sábado, 30 de novembro de 2013
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
Narrativa aberta
Era um espaço lindo, uma manhã fria, um país pintado de cores intensas e diferentes. As letras corriam soltas, fazendo rimas, umas mais irregulares do que outras. Algumas, insistindo num passado que, talvez por não o conhecerem, parecia fazer sentido, organizavam-se em sonetos. Rigorosos, certos, de métrica regular e ritmo cadenciado.
Por ali passeara já a Alice, depois de cair pelo espelho, encontrando o coelho branco e a lagarta fumadora. Era um espaço de castelo de não ser, de verdes húmidos e refúgios perfeitos para jogar ao esconde-esconde. As emoções aproveitaram o cenário e jogaram com a realidade. Escondiam-se umas, desafiavam-se outras. Depois, no fim de uma narrativa aberta, encontraram-se e fizeram sentido.
Mas, infelizmente, foi preciso virar a página.
quinta-feira, 28 de novembro de 2013
Do Alto
Sobe-se a custo a colina. Lá no alto, subitamente, sem aviso prévio, entra-se num quadro impressionista. Ao vivo, real, com fumos cheios de cheiros, com cores de um Outono que, sendo estrangeiro, é universal.
O silêncio é intenso. É o Surrey inglês, o campo das obras de Jane Austen que preencheram muitas horas da minha juventude. Ali caminham as personagens que reconheço, ali aconteceram os encontros e desencontros dos romances que revisito sempre com gosto. Ali, agora, crescem as minhas crianças. É estranho como num mundo diferente, num estrangeiro cultural e fisicamente distante, me sinto reencontrada e de bem comigo. Não são "Malhas que o império tece", mas são, penso, sentires que a existência constrói.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
O EXAME
Tenho estado calada, lendo e ouvindo, tudo o que ao exame dos professores diz respeito. Em princípio, parecia-me uma aberração, mais uma, inventada por este ministro Crato que tanto me desiludiu. Depois, o tempo foi passando, as coisas foram-se esclarecendo e, hoje, mais do que uma aberração, acho uma estupidez total! Avalia-se o quê? A capacidade de redigir uma composição de 300 palavras, ao estilo da velha escola primária? Exercícios de escolha múltipla do tipo testes psicotécnicos?
Das duas uma: ou o senhor ministro acha que as Universidades são mesmo péssimas, e então devia fechá-las; ou acha que os professores são doidos e, nesse caso, devia fechar as escolas para proteger as crianças.
Este exame não humilha os professores, como dizem os sindicatos. Na minha opinião, de professora (incompetente e louca, porque não fiz o tal exame mágico), este exame humilha e agride o país inteiro. Humilha os alunos, que vêem postos em causa os seus educadores; humilha os pais, que entregam os filhos a loucos potenciais; humilha o país, que deixa as novas gerações entregues a perigosos psicopatas, talvez.
Este exame só não humilha o governo, nem o Ministro de Educação. A esses, bem pelo contrário, certifica-os. Atesta, oficial e publicamente, a sua incapacidade para governar a sério, para valorizar um Povo que é GRANDE, para valorizar a imagem de uma classe que, a baixo custo (vergonhosamente baixo), tem permitido que o país cresça e que os jovens possam sair daqui preparados para vingar no estrangeiro!
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Que Chatice!
Apetece-me caminhar de trás para a frente, partindo do lugar sem sentido, para o lugar com algum sentido, passando pelo espaço onde o sentido falha por pouco. Nesta caminhada invertida, como ralo de água da Austrália, vejo passar o que não fiz, o que adiei, o que apressei, o que errei, e o que nunca teria feito se. É um percurso de ses. De ainda bem e porque não.
Faço a viagem parada, sentada num comboio que insiste em não sair da estação inventada. Ali, bem na plataforma, ficam a acenar-me as pessoas que já foram, os meus eus que partiram, os responsáveis pelas escolhas que não devia ter feito. Caminhando assim, para trás, não tropeço nem hesito. O caminho é conhecido, os erros ainda têm cores vivas, e a chegada não tem dia marcado. Nesta viagem do avesso, ou de trás para a frente - o que não sendo a mesma coisa, neste caso é igual - reencontro egoísmos, maldadezinhas e umbiguismos destruidores. Mantiveram-se iguais! Nem de trás para frente, nem da frente para trás, a existência se acerta com a minha essência sofrida. Que chatice!
segunda-feira, 25 de novembro de 2013
NUVENS
Há nuvens negras no céu inglês. Nuvens carregadas das lágrimas que calo em mim, nuvens intensas de saudade anunciada. No céu, onde, segundo o meu neto, não mora ninguém... Portugal não me apetece. Preferia ficar aqui, no céu, entre nuvens que, de certeza, um dia se vão desfazer. Queria ter a certeza de que as saudades iam deixar de doer. Mas não tenho.
domingo, 24 de novembro de 2013
4 Anos
Faz quatro anos. Nevava muito, Cambridge estava nua e branca, e a minha viagem até ao Hospital parecia interminável. À chegada, um bebé minúsculo, um gorro azul que quase lhe tapava os olhos, as mãos com força a segurar o meu dedo. Era o meu primeiro neto a fazer-me viver e acordar para uma vida diferente.
Hoje, faz quatro anos enérgicos, alegres e atentos. Corre por Guildford, pergunta muita coisa, quer saber tudo, salta do inglês para o português com ligeireza e abraça-me como só ele sabe. Ao meu ouvido garante "avó mim adora tu para sempre" e eu tenho pena que o para sempre seja, talvez, breve demais. O meu neto mais velho surpreende-me constantemente, provoca a minha ternura e vejo nele, tantas vezes, a minha filha pequena que guardo sempre na memória.
Um dia, o Manuel Bernardo vai lembrar-se que tinha uma avó que carregava fadas, falava com os bichos e sabia muitas histórias carregadas de magia quente...
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