Olhava o portão fechado, os camiões estacionados e a tranca de correntes nas portas largas por onde tantas vezes entrara. Trinta anos! Entrara jovem, ufano da carta de condução profissional recém adquirida, disposto a atravessar a Europa na distribuição dos produtos. Tantas viagens, tantas noites escuras, longas, ao volante do grande camião. Casara e partira, sempre sob os protestos da mulher, aprendendo a solidão por companhia. Falava até francês, um pouco de alemão também, e orgulhava-se de nunca, em três décadas, ter tido um acidente, uma multa sequer. Os filhos tinham crescido sem que desse por isso, dois tinham casado já, e a mulher, em silêncio muitas vezes, recriminava-o pela ausência constante. Hoje, lamentava as muitas viagens, as partidas, as horas dormidas na cabine do camião. Para quê? Tudo terminara subitamente. Sem que percebesse porquê a empresa fechara, os camiões estacionaram e ele tornou-se um número mais no desemprego. Não tinha idade para recomeçar outra vida, tinha 55 anos, mas não se sentia um inválido a viver de um mísero subsídio. E agora? Olhava as manifestações do 1º de Maio, ouvia as palavras de ordem e doía-lhe a desordem do seu viver. O que fizera para merecer estar ali, inactivo, fugindo às perguntas da mulher. A culpa era do governo? Sim, devia ser. Mas talvez fosse também da Europa, e, achava ele, de todas as pessoas. Dos tais europeus que, nas suas idas e vindas, encontrava cada vez mais tristes, mais desalentados, mais acomodados a políticas que só olhavam números esquecendo pessoas. As horas passavam. Deveria voltar a casa, almoçar com a mulher, repensar a vida. Mas não tinha vontade. Vontade mesmo, tinha de trabalhar, de ouvir o motor do camião e de se pôr a caminho. De produzir. De ser uma pessoa. Um trabalhador de facto!