sexta-feira, 7 de junho de 2013

BICHO RUIM

Devia estar calor, os areais deveriam estar cheios de corpos coloridos, o mar devia estar morno e os baldinhos de cor deveriam construir castelos, piscinas e covas traiçoeiras. Mas nada é assim! O céu continua cinzento, a praia está vazia, o mar está tranquilamente gelado e os passeios podem, felizmente, acontecer em sossego. Gosto do tempo assim, gosto da praia de inverno, da ausência de gritos e de bolas a saltar. Gosto tanto do vazio natural, cheio de pureza autêntica, que chego a pensar, cada vez com mais frequência..., que o mundo seria perfeito se não existissem homens! Que bicho ruim é o ser humano...

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Fogo Fátuo

Na noite brilham as estrelas na água. Ela olha, fica sentada no parapeito, esgotando o silêncio, hesitando entre a contemplação do brilho e a intensidade do negro. Se pudesse mergulhar ali, e egoisticamente encontrar o fim, talvez encontrasse a paz. Mas há o brilho, o reflexo de luzes que a encantam e lhe prometem a força da vida! Vêm do céu, as luzes. Ela sente frio, a camisa de dormir de cambraia não a aquece. Mas hoje, agora, o frio não vem do vento nocturno, vem de dentro dela mesma, soprando de mansinho, agitando os sentires e despertando-lhe memórias, sonhos desfeitos, futuros eternamente adiados. Está escuro, mas ela não tem medo, conhece de cor o lugar onde nasceu, e caminha descalça enganando a insónia. Tudo nela é turbilhão, uma montanha de nadas que se tornaram, apenas, no fundamental. Está cansada de certezas alheias, de culpas e insinuações, de conselhos e verdades que lhe ficam dramaticamente curtas. A vida, a dela, é como a piscina onde, de noite, as estrelas brilham. Fogo fátuo, de coisa nenhuma!

quarta-feira, 5 de junho de 2013

GREVE

Os professores preparam-se para fazer greve. Lutamos contra quase tudo mas, sobretudo, contra a extinção da escola pública, contra a falta de respeito pela classe docente. Ser professor é dedicar mais de 24 horas por dia à profissão. Levamos para casa os problemas dos alunos, limpamos lágrimas, ralhamos, remamos contra a corrente, desesperamos, corrigimos trabalhos, preparamos aulas, fazemos formação, vamos a reuniões, acompanhamos projectos, pagamos para sair com os alunos, etc, etc... Ser professor não é, nem pode ser, cumprir o tempo de sala de aula e ir para casa, mas a sociedade em geral, e o Ministério da Educação em Portugal, parecem não saber isso! O meu Pai, médico, dizia às vezes, mais ou menos a brincar, que o trabalho do professor era bem mais importante do que o do clínico porque, para este, a vítima seria singular e, para o professor, a vítima poderia ser uma geração! Sem entrar em exageros, creio que não há justificação para os atentados cometidos contra os professores e, por iso, até compreendo a greve feita às avaliações e aos exames. Não podemos continuar a permitir tudo!
No entanto, eu não vou fazer greve... E apenas porque acho que os alunos não o merecem. Penso naqueles que trabalharam mesmo, que estão a sonhar com a Universidade, que querem organizar a sua vida e falta-me a coragem para fazer greve. Claro que sei que as greves só têm eficácia se interferirem na vida das pessoas, mas ainda assim não farei greve. Sinceramente, acho que tem de haver outras formas de luta! E se decidissemos não atribuir notas inferiores a dez?... É só uma ideia...

terça-feira, 4 de junho de 2013

AMAR

Helena Sacadura Cabral lançou há pouco tempo mais um livro, O Amor é difícil.  É uma obra de escrita fácil, muito feminina, tecida de experiências próprias e ficcionadas que se vão cruzando aos olhos dos leitores. De facto, o amor é mesmo muito difícil! É exigente, impõe entrega, cedência, obriga a colocar o tu antes do eu e essa inversão da gramática dói que se farta. Costuma dizer-se que dantes, num tempo perdido, amar era mais fácil. Eu não acredito! Acredito que as pessoas se acomodassem, que desistissem de obter mais e melhor, que se anulassem, mas isso não é amor. Hoje, o amor exige muito mais exactamente porque a liberdade existe e o eu é, muitas vezes, o umbigo do mundo. Ainda assim, eu acredito que há grandes amores. Acredito que há pessoas capazes de se preocuparem com o "tu", de se entregarem exclusivamente, se mimarem, de ouvirem, de guardarem os julgamentos e as condenações no fundo de uma arca sem fundo!

 Eu sei que há, algures, quem saiba ouvir e perdoar, abraçar e enxugar lágrimas limpando as pedras do caminho. Se a vida é como um rio, e por isso não se repete nem recua, eu sei que há-de existir um remoinho de amor antes de se chegar ao oceano final!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

AVÓ

Só quem é avó de coração, avó mesmo, pode saber o fascínio que é abraçar um neto, contar uma história, sentá-lo no colo para falar de estrelinhas mágicas, da família que nos olha lá de cima, das nuvens de algodão, dos segredos que os cães contam e do atrevimento dos melros. Ser avó é mergulhar numa entrega total, numa ternura sem fim, num abraço constante! Rimos de asneiras que, aos filhos, reprimiriamos, ajoelhamos para sermos cavalos, reinventamos as fadas, vestimos de cores alegres as bruxas que já não podem assustar.
Ser avó não é, como diz o povo, ser mãe duas vezes. É ser mãe antes de o ser, é ser mãe com a tranquilidade que o tempo foi conferindo na passagem por muitas curvas e acidentes de vida!
Os meus netos, três, são a minha razão de sorrir. Os meus netos fazem-me acreditar que há um sentido na vida e que, se morresse agora, morreria com a certeza de ter experimentado o total do Amor e entrega!

domingo, 2 de junho de 2013

ZERAR

Há expressões que os brasileiros utilizam, naquele seu jeito de falar português com açúcar, que me fascinam. Acho que comecei a descobri-las muito pequena, entre lágrimas choradas nas páginas do Meu Pé de Laranja Lima, lido entre os lençóis,  de lanterna, na voracidade de saber o que ia acontecer ao Zézé, ao seu Portuga e ao voraz Mangaratiba. Depois, como professora, aprendi a relacionar a língua com a cultura, com a realidade de cada falante, e cada palavra nova descoberta no português do Brasil  chegava-me carregada de sabores e sentires, de cores e vivências. O romance As Confissões de Frei Abóbora foi, de certeza, uma das obras que mais me marcou. E marca... Volto frequentemente a ele, à Pô e ao índio de olhos claros e pele branca, à ternura, à intensidade da paixão, ao TOUJOURS, ao fazer amor como duas ternuras se alisando.
Hoje, descobri uma nova palavra, ainda por cima um verbo!, que queria poder fazer minha: - ZERAR
Que bom podia zerar a vida, colocar no zero o conta quilómetros da tristeza, da dor, da desilusão, e recomeçar o percurso da minha existência com um depósito bem atestado de confiança, certeza, alegria, TOUJOURS!

sábado, 1 de junho de 2013

Dia da Criança


 Encostado à parede, o cavalo de pau esperava uma cavalgada mais. Estivera anos ali esquecido, brinquedo antiquado, incapaz de responder a um toque de tecla, exigindo mais do que um rabo enfiado num sofá. Finalmente, agora aparecera uma criança capaz de o levar de novo por imensas cavalgadas. Bem cedo, mal o sol rompia, já os dois, ele engalanado, o cavaleiro de pijama, pés descalços e boca suja de Nestum. Juntos, saltavam barreiras, competiam em corridas com cegonhas brancas e desafiavam as piranhas dos rios imensos. O cavaleiro conhecia de cor o nome de todos os animais, gostava de saltar por cima das papoilas vermelhas e nunca espirrava com o pólen das giestas. Às vezes, o pequeno cavaleiro ficava cansado, sentava-se nas rochas e perguntava ao seu fiel cavalo de pau como era possível que a torga estivesse tão direitinha. O cavalo de pau, seguro da sua sabedoria, explicava-lhe que é sempre possível manter as costas direitas se não criarmos raízes que nos prendam demais. O pequenino cavaleiro ria-se, feliz, mesmo sem perceber a resposta, e penteava as crinas de lã do seu amigo cavalo. Às vezes, o menino mudava de brincadeira, cansado das cavalgadas longas, ou aflito para fazer xixi, e encostava-o a uma parede. Ele ficava quietinho, mas sempre atento, ouvindo as conversas próximas e relinchando perante os disparates que os adultos diziam. Chegou a ouvir dizer, indignado, que a sua cabeça era uma meia velha!!


Um dia, a Minnie, que estava farta de ficar sempre no mesmo lugar do cesto dos brinquedos, pediu ao cavalo de pau que a levasse a passear. Ele estranhou. Uma ratinha vaidosa a montá-lo?! Mas a Minnie, usando de toda a delicadeza, pediu muito-muito-muito e ele acabou por lhe fazer a vontade. Com dificuldade, porque tinha as pernas muito pequeninas, ela agarrou-se à rédea de cores e partiram. O cavalo de pau mostrou-lhe os Montes alentejanos, levou-a ao castelo de Marvão, deixou-a colher malmequeres para colocar entre as orelhas, ensinou-lhe como fazer para saltar pelo meio do arco-íris. Quando voltaram, os dois amigos encostaram-se à parede, ficaram muito quietinhos e só o pequeno cavaleiro descobriu que os dois tinham ido passear. Porque os pequenos cavaleiros, sobretudo quando montam cavalos de pau, descobrem magias singulares e experiências únicas!