segunda-feira, 9 de julho de 2012

Em lista de espera

Se há coisa que me irrita, e há!, são os gravadores que repetem, entre uma música roufenha, a frase "a sua chamada encontra-se em lista de espera, por favor aguarde!". Por principio, ou por idade?, não gosto de máquinas falantes; mas de máquinas ordenantes, fujo. Pior, é que já me aconteceu ficar em lista de espera, pendurada de um telefone, ouvindo a mesma música repetidamente, mais de 40 minutos. Acabei por desistir, voltei a ligar, e voltei a ficar em lista de espera... Quando, finalmente, uma senhora me atendeu, já me tinha esquecido do lugar para onde ligara.
Pensava, dantes, que as máquinas serviam para facilitar a vida aos homens. Concluí, sem dúvidas, que os homens são tão geniais que até inventam máquinas para lhes complicar a existência! Ele há coisas que nem ao diabo lembram...

domingo, 8 de julho de 2012

Na rua principal

Na rua principal, na avenida, bem cedo, antes mesmo de chegarem os jornais diários, o cego chega e instala-se. Nasceu antes do politicamente correcto, por isso é cego e não invisual. Deve ter nascido também antes dos apoios sociais, porque vive das esmolas de quem passa. O cego senta-se numa cadeira de praia, será que alguma vez foi à praia?, e põe no colo um rádio grande, um daqueles tijolos que, às vezes, estragam tardes de Verão na Costa da Caparica. A sintonia é sempre a mesma, ou serão cassettes?, porque a música alterna entre o fado e o pimba. O cego fica sentado, se Inverno sob um guarda-chuva preto, se Verão sob um guarda-sol de riscas. O cego não diz nada mais do que "obrigado" se calha ouvir cair uma moeda na sua caixa de cadeado. Mais à frente, na mesma avenida principal, deita-se um coxo. Amputaram-lhe a perna esquerda e ele mostra o coto, sujo, as calças cortadas e a camisa nojenta. Foi à guerra. Junto dele, um cão tinhoso, de olhar húmido e triste, pelo destratado e uma lata com água. Se cai uma moeda, o coxo diz "Deus lhe pague" e, acho eu, o cão late baixinho. Ao fundo da mesma avenida principal, com lojas e cafés dos dois lados, fica uma repartição de finanças onde, sempre de coração apertado, as pessoas, aí designadas de contribuintes, entram de olhar fechado.
É neste país que eu vivo. São estas as realidades do meu quotidiano e são muitas, tantas-tantas, as dúvidas revoltadas que me atacam. Contribuo, afinal, para quê? Onde está a segurança social, onde ficam os apoios a quem precisa, porque é que o cego tem de esperar a moeda caridosa e o amputado a esmola envergonhada? Julgo que até o cão faminto compreenderá a angústia e, só para mim, pergunto-me como é possível que haja ordenados de 26 mil euros mensais numa televisão do estado, como podem os nossos deputados dormir descansados, enquanto há portugueses que vivem, expondo a dor, numa rua da cidade.

sábado, 7 de julho de 2012

Não é Cansaço

Não, não é cansaço...

Não, não é cansaço...
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar.
É um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo...
Não, cansaço não é...
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.

                     Álvaro de Campos

sexta-feira, 6 de julho de 2012

E agora?

Olhava, incrédula, a pauta. 16. E agora? Sentia o sonho desfazer-se e a angústia crescer. Medicina era o seu sonho. Sempre o fora. em criança adorava as pastas de médico, e lembrava-se de a mãe se indignar ao encontrar as bonecas cheias de tintura e pensos rápidos. Para entrar em medicina, estudara sempre e deixara para trás muitas coisas. Ouvia no coração as palavras da profesora de português de 12º ano, "o difícil da escolha é sempre o que se rejeita!", e ela rejeitara saídas, passeios, idas à praia com amigos, para poder estudar, para estar segura da matéria, para poder, um dia, ser a médica que ambicionava. Lembrava-se do fim do namoro, a incompreensão dele, a incapacidade de compreender que, para ela, a entrada em medicina era a primeira das prioridades! Concluira com média de 19 o ensino secundário, integrara sempre o quadro de excel^ncia da sua escola e, agora, tudo ruía. 16 a português e 14 a matemática faziam-na pensar que teria, talvez, a sorte de ingressar no curso de farmácia. Mas ela queria tanto ser médica... O ruído no hall da escola era intenso. Colegas protestavam, choravam, outros festejavam o dez que lhes permitia, diziam, ingressar directamente no desemprego... Ela calava-se. O sentimento de impotência era avassalador. Doze anos de escola, doze anos de trabalho e esforço e, agora, a desilusão. Sentindo-a triste, a professora colocou-lhe o braço sobre os ombros e, numa cumplicidade efectiva, lembrou a hipótese de Espanha. Tão perto, com acesso possível à desejada medicina... Mas ela só via problemas e dificuldades. Sim, os exames eram importantes, ela também os defendia, mas a injustiça prevalecia. Errara onde? Não adivinhara os critérios de correcção?! Uma prova só podia deitar por terra doze anos, escaqueirar sonhos e esfrangalhar futuros? Em Portugal, podia.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

O trabalho

Muitas vezes, brincando, digo que trabalho é castigo. Que a culpa foi da serpente, da curiosidade da Eva e da fraqueza de Adão porque, se assim não fosse, ainda viveriamos num paraíso sem necessidade de trabalhar. Mas, obviamente, esta brincadeira só acontece mesmo como anedota, quando o bem estar é muito e as férias sabem deliciosamente. A verdade é que, sem piadas à mistura, o trabalho é fundamental e devia ser um valor importante nas sociedades desenvolvidas. Trabalhar é, também, uma forma de liberdade e, vendo o desemprego crescente, angustia-me e revolta-me ver como o trabalho escasseia, tornando, invariavelmente, seres humanos em escravos de necessidades básicas. Como se não bastasse a falta de trabalho, vem agora o governo português, num projecto que considero obsceno, desvalorizar - MAIS AINDA - o trabalho. Propor pagar 3 ou 4 euros, por hora, a enfermeiros, pagar 5 euros, por hora, a professores, contratar médicos tendo como critério a oferta mais barata, é assinar a decadência total da sociedade. Ao pé deste governo, a serpente do Eden é um bichinho inofensivo... Ela só sugeriu a tentação! O nosso governo vai mais longe: -  legisla e impõe, desvaloriza profissões e diz, afirmando não dizer, que o trabalho, ainda que qualificado, nada vale. Não se aperceberão estes senhores da economia que desvalorizando o trabalho estão fomentando a falta de qualidade, de empenhamento e de desenvolvimento do país?!  Onde fica a dignidade profissional? Um país que não protege nem incentiva os seus profissionais não pode ter futuro!

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Pela janela

Abre a janela à noite estrelada e deixa entrar o sonho. Não faz alarde, não traz bips nem se anuncia com jazz. Chega só, e instala-se. Ela sente-o chegar, não o vê, mas dá-lhe espaço na insónia. Repara que as estrelas continuam lá, longe, presas no céu imenso que lhe parece negro.
Olha o sonho com simpatia, afinal, é o seu mais fiel companheiro, e pede-lhe que desfie impossíveis. Ele acomoda-se e fala de memórias - incrível como a memória do Momento o purifica -, fala-lhe de imagens perdidas, de conversas terminadas. Ela pede futuro e o sonho, triste, parte de mansinho.
Fica a insónia, só. E ela. E as estrelas, luzes de caminhos.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Em cima do joelho...

Senhor Ministro Nuno Crato,
Será que lê blogues? Será que tem alguém que lhos leia? Não sei. Mas, considerando o desprezo que tem mostrado pelas novas tecnologias, imagino que nem saiba o que é isso... De qualquer forma, e porque com a crise não quero gastar dinheiro em selos, vou usar o meu blog para lhe dizer o que penso.
Fui uma acérrima defensora sua. Li o "Eduquês" e identifiquei-me, de forma geral, com tudo o que dizia. Quando o soube ministro, enchi-me de esperança! Acreditei que, finalmente!, havia na educação quem soubesse da "coisa" e não meros políticos a prazo. Fui acompanhando a sua acção e gostei de ver como, pensava eu, trabalhava calmamente, pensando, planificando, procurando a mudança sem causar tormentas. Afinal, foi mera ilusão minha! O senhor ministro não tem de facto uma noção real sobre a Educação, o senhor ministro tem é uma série de frases feitas e saberes anquilosados sobre Educação... Hoje, à escola não pode caber, apenas, a transmissão de conhecimentos e a avaliação não pode resumir-se à realização e classificação de exames! Os exames, senhor ministro, não são a salvação da educação!
Mais exames, sim, senhor ministro. Mas, também, mais educação, mais espaço para as artes, mais espaço para "a pessoa que mora em cada aluno", mais espaço para a leitura, para a escrita, para a oralidade. Senhor ministro, faz falta espaço para formar pessoas e não, apenas, para classificar e etiquetar aprendentes. Avaliar tem de implicar ajudar a superar erros e dificuldades.
Senhor Dr. Nuno Crato não consigo, também, concordar com a sua ideia de turmas por níveis. Estaremos a iniciar a discriminação logo aos seis anos? Teremos as turmas dos bons e as dos burros? Como será que se reconhece um adolescente que é integrado na turma de nível dito reduzido? Tem noção, senhor doutor, que os alunos são pessoas e que, muitas vezes, há alunos fracos que evoluem muitíssimo na relação com os seus pares? Sabe, senhor doutor, que ensino individualizado pode acontecer numa turma e não em grupos de diferenças? O senhor ministro tem filhos, decerto de "nível superior", imagine o que seria se lhes dissessem que seriam integrados nas "turmas dos burros"... Senhor ministro, mais exames, sem dúvida que sim. Mas, sobretudo, mais e melhor educação. Mais tempo para os professores estarem com os alunos, mais tempos para desenvolvimento de actividades de enriquecimento pessoal e, com certeza, mais saberes!
Senhor ministro, sou professora há 30 anos. Já tive sonhos, já desanimei, já desesperei, já ousei, já organizei viagens, colóquios, actividades, intercâmbios, experiências. Neste momento, senhor doutor Nuno Crato, peço apenas que me deixem trabalhar e que não surjam mais propostas em cima do joelho...
Com as mais sofridas considerações,
Luísa Moreira