sábado, 13 de julho de 2013

COMUNHÃO DE TÍTULO

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.


Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'


sexta-feira, 12 de julho de 2013

ESBARRANÇOS

Um estrondo violento na janela fez-me saltar! Que susto! Abri a vidraça e, no chão, um gaio gordo permanecia imóvel. Saí a correr, julgando-o ferido, para evitar que os cães lhe pregassem alguma partida, e estranhei a posição: - de pé (de patas...), completamente estático. Aproximei-me. Nem se mexeu. Voltei a casa, trouxe o telemóvel para o fotografar pensando enviar o registo para o meu neto. Quando me preparava para o varrer para longe, o gaio saltitou, meio zonzo, e depois abriu as asas e voou. De cima da nogueira ainda me olhou, antes de partir no céu escaldante.
O gaio deixou-se enganar pelo reflexo do sol e esbarrou com violência na vidraça da minha sala. Caíu tonto, mas recompôs-se.
E nós, portugueses, seremos capazes de recuperar dos esbarranços violentos em ilusões e mentiras?!

quinta-feira, 11 de julho de 2013

VELHOS AMORES

No meio do campo, sem ribeira nem bica de água por perto, ele continuava trabalhando. Quem vive da terra, e na terra, não conhece feriados, não respeita horário, não pica ponto, não fecha a porta. Com ele, sempre assim fora  e, agora, com 90 anos marcados na pele a rugas fundas, não se queixava. Para quê? De que servia protestar contra as tropelias do destino? Olhou o céu inclemente, escarrou para as mãos de forma a impedir que o suor fizesse escapar o cabo da enxada, e voltou à horta. Gostava do cheiro da terra assim, revolta, vermelha e húmida. A mulher, sempre mais dada às leituras, costumava dizer que o cheiro da terra molhada lhe lembrava mulher fértil. Ele ria-se, abraçava-a, e concordava, explicando que a terra é mulher também, carece de afectos, gosta que lhe mexam, dá frutos e alimenta uma humanidade inteira. Ela ficava séria, vinha a nuvem que, tantas vezes, ele via toldar-lhe o olhar e chamava-lhe Poeta. Ele brincava, garantia que a poesia era ela e que ele, quanto muito, e em dias que Deus estava de bom humor e o diabo distraído, só dava som aos poemas que ela carregava em silêncio.

Tinha saudades dela. A filha levara-a, para a tratar, dissera, mas ele sentia que a levara para que a morte se apressasse. Os jovens acham sempre que sabem tudo...Voltou a olhar o céu vermelho, raiado de sangue, parecia-lhe. Quando se amava como eles se tinham amado, 70 anos de vida lado a lado, a partida de um era o bilhete de ida do outro. A mulher não era dali, ele encontrara-a longe, junto ao mar, numas férias de estudante, quando, terminando o seu curso de engenheiro agrónomo, tinha rumado até Tavira para descansar. Ela estava lá, à beira-mar, sentada na areia e lendo poesia. Quando ele se aproximara, mal se sentara junto dela, ela dissera "há uma eternidade que te aguardo". Ele olhara-a com espanto, e ela rira - ah! o riso dela!-  apontando o poema que lia. Sophia de Mello Breyner, dissera. Ele rira também, garantindo que nas gargalhadas dela havia Vivaldi sem pauta obrigatória. Depois, num instante, tinham 90 anos e estavam afastados. No meio, 70 anos de cumplicidade, de leituras a quatro olhos, de viagens de descobertas sempre, de amanheceres com a porta trancada para que os filhos os não interrompessem. Agora, viera o fim. Ele, ali, na casa dos dois, cuidando da terra, vigiando as rosas que ela tanto protegia. Ela, lá, na cidade, em consultas médicas, procurando o impossível: - a cura para a velhice, o segredo para travar o tempo...

quarta-feira, 10 de julho de 2013

MORTE

Sem calma nenhuma, incapaz mesmo de ordenar pensamentos e coordenar acções, vestiu o vestido preto, cavado, que usava para ocasiões especiais. Esta era uma ocasião especial! As lágrimas não paravam de cair,  e ela, ignorando o rímel que lhe sulcava o rosto, escolheu as sandálias altas, colocou os óculos escuros, os mesmos que usava quando se deliciava, sentindo-se então feliz, esquiando nas montanhas, e saíu de casa. O cão estranhou-lhe o silêncio, as festas caladas, e ficou ganindo vendo-a partir. Entrou na igreja quente, o cheiro intenso de velas incomodando-a, o choro colectivo surgindo em ondas, oceano concertado, os rostos tristes, e sentou-se. As lágrimas continuavam a correr e, por isso, manteve os óculos no rosto. Os automóveis, na rua, seguiam buzinando vida, pressa. De vez em quando, a sirene louca de alguma ambulância rasgava o ar e as pessoas faziam um movimento sincronizado, indiferente e curioso, na direcção da janela. Ela continuava ali, chorando. Chorava a saudade antecipada, os não ditos, a certeza da impossibilidade do retorno, a revolta face à ausência eterna. Chorava ainda os erros que nunca tinham conseguido corrigir, os lapsos comuns, as ausências, os adiamentos que, agora, eram eternos e definitivos. Da carteira FURLA, gasta e velha, tirou um lenço de papel e, da confusão que sempre era aquele espaço, saíu um gasto bilhete de cinema.
Gostavam de cinema, os dois. Às vezes entravam mesmo sem saber bem para ver o quê e saiam a meio, ele amparando-a no escuro como não soubera ampará-la na vida. Onde estaria ele, agora, no momento que ela escolhera para enterrar as fotografias, as cartas, os sonhos?.. Onde estaria ele, agora que ela fazia o funeral de um amor que, se calhar, fora apenas dela? Ah, a morte dói sempre muito e, por isso, ela decidira cumprir o ritual, procurar um velório e enterrar as memórias de um amor morto. Assassinado.
 

terça-feira, 9 de julho de 2013

PALAVRÕES

Estou velha. Estou, decididamente, a entrar na fase em que me parece ver o mundo de fora, sem concordar quase nunca com o que se passa lá dentro, com tendência a pensar que "dantes" era melhor. E é terrível ter consciência disto!
Não entregando os pontos, tento combater esta evidência, e faço-o a todos os níveis. Faço-o, sobretudo agora que o tempo encompridou, com as minhas leituras. Resisto à tentação de voltar à Madame Bovary, tento não olhar muito para o meu amado Aquilino, deixo quietos os romances de Helena Marques, e imponho-me leituras de hoje. Nas livrarias vou lendo sinopses, minibiografias, e vou comprando os premiados. Foi assim, e depois de já ter tido nas mãos por várias vezes aquele título, que me lancei no prémio Leya 2011, "O teu rosto será o último", da autoria de João Ricardo Pedro. Enchi uma garrafa de litro e meio de água, coloquei o meu velho chapéu de palha, estendi-me na cadeira de repouso e iniciei a leitura. 
Confesso que as minhas reservas diminuíram face ao tamanho do livro, pensei nos meus alunos (Quantas paginas?) e fiz-me ao texto com boa vontade, de espírito aberto.
Logo nas primeiras páginas, esbarrei com muitos palavrões. MUITOS! Daqueles carregados de "éfes", de "érres", de "cês", de "pês" também. Mas continuei. E aos poucos comecei a sentir-me suja, com pó na garganta, obrigada a fazer intervalos cada vez mais longos na leitura. A intriga até me interessou, bem pensada, articulando factos reais com a ficção, mas o vocabulário tornou-se um obstáculo à minha leitura. Um "distractor"...
Não gosto de armar em santa, eu também sei muitos palavrões, também os digo às vezes. Por exemplo, se me magoar fortemente, é pouco provável que grite um que maçada fui molestada fisicamente e estou com uma sensação de dor incómoda,  mas de facto incomoda-me ouvir, ler, violento palavreado sem que traga ao texto nada de necessário. Não percebo que necessidade há em tratar Mozart com três palavrões, ou falar de práticas sexuais com linguagem de sarjeta. 
Não gosto de vulgaridade! Acho sempre que vocabulário de carroceiro só fica bem quando se lida com bestas... Não vou recomendar este livro a ninguém e, com certeza (pelo menos nos próximos tempos) não comprarei nada escrito pelo João Ricardo Pedro, tenha ele os prémios que tiver!

segunda-feira, 8 de julho de 2013

D. MANUEL CLEMENTE

Já está a exercer funções o novo Patriarca de Lisboa. D. Manuel Clemente, um homem que considero carismático, tem pela frente uma missão muito difícil e, ontem, afirmou algo que me tocou fundo: -"precisamos transformar as solidões em convivência".
Num momento que, para mim, é particularmente difícil e incrivelmente doloroso, só peço a Deus que ajude D. Manuel Clemente a concretizar os seus objectivos. Que lhe permita ajudar-nos a encontrar o caminho para uma sociedade mais humana, mais justa  e onde cada um consiga cumprir o fim último da condição humana: - Ser feliz!

A CASA


Gostava de chegar a casa, de colocar o chapéu de palha, de calçar sapatos bem rasos, e de gozar o jardim. Era sempre assim, no Verão. A Casa que a vira nascer, o lugar onde aprendera a andar, os recantos onde deixara correr tantas lágrimas de desilusão, revolta, raiva e dor, era ainda o seu ponto de abrigo. Por isso, acabada de sofrer mais um desmoronamento emocional, com o coração feito em estilhaços impossíveis de consertar, era em Casa que se refugiava.
Porque o calor era muito, tirou o velho chapéu e dedicou-se à rega. Com calma e paciência inundava os canteiros das hortenses, refrescava as roseiras e divertia-se a perseguir com o jacto forte as lagartixas verdes. Sem o chapéu, as ideias ferviam mais ainda e as mágoas, as mais recentes, faziam doer. Olhava então a Casa, pensando como lhe era importante ter um lugar para ser, um espaço sem devassas, um canto onde podia existir sem, de repente, se considerar a mais ou incómoda.
Com o cão por companhia, ganindo a cada lágrima mais gorda numa cumplicidade perfeita, pensava nas voltas da vida, nas muitas perdas, nas desilusões constantes. Tinha o coração cheio de coisa nenhuma. Coisas que haviam sido grandes e que, agora, nada eram. Pensava noutras casas, que julgara suas, e a raiva crescia a par com a revolta desiludida. A idade, se calhar ao contrário do que devia, ensinara-lhe que é importante a privacidade, a possibilidade de fechar portas e deixar a cama por fazer, a roupa no armário, o cesto com roupa suja que só nós poderemos lavar.
O cão chamava-a ansioso. Levada pelos pensamentos esquecera a mangueira e, agora, a nogueira estava toda enlameada... Virou a direcção do jacto lamentando não poder, com idêntica facilidade, alterar a direcção dos sentires!