que a crise económica tem responsabilidade no número crescente de depressões e, obviamente, eu acredito. Mas, ao ver uma grande amiga ir-se abaixo, tenho medo. É que não é só a crise que pode provocar, ou agravar, uma depressão, e não há, não há mesmo, fortaleza humana que garanta resisistir-lhe... Eu que não sou médica (graças a Deus!) continuo a pensar que, neste país, não só a crise nos deprime. A sociedade, as relações entre as pessoas, também têm a sua quota parte de responsabilidade. É que, olhando à minha volta, cada vez mais encontro dedos apontados, gente barricada nas certezas próprias e pronta, sempre, a julgar e condenar os outros. Não há, creio eu, fortaleza emocional que resista à constante crítica e condenação, que se mantenha firme face a bombardeamentos e ataques! Se eu mandasse, com um poder de verdade, impedia e  punia os julgamentos constantes que, não sendo autos de fé, tornam cada um de nós terríveis inquisidores.
A depressão dói mesmo! E, acho eu, pior que a crise económica é mesmo a crise social!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Envelhecer

Está a chegar a interrupção lectiva (vulgo férias) da Páscoa e sinto em avalanche as memórias. Lembrar não é viver. É envelhecer! É ler muitas páginas escritas de muitos fazeres, de imensos sentires e alguns sentidos. Quando as memórias são muitas, quando, como hoje, a Páscoa traz muitas histórias com coelhos e ovos, lágrimas e sorrisos, ausências e presenças, está-se a envelhecer depressa e o ontem fica bem mais comprido do que o amanhã. Estranhamente, gosto da compridura do ontem...