A igreja está aquecida e iluminada. Velas em copinhos de vidro fazem fila junto aos bancos, o altar está carregado de luzes tremelicantes e o silêncio tranquiliza. Senta-se junto ao grande aquecimento, felizmente ligado, e fica olhando. É Dia de Reis, dia em que a Luz fez sentido, iluminou caminhos e permitiu encontros. Para ela, é tempo de procura e angústia. Ouve no silêncio a voz de um poeta desconhecido "Se o Menino nasceu em Belém, e não no teu coração, ainda que nasça mil vezes, nascerá sempre em vão". Crê que há algum exagero, nunca a Luz surge em vão, mas teme que não O tenha no seu coração. Sente a falta de paz, de segurança, de certeza e amparo.
Fecha os olhos e reza como sabe, na conversa boa com quem nunca a recrimina e sempre parece compreendê-la. A voz constipada do senhor padre devolve-lhe a realidade. Ele reza, fala, e ela ouve-se a fazer coro na oração decorada que pouco lhe diz. Senta-se, levanta-se, ajoelha, mas cala dentro de si a oração a dois. Para os Magos, três ou mil, houve um dia uma luz a abrir caminho e para ela, ousa pedir, terá de haver também...Por isso, pede ao Menino, tão brilhante na imagem do Presépio, que a ilumine. Que faça brilhar uma luz na escuridão que a envolve, que faça com que a estrela que parece murcha volte a brilhar com força!