segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Aprendizagens Activas

Eramos 29 almas curiosas e ansiosas. Esperavam-nos 4 dias diferentes, de experiências e desafios, entre Estrasburgo e Paris. Para o caminho, autocarro, avião, TGV, bus, tramway. O frio anunciado não metia medo, a comida estranha também não, e apenas a língua, já ninguém fala francês..., assustava um bocadinho.
Partimos. Os dias voaram, entre gargalhadas, arrastares de malas, voltas loucas nas montanhas malucas da Disney, brincadeiras e trabalho sério. O dia vivido no Parlamento Europeu foi o culminar de um processo, e a vivência desse dia, a experiência de trabalhar com jovens de 20 diferentes países, foi a "cereja no cimo do bolo".
Mas, para mim, foram sobretudo dias de aprendizagens efectivamente activas e participadas.
Tenho a certeza, posso mesmo jurar, que para os jovens que integraram esta actividade, um dia no Parlamento Europeu, a Escola ganhou um novo significado. Vi-os crescer e, apesar das noites sem dormir, das dores de pernas e dos horários violentos, sinto-me feiz por ter ajudado estes miúdos (serão sempre os meus miúdos) a aprender a ser pessoas. Claro que a Escola não pode fazer-se apenas de viagens e passeios, mas, sem dúvida, estes momentos dão-lhe um novo sentido...

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Priority Boarding

Chegaram devagarinho, de braço dado e ele carregando a carteira de mão dela, à fila do embarque. Confirmarm, num inglês mesmo british, que tinham bilhete para embarque prioritário e ficaram na fila. Encostavam-se um ao outro e não pude deixar de reparar na ternura com que o faziam. Ela, de pele muito branca, com as mãos onde corriam veias muito azuis à transparência, vestia um saia-casaco de bom corte, salmão, com um camiseiro branco e um simples colar de pérolas brancas, uma só volta, no pescoço. Apesar das muitas rugas, percebia-se que fora bonita e os olhos, teriam sido azuis?, brilhavam em risquinhas cinzentas. Ele, mais alto, um pouco curvado já, tinha o cabelo de um branco imaculado, a cara rapada e um chapéu de feltro, castanho, que segurava numa das mão, junto à gabardina Burburry's de forro escocês. Falavam baixinho, como se o mundo fosse só deles, numa intimidade cúmplice e, a meus olhos, perfeita. Reparei que traziam três alianças, decerto já haviam festejado bodas de ouro, mas ainda se apoiavam com ternura. Qual seria o segredo para manter vivo o amor ao longo de tantos anos?!
Porque o embarque tratava, ela murmurou cansaço e ele, cortês, levou-a pelo braço até à cadeira voltando para retomar o seu lugar na fila. Notei que a velha senhora não tirava os olhos do seu homem, e percebi que ele não desviava dela os seus. Quando se iniciou o embarque, ela veio de novo dar-lhe o braço. Deixei que passassem à minha frente e reparei que escolhiam os lugares da primeira fila no avião. A meio da viagem, três horas voando, fui à casa de banho e vi que a senhora dormitava encostada no ombro dele. Sério, de olhar fixo, ele segurava-lhe a mão transparente. À chegada a Faro vi-os recolherem a bagagem, duas malas de xadrez, e observei-os, sempre devagarinho, a encaminharem-se para a saída. Eu própria encontrei a minha boleia e perdi-os de vista... Mas impressionou-me o velho casal. Acho que, de certa forma, fiquei com um pouquinho de inveja da senhora velhinha, de três alianças e com um braço atento onde se apoiar.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Os ões

Eu gosto da minha língua, da portuguesa, cheia de metasignificados, de possibilidades ternas, de jogos e desafios. Gosto das palavras saborosas, que se enrolam na língua e se desfazem em açucar de zero calorias, das palavras com história, que sempre me trazem aventuras e paixões. Gosto, também, de brincar com os dizeres, com os sons da minha língua, e fico estupidamente feliz quando, no estrangeiro, me perguntam que língua estou a falar que soa tão bem.
No entanto, há palavras na minha língua que me magoam e que, sinceramente, dispenso. São quase todas as que fazem o plural em ões. Detesto proibições, desilusões, suspeições, agressões, insinuações. Em ões, só gosto mesmo dos calções do Manuel Bernardo. Mas ele fica lindo sempre!!!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Escola e Sopa de Cenoura

A mãe estava furiosa. Ralhava, lamentava-se, insistia em fazê-lo sentir-se profundamente infeliz. Ele tentava explicar: - A professora não dissera que tinha marcado falta! Ele nem tinha faltado! Se calhar, alegava a medo, fora por ter falado demais. Porque tem a mania de falar, de dar opiniões, de perguntar, de contar o que vê, de intervir. A mãe insistia que não. Que ninguém marca faltas a um aluno por ele falar, de mais a mais se for numa aula de línguas!! E ele insistia. Só podia ter sido por isso, ou por a setôra não gostar dele, o que não percebia, uma vez que, tal como ela, ele também torcia pelos leões, também tinha um cachecol do Sporting! E a mãe a acalmar-se finalmente, agora declarando que iria à escola falar com a directora. Não que fosse grande ideia falar com a directora... saberia da sua fama (e proveito) de tagarela e brincalhão. Mas, por outro lado, era bom que soubesse que ele não faltara e que nem sabia que tinha falta. Com a mãe mais calma, foi para o quarto, ligou o computador e a televisão e ficou em cima da cama, com os dois comandos, jogando e vendo o National Geographic. Ouvia as irmãs lá em baixo, na cozinha, e pensava na conversa que tivera com a mãe. Duas faltas injustificadas, as duas a português, era razão para ela se zangar. Honestamente, nos seus 14 anos, sabia que falava demais. Mas tinha sempre tanto para dizer... E as aulas, às vezes, eram tão chatas com o habitual cumprimento do monótono sumário: - leitura e interpretação do texto! - Seria bem melhor se houvesse mais hipóteses de participar, de falar, de trabalhar mesmo! Ouvir, tantas horas seguidas, era mesmo complicado... Estava tão distraído, que ia deixando o Porto meter um golo na baliza do Sporting! , no seu jogo da consola; se ao menos nas aulas houvesse desafios, se pudesse fazer coisas...´
Lá de baixo, veio o grito da irmã para que fosse jantar. Correu pelas escadas, saltando degraus, com a energia que o fazia ter duas faltas injustificadas por falar.
Sentado à mesa, comentou: - A escola, às vezes, é como esta sopa semanal, sabe sempre ao mesmo!!!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A Gargalhada - Também em Crise?

"O riso é a mais eficaz forma de crítica", disse, um dia, Eça de Queirós. Peguei na frase, gosto dela, e pedi aos alunos de 11º ano que escrevessem partindo daí. Antes, lembrámos, na sala de aula, os Gato Fedorento, o Contra Informação, Gil Vicente até. Esperava, confesso, grande entusiasmo, humor vivo, olhares, apesar de jovens, atentos e carregados de humor. Infelizmente, a maioria dos textos surgiu cheia de ideias-feitas, de frases gastas, de vazio de conteúdo. Expressei a minha desilusão. Partilhei a minha decepção...
Cheguei a casa pensando na minha vivência.
De facto, concluo, o humor está, também ele, em crise. As pessoas parecem ter desaprendido o sabor de uma gargalhada, o efeito libertador de uma boa piada.
Eu também tenho saudades de rir, de brincar com a realidade, de teias de alegria na minha rotina.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

A capela

Entrou, ajoelhou-se e ficou rezando. Era a sua forma de rezar, um tecer  de considerações mais de si para si que, na pequena capela de chão com História , ganhava novo sentido. Gostava daquele chão, dos vitrais que filtravam a luz, como que purificando a existência, dos poucos móveis encerados e cheirosos. Naquela tarde, fria e ventosa, nem sabia bem o que a levara de novo ao seu espaço de eleição. Decerto não ia agradecer a recente eleição do Presidente que nada lhe dizia, embora pudesse agradecer a derrota de uma esquerda anquilosada que sempre a desgostava... Não ia, também, pedir ajuda para a solução das angústias diárias, porque dos quotidianos dos homens Deus deveria querer distância. Talvez, afinal, tivesse entrado apenas para se ouvir, sem o ruído do mundo que, cada vez mais..., a incomodava.
Ficou ali, sentindo o anoitecer lá fora, escutando as ondas de outros mares que aquele chão lhe trazia. Ouvia Camões "não mais Musa, não mais, (...)" e sentia o mesmo desalento do Poeta. Não mais, pedia, agora, na sua oração de silêncio.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Última Valsa

Não morava ali ninguém. Era um espaço lindo, o revivalismo romântico, agora feito zona pública, constantemente invadido pelos passos pesados e olhares famintos de milhares de turistas. Ela, vizinha daquele lugar, criara com a passagem dos anos laços estreitos com o Palácio Mágico. Deixavam-na entrar sem bilhete, e  caminhava nos caminhos ornamentados, molhava as mãos na água viva e corrente e subia às muitas torres vendo, lá longe, a Vila de Sintra. Não gostava dos túneis, dos corredores escuros e húmidos, mas esquecia-se horas perdidas conversando com Deus na pequena capela. Nos dias menos húmidos, soalheiros, levava um livro, sempre autores portugueses, e  ficava lendo, por ali, saboreando o correr das palavras no tecer das histórias. Às vezes, via grupos de jovens, apressados e alegres, e apetecia-lhe gritar-lhes calma e sofreguidão na vida. Uma antítese. Ou um paradoxo? Para ela, apenas uma verdade aprendida...
Naquela manhã, como em muitas, subiu à Regaleira e, sentindo o coração cansado, entrou no velho palacete. Olhou a sala e ouviu a valsa que tantas vezes dançara. Acompanhando a valsa, com passos certos, surgiam os pares que davam cor ao salão. Levantou-se e ensaiou o ritmo nunca esquecido. Com a cabeça pendendo, rodou, segura, nos braços da paixão que antes dela partira.
Encontraram-na fria, no chão, sorrindo ainda. Fora a sua última valsa.