segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Patriotismo?!

Vi nas notícias que Ronaldo não ganhou a bola de ouro, que Mourinho não foi o melhor treinador do mundo. E eu, que não gosto de futebol e que nunca sequer vi um jogo inteiro, fiquei muito triste e irritada.
Não podem roubar-nos tudo!
Será patriotismo, isto que sinto?!

A CARTA IRRESPONSÁVEL

Escrevo-te uma carta mais. A carta que não queres ler, as palavras que já conheces, as frases com sentidos múltiplos. É uma carta apenas, feita de passado e presente, com a certeza de um futuro que, porque o é sempre, nunca acontece. Escrevo-te só porque sim. Porque me apetece, porque gosto de arrumar as letras tecendo sentidos - que alguma coisa faça sentido, hoje...- cortando, neste género epistolar, as paredes escuras da solidão.
Claro que podia telefonar, mandar um sms, enviar um smile (que mais não é do que um sorriso idiota) ou até, simplesmente, ignorar-te. É isso! Devia, talvez, ignorar-te, não te dar a importância que confere o estatuto de receptor, deixar-te aí, longe, no lugar onde nada acontece apenas porque tudo pode acontecer. Mas não quero fazê-lo. Apetece-me, já disse, escrever-te para te dizer o que os lábios calam, o coração tranca e o cérebro grita. Vou enviar a carta pelo correio. Vou comprar um selo, sem sê-lo, e colocar nas mãos alheias a responsabilidade de te levar as palavras que não queres. Afinal, é socialmente aceite atribuir responsabilidades a outrem...

domingo, 6 de janeiro de 2013

Epifania

A igreja está aquecida e iluminada. Velas em copinhos de vidro fazem fila junto aos bancos, o altar está carregado de luzes tremelicantes e o silêncio tranquiliza. Senta-se junto ao grande aquecimento, felizmente ligado, e fica olhando. É Dia de Reis, dia em que a Luz fez sentido, iluminou caminhos e permitiu encontros. Para ela, é tempo de procura e angústia. Ouve no silêncio a voz de um poeta desconhecido "Se o Menino nasceu em Belém, e não no teu coração, ainda que nasça mil vezes, nascerá sempre em vão". Crê que há algum exagero, nunca a Luz surge em vão, mas teme que não O tenha no seu coração. Sente a falta de paz, de segurança, de certeza e amparo.
Fecha os olhos e reza como sabe, na conversa boa com quem nunca a recrimina e sempre parece compreendê-la. A voz constipada do senhor padre devolve-lhe a realidade. Ele reza, fala, e ela ouve-se a fazer coro na oração decorada que pouco lhe diz. Senta-se, levanta-se, ajoelha, mas cala dentro de si a oração a dois. Para os Magos, três ou mil, houve um dia uma luz a abrir caminho e para ela, ousa pedir, terá de haver também...Por isso, pede ao Menino, tão brilhante na imagem do Presépio, que a ilumine. Que faça brilhar uma luz na escuridão que a envolve, que faça com que a estrela que parece murcha volte a brilhar com força!

sábado, 5 de janeiro de 2013

Todos os Sonhos do Mundo

Fechou o portão, fechou a porta e o postigo, acendeu a lareira e ficou ali. Se vivia, se estava desfeita, se arrumava sonhos, se juntava destroços, se desfiava desilusões, se refazia projectos, nem ela sabia. Sentia um vazio imenso, uma cratera de um vulcão extinto, e a vontade de reagir era pouca.
Tinha um ar cansado, diziam-lhe. E ela sentia-se exausta, sem forças mais para acusações ou culpas, sem energia para colocar a máscara e continuar existinto. Ali, no seu canto, sentia ter perdido o mapa dos sonhos, tendo chegado a um ponto que, mais que final, era parágrafo. Um dia, quando?, acreditara. Tinha, então, nela, todos os sonhos do mundo - como o Poeta. Agora, restava frio e destroços.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Calendarizar

Recomeçam as aulas, abre-se o calendário e fazem-se planos e projectos. Calendariza-se a vida, como se fosse possível controlá-la, organizá-la, fazê-la cumprir-se dentro das nossas conveniências. Abro de novo o calendário escolar, conto os dias, marco as datas das avaliações sumativas, (os testes obrigatórios de que tanto discordo), agendo as provas de oralidade formal, os dias de entrega de portefólios e selecciono, com cuidado, os textos que quero ler com os meus miúdos. A meu lado, o programa e as competências, os descritores de desempenho, os conteúdos.
Conheço bem o programa, gosto dele, mas parece-me, agora, muita coisa que se faz pouca. Precisava de um calendário maior, de aulas onde houvesse tempo para sorrir e descobrir, para experimentar o sonho, para ousar a diferença no estilo e na lingua. Com especial atenção penso nos meus alunos de 7º ano. Para eles, a diferença ainda pode acontecer. TEM de acontecer... E elaboro a lista de temas orais. Quero que pensem, que cresçam, mas, sobretudo, quero que aprendam a ser melhores pessoas. Se o conseguirei?! Não sei. Mas tenho esperança. Confio neles e em mim!

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Visitas

Bateu à porta de mansinho, sentou-se no sofá antigo e ficou olhando. Olhei-a, e não ousei fazer perguntas. Conheço-a tão bem... Vinha vestida de negro e verde, a tristeza da partida, a esperança da mudança. Falou-me baixinho de noites longas e frias, de baloiços a tocar as nuvens, de abraços ternos e reais. Eu ouvi apenas, deixando as lágrimas correr em liberdade. Quando quis partir, pedi-lhe que ficasse.
Porque a saudade é uma boa companhia.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

DECISÕES

De bem intencionados, dizem, está o inferno cheio. Deve ser verdade, porque há sempre um abismo entre o que projectamos fazer e o que, realmente, concretizamos. No Primeiro Dia do Ano, entre banhos gelados, acidentes de automóvel, imagens do ano que terminou e muitos temores, há quem escreva as decisões para os próximos 365 dias. Eu gosto de o fazer embora, com a idade ..., o faça já segura que será apenas mais um dos mil papelinhos a desarrumar as minhas gavetas. (Um dia, ainda hei-de escrever sobre o fundo da minha gaveta).
Este ano, apesar dos muitos pesares que a crise impõe, também tomei grandes decisões! Algumas são secretas, outras socialmente correctas, outras ainda profissionalmente escandalosas. De todas, destaco uma: - Vou viver cada dia como uma oferta de Deus e, por isso, vou fazer tudo - MAS TUDO - para ser feliz (embora não saiba bem o que é isso)!