Uma criança, de orelhas grandes e dez anos, suicidou-se. Era vítima de bullying. Era, com certeza, vítima também de desatenção dos adultos, de indiferença talvez, vítima de uma rotina demasiadamente cheia de insignificâncias para deixar espaço às importâncias. Este miúdo suicidou-se no seu quarto, uma vez mais sozinho, procurando a fuga que deve ter considerado possível.
Não consigo deixar de pensar nesta criança. Não importa agora, é tarde demais, procurar culpados, mas, creio eu, é necessário pensar esta morte. O que está a acontecer nas nossas escolas, no nosso mundinho aparentemente moldado de acordo com normas sociais? Como se sentirá uma escola que permitiu esta morte? Sinto, como professora sobretudo, que urge pensar a dinâmica educativa com verdade e não apenas à sombra de parangonas pedagogicamente sonoras. A nossa Escola precisa de tempos de afectos, de tempos de comunicação, de tempos de ser, e não, como nos impõem, de tempos feitos exclusivamente de OPTE's e aulas de apoio. Se a família falha, e está a falhar (ou em mudança) a função da Escola tem de ser, também, a de desenvolver competências sociais, afectivas, facilitadoras (e promotoras) de integração. O suicídio deste miúdo, de orelhas grandes, tira-me o sono. Sei que há como minimizar estas situações comportamentais que constituem o bullying e desespera-me a passividade (e até indiferença) com que se encaram estas situações!
Urge fazer com que as fadas voltem à Escola, com que a magia dos afectos ganhe sentido! A Escola não pode ser um lugar de medo, onde a única forma de libertação é a morte!
Hoje, tenho muita vergonha de ser professora e queria pedir desculpa a todos os miúdos a quem, por vezes, não dei, ou não dou, o tempo com a qualidade necessária. Hoje, penso que ser professor deve ser, antes demais, estar atento e disponível, agir e mimar, proteger e ensinar. Hoje, tenho a alma tão negra como o céu plúmbeo que cobre a minha cidade e, dolorosamente, os meus sentires embrulham-se levados por um vendaval de emoções intenso.