sábado, 27 de outubro de 2012

Orgulho

Quero lá saber que o orgulho seja condenável! Eu tenho orgulho na minha gente, nos lagóias que fazem parte do meu mundo real! Tenho orgulho no Maestro Redondo, no Eustáquio do guitolão, no Grupo de Cantares do Semeador, nas pessoas, tantas, que são Portalegre no seu melhor e que, sem cachets nem jantares grátis, cantam e mostram a sua arte para divulgar a nossa cidade. 
Eu adoro Portalegre, digo-o tantas e tantas vezes..., mas às vezes desespero, só consigo ver abandono e fracasso. Hoje, não foi assim! Hoje, ou seja ontem..., a minha gente encheu-me de alegria orgulhosa. Portalegre é isto: - é gente boa, alegre, agarrada às raízes, capaz de sorrir e continuar cantando quando tudo parece ter perdido a melodia. Perante os estrangeiros, muitos, Portalegre mostrou-se, há pouco, altiva e alegre, honrando a sua história, dignificando as suas tradições. Foi bom ter ouvido elogios à minha gente, foi muito bom ter ouvido dizer que "valeu a pena ter vindo a Portalegre!".
Hoje, uma vez mais, compreendi que, ainda que muitos cães (rafeiros) ladrem por aí, a caravana segue em frente. 
Vou tentar não perder o transporte.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Castanheiro

Mudaram de instalações, os bichos que ali viveram. Durante anos, o grande castanheiro abrigou a raposa matreira, protegeu os coelhos e deu abrigo à coruja assustadora. Ano após ano, sem protestar contra a monotonia, a grande árvore cumpriu os ciclos: - Encheu-se de ouriços, viu caírem as castanhas, cobriu-se de verde, amareleceu. Sempre ali, no mesmo lugar, preso no chão que o alimentou sem cobranças. O Anteu castanheiro viu muita coisa. Calou o que viu. Às vezes, famílias procuravam a sombra para tardes domingueiras, crianças dormiam sestas sob a sua copa, namorados ensaiavam carícias ao abrigo do seu silêncio. 
Hoje, o velho  está morto. Secou, foi varado por um raio, deixou de se vestir de castanho no outono. Mas, mesmo morto, ainda que esburacado e esventrado, continua de pé, firme, no lugar onde nasceu. Em breve, provavelmente, será transformado em lenha. Até lá, tenta aproveitar a chuvinha boa e, impossibilitado de chorar, olha o longe sem crer no futuro.
Olho o meu castanheiro. Choro as lágrimas que não tem agradecendo o poema que me oferece.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Optimismo

No vale encontram-se os verdes, no céu as nuvens anunciam a chuva forte, e eu lembro uma frase recente: "Os professores devem dar aos jovens a hipótese de futuro". Devem, concordo, dar-lhes esperança, alimentar-lhes o sonho e a certeza de amanhã. 
Nos momentos de crise, como o que agora vivemos, alimentar o sonho das crianças e jovens parece-me essencial. A escola, a pública, tem de devolver aos alunos a fé no amanhã, o poder de fazer planos e de alimentar um projecto de vida. 
É verdade que pairam nuvens negras sobre nós. Mas também é verdade que a chuva rega os campos e os torna mais férteis. Não quero deixar-me envolver no negro do céu da minha realidade. Quero ser capaz de me focar na esperança para, assim, alimentar o sonho dos mais jovens!

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Ainda há esperança? Ou há malucos?


Vai acontecer, em Portalegre, o Congresso dos Centros de Formação de Professores. Aparentemente,   é só mais uma iniciativa, diz respeito a um grupo profissional, não interessa à opinião pública em geral. Mas eu acho que não é bem assim... Os professores, uma das classes profissionais mais maltratada e insultada nos últimos anos, são pilares da sociedade e, cada vez mais, dão mais do que recebem. À escola, à pública (claro) pede-se tudo: - Que seja inclusiva, que tenha sucesso, que substitua a família em falência, que contribua para o desenvolvimento da sociedade, que resolva problemas sociais, que viva sem dinheiro. Aos professores exige-se disponibilidade constante, entrega a 100% e até, imagine-se, que aceitem ser enfiados em POTE (ou seja: Plena Ocupação dos Tempos Escolares) num banho em Nuno Crato (porque se fosse Maria até seria saboroso). Em troca, dá-se-lhes nada. Ou, melhor, dá-se-lhes desprezo, humilhação e insultos.
Talvez por ser professora, com certeza por ser cidadã, vejo com muita apreensão o estado da escola pública, olho com descrédito as recentes medidas, e desespero com o facto de até na educação o dinheiro ser o Valor primeiro. Recentemente, e uma vez mais, foram publicados os rankings que, entre outras coisas, provaram que há dois países chamados Portugal: - O país dos ricos e privados, o dos pobres e públicos. Ora, é neste ponto de situação que, em Portalegre, nesta cidade onde é comum dizer-se que nunca acontece nada, se vão reunir cerca de 100 professores diferenciados para pensarem, discutirem, e procurarem a melhoria do processo de formação contínua de professores e, consequentemente, do ensino e aprendizagem. Acho que merece  destaque o facto de ainda haver quem, com tanta contenção e injustiça, se disponha a investir o seu tempo, e o seu dinheiro, em sessões para melhorar profissionalmente! Penso, sinceramente, que o Congresso dos CFAE em Portalegre deve ser encarado como uma luz num quotidiano muito negro.  Afinal, parece que nem todos desistimos de lutar e viver, parece que ainda há quem pense que vale a pena continuar a lutar por um país com mais sentido, com mais qualidade e maior competência!
Para além do valor científico deste Congresso, penso que Portalegre deve estar atento a uma iniciativa que vai trazer gente de fora ( os estrangeiros de Os lagóias e os estrangeiros?), que vai criar movimento, e provocar consumo. Muitas destas pessoas que, agora, nos visitam, vindas de todo o país, incluindo as ilhas, poderão voltar se forem bem acolhidas, se se sentirem bem-vindas! Nos dias 25, 26 e 27 de outubro, Portalegre deve estar atenta a uma oportunidade de se mostrar e de se promover! Se eu mandasse, todos os professores teriam dispensa de aulas para poderem participar. Mas, feliz ou infelizmente, eu não mando nada...

terça-feira, 23 de outubro de 2012

OBRIGATÓRIO OBRIGAR

Há tempos, anos, havia uma frase emblemática e estúpida "Proibido proibir". A frase caíu em desuso, felizmente, e começou-se, muito ao de leve, a assumir que era preciso trabalhar, impor limites às crianças e jovens, recuperar a autoridade e valorizar o rigor. Lentamente, foram caindo por terra as pedagogias do cogumelo, ou seja, a ideia de que os meninos aprendem porque sim, sem esforço, sem trabalho, como se as competências se desenvolvessem por si só, independentemente da matéria onde caíssem, tal como cogumelos que crescem espontaneamente.
Agora, a escolaridade obrigatória é longa e, queiram ou não queiram, os meninos e meninas, os jovens, têm de ficar na escola até aos 18 anos. Aos professores cabe, entre mil tarefas, obrigá-los a obrigatoriamente frequentarem a escola. Infelizmente, não é possível obrigá-los a obrigatoriamente aprenderem... Assim, a escola, que de verdade mesmo não tem solução para aqueles que nem obrigados querem aprender, vê-se obrigada a conservá-los ali, em banho Nuno (Maria seria saboroso), até que o tempo passe e, finalmente livres, cumpram 18 anos! Assim, vão-se gastando tempos, destruindo gerações e entristecendo existências.
Não seria melhor distinguir entre os que querem e os que não querem aprender? Não seria mais honesto para os alunos orientá-los para outras aprendizagens, em vez de insistirmos em inseri-los em lugares onde não pertencerão nunca?
Não sei a resposta. Mas sei que é obrigatório pensar na obrigatoriedade de um ensino que não tem lugar para diferentes opções de formação. E não me falem em cursos profissionais, porque desses é obrigatório fugir!

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Dois Poetas Irmãos

Não é um negrilho. Não a vi em São Martinho de Anta. É um sobreiro, vive na minha Serra, e é um poeta também. Quero crer que Miguel Torga não acharia abusiva a comparação:


A um negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga in Diário VII (1956)

domingo, 21 de outubro de 2012

A Rainha Santa

Está calma, tranquila, mostrando as rosas que foram pão. Foi feita por mãos habilidosas, inspiradas nas lendas que escorrem nos tempos, em Estremoz. Olho-a com admiração. Uma certa inveja, talvez. É a rainha santa, fez milagres, foi mulher e, hoje, é Arte. Gosto dos bonecos de Estremoz, admiro a Arte das irmãs Flor, mas esta imagem é mais do que Arte. Vejo no olhar simples um desafio, uma provocação talvez. A rainha parece querer lembrar-me/nos que, às vezes, é preciso fazer das dificuldades privilégios, é preciso ser capaz de transformar pão em rosas, dando beleza ao concreto e perfumando a realidade.
Lá fora chove mansinho, quase que pedindo o céu desculpa por molhar o mundo. Hoje, sabe-me bem esta chuvinha, o frio honesto, o cheiro do lume que acendi pela primeira vez. Hoje, gostava de poder também fazer um milagre, queria transformar dúvidas em certezas, esperança em realidade.