quarta-feira, 16 de julho de 2014

O acordar

De manhã, bem cedo, quando o sol ainda nem se espreguiçou, a praia está vazia e pura. Da varanda, ouvindo as gaivotas, vejo o acordar de mais um dia quente. 
Dentro de algumas horas, tudo muda... Pelas onze, quando o sol escalda, na praia há uma Amazónia de pernas. Caminho à beira-mar, olhando as férias, espreitando, ainda que involuntariamente, vidas alheias. Há mulheres de todas as formas, gordas e magras, velhas e novas, grávidas e avós. Há fatos de banho, há muitos biquinis e há quem passeie de maminhas ao léu, absolutamente indiferente ao facto de as ter espetadas e duras, ou caídas e flácidas. Os homens ostentam tatuagens, barrigas, chapéus e olhares mais ou menos gulosos. Nesta selva de corpos quentes, só as crianças parecem, de facto, em férias, correndo e rindo, construindo castelos e escavando piscinas na areia molhada. 
Na praia há, também, sons diversos. (Parece, felizmente, ter passado a moda de carregar um rádio aos berros). Agora, ouvem-se anunciar as bolas do Manel, mais doces que o mel, ou as bolinhas light da Rosa, ou ainda as bolinhas de berlim com recheio de chocolate. Mais baixo, ouve-se anunciar pulseiras, colares, animais de arte africana, paréos e vestidinhos de algodão. São senegaleses os vendedores que, suando, se aproximam das espreguiçadeiras e tentam vender os seus produtos num sorriso desdentado e num francês aportuguesado. Carregam um olhar triste, cheiram a corpos sem água, sorriem como se mordessem a  consciência das gentes.
Hoje, neste Julho de 2014, a praia é um lugar diferente. É o espaço onde a modernidade vai a banhos sem, no entanto, tirar os sapatos de salto alto.

quinta-feira, 10 de julho de 2014

FÉRIAS

Chegaram! Sem tambores, sem fanfarras, arrastadas e atrasadas, chegaram as minhas férias. Por oito dias vou tentar, tentar..., ignorar que o mundo gira sempre. Vou fazer de conta que sim. Que estar viva é óptimo, que o mar me fascina e que abri uma brecha na existência. Bem cedo, vou caminhar à beira-mar, à tardinha vou partilhar o anoitecer com as gaivotas.
Férias! Da Vida, sobretudo.

segunda-feira, 7 de julho de 2014

SALVAÇÃO

Na televisão passeiam os reis de Espanha. Dois jovens que carregam uma herança pesada e pelos quais eu tenho alguma simpatia. 
Vejo-os e não consigo deixar de pensar nos contrastes da vida. Numa era de tecnologia, num tempo no qual parece prevalecer a relatividade e a ignorância de Valores humanistas, há um jovem casal que vive preso ao protocolo. Em nome de quê? Até que ponto fará sentido nascer condenado a um destino que não se escolheu? O facto de Dona Letizia conhecer a vida normal (porque ser rainha não é, para mim, normal), faz com que eu a admire mais ainda. Quero acreditar que este jovem casal não precisará de bóia de salvação para se manter à tona da decência e da vida...

IMPORTANTE?

Cada vez mais, talvez culpa da idade, acho menos importantes as coisas importantes. Não tenho espaço emocional para a invejazinha, para os olhares que causam movimento excessivo aos olhos, para o encompridar de ódios mesquinhos. 
Realmente importante é o amor. A confiança, a certeza de que uma gargalhada, um abraço, um olhar apenas, podem mover montanhas. Às vezes, olhando o mundo, apetece-me rir. Rir às gargalhadas da pouca importância que as coisas importantes têm de facto!
Quando aprendermos, todos (eu especialmente) a rir da falta de importância que têm as coisas importantes, seremos, com certeza, muito mais felizes!

sábado, 5 de julho de 2014

A LETRA DO FADO


Uma mala pequenina, com rodinhas, servia-lhe perfeitamente. 
Enrolou dois vestidos, enfiou as coisas da toilette, apertou para que coubesse a toalha e o fato de banho e partiu. Consigo levava ausências muito presentes, companhias mudas, possibilidades impossíveis trancadas no coração. Teria dois dias de oferta a si mesma, de silêncio e mar, de sol e praia. Uma brecha na rotina como gostava de dizer. Talvez, em dois dias, muita coisa mudasse, quem conhece os desígnios do destino que fazem a

letra do Fado?

quinta-feira, 3 de julho de 2014

SOPHIA

"Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar" - É o poema de Sophia de Mello Breyner que sempre me acompanha. 

Quando eu era miúda, teria doze ou treze anos, conheci Sophia. 
Os Contos Exemplares, uma oferta de aniversário, foi o primeiro contacto. Ainda hoje tenho esse livro, de capa azul e branca bem gasta, guardado na desordem das minhas prateleiras. Desde então, não mais perdi Sophia!
Um dia, já professora, fui ouvi-la numa sessão, no Porto. Fiquei um pouco desiludida, confesso, porque a achei distante, pouco simpática. Hoje, com a clareza que o tempo confere aos factos, sei que há uma distância enorme entre a escrita e o escritor; na altura esperava, inconscientemente, vê-la surgir na espuma das ondas, leve e densa como as palavras que escrevia... 
Sophia é, agora,  minha companheira de insónia. É o lugar de Palavra onde volto sempre com gosto, é a escrita que, inesperadamente, se faz citação dentro de mim "Este é o tempo dos chacais". E é o meu tempo também, feito de muitos tempos plurais e nem sempre significativos.
Sophia é também a escrita aventureira, dando-me o sabor  do prazer da viagem, a magia do Cavaleiro da Dinamarca, a ternura da Menina do Mar, o mistério do Búzio.
Sophia fica bem no Panteão, claro. Mas fica muito melhor na nossa companhia, na dos vivos, feita leituras, feita presença, ganhando a imortalidade que só se consegue continuando Viva. Para mim, leitora habitual, Sophia é sempre Enorme, é sempre Mar, é sempre Verdade, é sempre Razão.
Para mim, professora de português, Sophia é uma leitura obrigatória, é a porta grande para aceder à magia grandiosa da Palavra!

segunda-feira, 30 de junho de 2014

O INVENTÁRIO

Que os professores fazem tudo, já não é novidade. Mas eu, ingenuidade confessa, não estava à espera de ter de contar cadeiras, mesas, quadros e janelas. Ou seja, nunca na minha imaginação (que é fértil!) passou algum dia a ideia de ter de fazer o inventário do mobiliário da Escola onde trabalho. Que me pedissem que verificasse livros, por exemplo, ainda podia temer... Mas mesas e cadeiras?! Comecei por me surpreender mas, uns minutos depois, deu-me mesmo para rir. Tenho 56 provas de exame de português para corrigir mas, uma destas manhãs, vou passar umas horas a contar as mesas,cadeiras, quadros, janelas, estores, que existem nas duas salas que me foram atribuídas e onde, por acaso, nunca dei aulas. Podia parecer absurdo, mas, vendo bem, é tão ridículo que até é divertido! Só me fica uma dúvida: - Terei de preencher uma folha excel discriminando o número de pernas que tem cada cadeira e cada mesa??