Não sei se é porque ando, com os meus alunos, a estudar Ricardo Reis; não sei se é este calor que me atinge na inteligência e nas emoções.
O que sei é que experimento, às vezes, um enorme - e doloroso -sentimento de desadequação ao real. Carpe diem, tento impôr-me. Mas sem sucesso. Algo há em mim que me faz ainda ter sonhos, sofrer desilusões e manter presentes ausências. Algo há em mim, será a tal consciência social de que me rio?, que me faz doer fundo a indignação e a incompreensão perante alguns acontecimentos. Hoje, é a Escola...
Eu queria compreender o incompreensível - lá vem Pessoa. Queria saber porque têm todos os professores de entregar à coordenação de área disciplinar as fantásticas grelhas excel onde devem, são as regras, grelhar os alunos mantendo-os em lume brando, ou forte, nos momentos dos decisivos testes de avaliação sumativa. Eu queria ser capaz de compreender, a bem da tranquilidade da minha cabeça, em que medida a entrega das grelhas excel contribui para a eficácia da avaliação e, sobretudo, para a equidade.... Queria ser capaz de não perceber por trás desta atitude a existência de mentes pidescas, de desconfiança e fiscalização abusivas!
Hoje, sinto-me particularmente revoltada. E não me tragam respostas ocas - é norma deves cumprir ; e não me iludam - a avaliação deve ser clara; porque são argumentos vazios de sentido!
Eu gosto muito dos meus alunos, gosto demais da minha profissão, mas não consigo cultivar a indiferença, não consigo ser estóica e o carpe diem não me conforta!
Queria uma Escola de Pessoas, de profissionais respeitados e de prestígio. Uma Escola preocupada de facto com as aprendizagens e não, apenas, com o culto da imagem...
Para complicar tudo, faltam-me pelo menos dez anos para a reforma!