sábado, 29 de outubro de 2011

Ondas

Piso terreno alheio. É esta Lisboa que não é minha (e onde por crueldade nasci), este mar que aprendi nos poetas, esta luz que enche os Fados de que gosto, que fazem hoje o meu sábado. Hoje, o mar é um lago, planície a arar por alfaias feitas de sonho e vontades. Germinam velas, navegam ligeirezas, levuras e ausências de raízes. Tomo o meu café olhando este terreno líquido e reparo nas ondas, sonhos de lonjura?, que morrem, desiludidas mas hoje ordenadas, na praia vazia. Morrerão os sonhos sempre, quando as palavras se fazem de espuma e a verdade não tem raíz. Morrerá a vontade quando os ventos, intensos, soprarem a desrazão colectiva. E o meu café sabe bem, forte, enquadrado na baía de Cascais onde sempre afogo sentires de muitos cansaços.
Hoje, as ondas são de vontades e o sol espelha de prata o mar de sempre.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

Luz

Depois da chuva violenta, o dia acordou brilhante e lindo. É um tempo de cristal que envolve a minha cidade, a minha Serra, os meus sentires. Junto à barbacã, agora semeada de oliveiras cheirosas, há musgo e cogumelos bravos; na rua do Comércio cheira a castanhas e, à porta das tascas, as velhas tabernas de sempre, anuncia-se a jeropiga recente. Gosto de descer a rua, de saudar os meus conterrâneos de nariz vermelho e de sentir o frio intenso no rosto. É Portalegre com luz. Portalegre a tentar reagir, sobreviver, construir possíveis num tempo de impossibilidades. 
Escorrego no empedrado e rio-me com gosto. Se todas as minhas escorregadelas fossem assim, eu seria bem feliz... Recupero o equilíbrio e sinto o raio de sol, brincalhão e ousado, exigir os óculos escuros. Troco de óculos a tempo de contemplar o pedaço de Serra que o arco do ascensão emoldura. É a minha Serra a dizer que existe, que é forte, que está ali e brilha acreditando na magia da luz cristalina do novo dia. Faço-lhe companhia e acredito também. Acredito que sim, que é possível, que vale a pena, que a luta por uma nova luz ainda faz sentido! Hoje, canto ao optimismo e creio em novas possibilidades.
Hoje, reina em mim a força de viver! A culpa, creio, é desta luz lavada que cobre a minha cidade.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Direitos?

A noite foi de uivos violentos, janelas a bater, ramalhar iluminado por relâmpagos brilhantes. Acordei com um peso na alma, com uma tristeza funda e um desejo, inexplicável, de me sumir num escoador de água, daqueles sempre entupidos com muitas folhas. Mas reagi e fiz-me à vida, o que, para mim, significa dizer que desci à cidade e vim para a Escola. Esperavam-me 26 alunos de 12º ano. Como eu gosto destes miúdos! Falaram-me de Guernica, de Modernismo, de possibilidades e olhares cruzados.
Gosto de perceber que crescem, que o discurso é mais seguro, mais fluente, mais expressivo. A aula voou, em torno de Caeiro e de Álvaro de Campos, todos descobrindo sentidos e decifrandos mistérios. A minha alma aqueceu quando, ao toque da campainha, ouvi protestos de "já?!".
Seguiu-se o Curso Profissional. Agora, 10º ano, o assunto são as relações de palavras, os textos com marcas biográficas. Os miúdos a tentarem, com muita dificuldade, compreender e evoluir. E um só a impedir o trabalho, a procurar o protagonismo, a pôr à prova a minha resistência. Porque terá de ser assim? Porque não será possível, à Escola, encontrar saídas (ou saída?) para jovens de 18 anos que julgam só ter direitos, que crêem tudo poder fazer? Este rapaz, árbitro de futebol, procura na Escola uma ocupação de tempos livres. E os outros têm de o suportar, e nós, todos, pagamos. Será que está certo? Tenho dúvidas.
Tenho muitas dúvidas!

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Orelhas grandes e Suicídio

Uma criança, de orelhas grandes e dez anos, suicidou-se. Era vítima de bullying. Era, com certeza, vítima também de desatenção dos adultos, de indiferença talvez, vítima de uma rotina demasiadamente cheia de insignificâncias para deixar espaço às importâncias. Este miúdo suicidou-se no seu quarto, uma vez mais sozinho, procurando a fuga que deve ter considerado possível.
Não consigo deixar de pensar nesta criança. Não importa agora, é tarde demais, procurar culpados, mas, creio eu, é necessário pensar esta morte. O que está a acontecer nas nossas escolas, no nosso mundinho aparentemente moldado de acordo com normas sociais? Como se sentirá uma escola que permitiu esta morte? Sinto, como professora sobretudo, que urge pensar a dinâmica educativa com verdade e não apenas à sombra de parangonas pedagogicamente sonoras. A nossa Escola precisa de tempos de afectos, de tempos de comunicação, de tempos de ser, e não, como nos impõem, de tempos feitos exclusivamente de OPTE's e aulas de apoio. Se a família falha, e está a falhar (ou em mudança) a função da Escola tem de ser, também, a de desenvolver competências sociais, afectivas, facilitadoras (e promotoras) de integração. O suicídio deste miúdo, de orelhas grandes, tira-me o sono. Sei que há como minimizar estas situações comportamentais que constituem o bullying e desespera-me a passividade (e até indiferença) com que se encaram estas situações!
Urge fazer com que as fadas voltem à Escola, com que a magia dos afectos ganhe sentido! A Escola não pode ser um lugar de medo, onde a única forma de libertação é a morte!
Hoje, tenho muita vergonha de ser professora e queria pedir desculpa a todos os miúdos a quem, por vezes, não dei, ou não dou, o tempo com a qualidade necessária. Hoje, penso que ser professor deve ser, antes demais, estar atento e disponível, agir e mimar, proteger e ensinar. Hoje, tenho a alma tão negra como o céu plúmbeo que cobre a minha cidade e, dolorosamente, os meus sentires embrulham-se levados por um vendaval de emoções intenso.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Segredos

"Sei um ninho. E o ninho tem lá dentro um passarinho" - acho que é mais ou menos assim que começa um poema de Miguel Torga. Fala de um segredo, que não pode nem quer contar a ninguém, para poder ver, um dia, o passarinho voar. Eu não sei um ninho. Mas gosto dos meus segredos, dos que me ajudam a viver, dos que me fazem ser mais eu, dos inconfessáveis, dos antigos. Curiosamente, às vezes apetece-me contar os meus segredos ao papel, confiante que ao grafá-los os escondo, segura que ao dar-lhes forma os conservo. Será?

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

A recta

É uma recta (deveria ser reta?), de bom piso, paisagem tranquila, radares escondidos e traiçoeiros, pouco movimento e horizonte largo, a que me leva até Arronches. Dantes, no tempo em que as rectas tinham a certeza dos "cês", Arronches era a terra dos porcos. Dizem que varas inteiras regressavam dos campos e cada porco seguia a caminho da sua pocilga sem nunca se enganar no destino. Dizem, e eu acredito, que as ruas empedradas da vila branca, em Arronches ainda predomina o branco, ficavam cheias de porcos ao final de cada dia.
Hoje, já não há porcos de quatro patas nas ruas, já não há varas a regressar ao pôr-do-sol, já não há razão para se chamar a Arronches a terra dos porcos. Hoje, as ruas estão vazias, os espaços entristeceram e, sempre que saio da escola pelas nove da noite, por companhia só tenho mesmo as lembranças das muitas estórias que sempre ouvi sobre esta vila linda!
Há pouco, circulando calmamente na recta (para mim com "cê"), com todo o tempo que a minha solidão me concede, deu-me para pensar nas coisas que se perdem nestes tempos de pseudo-modernidade. Hoje, esta noite, no meu canto sozinho penso que estamos a deixar morrer as coisas de ser. Lembro Caeiro, "as coisas não têm significação, têm existência" e concordo que, se calhar, a existência das coisas se faz, cada vez mais, de ausência de significação. Hoje, depois de circular na recta moderna, com os olhos embaciados de vazio, deu-me para pensar que gostaria de poder não sentir. Não pensar também me convinha.

Ei-la!

Faz carreirinhos no vidro da janela, lágrimas de alívio desalentado, criando pequenos lagos no parapeito. Vejo-a do lado de dentro, aquecendo as mãos na chávena larga de café forte, e sinto-a escorrer também dentro de mim. Fazia falta nos meus sentires, nos campos gretados e secos, na vida das gentes, creio eu. Olho os carreirinhos, ordenados, nascendo em gotas minúsculas e criando pequenas ribeiras grossas. Como a vida, os meus sentires, as estórias que nos tecem. Começa fácil, fininho, e vai-se enchendo de pingos gordos, de lágrimas salgadas, de desilusões e ausências, terminando num lago de águas estagnadas e baças onde, muitas vezes, nos tornamos (eu me torno) náufraga da vida.
Eu gosto da chuva! Gosto da autenticidade do Inverno, da fúria do vento que deita ao chão as nozes da minha nogueira, do frio que pinta de vermelho a ponta o nariz das minhas crianças. Gosto do cheiro da lareira, das romãs rubicundas, dos marmelos a cozer anunciando, na minha cozinha, o possível regresso de um D. Sebastião para construir um Portugal novo e com sentido mesmo.