sábado, 13 de agosto de 2016

A LOTA

Há muito tempo já que não ia à lota. Lembrava-se de, miúda, ir à lota em Quarteira, sempre madrugadora acompanhava o Pai, e achava bem mais triste do que acompanhar a avó ao cemitério porque, pensava no silêncio de menina, no cemitério os mortos estavam sossegadinhos, tinham muitas flores e jarras bonitas e, ali, os mortos-peixes sangravam, tinham olhos a saltar das orbitas e pareciam tristes por não poderem nadar. Um dia, contara ao Pai da impressão daqueles peixes tristes e ele explicara que os peixes não estavam tristes, porque não tinham memória e não sabiam o que era  a dor. Ficara às voltas com a ideia de não ter memória, mas não ousara fazer mais perguntas... Adulta, desejara muitas vezes não saber o que era a dor.

Agora voltava à lota, sozinha. Durante anos esquivara-se à compra do peixe, agora, livremente, decidira vir à lota. Decidira, também, abrir a velha casa de onde via o mar forte, o mar do Norte. A Casa. E lá vinha Saramago, a Casa que visitara em Tenerife, então a dois. E o pregado a mostrar os olhos vermelhos - pode ver, freguesa, a frescura vê-se aqui, no vermelho do olhos - e ela fugia com o olhar ao gel do olhar vazio do pregado anunciado. Sim, pode levar à confiança, este foi pescado agorinha mesmo. E era um polvo mole, e era António Vieira a ecoar com as repreensões, e o aspecto amorfo a desinteressá-la - que ideia a sua, a de ir à lota! Mas queria um peixe fresco, bom para fazer ao sal, fácil e saboroso para dar início ao que desejava ser uma nova fase de vida. Respirou fundo - que pivete deita o peixe moribundo! - e lá se aventurou num robalo grande - por favor amanhe-mo! - que com certeza ficaria bonito na mesa. Com alívio deixou a lota, comprou fruta, uvas e melão, flores do campo, canelinhas - deliciosas! - e foi para casa. Colocou no frio o Alvarinho - bem gelado seria um acompanhamento perfeito - faria, de tarde, um gelado de lima e coco. Agora,  praia. Embrulhou-se no casaco que ele esquecera - cheirava ainda a muitos passados - e sentou-se na esplanada invejando a coragem dos surfistas. 
O dia correu com a velocidade da expectativa e, ao anoitecer, abriu a janela para deixar que o ar do mar intenso enchesse a sala. Gostou da mesa, da toalha branca, dos copos altos e das flores coloridas. Quando ouviu o carro, descalça, abriu a porta e sorriu. Às vezes, é bom sorrir.

domingo, 31 de julho de 2016

EXEMPLOS

Na missa de hoje, um casal assinalava 50 anos de casamento. 100, dizia o senhor padre, porque cada um viveu 50 com o outro. Mas não foram as contas que me impressionaram. Não foram, sequer, os 50 anos, que também os meus pais felizmente assinalaram. 
O que me tocou, nos sentires e pensares, foi ouvir o senhor Benvindo (que não conheço) dizer, em voz tremida mas sincera, que nem tudo foi fácil. Que houve muitos espinhos, desentendimentos e dificuldades. Mas que, o segredo - que não é segredo - é sempre ser capaz de perdoar, de ouvir e não julgar. Porque, dizia ele, amar é assim - aceitar mesmo sem compreender e estar presente, sempre, para partilhar e ajudar.
Mais do que as leituras ou a homilia, foi o depoimento breve e intenso do senhor Benvindo que marcou o meu domingo. Tenho um pouquinho de inveja, inveja boa, dos casais que conseguem construir cumplicidades efectivas, que conseguem tempo para ouvir, perdoar e compreender. Talvez, no fim da minha vida, a maior mágoa que leve seja mesmo esta - a impossibilidade de ter tecido teias de afectos reais com alguém especial. 
Enfim, é domingo! Vou fazer uma boa salada de tomate, regá-la com orégãos, abrir um bom vinho branco gelado e gastar o tempo com o meu cão e um bom livro.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Vargas Llosa

Acho que era um livro do Vargas Llosa - não, ainda não tinha casado com a Isabel Presley - e eu andava a lê-lo com entusiasmo. Às vezes, comentava contigo passagens - sim, nunca gostaste muito de ler - e manifestava o meu desagrado face a alguma violência verbal. Há quem goste de palavrões - fazem parte da vida, não é? - mas a mim ainda incomodavam. E incomodam. Mas acho mesmo que era um livro do Vargas Llosa. E falava de máfias, de amores clandestinos - os amores não são sempre clandestinos? -  da América a saber a índios. No meio das páginas, mesmo quando a personagem principal - sim, as personagens são todas principais -, ia ser esfaqueada pelos mafiosos, saltou o bilhete. 
Era um bilhete gasto, escrito à mão em letra descuidada, e apenas uma palavra se lia com clareza - deve ser uma das tuas listas de compras -. Não era. A palvra única, legível, era amanhã. E riste-te. Há sempre um amanhã! 
Infelizmente, agora não me rio. Sabes, nem sempre há amanhã. Por vezes, só sobram ontens...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ENCERRADO
FÉRIAS DA VIDA

sábado, 2 de julho de 2016

O Portão Verde

O portão verde, da velha casa amarela, está sempre fechado. O portão verde abria-se de par em par e dava entrada a familiares, amigos, aos filhos e aos donos da casa. No início, era um portão estreito que se impunha, violentamente, riscando os automóveis desconhecidos. Depois, o dono da casa mandou alargar a passagem, ele tinha também um coração largo, e o portão tornou-se, ainda que por imposição, mais receptivo. 
Do portão verde vê-se a velha casa amarela. Na velha casa aconteceram partos, mortes, amores, discussões, festas e desentendimentos.  
A vida revelava-se, a cada dia, nas manifestações de momentos que as muitas memórias haviam de eternizar. A velha casa enchia-se de risos de crianças, as hortênsias guardavam segredos, e os velhos muros não contavam nunca as ousadias que presenciavam. Na velha casa, os passos faziam estalar as madeiras, as vidraças enchiam-se de mosquinhas minúsculas quando o Verão chegava e, às vezes, uma ou outra osga abusadora instalava-se na parede da sala. Na velha casa amarela, tinha havido sonhos infantis, lágrimas muitas e ternuras sem limite.
Agora, o portão verde está sempre fechado. A velha casa está vazia e as madeiras, quando gemem, é de dor pela ausência imposta. No quintal, as ervas assustam as hortênsias, as rosas cruzam-se com cobras e a relva faz inveja às árvores. 
Quem fechou a velha casa chora inda. E a vida impõe silêncio garantindo que são apenas paredes... Paredes. Mas paredes com vida, com presenças que, tendo partido, ficarão para sempre. 
Se eu pudesse, eu havia de abrir de novo, de par em par, o grande portão verde!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

OFERTAS

Aprendo muito com os outros. Aliás, eu gosto de estar com outras pessoas, bem diferentes de mim às vezes, e de aprender com elas. Aprendo o bom, para seguir; e aprendo o mal, para o evitar.
Hoje, aprendi uma grande lição com a minha filha. Dizia ela, rindo, que ontem foi jantar fora com o marido, só os dois, com imagem cuidada e num restaurante com estrela Michelin. Até aqui, nada de novo. O que me tocou mesmo, foi ela responder, rindo, à questão- Porquê?. Porque, disse, estamos vivos e apaixonados!
Aprendi como é importante valorizar cada dia, cada sentir dos bons, mesmo que o calendário não assinale data nenhuma. Ou, se calhar, porque o calendário todos os dias nos oferece um dia novo e nós, ocupados com esperas inúteis, nem damos por isso...

segunda-feira, 27 de junho de 2016

FÉRIAS

Chegou o Tempo de férias. Agora, as conversas circulam em torno dos destinos de descanso, as redes sociais enchem-se de propostas aliciantes e os sonhos acabam, invariavelmente, à beira mar. Eu entro na onda. O que desejo, mesmo, são férias. 
Férias de pensar, férias de cumprir, férias de pensar mas, sobretudo, férias de existir...
Alguém sabe como meter férias de vida?