sábado, 23 de maio de 2009

A MINHA CIDADE



É feriado hoje, na minha cidade. Portalegre faz anos, quatrocentos e muitos, e por isso está lavadinha, florida, engalanada. Passei bem cedo junto da Câmara Municipal, o impressionante monumento que começou por ser um Colégio Jesuíta, passou por uma Fábrica Real (que o Marquês de Pombal não gostava de frades), esteve ao abandono e foi há quatro anos recuperado para albergar a Casa da Cidade. Está linda, mais ainda!, a minha Câmara hoje, com as bandeiras penduradas das janelas altas, com brilho intenso mostrando que sabe que está de parabéns. Procurando a farmácia de serviço, que afinal estava fechada..., circulei pelo jardim, pelas ruelas de mestres e artesãos, pelas muralhas do protector castelo. Imaginei o início da minha cidade, os mouros, os cristãos, os olhos medrosos, as mãos grossas, os corações imensos.
De repente juro que vi, mesmo ali juntinho ao final da barbacã, uma moura fugitiva das teias da História. Nem lhe toquei a buzina, com medo de assustar o sonho. Mas fiquei, no silêncio da manhã-madrugada, achando que, afinal, ainda que mais de 400 anos depois, a gentes desta cidade não mudaram assim tanto: - Ainda há medos, línguas viperinamente compridas, calçadas difíceis de subir e calhaus a fazer pesar as almas desprevenidas. Então, respirei fundo e certifiquei-me de que, na minha alma, não há (hoje)calhaus. Há, temo, alguma areia de grãos incómodos. Apenas.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

IMPRESSIONANTE!!

Há PESSOAS ÚNICAS, fantásticas, encantadoras, mobilizadoras, intensas, ternas, sabedoras, dinâmicas e impressionantes. A Águeda Sena é assim! Hoje, num dia de calor em Portalegre, a Águeda Sena chegou e ocupou lugar de honra nos meus afectos. Falou de sonho, pôs uma sala inteira a rir, a representar, a partilhar sonhos e a usar o corpo. Sem vergonhas, ou sem muitas vergonhas..., miúdos e graúdos expuseram-se e aprenderam. Eu lavei a minha alma, recuperei confiança na humanidade! A Águeda Sena soltou um dos imensos nós da minha essência. Vi os meus meninos, os meus alunos queridos que participaram, com os olhos a brilhar de confiança e força. A Ana, a minha Ana, cresceu por dentro e eu vi nascerem-lhe estrelinhas no olhar. Vi a LUZ do sonho despertar o real e tive vontade de impedir a noite de chegar. Acredito que é possível tecer cumplicidades efectivas. Assim: num fazer das pequenas grandes coisas que fazem cumprir a realidade! Hoje, senti que fui útil de facto aos meus miúdos, aos jovens a quem desejo a capacidade de construir possíveis de FELICIDADE. Hoje, vou sonhar com o meu projecto de educação integral! Vou sonhar que posso de facto educar os meus alunos e não só ensiná-los... Queria, como queria!!, ser capaz de os fazer crescer por dentro, contestar o estado das coisas e LUTAR por aquilo que defendem. Ah! Como queria ter a força da Grande Senhora que é a Águeda Sena!! Como me toca a força desta GRANDE SENHORA!!!!

terça-feira, 19 de maio de 2009

Ele há coisas...

Felizmente, Há Luar!. É obra obrigatória do programa de 12º ano de Português e, devo confessar, não é das minhas preferidas. Chateia-me a visão simplista dos pobres e ricos, bons e maus, oprimidos e opressores, como se, de verdade, a vida fosse assim tão óbvia... Talvez porque não me apaixona a obra, nem o estilo, sequer o conteúdo ou o autor, esforço-me sempre para manter os meus gostares e sentires à margem e trabalhar o texto, com os meus alunos, da melhor forma possível. Foi por isso que hoje estive a preparar um power-point muito lindinho, com recurso a imagem, texto e som... Ora quando chegou ao som é que, como se diz na minha terra, a porca torceu o rabo. E esta tinha-o bem encaracolado!! Queria inserir imagens do 25 de Abril, com o Zeca Afonso a cantar a Grândola Vila Morena, no meu trabalho lindo e...não sabia como!!! Adepta confessa das cumplicidades, pedi socorro à Ana, uma expert da informática. Com a sinceridade juvenil que a caracteriza, disse-me que, embora fosse possível, era excessivamente complicado para mim! Conformada, mas não rendida, telefonei ao meu querido Eduardo que sabe destas coisas a potes. Esforçou-se por me ensinar mas, como eu TÃO BEM sei, quando o aluno é totalmente desprovido de jeito não há metodologia que resulte. O Eduardo, no entanto, resolveu o meu problema: - A professora traz-me a sua pen e, amanhã, levo-lhe isso a funcionar! - Óptimo! Eficiente!
Eu é que perdi mais de uma hora a ouvir a Grândola e a ver os comunistas... Felizmente, tenho o Eduardo, e a Ana, e o Miguel, e a Filipa, e o Manel, e o João, e a Margarida, e tantos alunos com quem tanto aprendo! Só isso me consola da hora sofrida na tarde de hoje!!!

segunda-feira, 18 de maio de 2009

EXAUSTÃO E TORCICOLO

O cansaço, hoje, é muito. Trabalho, comissões, reuniões, formação, testes, casa, filhas, tudo me pesa de tal forma que arranjei um violento torcicolo. Agora, a juntar à minha convicção política de Direita, acresce a impossibilidade física de olhar para a Esquerda!! Vá lá, ao menos o torcicolo foi sensato...

domingo, 17 de maio de 2009

Os ninhos


As andorinhas fizeram, já no ano passado, este ninho de duas assoalhadas aqui no meu quintal. Este ano, voltaram. Hoje, vi-as a entrar e a sair, numa grande azáfama, talvez acabadas de chegar de viagem e preocupadas em arrumar a casa e fazer limpezas. Apesar de não ser grande adepta de aves, as minhas inimigas penosas..., fiquei a observar o vai-vem e não resisti e fotografar a moradia. Depois, arrependi-me! Porque fiz às andorinhas o que tanto me incomoda que me façam a mim: - invadi a sua privacidade!! Peço desculpa, aqui, às andorinhas.

A VARANDA

Na parede há um painel que garante “o oxigénio do ar é dos melhores medicamentos. Muitos o desprezam por não custar dinheiro” V. Pauchet. Lembro-me de ler aquelas palavras, primeiro com dificuldade, depois procurando um sentido, por fim sabendo-as de cor. São palavras em azulejos pintados, com cor, fazendo moldura para além do sentido ou da actualidade. Para além das palavras, a varanda tem mil outros significados, mesmo sabendo que, por si só, não é sequer um significante. Em miúda, sentava-me ali, sozinha, muitas vezes ao fim do dia, espreitando a cidade que, lá ao fundo, me parecia sempre tranquila. Via a Sé, a igrejinha do Bonfim, a Senhora da Penha, as muralhas do velho castelo. E fantasiava: - Se eu pudesse voar, ainda que não sendo pássaro, partiria do parapeito da varanda, planando, até pousar mesmo na ponta mais bicuda da torre da Sé. Se eu fosse fada, bruxa nunca quis ser, inventaria um feitiço, com asas de morcego e patas de gafanhoto, para cristalizar os momentos em que ali me instalava, fugida da agitação da casa, confessando ao ar as minhas angústias, os meus temores, acho que os meus sonhos também. Foi naquela varanda que, pela primeira vez, vivi intensamente aquela hora mágica em que tudo pára. Era miúda e, depois do banho obrigatório ao fim de um dia de brincadeira, já de camisa de noite e descalça, escapulira-me para ali enquanto o resto da casa, sob as orientações da minha mãe, continuava a preparar-se para o jantar e para o fim do dia. Sozinha, comecei a perceber o silêncio dos cães, as asas quietas dos pardais, a tranquilidade quieta do vento. Ao fundo, mesmo por detrás da serra da Penha, havia riscos vermelhos em torno de uma bola gorda, brilhante, que se preparava para, também ela, ir dormir. Estranhei o silêncio. Lembro-me que me levantei, espreitei os baloiços que ainda há pouco ousavam tocar as nuvens, e me surpreendi com a sua imobilidade total. Fiquei quieta também. Tive algum medo, pensei que o mundo, por um qualquer mistério, tivesse simplesmente deixado de girar. Mas não. Instantes depois, lembrando penitentes de alma lavada, os pardais abandonaram o fio do telefone e os cães retomaram a conversa animada que ligava o canil aos que estavam soltos. Muitos anos, milhares de vezes, vivi este momento e, sempre, me surpreendia a beleza que a minha varanda me oferecia. Era o lugar mais perfeito da serra, achava eu. E, como para me mostrar que, às vezes…, eu tinha razão, os meus pais mostravam sempre a varanda, com algum orgulho mal disfarçado, a quem pela primeira vez nos visitava.
Quando o tempo permitia, e fazia-o muitas vezes, almoçávamos na varanda. O meu pai gostava de jantar ali, conversando, contando da vida e ajudando-nos a crescer. Ali lhe contei os meus maiores desgostos, ali me garantiu, tantas vezes!, a sua cumplicidade eterna. Então, já mais velha, a varanda era para mim um espaço de apaziguamento interior. Ali, sentia-me protegida.
Era, acho eu, a minha fortaleza!
Já adulta, mãe, pegava nos meus bebés ao colo e mostrava-lhes a cidade, as igrejas que conhecia tão bem, os voos dos pardais, a cama do sol, as nuvens de algodão. Muito pequeninas, ao colo, espetavam o dedo e identificavam os lugares que me tinham emoldurado o crescimento. Então, elas começaram a ler as palavras do azulejo e oxigénio saía com dificuldade…
Hoje, estou com saudades da varanda. Os tempos correram, há outras gentes na minha varanda, há outros risos que desconheço, e desejo que haja quem seja capaz de ensinar aos pequeninos os lugares da cidade. Hoje, a minha varanda faz apenas parte do património imenso de recordações que, vale-me esse consolo, nunca ninguém me poderá roubar.
A vida, o tempo, as gentes (pessoas nem todas) têm-me, com demasiada frequência, assaltado as emoções, roubado realidades. Mas o meu património de recordações, ao menos esse!, é inviolável!
Tenho tantas saudades da minha varanda…

sábado, 16 de maio de 2009

Vento



Soprava com força, frio, zangado talvez, o vento na minha Serra. Os meus sentires, eternamente incapazes de paz e indiferença, emaranhavam-se com força no meu passeio, com o Fred e a Ginja, pelo meu quintal. Ali estavam as cerejeiras, carregadas, o Fred a comer cerejas da árvore e a cuspir os caroços, exactamente como eu. A Ginja, fêmea..., mais inquieta, sem querer saber das cerejas, preocupada em descobrir a rã que, rápida e curiosa, parecia provocá-la por entre os nenúfares. Sentei-me ali, casaco velho bem abotoado, cabelos a embaraçarem-se, e fiquei vendo os bichos, a vida, o tempo.
Tenho muitas coisas para pensar, algumas para arrumar na arca de nenhures, outras para resolver, (coloco-as vezes demais nos cantos poeirentos do meu ser), algumas para eliminar (tarefa tão difícil...) e poucas para reciclar. Acho que eu devia ser emotivamente ecológica. Assim como faço (às vezes...) com o lixo e as garrafas, devia fazer com os meus sentires e pensares. Devia ser capaz de os reciclar em novas essências com melhor utilidade. Era, por exemplo, o que devia fazer com as minhas mágoas políticas. Devia ser capaz de converter a minha desilusão, frustração e tristeza, em energia interventiva, construtiva e modificadora. Devia reciclar a minha desesperança, que anda a ganhar forma de comodismo e desinteresse, transformando-a em força de lutar, protestar, participar e mudar. Imagino, por exemplo, os nomes horríveis (ainda que justos e sinceros) que destino à ministra da educação a serem reciclados...
O meu telemóvel, com a melodia brasileira que o distingue "Que tal nós dois, numa banheira de espuma..." (Grande ideia!!!) trouxe-me para a realidade, arrancou-me aos ecopontos dos sonhos. É sempre assim! Sempre que me dá vontade de ser boazinha e correcta, algo me acorda para a realidade!!!