Insistem que este calor sufocante, o céu velado, a humidade que cola a roupa ao corpo, é um calor tropical, fenómeno provocado pelas múltiplas agressões ao ambiente que o homem tem feito. Mas não me convencem! Para mim, foi o demónio que resolveu abrir a porta do inferno e, agora, está feliz a ver-nos sofrer. Imagino-o empoleirado nos candeeiros das cidades, nos telhados das casas de campo, nos enormes ninhos de cegonhas que enquadram as estradas, vendo-nos a sufocar, a derreter, e a tentarmos encontrar justificação para o absurdo. Ele, o diabo, sabe que não há justificação para o mal, seja ele qual for, e deve estar satisfeito por poder, assim, castigar-nos pela nossa ousadia de o negarmos. Sim, porque eu não tenho dúvidas que o diabo existe, obviamente é macho, e diverte-se a moer-nos a paciência. Esta noite, ouvi-o rir e, logo de manhã, percebi que andou pela Assembleia da República, que dormiu perto do Ministro Relvas, que visitou os espanhois e descarregou a seu terrível humor nos italianos. Este demónio, que quer assar-nos em vida, está a tirar-me do sério!
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quarta-feira, 30 de maio de 2012
Foi quase um ano lectivo de aprendizagens, inovação, stress, sorrisos, desafios e algumas lágrimas também... Era um projecto ousado, um pouco louco, e exigiu de mim tudo o que sou capaz de dar. Foram noites de leitura, de pesquisa, de tentativas, de construções e descontruções. Em Novembro, quando tudo começou, parecia impossível chegar ao fim. Junho?! Onde ficaria isso?... Mas o tempo impôs-se, como sempre, e tudo se cumpriu. Hoje, arrumo o dossier e relembro rostos, olhares, sorrisos e mil ternuras. Lembro as Marias, as Marianas, os Rodrigos, os Duartes, as Letícias, os Dinis, os Joões, os Josés, as Margaridas, e tantos outros donos de uma curiosidade inesgotável. Lembro, também, os colegas com quem trabalhei, o esforço constante, a vontade de fazer cada dia melhor, a resposta pronta às minhas propostas, a alegria de ver resultados. Lembro a Zé, a Lena, a Paula, a Lurdes, a Fátima, a Ana, a Mena, a Graciela, a São, o Francisco. Lembro todos com a certeza de nunca poder agradecer o que me ensinaram e a forma como me provaram que vale a pena ensinar, que ser Professor (a maiúscula é intencional) ainda é possível e faz sentido!
Fecho o dossier, está quase pronto a entregar, e deixo abertos os afectos e os sentires. Para sempre, não por fim!
terça-feira, 29 de maio de 2012
Tempo desperdiçado
Apesar de se aproximar o final das aulas de terceiro período, e de os alunos do secundário (especialmente os de 12º ano) estarem na fase de muito trabalho com a aproximação dos exames, a ocupação plena de tempos letivos (vulgo aulas de substituição) continuam em vigor. Acontece, por isso, estarem os alunos numa sala, olhando e brincando com os computadores, guardados por um professor que não conhecem, esperando que o tempo corra e a campainha toque. O tempo, só para chatear..., decide arrastar-se e o cansaço de nada fazer - dos piores que existem! - instala-se em todos. Tento conversar com os vinte jovens que devo vigiar, sugiro temas actuais. Mas eles nem me conhecem, e conversa à hora de almoço, com a cabeça cheia de desafios e sonhos, não é coisa que apeteça. Voltam aos computadores e ouvem música, acabam trabalhos, pesquisam as novidades do youtube. Eu deixo-os. Hoje, a culpa deste tempo desperdiçado não é deles. É dos adultos que impõem sem razão, que se esquecem (?) que crescer é também poder escolher como ocupar tempos, que ser jovem não pode ser, apenas, ouvir e obedecer. Podia ser diferente? Sem dúvida que sim. Podiam, estes tempos, ser espaços de liberdade para os alunos, pelo menos os do secundário, e podia a escola ser encarada como educadora e não, apenas, fiscalizadora. Podia ser diferente, sim, se se criassem espaços favorecedores de aprendizagens activas e dinâmicas, em vez de salas cheias de computadores e solidão.
Podia, sim, ser diferente!
domingo, 27 de maio de 2012
Os homens não prestam
A M80 passa, quase de meia em meia hora, a canção de Miguel Araújo "Os maridos das outras", onde o refrão, "os homens não prestam", é repetido à exaustão. Se, às primeiras audições, achei a música péssima, agora já me habituei e, quando dou por mim, já estou a cantarolar o refrão... De facto, às vezes, homens não são grande coisa, salvo honrosas excepções, mas, infelizmente (?) fazem falta na vida das gentes, um pouco como os espinhos sem os quais as rosas não existem.
Os homens têm ideias tão brilhantes como, por exemplo, tirarem (tentarem...) nódoas de gordura com sabonete esfregando com a toalha das mãos; pregar pregos enchendo o chão de pedaços de parede; calçar as meias depois de vestirem as calças; não descer a tampa da sanita; não compreender que quando dizemos que nos dói a cabeça queremos ir jantar fora, e exclamar - vais outra vez ao cabeleireiro?! - mesmo que o façamos uma vez por mês. Mas, acho eu, os homens têm um abraço forte, um ombro espaçoso e são, ou podem ser, uma âncora firme. Eu, que não sou feminista, acho que, afinal, os homens até prestam. São seres estranhos, concedo, mas prestam!
sábado, 26 de maio de 2012
Cerejas
Chegaram as cerejas de São Julião! O senhor Reia tem já as caixas cheias, as cores tentam o olhar e provocam a gulodice... Eu rendo-me! adoro cerejas. Gosto de fazer com elas brincos originais, de as morder com força, de as deixar rolar na boca provocando sentidos.
As cerejas do Reia superam TODAS as cerejas do mundo! São grandes, gostosas, escuras, carnudas e crescem no vale de São Julião, ali mesmo no coração de São Mamede. Ir às cerejas, ao Reia, é um ritual que, este ano, já cumpri. Agora, noite escura e quente, como cerejas ouvindo as ralas e as eternas cigarras e, garanto, a noite fica mais doce.
sexta-feira, 25 de maio de 2012
O Concerto
A noite estava quente, a relva estava aparada e cadeiras alentejanas, bem pintadas, convidavam a sentar. No meio das mesas, uma vela gorda, larga, capaz de iluminar a noite inteira, de aquecer os corações dando romantismo ao serão. No palco, a Banda Euterpe, a doadora de prazeres, a deusa da música, a encher de alegria o cenário. Com o público atento, chegou António Pinto Basto e a homenagem ao Fado. Ouviu-se fado com acompanhamento da banda e, contra as minhas expectativas, resultou! A noite ficou mais rica, os sorrisos cresceram e soube bem o coro afinado da plateia que, entusiasmada, repetia o refrão "Ó Portela vem à janela ...".
Era para ser uma homenagem ao fado, mas foi, para mim, uma homenagem à alegria!
(Parabéns, especiais, ao Miguel Monteiro. Grande músico, fantástico acompanhante de Pinto Basto!)
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Morrer de Mansinho
Se eu morresse em África,
a savana não daria pela minha ausência.
Se eu morresse no deserto
a areia continuaria a aquecer.
Se eu morresse no mar,
o polvo continuaria a camuflar-se.
Se eu morresse na Austrália,
a montanha azul continuaria a produzir os seus reflexos mágicos.
Se eu morresse no Brasil,
os papagaios continuariam a palrar.
Se eu morresse em Paris,
a Mona Lisa continuaria a sorrir.
Se eu morresse em Roma,
o Coliseu continuaria a impressionar...
Mas, se eu morresse aqui, no meu canto
haveria lágrimas e cresceriam saudades!
E eu queria morrer de mansinho.
Sem provocar lágrimas.
Sem deixar saudades.
a savana não daria pela minha ausência.
Se eu morresse no deserto
a areia continuaria a aquecer.
Se eu morresse no mar,
o polvo continuaria a camuflar-se.
Se eu morresse na Austrália,
a montanha azul continuaria a produzir os seus reflexos mágicos.
Se eu morresse no Brasil,
os papagaios continuariam a palrar.
Se eu morresse em Paris,
a Mona Lisa continuaria a sorrir.
Se eu morresse em Roma,
o Coliseu continuaria a impressionar...
Mas, se eu morresse aqui, no meu canto
haveria lágrimas e cresceriam saudades!
E eu queria morrer de mansinho.
Sem provocar lágrimas.
Sem deixar saudades.
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