terça-feira, 2 de outubro de 2018

LÁGRIMAS INÚTEIS

Chorar lava a alma. Ajuda a diluir desgostos e, mesmo deixando os olhos a arder, a visão turva e as olheiras negras, dá algum sabor - salgado - às dores. 
Chora-se por muito e por pouco, pelo mal e pelo bem.
Eu choro de irritação, de saudade, de gozo, de desespero, de emoção, de riso, de surpresa, de ternura. Choro quente, e choro frio. Mordo as lágrimas que escaldam, limpo as que que me refrescam.
Eu choro. E eu sei que não há lágrimas inúteis...

APRENDER A DESISTIR

Como professora, e como mulher também, sei bem que a vida se faz de muitas aprendizagens, de muita capacidade de adaptação e reformulação.  Sei, no entanto, que também faz parte da vida, da existência, a desistência. Saber dizer chega, basta, é uma aprendizagem por vezes dolorosa. Porque implica desistir de algo, ou de alguém, de um sonho, de uma certeza convicta por vezes. Nesses momentos, em mim surge um conflito interno : - A bem da minha paz interior, sinto que chegou o momento de ignorar, de deixar andar; a bem da minha inteligência racional e emocional, social também, penso que devo continuar a lutar, a querer, a acreditar. Ao longo da minha já comprida vida, passei muitos momentos assim.
Agora, quando os cabelos brancos me deveriam já oferecer alguma tranquilidade, volto a sentir-me incapaz de desistir. 
E lá volto eu, de novo, à Educação... Estou sincera e verdadeiramente cansada das muitas manifestações que, na minha opinião sustentada em muitas leituras e muitas sessões de trabalho, são vazias de conteúdo. Estou cansada de ouvir bons profissionais contestarem a mudança, fingindo - só pode ser a fingir! - acreditar que o mundo está igual ao que era há vinte anos. Estou cansada de ver levantar impossíveis que mais não são, de certeza, que resistências individuais a fazer diferente.
Acredito nos Decretos gémeos, o 54 e o 55, defendo as competências enunciadas no documento Perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória e tenho a certeza, tão certa como acreditar que o sol é uma estrela, que as crianças e os jovens portugueses merecem uma Escola diferente, aprendizagens mais efectivas, metodologias mais dinâmicas e colaborativas, uma avaliação que seja mesmo PARA as aprendizagens! 
Não tenho dúvidas que não é fácil mudar, mas tenho a certeza que é impossível não o fazer...
Se calhar, eu devia desistir (antes que muitos colegas me detestem mais ainda), mas não aprendi a desistir de convicções...

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

POR AMOR

É por amor que te olho 
É por amor que te quero
É por amor que te abraço
É por amor que me faltas
É por amor que te envolvo
É por amor que choro
É por amor que desespero.

É por amor que, nas noites longas, te odeio!

domingo, 30 de setembro de 2018

A CEREJEIRA

Foi-me dado com uma certeza, vais gostar. E tu vais ler num instante. Não me vai fazer chorar, perguntei já afagando a capa, segura da minha sensibilidade exacerbada. Não, vais ver que não. Era uma certeza quase perfeita mas que, afinal, ficou pelo caminho das certezas alheias... 
Verdade que gostei, muitíssimo. Mentira que não choraria.
A distância entre mim e a cerejeira, de Paola Peretti, amarfanhou os meus sentires, deixou-me com um buraco cinzento na alma mas preencheu a minha tarde de domingo. É a ingenuidade sensível de uma criança, o tecido - tão frágil - entre a vida e a morte, o lugar único que o sonho, o faz-de-conta, conseguem preencher. 
Com a Mafalda sorri, tremi por ela, chorei e desencantei, no fundo do meu eu, num ontem que não soube trazer roubado na algibeira, um vício que julgava perdido: - A mania de construir um mundo onde a ternura das coisas, porque inventada, substitui a falta de carinho das gentes mais próximas.
Sim, tenho os olhos a arder e dói-me a cabeça. Mas sim, gostei imenso deste livro!

terça-feira, 25 de setembro de 2018

SEXO

Desde sempre, tão há tanto tempo que não tem tempo, o sexo faz parte integrante da essência humana. Os gregos, por exemplo, acreditavam que homem e mulher eram um só e, porque separados indevida e violentamente, pela eternidade cada um procurava sempre a sua cara metade. 
Em Portugal, as primeiras manifestações literárias, mesmo orais, traziam o amor, a atracção e o desejo, para os salões da corte, para as romarias e vida social. 
No séc.XVI, Camões, como poucos, cantou o desejo, o sofrimento físico, tumultuoso, a necessidade do toque e da fusão. Seria Garrett quem, no séc.XIX, daria voz, com uma intensidade incrível, à distinção entre o amor e o desejo físico, "Não te amo, Quero-te!" 
O século XX, com a centralidade do intelectual e do para-físico, não ignorou o sexo. O próprio Pessoa garantia o ridículo de algo que não controlava, transfigurando a sua essência através da força avassaladora de uma sexualidade que o perturbava.
Pois é, o sexo é natural, "tão natural como a sede", e, por isso, não faz, para mim, sentido algum torná-lo num tema abjecto, numa forma de doença, ou num crime! 
É por tudo isto que eu defendo que a educação para a sexualidade deve ser desenvolvida de forma humanizada, integrada e não centrada na dimensão físiológica!
Ultimamente, a sexualidade parece ser apenas uma forma de violência, ou uma perigosa e doentia forma de transmitir doenças...
E eu tenho pena. Tenho mesmo! Porque eu, que sou mulher, gosto muito da energia e força que a vivência da sexualidade me oferece! E temo, muito a sério, que corramos o risco e amputar os nossos jovens da vivência feliz desta dimensão da humanidade!

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ACASOS?

Tenho acompanhado com muita angústia o drama da Venezuela. Não tenho amigos lá, não conheço os portugueses que lá moram, mas indigna-me, revolta-me, angustia-me, choca-me, o facto de ser mais um país (há já tantos) onde as arbitrariedades e o desrespeito pela individualidade e dignidade humanas são práticas correntes. Dizem-me que Nicólas Maduro é um louco, mas essa desculpa fica-me curta. Podem os loucos, ou os que fingem sê-lo, governar a seu bel-prazer? Dizem-me que o Trump também é louco, eu acredito, mas isso é razão para aceitarmos todas as barbaridades que diz e faz? Em relação a Trump, figura odiosa e perigosa, os Media falam. Denunciam, provocam reacção, exageram até. E fazem muito bem!!
Em relação a Maduro não tanto. Porquê? Porque é de esquerda! Porque, à sombra de ideais igualitários, que o não são, pode tudo! Se fosse de direita, ou um democrata de verdade, ninguém calaria os Jerónimos e as Catarinas mas, como é da linha deles, todos se calam! É este o ideal de democracia que defendemos? Eu não!
Na Venezuela há fome, há perseguições, há crianças a prostituir-se, e o mundo permanece silencioso. Mesmo a situação dos refugiados no Brasil foi calada. Porquê??  Onde está a ONU? Onde estão os verdadeiros humanistas e democratas com força no mundo??
Agora, com portugueses presos, o nosso Presidente diz que é preciso muito cuidado e bom-senso. Mas, acho eu, não é com afectos, ou não é só com afectos, que uma situação destas se resolve. Como podemos continuar indiferentes a este horror??

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

A ESCOLA

Daqui a um bocadinho, as crianças, jovens e muitos adultos portugueses vão voltar à escola. Com certeza, há hoje insónias, ansiedades várias, esperanças, promessas de desalento já. Como professora, o ano novo para mim começa agora e não no dia 1 de janeiro e, por isso, este é o tempo de fazer os meus projetos.
Acredito, mesmo, na Escola pública em Portugal. Conheço-a por dentro há 35 anos e sei que tem evoluído, que se tem feito de muita melhoria. No etanto, e porque a vida é mesmo assim, sei também que há muito para fazer... Sem dúvida, os Decretos-lei nºs 54 e 55 vieram facilitar à Escola a efetivação da transformação de práticas mas vieram também, simultaneamente, exigir um novo paradig educativo que, naturalmente, não é ainda assumido nem desejado por todos. Como o secretário de estado da educação não se cansa de dizer, "a autonomia não é um decreto. É um processo" Mas, apetece-me a mim acrescentar, por ser processo tem de se socorrer do gerúndio e não pode ficar apenas na Lei. Este é o ano de ir fazendo: - Ir modificando a sala de aula, desenvolvendo estratégias que permitam a cada aluno desenvolver as competências enunciadas no documento perfil do Aluno à Saída da Escolaridade Obrigatória, ao seu ritmo; ir compreendendo que NEE significa apenas Nova Era na Educação e, por isso, não é mais necessário sinalizar, referenciar, cadastrar alunos; ir transformando os critérios de educação em suportes (andaimes) para a aprendizagem, e não como seriadores de pessoas; ir transformando cada escola num lugar onde há redes que suportam o sucesso de cada um! 
Este ano, é o ano da transformação mais profunda. A transformação que nunca aconteceu porque nunca, como agora, foi dito a acada escola que, no respeito pela sua identidade, construa o seu processo de sucesso.
Este ano, eu tenho mais orgulho ainda em ser professora!