De manhã, bem cedo, quando o sol ainda nem se espreguiçou, a praia está vazia e pura. Da varanda, ouvindo as gaivotas, vejo o acordar de mais um dia quente.
Dentro de algumas horas, tudo muda... Pelas onze, quando o sol escalda, na praia há uma Amazónia de pernas. Caminho à beira-mar, olhando as férias, espreitando, ainda que involuntariamente, vidas alheias. Há mulheres de todas as formas, gordas e magras, velhas e novas, grávidas e avós. Há fatos de banho, há muitos biquinis e há quem passeie de maminhas ao léu, absolutamente indiferente ao facto de as ter espetadas e duras, ou caídas e flácidas. Os homens ostentam tatuagens, barrigas, chapéus e olhares mais ou menos gulosos. Nesta selva de corpos quentes, só as crianças parecem, de facto, em férias, correndo e rindo, construindo castelos e escavando piscinas na areia molhada.
Na praia há, também, sons diversos. (Parece, felizmente, ter passado a moda de carregar um rádio aos berros). Agora, ouvem-se anunciar as bolas do Manel, mais doces que o mel, ou as bolinhas light da Rosa, ou ainda as bolinhas de berlim com recheio de chocolate. Mais baixo, ouve-se anunciar pulseiras, colares, animais de arte africana, paréos e vestidinhos de algodão. São senegaleses os vendedores que, suando, se aproximam das espreguiçadeiras e tentam vender os seus produtos num sorriso desdentado e num francês aportuguesado. Carregam um olhar triste, cheiram a corpos sem água, sorriem como se mordessem a consciência das gentes.
Hoje, neste Julho de 2014, a praia é um lugar diferente. É o espaço onde a modernidade vai a banhos sem, no entanto, tirar os sapatos de salto alto.