sábado, 28 de março de 2009

PARTIDA

Tenho a mala feita, as botas de ski limpas e estou quase a partir. Durante oito dias inteiros, uma semana completa!, vou trocar as voltas à vida e viver a ilusão de ser feliz. Bem cedo, vou descer as montanhas brancas, beber a bica forte nos cafés de madeira com enormes lareiras, sentir na cara o vento gelado e deixar os cabelos voarem loucos. Vou encantar-me com as cores intensas, emocionar-me com a paisagem esmagadora, rir muito com a cumplicidade dos amigos nas longas conversas, no bar do Hotel, em volta de uma bebida forte, desfolhando as memórias do dia. Amanhã, bem cedo, vou carregar o meu C4 e viajar até à neve.
Lembro, agora, outras viagens, a especial sempre "e assim o CX desliza, nas mãos seguras da Luísa" um ano antes de casar, visitando o Norte, Trás-os-Montes, no terno rally de boas memórias apelidado de "Rally do Nordeste". Trocava a neve, de bom grado, para recuperar esses momentos. Mas, como o Deus tempo sempre rouba, nada devolve, continuo vivendo e acumulando experiências e memórias.
Este ano, vou esquiar com um novo estatuto: - Vou ser avó!! E não resisto a rir-me de mim mesma, uma avó a esquiar?, cuidadosamente retendo imagens, pensamentos, para transmitir ao bebé que vem a caminho...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Contagem Decrescente

Faltam dois dias - DOIS! - para sair deste buraco de terror em que tornaram Portugal!Levo a revolta comigo, está no fundo da minha alma, levo saudades das minhas árvores, dos meus cães, colam-se-me à pele, levo as ausências que me definem e o desejo ternurento que me molha o olhar. Mas vou com o entusiasmo de, por oito dias, não ouvir enormidades, recuperar a gargalhada, sentir que, às vezes, viver até tem sentido!

terça-feira, 24 de março de 2009

TERNURA

Hoje veio de mansinho, a ternura. Chegou com a manhã fresca, ventosa, as pétalas da cerejeira lembrando-me flocos de neve caindo no meu roupão vermelho quando, pelas sete da manhã, fui soltar os meus cães e limpar-lhes o canil. Depois, ficou-me colada à pela, feita saudades intensas enquanto o duche caía com força no meu cabelo e, de olhos fechados, desejava que a quentura da água me chegasse à alma. A seguir, na minha escola, vestiu-se de olhares cúmplices e andou brincando às esconddidas pelas palavras do Saramago que detesto. De tarde, sem se condoer da minha nostalgia sentida, invadiu-me no entusiasmo da Carolina que fui buscar à aula de Hip hop, desafiou-me na luz quente que cobre a minha cidade, fez-me desejar sumir-me, dissolver-me inteira, nas memórias de ausências dolorosas que não desistem de se fazer presentes.

Há dias em que, sem razão ou lógica, a ternura me ataca assim. E dói. Dói de ausências, fere de impossibilidades, dilacera ao confrontar-se com a realidade.

domingo, 22 de março de 2009

DESEDUCAÇÃO

Há temas que, de tão abordados, correm o risco de se tornar fastidiosos e cansativos. Talvez, sei lá, a educação seja um deles. Porque se fala muito em educação, porque se fazem debates, manifestações, manuais, tratados, ensaios, leis, decretos, etc., e, aos poucos, o cidadão comum deixa de prestar atenção. Mas, mesmo consciente deste cansaço do tema, eu não resisto a abordá-lo. Porque, de verdade mesmo, acho que se fala muito mais de deseducação do que de educação.
Em Portugal, neste governo socialista de estupidez generalizada, tudo se tem feito contra a educação, em nome da mediocridade, do facilitismo, das falsas estatísticas. Este governo, que pessoalmente abomino e considero negativo, não tem respeito pelo Ensino, o que significa não ter respeito pelos cidadãos.
Vamos aos factos: - A violência nas escolas aumenta. Porquê? Porque a imagem dos professores foi posta no zero, porque a autoridade foi abolida, porque os miúdos aprendem, agora, que mais do que o professor conta a opinião dos pais, dos ministros e até, se for caso disso, do funcionário da Câmara Municipal que opina no Conselho Geral da Escola. O clima nas escolas é triste, infeliz, feito de silêncios, medos e perseguições. Porquê? Porque este governo virou os professores uns contra os outros, pondo colegas a avaliarem colegas, sem uma efectiva e justa graduação profissional, numa prática arbitrária e absolutamente envenenada. Hoje, nas escolas há ódios que impedem a comunicação e que, como facilmente se compreende, prejudicam as aprendizagens dos alunos. Hoje, ao professor exige-se o sucesso dos miúdos e, por isso, há que baixar os níveis de exigência, pactuar com a mediocridade, prejudicar aqueles alunos que, de verdade, trabalham e se empenham. Hoje, as Escolas certificam (in)competências, para aumentar estatísticas, em processos feitos, muitas vezes, de ignorâncias chocantes. Hoje, os professores preenchem fichas, fazem percentagens, dão aulas de substituição, dão aulas de apoio, aprendem informática, frequentam acções, registam faltas, comunicam faltas, telefonam aos encarregados de educação, reúnem com os encarregados de educação, fazem actas, usam quadros interactivos, dinamizam clubes, organizam visitas, acompanham visitas, participam em reuniões e não têm tempo para fazerem o que sabem: - Educar!
Muitas vezes, acho que todos os dias, ecoa em mim uma frase da Drª. Catalina Pestana, a maior pedagoga com quem trabalhei, que diz “é preciso que a Escola tenha tempo para a pessoa que mora em cada aluno”. Eu não tenho esse tempo, a Escola de hoje não tem esse tempo! E sinto-me a falhar. Obrigam-me a falhar. E castigam-me, ameaçam-me, porque sou dos resistentes, dos que, convictos da verdadeira essência da sua profissão e incapazes de se agacharem face à estupidez das leis que este governo produz, não entregaram os objectivos individuais. E os meus objectivos são simples e muito claros: - Ajudar a crescer, no saber e no sentido do Bem, os jovens cidadãos que enchem as minhas turmas; despertar neles o gosto e o respeito pela língua e cultura portuguesas; formar uma geração com sentido crítico, com valores éticos e estéticos, amante da liberdade e respeitadora do próximo! Só. Sem percentagens. Porque não me imagino a fazer isto para 75% dos meus alunos… Vivo, agora, neste ano sem graça de 2009, parafraseando Sophia, tempos de chacais,. E queria, TANTO!, um país diferente… Um país com lugar para as Pessoas, com regras e leis, com verdade e autenticidade, com respeito pelas diferenças, com rigor, com justiça. Um país, com lugar para a ternura das aprendizagens!!

sábado, 21 de março de 2009

ANIVERSÁRIO

19 anos fez, hoje, a minha menina, a minha afilhada, a pequenina Leonor de olhos enormes que adorava as minhas histórias, ia comigo ao café e queria ser um rapaz! Hoje, jovem mulher apaixonada, percebeu a magia de ser mulher e cresce linda, lutando, centrando os olhos negros intensos na febre da vida. Passei o dia pensando nela, dei-lhe um presente embrulhado em muita ternura, ri-me com a sua garra e lembrei-a pequenina, na minha cama, adormecendo no mundo fantástico de cavalos, flores falantes e gnomos barbudos que eu inventava para ela.
Hoje, agora, o meu maior desejo era mesmo que a Leonor, e todas as Leonores como ela, não desaprendesse a magia do sonho, a pureza dos gnomos, o valor da Verdade. Parabéns!

sexta-feira, 20 de março de 2009

A PUNIÇÃO

Já muitas vezes disse que não tenho memória real, consciente, do tempo da ditadura. Há quem diga que por isso sou defensora da democracia cristã, embora eu ache que o sou apenas por uma questão de inteligência e lógica. De qualquer forma, para mim a ditadura era a prática da não-liberdade, a castração de vontades, a opressão, o reinado da injustiça e, por isso, aprendi a rejeitá-la com toda a razão intensa das minhas emoções. É meu costume dizer até que tive a sorte de crescer em democracia. Ora, agora que já parei de crescer, quando pouco falta para assinalar meio século de vida (um ano passa a correr), estou a experimentar os efeitos de uma democracia ditatorial. Infelizmente, não é um paradoxo com fins literários!
Vivo num momento que, um dia, a História classificará como o tempo das nulidades, a era do poder da força, a caça à livre inteligência e opinião. O governo do meu país, um Portugal que cheira a mar e a farrapos de sonho, persegue, penaliza arbitrariamente, premeia a mediocridade, certifica a incompetência, legisla contra os direitos básicos dos cidadãos e pratica a injustiça diariamente. Eu, que perderei talvez o vício de pensar quando morrer, fui penalizada, punida, por ter tido, tal como alguns colegas que recusam a mediocridade, a coragem de não entregar os malditos objectivos individuais. E em causa estava, apenas, fazer copy-paste de umas banalidades de fazer de conta que se avaliavam professores! Por discordar, porque os meus alunos exigem de mim - MERECEM!- um exemplo de efectiva seriedade e honestidade intelectual,recusei a mediocridade e o meu chefe, oficialmente Presidente de Conselho Executivo, entregou-me, hoje, a minha/nossa punição: - dois anos sem progredir na carreira!
Choca-me, obviamente, a estupidez inerente a todo este procedimento apadrinhado pelo Ministério da Educação. Mas, mais do que isso, revolta-me a forma como gente que até conheceu a ditadura desiste da democracia!!Magoa-me, agride-me, que uma elite intelectual, porque os professores são, ou deviam ser?..., uma elite intelectual, ceda a pressões vindas de gente sem escrúpulos, sem razão e sem verdade.
Hoje, lamento o povo português que ainda não aprendeu o valor da Democracia!!

VAZIO

Incrível como o tempo se esvazia, estando cheio. O Dia do Pai é um dia cheio, especial, Dia que vivi de mil formas, tempos de poesias, de longas cartas, de gravatas bem embrulhadas, de jantares com mesa cheia. Hoje, Dia do Pai é dia de doer. Dia de saudades acesas (mais ainda), de memórias tecidas de dor, de coração a estalar de angústia!
O tempo passa, a saudade cresce e a angústia dói!
A partida do Pai deixou uma cratera de dor na minha existência e não passa mais!!