quinta-feira, 10 de outubro de 2019

PARAÍSO

Há uma música moderna, que passa frequentemente nas Rádios, que diz, numa melodia agradável, que o paraíso existe. Se é verdade o que cantam, tu és o meu lugar no paraíso. Em ti descanso a revolta, no teu abraço dispo a camuflagem da existência, nos teus beijos alimento a minha alma. Em ti, pouso a confiança, tantas vezes perdida, e em ti, no silêncio, abro janelas ao sonho.
Tu és o meu paraíso. 
Em ti estendo a toalha inexistente e deixo adormecer a desesperança. 
Tu és o meu paraíso. 
Como o paraíso, és o lugar que nunca alcanço. Como o paraíso, estás sempre longe demais!

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

FICÇÃO

O vidro, ao comprido da porta, revela a sala de aula. Os alunos, em três filas, dois a dois, a olhar, e a professora, de livro na mão, fazendo a leitura do poema (os alunos lêem tão mal...). Ela, a professora, fala (os alunos não estão habituados a linguagem poética).. Ela diz coisas de Pessoa, do que quer dizer o verso primeiro, os seguintes também,  da temática em causa. Os alunos, sempre nos seus lugares, ouvem. 
Ou não. Há quem aproveite para actualizar a informação do Facebook, quem faça exercícios de matemática, quem tente registar o que a professora diz. A seguir, quando do poema já só restam palavras ocas, recursos de estilo vazios e mensagens lineares, a professora passa a responder às perguntas do livro. Ah, a primeira passou, já tinha dito na análise do poema! 
No final da aula, uma aluna pergunta como é  possível ter encontrado tanta coisa naquele poema que, para ela, só fala da natureza. Sorrindo, pedagógica, a professora afirma que é o resultado de muitos anos a fazer o mesmo...E a jovem pensa, mas não diz, que isso nunca acontecerá com ela, porque não se imagina passar muitos anos a escrever coisas sobre poemas.
Este mini-registo é pura ficção. Mas, se por azar acontecesse numa Escola qualquer, que pena eu teria dos jovens que assim perdem tempo de vida...

terça-feira, 8 de outubro de 2019

MENINO JESUS

Menino Jesus,
Sei que o Natal ainda tarda, que este não é, por enquanto, o Tempo de Te pedir presentes, mas estou muito angustiada e preciso de Ti.
Menino Jesus,
Eu sei que Tu me conheces, às vezes ralhas-me de mansinho, nunca me viraste as costas e eu, desculpa, tenho abusado da Tua compreensão.
Menino Jesus,
Obrigada por seres meu amigo, por conversares comigo nas noites que a insónia encomprida, por me permitires espantar-me com a Beleza dos frutos que enchem as árvores da Quinta.
Menino Jesus,
Obrigada por aceitares as minhas orações feitas, tantas vezes, de reclamações, de dúvidas e alterações ao tido como norma.
Menino Jesus,
Preciso ainda  mais de Ti! Preciso do Teu sorriso, do Teu olhar, do Teu carinho doce no ramalhar que me ajuda a acordar.
Menino Jesus,
Quando for Natal, prometo não Te pedir nada. Faço-o por antecipação. Peço-Te maior capacidade para suportar a desilusão, peço-Te que me ajudes a perseverar na construção de possíveis de confiança.
Menino Jesus,
Não me abandones. Mesmo falhando muito, vezes demais, preciso de TI. Não me deixes sozinha, por favor...

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

CONFISSÂO

Hoje, fazes-me falta. Amanhã, não sei; ontem, já não me lembro. Hoje, sim, fazes-me falta. Queria encostar-me no teu peito, deixar que o silêncio dissesse da minha tristeza, que os teus beijos calassem a minha mágoa profunda. Não quero falar-te da vida, que vida?, nem sequer de preocupações, são tantas!, mas quero dizer-te do meu silêncio excessivo. 
Estou cansada.  Ao contrário do poeta, o que tenho em mim não é só um íssimo-íssimo-íssimo cansaço. É, também, um incompreensível desejo de vazio. Sim, desejo o nada. O imenso nada que não se opõe ao tudo, porque o ignora. 
Para além do nada, desejo-te a ti. O abraço, a presença, o sorriso, o ombro (o tal). Fazes-me falta. 
E eu que acho que me devia bastar a mim mesma por que, ensinou--me a vida, os outros, a maior parte das vezes, sobram na construção de sentidos.

RESCALDO

O PS ganhou, ontem, as eleições. Nada de surpreendente, há muito (há tempo demais) que as sondagens o diziam. Surpreendente foi, para mim, que pequenos Partidos elegessem deputados. Mais triste, na minha sentida opinião, foi o PAN  eleger mais do que um deputado quando, achava eu,  um já seria estupidez a mais. Que o CDS tivesse ficado reduzido a uma ínfima expressão, também já esperava. Não vivemos num mundo de Ideias, mas de fogo fátuo...
 Enfim, quero tentar esquecer e, seguindo Ricardo Reis, viver cada hora apenas. Porque, se assim não fizer, vou chorar de desespero face à brutal abstenção.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

POLÍTICA

Tenho muito respeito pela Política. De verdade, e convictamente, considero que a política é a sustentação da vida em sociedade e que, por isso, não devia ser confundida com partidos, reduzida a conflitos politico-partidários. Muito jovem iniciei actividade política. 
Quis, e quero ainda, um mundo melhor, um país mais justo, mais sério e mais digno. Ao longo dos tempos participei activamente na vida política. Integrei a Assembleia Municipal, fui candidata à CMP, à Assembleia da República, participei em Comícios e diferentes Fóruns. Tenho militância partidária. Consciente e consistente. 
Ao longo do tempo, também, fui sofrendo desilusões. Perseguições individuais, má-língua, afastamento. E fui ficando cada vez mais calada, atenta sempre, escrevendo e dizendo o que penso de forma (relativamente) livre.
Nesta Campanha Eleitoral fiquei à margem. Fiquei olhando, observando. E não gostei NADA do que observei.
Não concordo com o ruído que fez Campanha, com os ataques pessoais, com o vazio de ideologia. A dada altura, a meio da Campanha, já ouvia distribuir cargos, pastas, tachos. Foi para isto que se fez a Revolução de Abril? Para abrir espaço a umbigos e vaidades? Não me parece...
Ontem, morreu o Prof Freitas do Amaral. Desapareceram já os principais construtores da Democracia em Portugal (Freitas do Amaral e Adelino Amaro da Costa, Francisco Sá Carneiro, Mário Soares, Álvaro Cunhal), e eu temo que, com eles, tenha morrido a essência da Democracia. No domingo irei votar. Como sempre fiz, na ideologia que defendo, sem voto útil, consciente de que, por enquanto, o voto é a única forma de podermos manifestar uma opinião. Uma desilusão também.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

REGRESSO AO PASSADO


O passado é um lugar morto. É um momento ao qual não se volta, porque não existe mais. Ou existe? 
De certo modo, existe gravado em nós. Nas sensações, nas emoções, nos registos da memória. e é essa inexistência existente, esse paradoxo, que incomoda e fere. Carrego em mim muito passado. Porque estou a ficar velhota (ternura dos meus netos) , porque já cumpri muitos caminhos e porque deixei lá, nesse tal lugar distante, muito de mim. Há dias em que o passado se faz dolorosamente presente. Há dias, em que carrego na pele  abraços totais que já o não são, o sabor de beijos que não existem, a memória viva de quem já partiu. Há dias nos quais o presente se agita na espuma do passado. E dói.