quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Gostei!


Na noite procuro a Poesia. Ela chega no português com açúcar do Brasil. Gostei e, por isso, partilho:

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento. 

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa dizer do meu amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinícius de Moraes

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

OUVIR

Há, recentemente, um anúncio nas televisões, com a presença do Júlio Isidro, sobre um aparelhinho que faz as pessoas ouvirem tudo. Acho que todos nós deviamos ter um! Porque, cada vez mais, sinto que não ouvimos os outros, que não ouvimos tudo o que nos dizem (ou querem dizer), centrando-nos, exclusivamente, no que temos para dizer! É terrível quando precisamos de conversar e, face ao que dizemos, a resposta surge sem sentido. Oca. Feita de outras ideias sem retorno ou lógica.
Os meus alunos, dos mais novos aos mais velhos, têm todos problemas de audição...Talvez o Ministério de Educação, com o que vai poupar ao despedir cinquenta mil professores, possa investir nestes aparelhómetros que fazem com que nos ouçamos uns aos outros.
Às vezes, custa demais viver num país onde a surdez é crónica!

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Vida Real?

«I love you. I've loved you since the first moment I saw you. I guess maybe I've even loved you before I saw you».

É uma frase de um filme, dita a Elisabeth Taylor, mas delicia-me! Adorava que alguém me dissesse isto e, de preferência, que fosse verdade. Sim, eu acredito no amor à primeira vista! Sim, já sei, isso na vida real não acontece. Mas eu nem gosto nada da vida real...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

LUTO

A minha cidade está de luto. As igrejas estão todas de portas abertas, o silêncio é escuro e doloroso, a tristeza lê-se nos olhares de todos. De repente, Portalegre abriu os telejornais com a triste notícia de um brutal acidente de autocarro. As possíveis causas são muitas, mas a realidade é só uma: - Morreram onze pessoas de uma forma bruta e inesperada! Ao mesmo tempo, sabe-se de um incêndio numa discoteca no Brasil, mais de 200 mortos, muitos jovens. Mas é longe, agora, a dor alheia. 
É a dor próxima que nos faz calar e circular magoados na cidade branca.
Hoje, na pequena comunidade que é Portalegre, na minha cidade de cheiros conhecidos, a morte impôs a dor e o silêncio. Em todas as casas alguém deixou saudades. A cidade, a nossa cidade, está de luto intenso, vestida de dor sentida. De repente, a vida parece ainda mais valiosa e, paradoxalmente, mais frágil...

em ão

Após muitas aulas preparadas, depois de corrigir muitos testes, a seguir a algumas horas de desespero olhando os resultados assustadores, fui deitar-me. (Sim, sou professora mas, que hei-de fazer?, ainda não me convenci de que ser professora não é ser gente e, assim, tentei dormir.) Estava cansada. ESTOU CANSADA!  Precisava mesmo de dormir! 
Mas tive azar. O sono não chega e a insonia faz-se de notas baixas e respostas absurdas. Que fazer para que os meus alunos aprendam mais, para que se tornem, de facto, mais competentes? 
Oiço no silêncio as parangonas de alguns teóricos: - Tem de haver motivação! E apetece-me gritar que tem é de haver responsabilização, regras e valorização do trabalho individual. Sei bem que o sucesso não se faz só com motivação. Exige, também, transpiração! E a rima de aprender só fará sentido quando se acertar nesta ideia, quando o verso puder ser branco. 
Ainda por cima, o ão que rima apenas com motivação, rima também com parvalhão...

domingo, 27 de janeiro de 2013

De repente

De repente, uma pessoa olha para trás e passou a oportunidade. De repente, morre-se e pronto. De repente, a gente pára para olhar a vida e vê o que perdeu, o que desperdiçou, o que foi relegando para o canto de Um Dia, deixando passar outros uns dias que nunca retornarão. Tudo de repente porque, de verdade, a vida esgota-se num de repente de não-fazeres que nos escapam por entre os dedos! 
Hoje, de repente, olhei para a chuva, para o cinzento do dia, e lembrei-me das pessoas queridas que já não tenho. Percebi como, de repente, a solidão se faz mais dor e escuridão, as prioridades se invertem e as vivências se esgotam em fazeres de coisa nenhuma!
De repente, vi que as minhas rosas de inverno caíram e só ficaram as folhas, tristes, perto da chuva que escorre.
Então, de repente, apeteceu-me viver para além de existir! Apeteceu-me acreditar em impossíveis e sonhos. Só espero, de repente, não me afogar de novo na realidade...

sábado, 26 de janeiro de 2013

O Tó Zé

É um tipo simpático, o Tó Zé. Um bocado cinzento, convenhamos, mas com um sorriso constante, obediente, capaz de reproduzir frases feitas e com um discurso certinho, vazio e inofensivo, parando no momento dos aplausos desejados e nem sempre conseguidos. 
O Tó Zé esforçou-se. Foi sempre um menino do sistema, cumpridor, aprendiz de outros modelos igualmente cinzentos, com uma carreira como a  dele, cinzenta, feita da subida calma de degraus partidários.  O Tó Zé nunca trabalhou no duro, nunca viveu para lá do Rato, mas nunca percebeu que isso fosse importante, porque o Tó Zé nunca disse que não a nada, sempre seguiu os chefes. 
Um dia, erro grave, o Tó Zé teve  um sonho. Um sonho como ele - cinzento! Foi o erro do Tó Zé. Ele servia para beber bicas em comícios, para repetir as instruções recebidas aos jornalistas, para desempenhar, no seu cinzentismo total, o papel pedido aos Yes, man! Só não servia mesmo era para ter sonhos, para ter vontade própria e para desempenhar papeis principais... Mas disso o Tó Zé não sabia e, olhando à sua volta, achava mesmo que podia ser como os Zé Maneis, ou até alguns Pedros da mesma geração. 
Como o pobre Tó Zé estava enganado... Ele servia para atravessar um deserto de ideias, para encher de vazio períodos ocos de sentido, para manter morno o lugar que outros, calmamente, haviam de ocupar. 
Mas disto, o Tó Zé não se apercebia e, por isso, foi com surpresa, e acredito que com mágoa também, que soube que o queriam mandar embora. Que soube que outro, que não ele, ocuparia a ribalta quando chegasse a hora do grande espectáculo! O Tó Zé era um gajo porreiro, diziam. Mas inSeguro. Muito inSeguro...