Esta recente mudança de hora, incomoda-me. Não gosto de chegar a casa de noite, não gosto de me levantar com o dia acordado. Claro que de nada importam ao mundo as minhas preferências, nem sequer as minhas manias, mas gostava de saber quais são, de verdade, as vantagens desta mudança de hora. Penso que os homens, com a mania de mandar e controlar tudo, decidiram também mandar nas horas e, no fundo, tenho uma certa inveja deste poder. Quem me dera poder mandar nas horas e controlar o tempo... Momentos de ternura, carinho e compreensão, teriam horas de três mil e noventa e sete minutos; vivências de dor e injustiça, teriam horas de dezassete segundos; as aulas com os meus meninos durariam duzentos minutos e as outras, as de conflitos e (des)aprendizagens, far-se-iam de segundos (e mesmo esses, apressados...) E as reuniões? Ah, essas, às vezes, teriam horas com minutos negativos...
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
Bruma
Há dias como a vida, cobertos por uma bruma difícil de desvendar. Surge um véu, húmido e transparente, e a gente fica ali, entre o chão e o céu, hesitando entre o objectivo e o sonho. Em baixo está a vida, a real e exigente, a que se faz de possíveis, em cima o sonho sonhado, o a haver desejado e, tantas vezes, impossível de atingir. Às vezes, o sol rasga as nuvens; outras vezes, vem mesmo grande borrasca...
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Bafio
Olha-me com os enormes olhos negros e afirma: - eu hei-de ser do PS para sempre! Sorrio. Tem apenas doze anos, a vida inteira para mudar, para crescer, para evoluir. Nele encontro o eco da família o que, reconheço, faz sentido. O que me incomoda é, apenas, a atitude de recusa de pensar. "Vou ser para sempre..." Recusando a possibilidade de se questionar, de surgirem novas propostas, de adquirir novos saberes, de desenvolver outras competências. A propósito desta declaração sonora, a cheirar a definitiva, penso na recusa dos alunos em aprender. Chegam-nos, bem jovens, formatados e recusando a mudança que me parecia dever ser a sua opção. Como alguém disse "Nasci demasiado tarde, num mundo demasiado antigo..."
Apetecia-me, hoje, ser capaz de abrir as cabeças muito quadradas de muitos alunos, e de muitos adultos, para deixar correr uma aragem de frescura e disponibilidade. Quem cristaliza, quem chega a conclusões e não evolui, quem recusa ceder ao pasmo de cada dia, cria bolor social. E a sociedade, hoje, parece-me terrivelmente bafienta...
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
EMIGRAR
A mala aberta e desordenada em cima da cama reflectia a desordem dos seus sentimentos. A decisão fora pensada, consciente, mas a chegada, o choque com uma realidade desconhecida, fazia-a tremer. Bem fresca na memória quente tinha ainda Sintra, a praia da Adraga, a sua Lisboa espraiada frente ao Tejo, os amigos e os adeus recentes. Agora, da janela do hotel provisório, via miséria, sujo no chão, ondas de calor, um mar castanho, pastoso e estranhamente calmo. No silêncio do quarto ouvia gritos, pregões, vendo correr crianças meio-nuas por entre o trânsito caótico. Era Luanda a recebê-la, vinda de um país que a rejeitava, disposta a dar-lhe uma nova oportunidade. Tinha medo. Medo físico, mas medo emocional também. Era tudo tão diferente... Os cheiros intensos, as cores, o céu. Era a África, que conhecia de narrativas românticas, a revelar-se num realismo doloroso. Mas fora a escolha dos dois. Portugal não tinha nada para oferecer, o desemprego crescia e eles queriam trabalhar, viver, ter vida e existência para além da angústia do final do mês.
Agora, a vida era a dois, sem amigos, sem família. Só os dois! Tanto e, talvez, tão pouco.
domingo, 27 de outubro de 2013
Romantismo
O espaço parece arrancado a páginas de Dumas ou Musset. As paredes estão revestidas de tecido, os sofás são acolhedores, os abat-jours proliferam enchendo de luz dourada a sala quase vazia. Um solitário lê o jornal, ao lado de uma bebida bojuda. Eles entram, de braço dado e sorrindo. Não trazem nada nas mãos, mas trazem os olhos carregados de futuro a haver. Ela repara nos pormenores, lembra leituras juvenis, ele contesta, sorrindo, apenas para conversar, sugerindo Balzac e o realismo. Ela contrapõe Eça, afinal Sintra é o cenário, e ele cede com um Porto para tréguas. Foi romantismo vivido, a dois, como, afinal, deve ser sempre.
sábado, 26 de outubro de 2013
REGRESSO
Voltei a entrar na Faculdade de Letras. Confesso que é um espaço que me traz poucas boas memórias, vivi naqueles corredores graffitados e sujos anos pouco felizes, mas quando volto, sempre para formação, sou assaltada por um tempo que já não é. A Faculdade de Letras continua suja e fria, como se cultura tivesse de ser pretensa originalidade. Desta vez, voltei ao Anfiteatro 3 para ouvir falar das metas que contesto. Mais teoria, mais desadequação à realidade, mais tempo perdido. Como dizia José Régio "Não sei por onde vou//Sei que não vou por aí!" - Não vou pelo caminho da mediocridade, não é isso que quero para os meus alunos!
sexta-feira, 25 de outubro de 2013
MARMELADA
A cozinha enchia-se de caixas, havia um cheiro intenso no ar, a minha avó vestia um enorme avental e a empregada ficava com os dedos calejados. O chão da cozinha estava escorregadio, nas janelas escorriam lágrimas de chuva. Os dias acinzentavam-se, a noite chegava mais cedo e começava a época da lareira. Começava, também, a minha estação preferida! Eram os marmelos, que caíam dos velhos marmeleiros gordos e pesados, que anunciavam a chegada do Outono da minha infância. A minha mãe orgulhava-se da sua marmelada, bem clarinha, capaz de desenformar logo às 24 horas, e eu adorava comê-la com maçãs de Bravo de Esmolfe. São paladares vividos que nunca esquecerei! Podem roubar-me o ordenado, destruir-me o quotidiano, estilhaçarem-me os sonhos, mas as memórias, essas são o meu património mais rico. São mesmo minhas! E são o que me vale quando os dias doem demais, quando a ternura foge e a solidão se instala.
Ontem, dia de muita chuva a doer por dentro, a marmelada fez-me voltar às memórias.
Foi-me oferecida embrulhada em carinho, num tupperware dos antigos, com recomendações e desculpas.
Ontem, dia de muita chuva a doer por dentro, a marmelada fez-me voltar às memórias.
Era uma gracinha, diziam os olhos brilhantes, os gestos rápidos, a voz despachada da minha aluna Patrícia. Para a professora pôr no seu blog... E eu tirei a marmelada da caixinha, reparei como estava brilhante, e saboreei-a com deleite. A marmelada oferecida adoçou a minha tarde, interrompeu a minha solidão e coloriu o negro que me envolve.
Agora, vou devolver a caixinha e fazer render a marmelada. É que, cada vez mais, a existência (a minha) se faz de muitos amargos sensaborões...
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