Eramos 29 almas curiosas e ansiosas. Esperavam-nos 4 dias diferentes, de experiências e desafios, entre Estrasburgo e Paris. Para o caminho, autocarro, avião, TGV, bus, tramway. O frio anunciado não metia medo, a comida estranha também não, e apenas a língua, já ninguém fala francês..., assustava um bocadinho.
Partimos. Os dias voaram, entre gargalhadas, arrastares de malas, voltas loucas nas montanhas malucas da Disney, brincadeiras e trabalho sério. O dia vivido no Parlamento Europeu foi o culminar de um processo, e a vivência desse dia, a experiência de trabalhar com jovens de 20 diferentes países, foi a "cereja no cimo do bolo".
Mas, para mim, foram sobretudo dias de aprendizagens efectivamente activas e participadas.
Tenho a certeza, posso mesmo jurar, que para os jovens que integraram esta actividade, um dia no Parlamento Europeu, a Escola ganhou um novo significado. Vi-os crescer e, apesar das noites sem dormir, das dores de pernas e dos horários violentos, sinto-me feiz por ter ajudado estes miúdos (serão sempre os meus miúdos) a aprender a ser pessoas. Claro que a Escola não pode fazer-se apenas de viagens e passeios, mas, sem dúvida, estes momentos dão-lhe um novo sentido...
segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
Priority Boarding
Chegaram devagarinho, de braço dado e ele carregando a carteira de mão dela, à fila do embarque. Confirmarm, num inglês mesmo british, que tinham bilhete para embarque prioritário e ficaram na fila. Encostavam-se um ao outro e não pude deixar de reparar na ternura com que o faziam. Ela, de pele muito branca, com as mãos onde corriam veias muito azuis à transparência, vestia um saia-casaco de bom corte, salmão, com um camiseiro branco e um simples colar de pérolas brancas, uma só volta, no pescoço. Apesar das muitas rugas, percebia-se que fora bonita e os olhos, teriam sido azuis?, brilhavam em risquinhas cinzentas. Ele, mais alto, um pouco curvado já, tinha o cabelo de um branco imaculado, a cara rapada e um chapéu de feltro, castanho, que segurava numa das mão, junto à gabardina Burburry's de forro escocês. Falavam baixinho, como se o mundo fosse só deles, numa intimidade cúmplice e, a meus olhos, perfeita. Reparei que traziam três alianças, decerto já haviam festejado bodas de ouro, mas ainda se apoiavam com ternura. Qual seria o segredo para manter vivo o amor ao longo de tantos anos?!
Porque o embarque tratava, ela murmurou cansaço e ele, cortês, levou-a pelo braço até à cadeira voltando para retomar o seu lugar na fila. Notei que a velha senhora não tirava os olhos do seu homem, e percebi que ele não desviava dela os seus. Quando se iniciou o embarque, ela veio de novo dar-lhe o braço. Deixei que passassem à minha frente e reparei que escolhiam os lugares da primeira fila no avião. A meio da viagem, três horas voando, fui à casa de banho e vi que a senhora dormitava encostada no ombro dele. Sério, de olhar fixo, ele segurava-lhe a mão transparente. À chegada a Faro vi-os recolherem a bagagem, duas malas de xadrez, e observei-os, sempre devagarinho, a encaminharem-se para a saída. Eu própria encontrei a minha boleia e perdi-os de vista... Mas impressionou-me o velho casal. Acho que, de certa forma, fiquei com um pouquinho de inveja da senhora velhinha, de três alianças e com um braço atento onde se apoiar.
Porque o embarque tratava, ela murmurou cansaço e ele, cortês, levou-a pelo braço até à cadeira voltando para retomar o seu lugar na fila. Notei que a velha senhora não tirava os olhos do seu homem, e percebi que ele não desviava dela os seus. Quando se iniciou o embarque, ela veio de novo dar-lhe o braço. Deixei que passassem à minha frente e reparei que escolhiam os lugares da primeira fila no avião. A meio da viagem, três horas voando, fui à casa de banho e vi que a senhora dormitava encostada no ombro dele. Sério, de olhar fixo, ele segurava-lhe a mão transparente. À chegada a Faro vi-os recolherem a bagagem, duas malas de xadrez, e observei-os, sempre devagarinho, a encaminharem-se para a saída. Eu própria encontrei a minha boleia e perdi-os de vista... Mas impressionou-me o velho casal. Acho que, de certa forma, fiquei com um pouquinho de inveja da senhora velhinha, de três alianças e com um braço atento onde se apoiar.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Os ões
Eu gosto da minha língua, da portuguesa, cheia de metasignificados, de possibilidades ternas, de jogos e desafios. Gosto das palavras saborosas, que se enrolam na língua e se desfazem em açucar de zero calorias, das palavras com história, que sempre me trazem aventuras e paixões. Gosto, também, de brincar com os dizeres, com os sons da minha língua, e fico estupidamente feliz quando, no estrangeiro, me perguntam que língua estou a falar que soa tão bem.
No entanto, há palavras na minha língua que me magoam e que, sinceramente, dispenso. São quase todas as que fazem o plural em ões. Detesto proibições, desilusões, suspeições, agressões, insinuações. Em ões, só gosto mesmo dos calções do Manuel Bernardo. Mas ele fica lindo sempre!!!
No entanto, há palavras na minha língua que me magoam e que, sinceramente, dispenso. São quase todas as que fazem o plural em ões. Detesto proibições, desilusões, suspeições, agressões, insinuações. Em ões, só gosto mesmo dos calções do Manuel Bernardo. Mas ele fica lindo sempre!!!
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
Escola e Sopa de Cenoura
A mãe estava furiosa. Ralhava, lamentava-se, insistia em fazê-lo sentir-se profundamente infeliz. Ele tentava explicar: - A professora não dissera que tinha marcado falta! Ele nem tinha faltado! Se calhar, alegava a medo, fora por ter falado demais. Porque tem a mania de falar, de dar opiniões, de perguntar, de contar o que vê, de intervir. A mãe insistia que não. Que ninguém marca faltas a um aluno por ele falar, de mais a mais se for numa aula de línguas!! E ele insistia. Só podia ter sido por isso, ou por a setôra não gostar dele, o que não percebia, uma vez que, tal como ela, ele também torcia pelos leões, também tinha um cachecol do Sporting! E a mãe a acalmar-se finalmente, agora declarando que iria à escola falar com a directora. Não que fosse grande ideia falar com a directora... saberia da sua fama (e proveito) de tagarela e brincalhão. Mas, por outro lado, era bom que soubesse que ele não faltara e que nem sabia que tinha falta. Com a mãe mais calma, foi para o quarto, ligou o computador e a televisão e ficou em cima da cama, com os dois comandos, jogando e vendo o National Geographic. Ouvia as irmãs lá em baixo, na cozinha, e pensava na conversa que tivera com a mãe. Duas faltas injustificadas, as duas a português, era razão para ela se zangar. Honestamente, nos seus 14 anos, sabia que falava demais. Mas tinha sempre tanto para dizer... E as aulas, às vezes, eram tão chatas com o habitual cumprimento do monótono sumário: - leitura e interpretação do texto! - Seria bem melhor se houvesse mais hipóteses de participar, de falar, de trabalhar mesmo! Ouvir, tantas horas seguidas, era mesmo complicado... Estava tão distraído, que ia deixando o Porto meter um golo na baliza do Sporting! , no seu jogo da consola; se ao menos nas aulas houvesse desafios, se pudesse fazer coisas...´
Lá de baixo, veio o grito da irmã para que fosse jantar. Correu pelas escadas, saltando degraus, com a energia que o fazia ter duas faltas injustificadas por falar.
Sentado à mesa, comentou: - A escola, às vezes, é como esta sopa semanal, sabe sempre ao mesmo!!!
Lá de baixo, veio o grito da irmã para que fosse jantar. Correu pelas escadas, saltando degraus, com a energia que o fazia ter duas faltas injustificadas por falar.
Sentado à mesa, comentou: - A escola, às vezes, é como esta sopa semanal, sabe sempre ao mesmo!!!
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
A Gargalhada - Também em Crise?
"O riso é a mais eficaz forma de crítica", disse, um dia, Eça de Queirós. Peguei na frase, gosto dela, e pedi aos alunos de 11º ano que escrevessem partindo daí. Antes, lembrámos, na sala de aula, os Gato Fedorento, o Contra Informação, Gil Vicente até. Esperava, confesso, grande entusiasmo, humor vivo, olhares, apesar de jovens, atentos e carregados de humor. Infelizmente, a maioria dos textos surgiu cheia de ideias-feitas, de frases gastas, de vazio de conteúdo. Expressei a minha desilusão. Partilhei a minha decepção...
Cheguei a casa pensando na minha vivência.
De facto, concluo, o humor está, também ele, em crise. As pessoas parecem ter desaprendido o sabor de uma gargalhada, o efeito libertador de uma boa piada.
Eu também tenho saudades de rir, de brincar com a realidade, de teias de alegria na minha rotina.
Cheguei a casa pensando na minha vivência.
De facto, concluo, o humor está, também ele, em crise. As pessoas parecem ter desaprendido o sabor de uma gargalhada, o efeito libertador de uma boa piada.
Eu também tenho saudades de rir, de brincar com a realidade, de teias de alegria na minha rotina.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
A capela
Entrou, ajoelhou-se e ficou rezando. Era a sua forma de rezar, um tecer de considerações mais de si para si que, na pequena capela de chão com História , ganhava novo sentido. Gostava daquele chão, dos vitrais que filtravam a luz, como que purificando a existência, dos poucos móveis encerados e cheirosos. Naquela tarde, fria e ventosa, nem sabia bem o que a levara de novo ao seu espaço de eleição. Decerto não ia agradecer a recente eleição do Presidente que nada lhe dizia, embora pudesse agradecer a derrota de uma esquerda anquilosada que sempre a desgostava... Não ia, também, pedir ajuda para a solução das angústias diárias, porque dos quotidianos dos homens Deus deveria querer distância. Talvez, afinal, tivesse entrado apenas para se ouvir, sem o ruído do mundo que, cada vez mais..., a incomodava.
Ficou ali, sentindo o anoitecer lá fora, escutando as ondas de outros mares que aquele chão lhe trazia. Ouvia Camões "não mais Musa, não mais, (...)" e sentia o mesmo desalento do Poeta. Não mais, pedia, agora, na sua oração de silêncio.
Ficou ali, sentindo o anoitecer lá fora, escutando as ondas de outros mares que aquele chão lhe trazia. Ouvia Camões "não mais Musa, não mais, (...)" e sentia o mesmo desalento do Poeta. Não mais, pedia, agora, na sua oração de silêncio.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
A Última Valsa
Não morava ali ninguém. Era um espaço lindo, o revivalismo romântico, agora feito zona pública, constantemente invadido pelos passos pesados e olhares famintos de milhares de turistas. Ela, vizinha daquele lugar, criara com a passagem dos anos laços estreitos com o Palácio Mágico. Deixavam-na entrar sem bilhete, e caminhava nos caminhos ornamentados, molhava as mãos na água viva e corrente e subia às muitas torres vendo, lá longe, a Vila de Sintra. Não gostava dos túneis, dos corredores escuros e húmidos, mas esquecia-se horas perdidas conversando com Deus na pequena capela. Nos dias menos húmidos, soalheiros, levava um livro, sempre autores portugueses, e ficava lendo, por ali, saboreando o correr das palavras no tecer das histórias. Às vezes, via grupos de jovens, apressados e alegres, e apetecia-lhe gritar-lhes calma e sofreguidão na vida. Uma antítese. Ou um paradoxo? Para ela, apenas uma verdade aprendida...
Naquela manhã, como em muitas, subiu à Regaleira e, sentindo o coração cansado, entrou no velho palacete. Olhou a sala e ouviu a valsa que tantas vezes dançara. Acompanhando a valsa, com passos certos, surgiam os pares que davam cor ao salão. Levantou-se e ensaiou o ritmo nunca esquecido. Com a cabeça pendendo, rodou, segura, nos braços da paixão que antes dela partira.
Encontraram-na fria, no chão, sorrindo ainda. Fora a sua última valsa.
Naquela manhã, como em muitas, subiu à Regaleira e, sentindo o coração cansado, entrou no velho palacete. Olhou a sala e ouviu a valsa que tantas vezes dançara. Acompanhando a valsa, com passos certos, surgiam os pares que davam cor ao salão. Levantou-se e ensaiou o ritmo nunca esquecido. Com a cabeça pendendo, rodou, segura, nos braços da paixão que antes dela partira.
Encontraram-na fria, no chão, sorrindo ainda. Fora a sua última valsa.
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