terça-feira, 10 de março de 2009
VERÃO???
Nesta loucura geral que atacou os Tempos, o tempo também parece ter alinhado. Está calor demais! O céu está azul, o sol é intenso, os pardais andam tontos e os humanos, os que resistem à crise..., espirram e coçam-se! O Verão parece ter chegado, em Março??, e eu já começo a sentir os efeitos da depressão que sempre o calor me acarreta. Estou cansada. Fisica e emocionalmente exausta. Dói-me a consciência humana, sangram as emoções, estilhaçaram-se os meus sentires. Agora, hoje, apetecia-me ser um ser não ser. Uma existência sem essência, uma professora capaz de treinar as crianças, de se limitar ao cumprimento da idiotice decretada e normalizada, uma mulher apenas centrada na selecção de cor para a próxima saia a adquirir. Queria ser vulgar e, ao contrário de Pessoa, não ter sequer consciência disso!!!
sábado, 7 de março de 2009
SALTOS ALTOS
Acorda cedo, domingo é dia de tentar por ordem na casa onde, durante a semana, chega sempre tarde demais… Arranja-se com cuidado, maquilha-se levemente, não ousa sair à rua com o tempo gritando presente no rosto cansado, e sai sem bater a porta. Os filhos dormem ainda. É festejada pelos cães, faz festas, escuta no silêncio de Primavera antecipada, vindas talvez da sua memória de afectos, palavras lidas um dia: “Se procuras em homem fiel, escolhe um cão!”, e sorri à lembrança. Não queria um homem/ cão. Mas sentia, e sabia de verdade, que eram os seus cães quem melhor a compreendia, que eram eles quem lhe adivinhava as tristezas e desilusões. Afagou-os uma vez mais pedindo, nunca tivera jeito para lhes ralhar, que a não sujassem. - Por favor, não saltem, tenho de sair - e, com a carteira fazendo de escudo, lá se enfiou no automóvel. Enquanto o motor aquecia, nunca arranques com o motor frio!, ligou o rádio para ser agressivamente lembrada do seu dia: - Dia da Mulher! Promoções, propostas de programas, saldos, lojas a fazerem ofertas, restaurantes sugerindo almoços de mulheres a preços em conta. Não gosta do dia da mulher. Aliás, de dias só gosta mesmo dos dos aniversários e do Natal. Estes, das Mulheres, da SIDA, da Droga, da Liberdade, da Mãe, do Pai, do consumo, da solidariedade, da pobreza, da árvore, da flor, da água, do vinho, de sabe lá mais quantas razões que achava desrazões, nada lhe diziam. E, no entanto, considerava-se uma feminista! Não feminista no sentido social do termo, carregado de desejos de ridículas igualdades, feito de combates de sexos, procurando o direito a usar barba também, a não fazer depilação, a poder beber cervejas, cuspir tremoços e discutir futebol com o vocabulário reduzido, excessivamente grosseiro e reduzido, que muitas vezes caracterizava alguns homens. Não. Era uma feminista de saltos altos, como gostava de dizer. Achava-se bem no seu papel de mulher, gostava das idas ao cabeleireiro, da passagem cedida nas portas, da delicadeza do sexo masculino, algum…, ao dirigir-se-lhe. Era uma feminista convicta da importância de ser mulher. De facto, considerava não haver nada, nada que não se prendesse directamente com força física, que uma mulher não pudesse fazer tão bem como um homem. Aliás, achava mesmo que, tirando a dificuldade em ler mapas, qualquer mulher desempenharia com igual mérito uma qualquer profissão. Ainda por cima, as mulheres conseguiam fazê-lo de saltos altos, pensava, sorrindo, enquanto escolhia as hortaliças para fazer sopa nutritiva.
Tomou café com calma, a calma do domingo de manhã, e leu com cuidado os jornais do dia. Sabia-lhe bem o sol, o calorzinho da existência de um domingo que lhe chegava como um elogio à ternura. De regresso a casa, a rádio continuava anunciando o comercial dia … vieram-lhe lembranças de grupos de mulheres, galhofando, em torno de longas mesas, gozando o tempo, atribuído pelos homens, de UM DIA num total de 324. Encolheram-se-lhe os sentires. Não ia de certeza a um desses almoços! Achava uma coisa absolutamente masculina, essa de se juntarem apenas para beber e comer ou, talvez, para comentarem homens com a mesma vulgaridade com que os homens (alguns) comentavam mulheres. Chegou a casa e foi recebida em festa, miúdos acordados, saltos dos seus cães quase a deitando ao chão. Sentiu os olhos húmidos pela doçura daquele momento, pela certeza da sua pouca duração – as crianças crescem depressa demais! – e em silêncio agradeceu a sua condição de Mulher.
Com os miúdos à volta, arrumou as compras, encheu a máquina de roupa, arrumou quartos, ajudou a fazer trabalhos, sentiu as mãos do marido saudando o seu dia e, reparou também, continuou achando fantástico o som dos saltos altos no sobrado da sua casa…
Tomou café com calma, a calma do domingo de manhã, e leu com cuidado os jornais do dia. Sabia-lhe bem o sol, o calorzinho da existência de um domingo que lhe chegava como um elogio à ternura. De regresso a casa, a rádio continuava anunciando o comercial dia … vieram-lhe lembranças de grupos de mulheres, galhofando, em torno de longas mesas, gozando o tempo, atribuído pelos homens, de UM DIA num total de 324. Encolheram-se-lhe os sentires. Não ia de certeza a um desses almoços! Achava uma coisa absolutamente masculina, essa de se juntarem apenas para beber e comer ou, talvez, para comentarem homens com a mesma vulgaridade com que os homens (alguns) comentavam mulheres. Chegou a casa e foi recebida em festa, miúdos acordados, saltos dos seus cães quase a deitando ao chão. Sentiu os olhos húmidos pela doçura daquele momento, pela certeza da sua pouca duração – as crianças crescem depressa demais! – e em silêncio agradeceu a sua condição de Mulher.
Com os miúdos à volta, arrumou as compras, encheu a máquina de roupa, arrumou quartos, ajudou a fazer trabalhos, sentiu as mãos do marido saudando o seu dia e, reparou também, continuou achando fantástico o som dos saltos altos no sobrado da sua casa…
sexta-feira, 6 de março de 2009
Uma aventura...
"Jura, não vai ser uma aventura". É o Rui Veloso, no Oceano Pacífico - claro! - a fazer-me companhia. Mas a mim apetecia-me uma aventura. A sério. Com ousadias, irreverências, cumplicidades, originalidades, lareiras, vinho do Porto, chocolate e morangos. Apetecia mesmo.
quarta-feira, 4 de março de 2009
O SIMULACRO
Eu hoje tenho de ficar ao pé da porta, vai haver um fogo! - E eu a protestar. Fogo?? Sim, esclarecia o João, um simulacro, a setôra nunca sabe de nada.E eu a admitir que sim, que nunca presto atenção aos simulacros, sem confessar que me vejo aflita para dar conta da realidade! O João esqueceu-se da porta, centrou-se na desculpa a inventar para justificar a ausência do livro, não admitiu ser um simulacro de aluno..., e a aula começou.
A Mensagem a fazer-me despertar para o sonho, o desejo de contagiar os meus miúdos, o mito é o nada que é tudo, A Europa jaz, posta nos cotovelos, a actualidade das palavras geniais do meu Poeta e o alarme dado pela cumpridora funcionária numa interrupção aflita: - Depressa! Já deviam ter saído! - Saímos com calma, sorrindo, os alunos brincando com o facto de eu ter trazido o livro de ponto (deficiência profissional?), alguns reclamando por causa do frio, outros entusiasmados com o intervalo antecipado. Dez minutos depois, todos na rua! Centenas de jovens, de adultos, esperando a chegada dos bombeiros. Frio. Sentia o vento gelado, a chuva grossa, entrarem-me na alma e fiquei esperando, ouvindo os comentários ao simulacro.
Meia hora depois, começou o espectáculo: - Bombeiros, ambulância, PSP, governador civil, jornalistas! Impressionante!! Montaram-se escadas, cordas, saíu o Miguel, actor inato, fingindo pânico, foi retirada a Cátia, de maca, simulando ter sido vítima de um desabamento. Entretanto, gelava-se na rua!
Demorou quase duas horas o circo armado. Ou melhor, o simulacro! Simulacro de incêndio e de espectáculo porque, de verdade, nenhuma das coisas teve qualidade... Se houvesse um incêndio a sério, teriam libertado o parque de estacionamento de véspera para estacionarem os carros de bombeiros e as ambulâncias? Teriam os alunos saido calmamente, rindo e sem atropelos? Ter-me-ia eu lembrado do livro de ponto? Duvido.
Foi, sem dúvida, uma manhã diferente. Gelada e húmida, com o governador civil a tomar café no Bar da minha Escola. De que serviu? Creio que de nada. Mas teve graça porque mostrou que este país, o Portugal de hoje, nem a simulacro chega!!!
A Mensagem a fazer-me despertar para o sonho, o desejo de contagiar os meus miúdos, o mito é o nada que é tudo, A Europa jaz, posta nos cotovelos, a actualidade das palavras geniais do meu Poeta e o alarme dado pela cumpridora funcionária numa interrupção aflita: - Depressa! Já deviam ter saído! - Saímos com calma, sorrindo, os alunos brincando com o facto de eu ter trazido o livro de ponto (deficiência profissional?), alguns reclamando por causa do frio, outros entusiasmados com o intervalo antecipado. Dez minutos depois, todos na rua! Centenas de jovens, de adultos, esperando a chegada dos bombeiros. Frio. Sentia o vento gelado, a chuva grossa, entrarem-me na alma e fiquei esperando, ouvindo os comentários ao simulacro.
Meia hora depois, começou o espectáculo: - Bombeiros, ambulância, PSP, governador civil, jornalistas! Impressionante!! Montaram-se escadas, cordas, saíu o Miguel, actor inato, fingindo pânico, foi retirada a Cátia, de maca, simulando ter sido vítima de um desabamento. Entretanto, gelava-se na rua!
Demorou quase duas horas o circo armado. Ou melhor, o simulacro! Simulacro de incêndio e de espectáculo porque, de verdade, nenhuma das coisas teve qualidade... Se houvesse um incêndio a sério, teriam libertado o parque de estacionamento de véspera para estacionarem os carros de bombeiros e as ambulâncias? Teriam os alunos saido calmamente, rindo e sem atropelos? Ter-me-ia eu lembrado do livro de ponto? Duvido.
Foi, sem dúvida, uma manhã diferente. Gelada e húmida, com o governador civil a tomar café no Bar da minha Escola. De que serviu? Creio que de nada. Mas teve graça porque mostrou que este país, o Portugal de hoje, nem a simulacro chega!!!
terça-feira, 3 de março de 2009
INJUSTIÇA
Fazem parte da vida, as injustiças. Dizem presente, magoam, provam que mandam e fazem chorar. Também ajudam a crescer, acho eu... Foi assim hoje, no Parlamento dos Jovens, ao provar-se que são os acordos de bastidores, as falsidades e hipocrisias, que marcam a política. Até a dos mais jovens! A Ana Drago, uma esquerdosa que me surpreendeu agradavelmente, afirmou que a razão de cada um vale o número de votos... Consciente da verdade óbvia, não resisto a questionar-me: - Fará sentido a razão numérica?? Como dizia Fernando Pessoa "maioria não é sinal de razão"!! Que raiva a democracia da estupidez oca dos números!!! Como me doeu ver a revolta chorada, verdadeira e justa, das minhas meninas! Como me dói, me dilacera!, ter de educar encolhendo os ombros e afirmando que, enfim, temos de aprender a viver com as injustiças!
Felizmente, hoje há dança!!
Felizmente, hoje há dança!!
segunda-feira, 2 de março de 2009
CONTRASTES
Vida e morte. De mãos dadas, presentes, exigentes, dolorosas.
Começou a Semana das Línguas, era a minha Semana do Português ... Agora, tem um nome mais pomposo, envolve o Departamento e ficou mais imponente. Ou talvez não. Talvez seja eu que estou assim cinzenta, a ver as coisas sem luz. Afinal, os meus meninos BRILHARAM no desempenho do Felizmente Há Luar! Encheram-me de orgulho, fizeram-me sentir que, apesar de muitos e dolorosos pesares, às vezes vale a pena ser professora!
Depois, de tarde, morreu a Senhora Dona Odete! Era a mãe da minha amiga Lena. Uma senhora suave, de olhos pequeninos e sorriso doce, sempre de saltos altos, terna e maternal. Encontravamo-nos às vezes no cabeleireiro, e sempre sorria, sempre era simpática.
Começa a morrer gente a mais no meu campo de afectos!Começa a haver buracos demais no meu património de sentires... Cada vez mais, neste contraste de morte e vida que faz a existência, sinto a inutilidade das pequenas coisas. Ou queria sentir...
Começou a Semana das Línguas, era a minha Semana do Português ... Agora, tem um nome mais pomposo, envolve o Departamento e ficou mais imponente. Ou talvez não. Talvez seja eu que estou assim cinzenta, a ver as coisas sem luz. Afinal, os meus meninos BRILHARAM no desempenho do Felizmente Há Luar! Encheram-me de orgulho, fizeram-me sentir que, apesar de muitos e dolorosos pesares, às vezes vale a pena ser professora!
Depois, de tarde, morreu a Senhora Dona Odete! Era a mãe da minha amiga Lena. Uma senhora suave, de olhos pequeninos e sorriso doce, sempre de saltos altos, terna e maternal. Encontravamo-nos às vezes no cabeleireiro, e sempre sorria, sempre era simpática.
Começa a morrer gente a mais no meu campo de afectos!Começa a haver buracos demais no meu património de sentires... Cada vez mais, neste contraste de morte e vida que faz a existência, sinto a inutilidade das pequenas coisas. Ou queria sentir...
domingo, 1 de março de 2009
DIA DE ANOS
Hoje é o dia. É o dia a seguir ao 28 de Fevereiro, o dia dos meus anos que devia ser 29 de Fevereiro e se faz de1 de Março. A vida começou cedo a tentar dizer-me que não ia ser fácil, não ia dar folgas.
Nasci em Lisboa, ninguém nasce em Lisboa!!, por acaso, porque o meu Pai estava a fazer a especialidade; nasci na Maternidade Alfredo da Costa, onde nasce todaa gente sem história, inserida na freguesia de São Sebastião de Pedreira que ninguém merece. Nasci longe do meu espaço de ser, da minha cidade amada, das ruas que conheço de cor, das esquinas onde as beatas cochicham, das escadas do velho Liceu onde aprendi a namorar. Para cúmulo, nasci no Carnaval (EU!!!) do ano de 1960, no dia do Terramoto de Agadir. Ainda por cima, era dia raro, só há de quatro em quatro em quatro anos! Ora, obviamente, todas estas voltas da vida marcaram o meu destino.
Ou não. Se calhar, fui eu que fiz as minhas escolhas, que teci os meus momentos, que inventei o meu ser neste mundo escuro e sem anexo em que tenho vivido. Fosse como fosse, ou porque fosse, faço anos hoje. E por isso vou ao Castelo, ao da minha cidade, almoçar diferente para marcar a data. Estou viva, tenho mil memórias, sonho impossíveis, conheço os caminhos do Amor, com azinhagas incluídas. Justifica-se o almoço!
Nasci em Lisboa, ninguém nasce em Lisboa!!, por acaso, porque o meu Pai estava a fazer a especialidade; nasci na Maternidade Alfredo da Costa, onde nasce todaa gente sem história, inserida na freguesia de São Sebastião de Pedreira que ninguém merece. Nasci longe do meu espaço de ser, da minha cidade amada, das ruas que conheço de cor, das esquinas onde as beatas cochicham, das escadas do velho Liceu onde aprendi a namorar. Para cúmulo, nasci no Carnaval (EU!!!) do ano de 1960, no dia do Terramoto de Agadir. Ainda por cima, era dia raro, só há de quatro em quatro em quatro anos! Ora, obviamente, todas estas voltas da vida marcaram o meu destino.
Ou não. Se calhar, fui eu que fiz as minhas escolhas, que teci os meus momentos, que inventei o meu ser neste mundo escuro e sem anexo em que tenho vivido. Fosse como fosse, ou porque fosse, faço anos hoje. E por isso vou ao Castelo, ao da minha cidade, almoçar diferente para marcar a data. Estou viva, tenho mil memórias, sonho impossíveis, conheço os caminhos do Amor, com azinhagas incluídas. Justifica-se o almoço!
Subscrever:
Mensagens (Atom)