segunda-feira, 22 de junho de 2009

DIA COMPRIDO

Foi comprido este 22 de Junho 09. Lisboa, mudanças, almoço a correr, reunião com encarregados de educação, passeio a pé com o Tango para bica retemperadora.
Fez-se de contrastes, desde a groselha caseira que levei para a familia de Lisboa, provincianismo assumido, às horas de condução solitária conversando com os meus botões e ouvindo Kizomba - agora deu-me para aqui -, até à ida ao velho Salão Frio para a bica derradeira. Pelo meio, uma mãe furiosa, danada com os professores, considerando que o seu menino foi perseguido. A minha surpresa atónita. Julgava passada esta febre proteccionista das mamãs... Um rapaz de 15 anos que só tem positiva a educação física e a mãe a dizer que é perseguido??? Ainda me espanto. Pelo absurdo mas, e sobretudo, pela desresponsabilização dos jovens.
Quase me alivia pensar que daqui a vinte anos não vou existir para ver uma sociedade de seres acáfalos e irresponsáveis... Quase. Não completamente porque os meus netos vão estar por aí...

sábado, 20 de junho de 2009

Manel Bernardo

O meu neto é o Manel Bernardo. Vejo-o já a correr no quintal, a mexer nos cães, a molhar-se na fonte, a sujar a cozinha e a aprender a dizer palavras difíceis. Vejo-o a ouvir as minhas histórias, atentamente como a mãe fazia,confrontando-me com as alterações que nunca resisto a fazer.
O Manel Bernardo vai dar-me um novo estatuto e eu ando feliz por isso!
Lembro-me de me sentar, bem miúda, na janela do quarto do sótão pensando que, se um dia tivesse netos, havia de lhes ensinar as cores do arco-íris e o aproveitar do momento rápido em que o mundo, diariamente, pára para respirar fundo. O tempo passou num instante e, em breve, vou mesmo poder mostrar ao Manel os baloiços quietos, o vento recolhido, as folhas imóveis no final de um dia de Verão.
Queria ser capaz de ensinar ao Manel Bernardo os segredos da cumplicidade, da ternura, do amor verdadeiro. Queria poder garantir-lhe um mundo bem diferente do meu, hoje.
Queria, mais que tudo, que o Manel e todos os meus netos fossem imensamente felizes!!!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

ABSURDO SUPERADO!!!

Quando me começo a convencer que pior é impossível, que o absurdo se realizou, a actualidade surpreende-me! Hoje, uma vez mais, assisti ao superar do absurdo. À estupidez certificada, à aberração feita norma! Hoje, numa interminável reunião de quatro horas de ignorância, vivi o impensável. Hoje, fui chamada a uma tarefa que ultrapassa o escandaloso! Hoje, disseram-me que todos os alunos vão ter de obter bons resultados no exame de 12º ano de português, porque me disseram que o erro era correcto, que há que ler o que não se escreveu, que é preciso desligar a forma do conteúdo. Em PORTUGUÊS!! Ou seja, se eu disser "dois eu tenho cão" a frase está, em termos de conteúdo correcta (??!!!)só a forma é que não é adequada... Perante um erro evidente, a identificação de um recurso estilístico que o não é, foi-me dito, textualmente: "O aluno identifica. Identifica é mal, mas identifica. Tem cotação." O que se passa com esta gente, com este país, com este governo?? O que o ME está a fazer é crime! Ninguém tem (ou devia ter) o direito de premiar a ignorância e ratificar o erro.
Os resultados dos exames vão ser bons, o governo e a maldita ministra vão concluir que o sucesso aumentou mas, de facto, a realidade é bem diferente...
Penso nos meus alunos. Coitados... O que eu os fiz trabalhar, como lhes exigi qualidade, como os penalizei pela expressão confusa, como lhes dei notas baixas por não saberem redigir!! Ao pé do que vi hoje, os meus alunos de sete e oito mereciam, no mínimo, dezassete ou dezoito!!
Experimento uma revolta que dói, irrita e dilacera. Dói-me a cabeça, sinto-me ultrajada. Queria poder fazer algo mais do que contar da minha mágoa. Queria ter poder para denunciar ao mundo as atrocidades culturais que o Portugal de José Sousa comete!! (Obviamente, usar o nome de um Filósofo, num caso destes, é desajustado)

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Trovoadas

A minha cidade está coberta por um denso cobertor quente de nuvens ruidosas. Ronrona constantemente o ar, choram grossas lágrimas a tentar, sem êxito, enganar o calor doentio que me faz estoirar a cabeça. Lembro o Régio, "Lá vem o vento suão, traz febre, esfarela os ossos, e atira aos desesperados a corda com que se enforcam na trave de algum desvão". Hoje, não há vento. Mas a vontade de morte, a desesperança, a febre que esfarela ossos, sinto-as correr-me nas veias. Apetecia-me uma chuvada dilúvica e purificadora. Apetecia-me água honesta, intensa e escorrida, deixando-me capaz de descobrir o sorriso de Deus que quero crer que exista.
Hoje, tenho garras que me sufocam por dentro, medos vários, e uma vontade absurda de desaparecer (não sofrer, como o poeta). Hoje, é um dia triste e cansado a fazer difícil cumprir esta coisa que dizem ser viver.
Hoje, desejo com força a chegada do amanhã!!

terça-feira, 16 de junho de 2009

Hipocrisia

Escandalosa e ofensivamente fácil, o exame de Português do 12º ano. Sttau Monteiro, o Felizmente, há luar!, a liberdade, o fingimento poético em Pessoa... E os alunos a, por antinomia, dizerem que a dúvida foi identificar o sentido da expressão "fino como um coral"!!! O que pretende o Ministério da Educação com estes exames? Certificar a ignorância? Nivelar pela mediocridade? Apresentar estatísticas de sucessos completamente falsos? Não percebo. Ou não quero perceber...
Queria poder confiar no meu país, dormir descansada por saber que a próxima geração seria muito melhor do que a minha, mas tenho pesadelos ao ver a nulidade que impera! Estes jovens não merecem o país que têm, não merecem a nulidade a que os condenam!
O exame de Português do 12º ano confirma a pior das opiniões que tenho sobre o ME: - É formado por uma equipa sem qualidade, sem conhecimentos, sem objectivos sérios e honestos. Esta gente está a fazer o que, penso, de mais grave se pode fazer a um indivíduo: - Está a impedir o crescimento científico e cultural!! Está a inverter a pirâmide do conhecimento e a equiparar os piores aos que poderiam, de facto, ser melhores.
Frequentemente, tenho vergonha de ser professora. Hoje, tenho dolorosa vergonha de ser portuguesa.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

O Exame

Amanhã acontece o exame de Português do 12º ano. Milhares de cabeças estão, a esta hora, ansiosas e baralhando conhecimentos; milhares de corações saltam de nervoso! eu, responsável também pelo êxito dos meus meninos, já sei que vou enfrentar uma longa noite de insónia... Vou pensar no João que nunca apareceu para tirar dúvidas, na Filipa bailarina que só vi uma vez, no Miguel que tem a mania de brincar com coisas sérias, no Manel que tem dias de disparate total, na Margarida que foi tia hoje e amanhã vai estar a pensar nos gémeos recém-nascidos, na Joana que está sempre na lua, no Tiago que só responde a metade do que se pede, nas Anas ansiosas, na Mariana que se perde em pormenores, na Patrícia que quer dizer tudo, na Cátia que não lê com atenção as perguntas, no Ricardo que escreve bem demais para o que o exame exige, no Eduardo que deixa passar o tempo perdido em pensamentos e rascunhos, no Fábio que redige intermináveis períodos, na Maria que amontoa tudo e escreve como quem conversa, na minha querida Ana Maria que não confia na sua competência, na Catarina que desconhece a ortografia, na..., no... em todos os meus miúdos a quem desejo o maior dos sucessos pela vida fora! Hoje, agora, com cheiro intenso a terra molhada lá fora, a terra a dizer-se viva e fértil, não consigo deixar de pensar que, apesar da importãncia do exame, me darão maior desgosto se forem más pessoas do que se forem maus alunos...
Boa sorte, miúdos!!

domingo, 14 de junho de 2009

O Rei!!

Era um jantar de homenagem a um AMIGO especial. Tens de ir, disseram-me, tens de falar sobre o que escreveste. E eu, que cada dia mais me fecho no meu canto, lá fui. Sábado de imenso calor, missa que era para ser pela intenção dos homenageados mas que, afinal, não foi. Porque a Igreja também está em crise? porque não há porque? Porque, na desculpa esfarrapada, não há missas por intenção de defuntos ao domingo que, na Igreja, começa ao sábado.Imagino S. Pedro, no céu, a riscar no calendário: - Morreste no Domingo, entra lá que não tens cunha!... Depois da missa, o jantar. O novo hotel da minha cidade, um mamarracho de cores escuras, vista para a zona industrial, pó nos acessos por acabar e o calor a continuar. Os monárquicos à espera do rei, ou do duque que o quer ser, ou de uma ideia oca...
Sentei-me olhando. Senhores da minha terra a falarem da monarquia que eu rejeito, senhoras pomposas a aguardar o momento da vénia a sua alteza real (as minúsculas são intencionais) e, a morrer de sede e calor, lá entrámos para a sala, pequena e sem janelas, onde o dito dom Duarte nos aguardava. O jantar começou. Comida intragável!! Menú ridículo e desajustado, papos de anjo duros como calhaus, café de feijão torrado. Eu desesperava! O calor, na sala, alternava com um ar concionado fortíssimo que me fazia tremer. No fim, o discurso do duque. Que os países nórdicos têm o sucesso que têm porque são Monarquias!!! Que os republicanos são gente estúpida! Era a gota de água que faltava para fazer transbordar o meu copo!!! Não aplaudi o "viva o rei de Portugal!" gritado por vozes mais histéricas que convictas, e saí assim que pude.
Este meu país, este meu Portugal, consegue ser tão ridículo nos ideais como nas práticas!! Monarquia?? Cruzes!! Mal por mal, antes esta república das bananas...