quinta-feira, 18 de junho de 2009

Trovoadas

A minha cidade está coberta por um denso cobertor quente de nuvens ruidosas. Ronrona constantemente o ar, choram grossas lágrimas a tentar, sem êxito, enganar o calor doentio que me faz estoirar a cabeça. Lembro o Régio, "Lá vem o vento suão, traz febre, esfarela os ossos, e atira aos desesperados a corda com que se enforcam na trave de algum desvão". Hoje, não há vento. Mas a vontade de morte, a desesperança, a febre que esfarela ossos, sinto-as correr-me nas veias. Apetecia-me uma chuvada dilúvica e purificadora. Apetecia-me água honesta, intensa e escorrida, deixando-me capaz de descobrir o sorriso de Deus que quero crer que exista.
Hoje, tenho garras que me sufocam por dentro, medos vários, e uma vontade absurda de desaparecer (não sofrer, como o poeta). Hoje, é um dia triste e cansado a fazer difícil cumprir esta coisa que dizem ser viver.
Hoje, desejo com força a chegada do amanhã!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Hipocrisia

Escandalosa e ofensivamente fácil, o exame de Português do 12º ano. Sttau Monteiro, o Felizmente, há luar!, a liberdade, o fingimento poético em Pessoa... E os alunos a, por antinomia, dizerem que a dúvida foi identificar o sentido da expressão "fino como um coral"!!! O que pretende o Ministério da Educação com estes exames? Certificar a ignorância? Nivelar pela mediocridade? Apresentar estatísticas de sucessos completamente falsos? Não percebo. Ou não quero perceber...
Queria poder confiar no meu país, dormir descansada por saber que a próxima geração seria muito melhor do que a minha, mas tenho pesadelos ao ver a nulidade que impera! Estes jovens não merecem o país que têm, não merecem a nulidade a que os condenam!
O exame de Português do 12º ano confirma a pior das opiniões que tenho sobre o ME: - É formado por uma equipa sem qualidade, sem conhecimentos, sem objectivos sérios e honestos. Esta gente está a fazer o que, penso, de mais grave se pode fazer a um indivíduo: - Está a impedir o crescimento científico e cultural!! Está a inverter a pirâmide do conhecimento e a equiparar os piores aos que poderiam, de facto, ser melhores.
Frequentemente, tenho vergonha de ser professora. Hoje, tenho dolorosa vergonha de ser portuguesa.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Exame

Amanhã acontece o exame de Português do 12º ano. Milhares de cabeças estão, a esta hora, ansiosas e baralhando conhecimentos; milhares de corações saltam de nervoso! eu, responsável também pelo êxito dos meus meninos, já sei que vou enfrentar uma longa noite de insónia... Vou pensar no João que nunca apareceu para tirar dúvidas, na Filipa bailarina que só vi uma vez, no Miguel que tem a mania de brincar com coisas sérias, no Manel que tem dias de disparate total, na Margarida que foi tia hoje e amanhã vai estar a pensar nos gémeos recém-nascidos, na Joana que está sempre na lua, no Tiago que só responde a metade do que se pede, nas Anas ansiosas, na Mariana que se perde em pormenores, na Patrícia que quer dizer tudo, na Cátia que não lê com atenção as perguntas, no Ricardo que escreve bem demais para o que o exame exige, no Eduardo que deixa passar o tempo perdido em pensamentos e rascunhos, no Fábio que redige intermináveis períodos, na Maria que amontoa tudo e escreve como quem conversa, na minha querida Ana Maria que não confia na sua competência, na Catarina que desconhece a ortografia, na..., no... em todos os meus miúdos a quem desejo o maior dos sucessos pela vida fora! Hoje, agora, com cheiro intenso a terra molhada lá fora, a terra a dizer-se viva e fértil, não consigo deixar de pensar que, apesar da importãncia do exame, me darão maior desgosto se forem más pessoas do que se forem maus alunos...
Boa sorte, miúdos!!

domingo, 14 de junho de 2009

O Rei!!

Era um jantar de homenagem a um AMIGO especial. Tens de ir, disseram-me, tens de falar sobre o que escreveste. E eu, que cada dia mais me fecho no meu canto, lá fui. Sábado de imenso calor, missa que era para ser pela intenção dos homenageados mas que, afinal, não foi. Porque a Igreja também está em crise? porque não há porque? Porque, na desculpa esfarrapada, não há missas por intenção de defuntos ao domingo que, na Igreja, começa ao sábado.Imagino S. Pedro, no céu, a riscar no calendário: - Morreste no Domingo, entra lá que não tens cunha!... Depois da missa, o jantar. O novo hotel da minha cidade, um mamarracho de cores escuras, vista para a zona industrial, pó nos acessos por acabar e o calor a continuar. Os monárquicos à espera do rei, ou do duque que o quer ser, ou de uma ideia oca...
Sentei-me olhando. Senhores da minha terra a falarem da monarquia que eu rejeito, senhoras pomposas a aguardar o momento da vénia a sua alteza real (as minúsculas são intencionais) e, a morrer de sede e calor, lá entrámos para a sala, pequena e sem janelas, onde o dito dom Duarte nos aguardava. O jantar começou. Comida intragável!! Menú ridículo e desajustado, papos de anjo duros como calhaus, café de feijão torrado. Eu desesperava! O calor, na sala, alternava com um ar concionado fortíssimo que me fazia tremer. No fim, o discurso do duque. Que os países nórdicos têm o sucesso que têm porque são Monarquias!!! Que os republicanos são gente estúpida! Era a gota de água que faltava para fazer transbordar o meu copo!!! Não aplaudi o "viva o rei de Portugal!" gritado por vozes mais histéricas que convictas, e saí assim que pude.
Este meu país, este meu Portugal, consegue ser tão ridículo nos ideais como nas práticas!! Monarquia?? Cruzes!! Mal por mal, antes esta república das bananas...

quinta-feira, 11 de junho de 2009

MILHÕES DE VERGONHA!

Mais de 90 milhões de euros por uma transferência de um jogador de futebol. E milhares de crianças morrem à fome. Mais de 93 milhões por um miúdo com pés mágicos. E não há vacinas em muitos países africanos...
Não percebo o mundo que integro! Não consigo compreender assimetrias desta imensidão.
Num mundo cada vez mais pequeno, a tal aldeia global, creio que o provincianismo (no que de pior tem!) ganha destaque! Não tenho nada contra o Cristiano, até gosto de o ver jogar e desejo-lhe toda a felicidade do mundo, gosto que seja português!! Mas, hoje, ao ser confrontada com vinte minutos na abertura dos telejornais em torno da sua transferência para o Real Madrid, não pude evitar a sensação de revolta a fazer-me acelerar o coração. Não pode estar certo, não pode fazer sentido. O mundo parece ter definitivamente enlouquecido e eu tenho medo... Um medo feito revolta angustiada, receio de um amanhã que me apavora.
Também hoje, tentando ajudar a Ana e a Alexandra a prepararem o exame de Português, falei de Humanismo, de Valores éticos, da consciência da dimensão Humana. Falei, com entusiasmo, de sonhos escritos, de originalidade, da Arte transfigurando a realidade. E, agora, sinto-me perdida, temendo a noite misteriosa por duvidar que seja possível, ainda, carregar no ventre escuro um amanhã com sentido...

quarta-feira, 10 de junho de 2009

As Reflexões do Poeta

Olha do alto o país que o comemora e surpreende-se. Não o incomodam as porcarias que os pombos doentes lhe deixam em cima, ignora a pressa de quem nem o olha, acolhe com tolerância os cansaços que procuram a sua sombra sem lhe pedir autorização. Nada disso, por muito que seja, é suficiente para lhe perturbar a paz de pedra, a intemporalidade da permanência ou a segurança do lugar.
O que o incomoda, violentamente, é a memória de um povo que já o não é, que esqueceu a Razão, desvalorizou a experiência, menosprezou a essência, manchou a história e faz a realidade de desvalores despidos de sentido. Incomodam-no os discursos gastos, as condecorações abusivas que o fazem gritar do mutismo da pedra: "Mais vale merecê-los sem os ter, que tê-los sem os merecer". É o seu dia! E sorri com tristeza. O seu dia...feito de tudo o que despreza, recheado de factos que o fazem desejar, agora, nunca ter conseguido libertar-se da "lei da Morte". Ele, o Poeta - como lhe chamam, esse mesmo que apavora alunos e ainda encanta os resistentes leitores, relembra os seus versos e interroga-se sobre o efeito dos mesmos. Sim, cantou o Amor "Amor é fogo que arde", mas hoje a chama parece vir de isqueiros eléctricos, sem autenticidade, sem calor sequer. Sim, cantou a saudade da amada "Alma minha gentil que te partiste, tão cedo desta vida descontente", mas hoje os afectos são de reduzida duração. Sim, enalteceu a experiência "Mais vale experimentá-lo que julgá-lo", mas, hoje, todos julgam sem saber de que falam, porque falam ou como falam. Sim, elogiou os portugueses "Eu canto o peito ilustre lusitano", mas, hoje, o lusitano não tem peito, só bolso. Sem fundo, sem limite, bolso apenas!!
Triste, indiferente ao Hino que sabe ser cantado em Santarém, olha o Tejo. Não há ninfas já. Olha melhor, quer sentir que tem de ser possível..., mas apenas vê garrafas de coca-cola vogando, pernas mais ou menos musculadas correndo nas margens e presenças ausentes de sentido luso.
É o seu Dia! Também o de Portugal e o das Comunidades. E a pedra gasta e suja disfarça a vergonha que o faz corar de revolta. Porque será que nem as palavras têm sentido, que tudo lhe parece tão intensamente triste e vazio?
Vendo passar um abraço forte, um olhar lascivo num corpo despido, sente a dor de não poder chorar. Ele, ele mesmo que cantou o sofrimento intenso do Gigante ousado que se fez promontório, revolta-se, agora, face à ligeireza da palavra que tão fortemente lhe ocupa os sentidos. Mas, é o seu Dia! E, com a frieza da pedra que o imortaliza, pede aos Homens a mudança. Que volte a Portugal a Razão, a Verdade, a Nobreza e o Amor. Que este país que o festeja consiga, depressa!!, recuperar algo da sua essência... E volta a olhar Tejo, cantando:"Ó glória de mandar, ó vã cobiça//Desta vaidade, a quem chamamos Fama"

domingo, 7 de junho de 2009

Eleições Europeias

O PS perdeu as eleições!!! VIVA!!! Até que enfim!!! Hoje vou, de certeza, dormir melhor.
O meu CDS/PP ficou atrás dos comunas que abomino, dos esquerdosos que receio. Mas nem isso me tira o sono porque a derrota do PS encheu-me de esperança de mudança.
Até já gosto mais (um bocadinho...) da Drª. Manuela!!!