terça-feira, 13 de março de 2012

Súplica

SÚPLICA

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.



Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.



Miguel Torga



segunda-feira, 12 de março de 2012

Oxímoros

Estou seguramente perdida na realidade nebulosa que me abraça. Sinto intensa a ausência de possíveis, festejo a incerteza de um quotidiano de muitos passados. Encontro-me no espaço que desconheço, sentindo-me num labirinto onde identifico as saídas que nego sempre. Na solidão cheia de mil seres, sinto-me múltipla na minha unidade. Qual cadáver vivo, cumpro uma rotina incumprível. Se acredito, erro; se duvido, cumpro. O que não digo, incomoda, porque o que digo ilude. Na minha vida alheia não há lugar para o eu que, conhecendo, estranho a cada alvorecer.
Existo? Vivo? Quem sabe? Eu conheço que o desconheço.

sábado, 10 de março de 2012

Procura(s)

Quando abro a porta de casa, procuro-te.
Procuro-te no sofá, ali, perto de onde me sento para a minha leitura calma.
Quando abro a gaveta da direita, é a ti que procuro.
Procuro o corpo ausente na roupa dobrada, é a ti que procuro.
Quando peço bica para dois, é a ti que procuro.
Procuro a companhia ausente, é a ti que procuro.
Quando compro os iogurtes magros, é a ti que procuro.
Procuro a parceria na dieta imposta, é a ti que procuro.
Quando ligo o computador, é a ti que procuro.
Procuro o passado que quero futuro nas fotografias arquivadas, é a ti que procuro.

Às vezes, fico quieta. Fecho os olhos, apago a luz, desligo a música, e espero. É a ti que procuro.
Um dia, tem de ser, eu vou encontrar-te!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Mimosas

Quando chego agora ao meu quintal, há um cheiro novo no ar. Há um perfume intenso que, sem dar à existência novo sentido, de certa forma adoça o meu viver. Inspiro intensamente e extasio-me olhando a enorme mimosa que tomba, lânguida, sobre o telhado de minha casa. Não espero nada da grande árvore, como ela nada espera de mim, mas compreendemo-nos no silêncio que a tarde calma impõe. Está ali há anos, firme, sempre recuperando a cor que o inverno lhe rouba, incansavelmente perfumando dias e, por vezes, provocando espirros e comichões. Gosto de ficar lá fora, olhando o amarelo intenso, gozando o perfume que não pago, não compro, e me entontece. Saboreio a bebedeira de sentidos, deixo-me levar nos sonhos livres e sorrio à minha árvore amarela. Ela não sonha nada, não conhece preocupações e, ainda assim, eu creio que me escuta e me compreende. Não sei se é por a árvore ser feminina, se é por ter nome de ternura, se é porque abusa impunemente do perfume, mas sei que esta árvore me ajuda a sorrir nos fins de tarde de quotidianos difíceis.
Lembro Caeiro. Talvez  a verdade esteja nele e, de facto, Pensar seja estar doente dos olhos...

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia M

Ouvia as referências à mulher. De certa forma, a si também. Ouvia na televisão, na rádio, no trabalho, no café, elogiar as mulheres e lembrar o seu dia. Ouvia ao longe, um ouvir sem eco, sem fazer sentido para ela, as declarações socialmente correctas. Enumeravam-se mulheres famosas, algumas ela detestava, outras admirava mesmo: Sophia, Madre Teresa, Margaret Tatcher, Maria José Nogueira Pinto, etc. Não queria lembrar as que abominava. Não no seu dia.
Saíra de casa como sempre, cumprindo rotinas, trabalhando muito e, agora,  rodava na mão a flor que recebera no supermercado, de viveiro (a flor, não o supermercado), e sentia  falta do odor da planta. Como, tantas vezes, sentia falta do odor da vida, de sentidos, de razões, de objectivos alcançáveis. A flor, uma margarida, era bonita, com o pé travado num arame fininho que a impedia de se dobrar. Como as pessoas, afinal, mulheres e homens, presos em arames sociais e obrigados a posturas que outros definiam como adequadas... Sorriu sozinha reconhecendo a sua veia mazinha, de mulher, afinal. E se pudesse colocar arames que pusessem as pessoas a seu jeito? Começou a imaginar posturas. Inenarráveis, de facto.
Sorrindo, deixou a flor plastificada no caixote do lixo do parque de estacionamento. Se era o seu dia, que o fosse autêntico!

quarta-feira, 7 de março de 2012

Ironias

Reinam no país a tristeza, e a depressão, colectivas e generalizadas. O português vai-se andando, que tanto me desesperava, foi substituído pelo tudo péssimo, que muito me aflige. Os olhares escureceram, os receios de cada nova hora são constantes, as notícias assustam-nos cada vez mais. Parece que não há luz ao fundo do túnel, que não há alternativas, que nada de bom se avizinha. Nos locais de trabalho partilham-se as angústias e dissecam-se horrores.
De repente, sinto que é urgente, a bem da saúde mental (pelo menos da minha) recuperar a esperança, reinventar a gargalhada. Lembro-me de uma leitura de menina, Sexta Feira e a Vida Selvagem, e sinto-me um pouco como o Robinson que, ao perceber que já não sabia sorrir, decidiu mudar a sua atitude. Estava eu presa nas minhas divagações, no meu tecido de memórias e futuro, quando ouvi a notícia do assalto às Finanças de Gondomar. No insólito, gargalhei com gosto! "Ladrão que rouba ladrão, tem 100 anos de perdão!"

terça-feira, 6 de março de 2012

Empréstimo

Sim, sei bem
Que nunca serei alguém.
Sei de sobra
Que nunca terei uma obra.
Sei, enfim,
Que nunca saberei de mim.
Sim, mas agora,
Enquanto dura esta hora,
Este luar, estes ramos,
Esta paz em que estamos,
Deixem-me crer
O que nunca poderei ser.
Fernando Pessoa