segunda-feira, 7 de maio de 2012

Dia de Anos

Era um bebé calmo, sorridente, com olhos que colava aos meus seguindo-me por onde eu me movia. Bem pequenina, gostava de ver televisão esticada no sofá, sabia de cor os filmes da Disney, tinha fúrias que a deixavam brava quando as coisas não lhe corriam de feição. Um pisco a comer, a minha filha Joana sugeria-me que enviasse os restos da comida dela para os meninos com fome, sempre que eu lhe lembrava que enquanto ela desperdiçava havia quem nada tivesse....
Hoje, a Joana faz 27 anos, é minha colega na aventura de ensinar e prepara o casamento. Vejo-a cheia de sonhos e peço à vida que lhe seja mansa e suave.
Parabéns, Joana!

domingo, 6 de maio de 2012

O EU

Era uma rua larga, uma avenida talvez, e ela caminhava sem rumo. Melhor, ela tinha um rumo, um rumo colectivo - a felicidade -, mas desconhecia onde estava e, por isso, caminhava levada por passos alheios, por presenças estranhas, na cidade grande onde sobrevivia. Repetia aquele caminho há anos, sete? dez?, nem sabia já. Era o caminho para o emprego, notária de referência, para o lugar onde esgotava as horas entre a eficiência de que se orgulhava e as conversas de circunstância, formais, correctas e frias. Enrolou-se no casaco sentindo a chuvinha húmida e tardia, fora de tempo, como ela que se sentia fora do Tempo. Mentalmente, reviu a vida, a sua. Viera de longe, de uma aldeia insignificante para lá do Douro, das terras do demo, cheia de sonhos e ambições. Estudara, casara,  vira crescer os filhos e partir o marido. Restava-lhe, agora,  ela mesma e, às vezes, o nosso eu é incrivelmente pouco... 

sábado, 5 de maio de 2012

Estórias

Terminavam sempre as histórias infantis com e foram felizes para sempre, depois do principe casar com a princesa. Como o para sempre das crianças é imediato e breve, fechava-se tranquilamente a capa do livro e os meninos  e meninas adormeciam, tranquilos, seguros na felicidade eterna das suas personagens. Mas os meninos cresceram, as meninas tornaram-se mulheres e, de repente, o para sempre deixou de acontecer. Quando se é feliz para sempre? Onde ficou a magia tranquila e pacificadora das estórias infantis? Onde está o tal principe encantado, esbelto, corajoso, lindo, bem cheiroso e, impossível?!, atento às necessidades da sua princesa? Algures, nas páginas dos velhos livros que lia às minhas meninas, ficou muita da minha fé na humanidade. Hoje, vendo as crianças encantarem-se com seres verdes e robotizados que vivem noutros planetas, são violentos, têm (assumidamente...) antenas na cabeça e trocam as refeições por pílulas coloridas (não Pintarolas nem Smarties), apetece-me reinventar o viveram felizes para sempre. Ao menos às crianças, que se não apague o sonho!

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Envelhecer

É um processo inevitável e doloroso, envelhecer. Envelhece-se diariamente, vendo chegar rugas, falhar as forças, diminuir a resistência. Envelhece-se quando as memórias são muitas já e tudo nos parece passado... Há só, penso eu, duas formas de envelhecer: - Aceitando ou lutando. Se a última me parece ridícula porque inevitavelmente condenada ao fracasso, a primeira pode ter, sinto eu, muito de positivo. Vejo-me a envelhecer e, simultaneamente, vejo-me a adquirir alguns privilégios: - Já não preciso de fingir que compreendo o incompreensível, já não tenho de desempenhar papéis sociais que exijam aplausos alheios e posso, hélas!, gozar o prazer de ser quem sou, de me rir de mim própria e de poder fazer (relativamente, confesso) o que me apetece. Para além disso, tenho um património de memórias que fazem inveja aos mais novos! Envelheço, eu, sem medo as rugas, sem inveja de quem festeja 30 anos, feliz por poder dizer "nada que eu não tenha já feito"...A única mágoa de envelhecer, para mim, é a ausência de pessoas que partiram. Ausência que dói sempre, MUITO, e que nenhum processo químico ou emocional pode travar.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sombras

A chuva faz música na minha janela, o vento assobia e esta orquestra não me deixa dormir. Saio da cama e fico no escuro olhando as sombras, as presenças que, com luz, não percebo. Olho as molduras e vêm momentos bons, as crianças eternas, as estadias em lugares mágicos. Gosto das muitas fotografias que ocupam cada espaço fazendo, por vezes, cair os livros ou escassear o lugar para arrumar as chaves e o telemóvel. Gosto da possibilidade de eternizar momentos de felicidade que são cada vez mais raros e rápidos. Na sombra, só a luz amarelada do candeeiro da rua ilumina a minha insónia, sinto chegarem pensares e sentires. Afasto os sentires de doer, escancaro a insónia aos sentires ternos e cúmplices. Deixo a palavra cúmplice enrolar-se-me na boca, escorrer pelo coração e envolver-me numa quentura gostosa. Saboreio-a, enrolo-me nela e apetece-me aplaudir a orquestra que, lá fora, insiste em acompanhar a minha noite. Vejo, então, chegarem as ausências. Vêm de mansinho, sentam-se a meu lado e lamento não ter acendido a lareira quando um arrepio me percorre. Peço colo às sombras visitantes e conto de sonhos, de farrapos, de espumas, de saudades, de medos, de possíveis, de impossíveis também.
Quando acordo, gelada, um novo dia está a nascer e as sombras partiram já. Na minha sala há, apenas, vestígios de uma orquestra cansada que, agora, murmura os últimos acordes. Em mim, há muito mais. Há os indizíveis, sempre.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Escola Viva

Decididamente, e apesar dos inúmeros pesares do meu quotidiano, é na minha profissão que eu me sinto feliz.  É bom estar na escola, na minha escola!, quando as aprendizagens acontecem. E as aprendizagens acontecem quando os alunos agem, aprendem mesmo e criam. Os meus alunos, alguns, encantam-me e seduzem-me.
Esta semana vive-se na minha escola a semana das línguas e o movimento é intenso. Painéis, mostras de trabalhos (os meus meninos de 12º fizeram youtubes fantásticos!) dramatizações, danças e, a finalizar, um Jantar Queirosiano. O trabalho é muito, mas o entusiasmo e o brilho no olhar dos miúdos justifica tudo. Cada vez mais acredito que há possíveis. Só falta, por vezes,  a vontade de os concretizar...

terça-feira, 1 de maio de 2012

O Trabalhador

Olhava o portão fechado, os camiões estacionados e a tranca de correntes nas portas largas por onde tantas vezes entrara. Trinta anos! Entrara jovem, ufano da carta de condução profissional recém adquirida, disposto a atravessar a Europa na distribuição dos produtos. Tantas viagens, tantas noites escuras, longas, ao volante do grande camião. Casara e partira, sempre sob os protestos da mulher, aprendendo a solidão por companhia. Falava até francês, um pouco de alemão também, e orgulhava-se de nunca, em três décadas, ter tido um acidente, uma multa sequer. Os filhos tinham crescido sem que desse por isso, dois tinham casado já, e a mulher, em silêncio muitas vezes, recriminava-o pela ausência constante. Hoje, lamentava as muitas viagens, as partidas, as horas dormidas na cabine do camião. Para quê? Tudo terminara subitamente. Sem que percebesse porquê a empresa fechara, os camiões estacionaram e ele tornou-se um número mais no desemprego. Não tinha idade para recomeçar outra vida, tinha 55 anos, mas não se sentia um inválido a viver de um mísero subsídio. E agora? Olhava as manifestações do 1º de Maio, ouvia as palavras de ordem e doía-lhe a desordem do seu viver. O que fizera para merecer estar ali, inactivo, fugindo às perguntas da mulher. A culpa era do governo?  Sim, devia ser. Mas talvez fosse também da Europa, e, achava ele, de todas as pessoas. Dos tais europeus que, nas suas idas e vindas, encontrava cada vez mais tristes, mais desalentados, mais acomodados a políticas que só olhavam números esquecendo pessoas. As horas passavam. Deveria voltar a casa, almoçar com a mulher, repensar a vida. Mas não tinha vontade. Vontade mesmo, tinha de trabalhar, de ouvir o motor do camião e de se pôr a caminho. De produzir. De ser uma pessoa. Um trabalhador de facto!