sábado, 9 de março de 2013

SINTRA

A propósito de Eça, todos os anos os alunos vão a Sintra.
Saimos cedo, passamos ao largo da Porcalhota e Sintra recebe-nos, sempre, com o roamantismo que a carateriza. Por ali seguimos as pisadas de Carlos da Maia, as surpresas de Cruges e os poemas lânguidos de Alencar. Os miúdos ouvem, olham e eu (ingenuamente?) acredito que aprendem... Porque acredito, cada vez mais, que aprender não é decorar, não é reproduzir modelos. Aprender é olhar com curiosidade, é construir e reformular, é criticar e recriar. Sintra provoca os sentidos, encomprida o olhar, propõe leituras e exige atitudes de SER.
Ah! como eu gosto de, assim, ajudar os meus alunos a crescer!

sexta-feira, 8 de março de 2013

Mulher

Acordou cedo de uma noite de insónia. Tomou o duche rápido, sentou-se com calma frente ao espelho e massajou o corpo com força, primeiro o rosto depois toda a pele, numa carícia que a aquecia. Vestida já, entrou na cozinha, cortou o pão em fatias largas, preparou os cereais dos miúdos, abriu um pouco a janela e sorriu à chuva que caía musical.
Ligou o rádio e a voz quente do locutor deu-lhe os parabéns. Era o seu dia! O Dia da Mulher! Ouviu os miúdos no quarto, brigando já, e ralhou desinteressada, rotina apenas. Era o dia que o mundo lhe dedicava... Estranha homenagem. Um mundo injusto, feroz, incapaz de praticar o que dizia. Um dia para a Mulher, ao mesmo tempo que retiravam direitos e apoios às mães, que lhe reduziam drasticamente o vencimento, que a penalizavam fiscalmente por ser divorciada! Dia da Mulher. Feito por homens ocos de sentido e verdade, por falsidade e hipocrisia. Sim, ela iria sair, jantar com amigas, conversar um pouco. Deixaria o jantar pronto para os miúdos, seria uma noite diferente. Mas não seria a noite que queria...
O que queria, no Dia da Mulher, era mesmo vestir um vestido preto, calçar uns saltos altos e dançar na segurança de um abraço total.
Sonhos. De mulher e num dia qualquer...

quinta-feira, 7 de março de 2013

URGÊNCIAS



Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade, in "Até Amanhã"

E a mim, apetece-me acrescentar: - É urgente viver!
 

quarta-feira, 6 de março de 2013

Tempo para se aborrecerem

Um grande psicólogo e pedagogo do Reino Unido defende agora a tese de que é importante para as crianças e jovens terem tempo para se aborrecerem. Diz ele, fundamentando a sua tese em estudos científicos validados, que a fobia de ocupar constantemente as crianças, de correr com elas da natação apra a dança, do futebol para a música, do ballet para o judo, dos grupos de leitura para as oficinas de expressão dramática, não lhes permitindo ficarem, simplesmente, sem fazer nada, é péssimo para a sua formação como Pessoas.
Eu não podia estar mais de acordo! Sempre achei  que a paranóia social de encher o tempo dos miúdos de actividades não podia dar bom resultado.
Portugal, provavelmente, levará ainda muito tempo a adoptar esta proposta inovadora e, assim, lá continuarão as nossas crianças a crescer como robots, sem tempo para se aborrecerem e, consequentemente, sem tempo para se recriarem e reinventarem! Vejo os alunos das nossas escolas com aulas das oito e meia às seis, mais explicações, mais actividades, mais aulas de apoio, mais aulas de substituição, mais projectos de recuperação, e tremo. Tenho pena dos miúdos portugueses de hoje! Estes meninos precisam que os deixem aborrecer-se, ocupar algum tempo só com conversas de amigos ou, até, ficando a olhar para o ar sem nada fazer.
Daqui a uns anos, vamos ter uma geração que não pensa, não escolhe, não decide. Uma geração que apenas sabe cumprir horários e arranjar forma de boicotar a vida que tem e não escolheu... Pessoalmente, acredito que muita da violência escolar decorre, exactamente, do excesso de ocupação dos alunos. É urgente revermos o que estamos a fazer com os nossos miúdos!
Mas é urgente tanta coisa...

terça-feira, 5 de março de 2013

Vale a pena?

Está aí, de novo, a avaliação de professores. A pergunta imediata, quando se fala de avaliação de desempenho docente, é "para quê?", a outra é "como?". Procuro as respostas no vazio imenso (excepção enorme para o tempo que passo com os alunos) do meu quotidiano profissional. Começo pelo como, porque honestamente, a resposta ao para quê parece-me óbvia...
Uma vez mais, vamos ter aulas assistidas, vamos fazer teatrinhos e preencher mil grelhas com muitos quadradinhos e cruzinhas (tudo com muitos dimuitivos mesmo). Vamos escrever relatórios, vamos preencher formulários. Depois, nós avaliados, arrumamos os documentos, trocamos de escola e vamos avaliar os colegas do lado. Pasamos, num passe de mágica, de avaliados a avaliadores. No fim, propomos uma classificação e, se houver cotas, serão ratificadas as nossas propostas.
Para se avaliar um professor, diz o Ministério, basta fazer um dia de formação -  para aprender como fazer as cruzes sem sair dos quadradinhos -!
Mais uma vez, os alunos ficam de fora, não há especialistas em avaliação, misturam-se didácticas e conhecimentos científicos. Podia ser grave, esta pseudo-avaliação.
Mas, feliz ou infelizmente, é apenas ridícula porque não se traduzirá em nada! Este país de mentira continua apostado em brincar ao parece que é, mas não é!

segunda-feira, 4 de março de 2013

Este viver possível

Regressa-se metade. Vive-se em partes que, muitas vezes, são antagónicas. Está-se onde não se quer, sofre-se a ausência de onde se quer estar. Trabalha-se porque tem de ser, educa-se porque a ternura é o caminho. Come-se o que sabe mal, evita-se o que sabe bem. O que é bom é pecado, (ou faz mal), o que faz bem sabe a inócuo. Sem tempo para escutar boa música, ouvem-se notícias terríveis. As lágrimas adoçam a existência, os sorrisos saem amargos. É a vida. A possível, hoje.

domingo, 3 de março de 2013

Diferenças

Bem no alto do edifício, fica o lugar eleito para um bom café. Deveria ser chá, afinal estamos em Inglaterra, mas não negamos as origens e arriscamos no café. Chega quente, cheiroso, mas fraquinho. Sabe-me bem, ainda assim. Aqueço as mãos geladas na chávena de loiça pintada e olho, lá fora, as colinas de Surrey. É um país um pouco meu, este onde crescem os meus netos mais velhos. Olho as gentes, o gosto pelo que é deles, o cuidado com que garantem, bem escrito em todas as embalagens, que aqueles iogurtes vieram de uma quinta de uma familia inglesa de agricultores. Gosto da forma como se orgulham do que são, como protegem o que lhes dá identidade, da forma como enchem a rua principal, semanalmente, de produtos verdadeiros e que continuam produzindo com o que julgo ser amor verdadeiro. Não quero alinhar na máxima de que "a galinha da minha vizinha é melhor do que a minha"... Mas, de verdade, e embora também por terras de sua Majestade  se viva a crise, não vi por lá ASAE, nem outras desgraças que tais...