No escuro da noite ela sente o abraço dele. Não conversam, as palavras quebrariam o cristal frágil da noite morna, mas partilham as angústias de um tempo duro, difícil, que o abraço ilude. Ela sente o peito largo, o abraço forte, o odor intenso do after shave que ele sempre deixa no lavatório, ele reconhece a presença do Pleasures eterno. Ela fecha-se no espaço onde se sente protegida, ele sorri e ajeita o braço. Deviam estar a dormir, mas a insónia acontece mesmo no sonho, e eles deixam-se estar, presentes na ausência, embrulhados no édredon de saudade que faz doer demais. Não há, hoje, anjos curiosos espreitando os sonhos, não há demónios negros tecendo dores a haver. Há, apenas, o abraço desejado, lembrado, preso na esquina do impossível, no lugar mesmo onde espreita o agora. É um abraço sonhado, que se desfaz na bruma da manhã que, em Junho quase, insiste em acordar fria e húmida.
sexta-feira, 31 de maio de 2013
quinta-feira, 30 de maio de 2013
Poetar
Um destes dias, com os meus alunos de 7º ano, resolvemos, aproveitando o facto de se assinalar o Dia Internacional das Ideias, realizar um recital de poesia. Porque, felizmente, a maioria destes alunos ainda acredita em impossíveis, ainda sonha, ainda é capaz de se encantar com a magia das palavras e de se deixar embalar no ritmo dos poemas, o entusiasmo foi muito. Escolhidos os textos, quinze!, aconteceram os ensaios, o acertar de expressão e voz, e, finalmente, chegou a grande manhã. Com algum nervosismo saudável, vi os meus miúdos crescerem dando voz a Gedeão, Vinicius de Moraes, Sophia de Mello Breyner, Ary dos Santos, António Lobo Antunes, entre outros. Gostei de os ver assim, sérios na sua juventude ainda adolescente, a saborear palavras e a descobrir novas formas de ser...
Inventadas por eles foram, também, as frases das t-shirts.
Quando soube que o Prémio Camões fora atribuído a Mia Couto, que bem podia ser o criador do "Poetar" dos meus alunos, não resisti a elogiar os meus miúdos. Todos eles poderiam chegar longe e, por isso mesmo, fico muito infeliz quando encontro desistentes...
Enfim, como dos fracos não reza a história, deixo aqui, num espaço público, os parabéns aos meninos poetas que acreditam (ainda) que Poetar é melhor do que Vadiar!
Inventadas por eles foram, também, as frases das t-shirts.
Quando soube que o Prémio Camões fora atribuído a Mia Couto, que bem podia ser o criador do "Poetar" dos meus alunos, não resisti a elogiar os meus miúdos. Todos eles poderiam chegar longe e, por isso mesmo, fico muito infeliz quando encontro desistentes...
Enfim, como dos fracos não reza a história, deixo aqui, num espaço público, os parabéns aos meninos poetas que acreditam (ainda) que Poetar é melhor do que Vadiar!
quarta-feira, 29 de maio de 2013
Modernices
Quem, como eu, é professor pelo menos há dez anos, compreenderá bem este meu desabafo. De vez em quando, aparecem umas modernices que nos fazem ou sorrir, ou protestar indignadas. Ora eu, quando me falam em psicólogos e novas teorias, fico logo a tremer com medo de mais modernices... De facto, e querendo acreditar que a psicologia é uma área fundamental e, por isso mesmo, os psicólogos profissionais muito competentes e necessários, não consigo acreditar, nem sequer seguir, as mais recentes orientações. Ouvir dizer que um miúdo tagarela e mal educado, insolente, não cumpridor e irresponsável, é sempre um hiperactivo, deixa-me desesperada! Com certeza, haverá crianças hiperactivas. Como, com certeza, existem crianças com defice de atenção e, por isso, dificuldade de concentração. Mas não acredito que seja a maioria! Em vez de psicologias e diagnósticos pomposos, é necessário que se imponham regras e se recupere a autoridade! É urgente que os pais ajam como educadores, e não como amigos mais velhos, e que os professores possam educar e não marcar consultas nos psicólogos.
Peço perdão a quem a esta hora está chocado com o meu conservadorismo mas, e falo com experiência, tenho a certeza que se poupava muito dinheiro e se resolviam muitos problemas. (Os psicólogos que me desculpem...)
Peço perdão a quem a esta hora está chocado com o meu conservadorismo mas, e falo com experiência, tenho a certeza que se poupava muito dinheiro e se resolviam muitos problemas. (Os psicólogos que me desculpem...)
terça-feira, 28 de maio de 2013
O ACORDO
Depois de um dia muito duro, com a cabeça a zunir e um cansaço enorme, olhei desesperada o meu telefone que tocava... Mais trabalho, pensei. Mas fui surpreendida! Do lado de lá anunciavam-me, em festa, que o acordo ortográfico fora suspenso! Foi quase - QUASE - tão bom como se me dissessem que tinha acabado de ganhar o Euromilhões! Sei que só o suspenderam por motivos económicos, mas quero crer que é um passo importante para que o eliminem de vez!
Depois da entrega do Prémio Camões a Mia Couta, escritor que aprecio pela inovação linguística e pelo adocicar dos sentires, esta foi mais uma notícia a fazer sentido no nonsense que, vezes demais, domina a minha existência.
O PARLAMENTO DOS JOVENS
Se me perguntassem quantas vezes acompanhei os alunos da minha escola, vencedores da sessão regional, à Assembleia da República para participarem no Parlamento dos Jovens, não saberia responder. Muitas vezes! Lembro as mais recentes, a ansiedade da Ana, a sua capacidade de argumentação, o estilo do Joel, jovem de Campo Maior com a escola da Juventude Comunista. Lembro, também, o nervoso, a correcção linguística, a cultura, a capacidade de elogiar e chegar a consensos. Lembro ainda, como esquecer?, sessões dolorosas, onde a maioria dos jovens apenas reproduzia os modelos dos adultos. Foram sessões deprimentes!
Este ano, felizmente, verifiquei que voltou a qualidade. Os jovens alunos do Ensino Secundário, vindos de todo o país, apresentaram ideias, discutiram o problema do desemprego com consciência da gravidade do tema, sugerindo medidas viáveis e importantes. O meu João Meira, a minha Maria, falaram com convicção e seriedade, defenderam o combate às assimetrias que caracterizam Portugal e tiveram a coragem de defender uma acção séria no sector primário. Com coragem, ouvi-os perguntar que sentido faz que, em Portalegre, exista uma licenciatura em engenharia aeroespacial (que existe mesmo!).
Este ano, felizmente, verifiquei que voltou a qualidade. Os jovens alunos do Ensino Secundário, vindos de todo o país, apresentaram ideias, discutiram o problema do desemprego com consciência da gravidade do tema, sugerindo medidas viáveis e importantes. O meu João Meira, a minha Maria, falaram com convicção e seriedade, defenderam o combate às assimetrias que caracterizam Portugal e tiveram a coragem de defender uma acção séria no sector primário. Com coragem, ouvi-os perguntar que sentido faz que, em Portalegre, exista uma licenciatura em engenharia aeroespacial (que existe mesmo!).
Talvez fizesse bem a alguns (ou a todos) os elementos que dirigem o Ministério da Educação assistirem ao trabalho que estes alunos desenvolvem nas comissões primeiro, em plenário depois. Talvez fosse importante verem que os professores estão por ali, à sua custa, acompanhando, ensinando, apoiando, trabalhando 24 horas por dia porque é preciso dormir fora de casa, acompanhar os jovens sempre, como amigos mais velhos, partilhando sonhos e provocando construções de futuro...
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Chão do Loureiro
A opção para um domingo em Lisboa fora a Feira do Livro. Um olhar pelas novidades, uma caminhada num dia ventoso, o revisitar do parque Eduardo VII. Mas as alergias, os espirros constantes, a garra a sufocá-la, depressa lhe impuseram o regresso ao automóvel. Surgiu então a lembrança da esplanada sobre Lisboa, uma entre muitas, ali mesmo por trás do Largo do Caldas, com a vantagem de um parque de estacionamento colorido e a cheirar bem. Passou junto às obras sempre inacabadas do Cais das Colunas, protestou sozinha contra o empedrado mal feito que fazia sacudir o seu automóvel, imaginou o terror que teria sido o Terramoto de 1755 - barcos levados nas ondas até ao Rossio?! -, alegrou-se com os dois enormes navios de luxo que vomitavam passageiros endinheirados, e subiu ao Chão do Loureiro. Sorriu da antítese de se ver subir ao chão, arrumou o carro e encheu os olhos da luz de Lisboa.
Lá em baixo o Tejo, calmo, prateado, salpicado de velas, de enormes navios também. Ao fundo, o Cristo Rei, sempre protector na sua imobilidade estática, e ali mesmo em frente, ao alcance da câmara do seu telemóvel, o Convento do Carmo. Encheu a alma de cor, os pulmões de ar húmido, o olhar de luz e pediu uma caipirinha. A solidão fazia-lhe boa companhia, pensou, cerrando os olhos para não deixar entrar a saudade.
domingo, 26 de maio de 2013
Sim, é possível
Sim, é possível matar o futuro fazendo dele passado. Sim, é possível adiar o hoje, aos pontapés, lançando-o para o meio da bruma de um qualquer dia que nunca acontecerá. Sim, é possível desmantelar o amor e, com as letras magoadas, escrever adiamento e solidão. Sim, é possível desfazer a confiança, a certeza do hoje, em espumas de tsunamis existenciais. Sim, é possível salgar o doce do abraço que faz de dois um só, e corroê-lo. Sim, é possível dar um nó no coração, trancar o acesso à paz e alimentar o ódio.
Tudo é possível aos homens, ao ser humano que olha demais para si, para o umbigo e para o chão, esquecendo-se de contemplar o céu onde, depois da chuva, e até após tempestades violentas, o sol brilha confiante.
Não, não é possível reescrever passados. Não, não é possível adiar para ontem. Não, não é possível fazer o tempo parar...
E, se calhar, se olhassemos para os impossíveis, talvez conseguissemos evitar, travar!, os possíveis que fazem os quotidianos.
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