Em parangonas, estrategicamente colocado, um enorme cartaz gritava: "Veja até onde o Amor o pode levar!". Obviamente, entusiasmei-me. Uma viagem até ao pólo norte? Um passeio de gôndola em Veneza? Uma noite no deserto? Umas férias na Patagónia? Um pacote de toneladas de felicidade ternurenta?...imaginei muita coisa, confesso. Deixei-me levar pelo sonho, ressuscitei os meus sonhos mais loucos e aproximei-me do cartaz promissor. Acho que no fundo-fundo eu antecipava uma desilusão e, por isso, avancei devagarinho saboreando o pode ser que até ao limite. Quando a distância entre a realidade e a promessa era nula, descobri que seria um Fiat Panda o Amor que me levaria algures. A desilusão, que o não foi, ofereceu-me uma valente gargalhada e uns minutos de boa disposição! Um dia, ainda compro um Fiat Panda (da Corgi Toys, claro!)
terça-feira, 6 de março de 2012
segunda-feira, 5 de março de 2012
Os pontos
Ela insistia: - Tinha pontos para gastar! A resposta vinha firme, não poderia utilizá-los se não no final de dois anos... E ela protestava: - Mas eu preciso agora e já tenho este contrato há imenso tempo! - A resposta, na ponta de uma unha/garra vermelha e brilhante, incidia nas letras miudinhas... Sim, ela já devia saber que há sempre letras miudinhas, que nunca as ofertas são o que parecem, que não há jantares grátis, que os favores e facilidades não existem... Mas, ainda que segura das sua certezas inócuas, insistia: - Eu preciso de um telemóvel novo e, se não é possível usar os pontos, vou mudar de serviço. Veio o supervisor com a resposta certificada, um não mais autorizado.
Saíu da loja irritada. Ainda no automóvel, abriu a carteira e encontrou os cartões: - uns prometiam pontos, outros descontos, outros crédito imediato, outros acessos privilegiados. Soube-lhe muito bem rasgar todos, partir em bocadinhos os mais duros, e lançá-los no cinzeiro de onde seriam aspirados directamente para o lixo. Estava farta de adiamentos, de promessas condicionadas, de ofertas envenenadas. Cansada de uma realidade cheia de plásticos para iludir a verdade, para entreter as dificuldades. Estava farta de comprar pão e entregar um cartão, de ir ao Supermercado e passar outro cartão. Estava farta, até, da publicidade daqueles que garantiam descontos sem cartões nem promoções...
Pontos? Só se, por azar, tivesse de recorrer a um cirurgião!
domingo, 4 de março de 2012
Benedita
"Uma Fazenda em África" é o título do intenso romance de João Pedro Marques. Tudo começa com a revolta de Pernambuco, com o sequente ataque indiscriminado a portugueses, mas tudo se desenvolve, depois, em torno de uma personagem feminina- Benedita - que cresce aos nossos olhos. Se a conhecemos menina, insegura e receosa, no Brasil, vamos vê-la tornar-se Mulher, segura e decidida, em Moçâmedes. Li este romance de um fôlego, sofrendo, chorando (acontece-me tantas vezes) e sentindo os odores de uma África que desconheço. Benedita não é a heroína perfeita, mas é a personagem humana. Erra, hesita, sucumbe, questiona-se e questiona-nos também. Com ela partilhei o vazio que as constantes partidas de quem amamos sempre causam, com ela passei noites olhando as estrelas em busca de uma resposta que, se calhar, está dentro de nós.
Andava eu viajando por África, aguardando o regesso de Peter, espreitando a negra protectora e mágica, quando fui interrompida pela realidade. Realidade medíocre de quem, sem nenhum valor real, se põe em bicos de pés, em sapatos de má qualidade (ainda por cima), para chatear os outros. Esbarrei, de rompante, com um mundo onde gente sem valor se gosta de empinar como os coiotes que Peter abatia com tiro certeiro.
Ah! como eu gostava de poder conviver apenas com a Benedita...
Lágrimas
Correm em carreirinho, picam os olhos, incham as pálpebras e sabem a sal. Surgem quando querem, às vezes por causa de uma palavra, outras vezes por uma paisagem, ainda também por uma dor, por coisa nenhuma até. As lágrimas envelhecem connosco, tornam-se dolorosamente adultas. Em crianças, secamo-las num instante. Trocam-se lágrimas por sorrisos, tristezas por alegrias, bastando para isso um colo terno, um beijo amigo. No entanto, quando as rugas começam a surgir, elas tornam-se acres e duradouras. Ao mesmo tempo, as lágrimas libertam-nos, lavam-nos a alma até.
Às vezes, o meu cão uiva num tom dilacerante. Tento consolá-lo mas concluo, sempre, que ele uiva assim porque não pode chorar.
Às vezes, o meu cão uiva num tom dilacerante. Tento consolá-lo mas concluo, sempre, que ele uiva assim porque não pode chorar.
Ainda bem que eu tenho lágrimas. Muitas!
sábado, 3 de março de 2012
Espelhos e Demónios
Para os orientais, sobretudo para os japoneses, o espelho é um objecto que permite afastar os demónios. Acreditam eles, ou acreditavam (no tempo em que se acreditava em alguma coisa), que os diabos são feios e, por isso, ao verem-se reflectidos se afastariam. Nunca tinha pensado nesta possibilidade, sem dúvida fantástica e útil, dos espelhos. Para mim, os espelhos são só denunciadores, violentos por vezes, de realidades pouco agradáveis... Mas, depois que lhes aprendi esta nova funcionalidade, olho-os com mais respeito. Gostava mesmo que funcionasse esta ideia! Acho que, se isso acontecesse, passaria a trazer no bolso sempre um grande espelho. Qaundo me agredissem dsrespeitando a minha privacidade, quando me chateassem exigindo que compreenda o absurdo, quando me pedissem para cumprir desacertos, eu puxaria do espelho e tudo desapareceria! Porque, sinceramente, eu acho que os verdadeiros demónios estão cada vez mais perto de nós. Estão no nosso quotidiano com estatuto adquirido e, vezes demais, disfarçados de normalidade...
sexta-feira, 2 de março de 2012
Pastel de Nata
Ajeitou um pouco o corpo dorido, dobrou o cartão grosso com que enganara o frio húmido da noite e ficou olhando. A fila era longa, o linguajar plural, o odor intenso. Ele era a presença estranha, incómoda, a nódoa a manchar uma paisagem perfeita. Reparou no cuidado com que várias objectivas o evitavam, a foto devia ser perfeita, levando os fotógrafos turistas a mudar de ângulo. Também ele já fora turista, já tirara fotografias quase perfeitas, já fizera fila para comprar o verdadeiro pastel de nata. Sim, ele já tivera vida, emprego, sonhos cumpridos. Agora, vítima da idade (que chatice não ser ainda velho para reforma, nem jovem para novo emprego), ali estava, na rua, com o passado penhorado e o futuro adiado. Sorriu.
Recusava-se ainda a estender a mão à caridade. Doía-lhe o orgulho, magoava-o a humilhação e, por isso, tentava arrumar carros, carregar sacos de supermercado, fazer pequenas tarefas que lhe permitissem não morrer de fome. Continuava procurando uma solução: - Partir? Como, se não tinha nem como pagar o bilhete de ida?! Quanto mais pensava, mais concluia que morrer seria a melhor opção... Perdera tudo, morrer era a oferta que o seu país lhe fazia.
Afastou os pensamentos e voltou ao seu cenário agora diário. Tantos pacotes cheiinhos de pastéis de nata! Lera, uma leitura roubada num jornal de quiosque, que um dos muitos ministros garantira poder o pastel de nata ser um motor de desenvolvimento. Lera, também, a proposta de fazer pastéis de nata sem açucar, light?, e rira-se na sua descrança. Um mundo excessivamente preocupado com calorias e aberrações e, achava, pouco atento à realidade de pessoas amargas. Excessivamente light o mundo, talvez...
quinta-feira, 1 de março de 2012
OBRIGADA
Um blogue serve para muita coisa. Para desabafar, para opinar, para acompanhar, para chatear, e, sem dúvida, para comunicar. Hoje, é mesmo só comunicar que quero. Quero comunicar a todos os meus amigos, leitores, visitantes esporádicos, que me aqueceram a alma os muitos (imensos!) desejos de felicidades e parabéns que recebi. Cada um chegou especial, com ou sem presente, aconchegado num ramo de rosas vermelhas, acompanhado de uma foto especial, com palavras sempre especiais. Só para saber que tenho amigos, todos tão queridos, valeu a pena ter feito anos.
No entanto, tenho de deixar um especial obrigada carinhoso aos meus alunos que já não o são e, de longe, das suas vidas universitárias, não me esqueceram: - Para a Ana, Eduardo, Luís (plural), Catarina, Raquel, João, Teresa, Joana, Rita, ... TANTOS! OBRIGADA MESMO! Se fazer anos serve para aquecer a alma e nos encher de afectos com sentido, eu quero fazer anos todos os anos e não, apenas, de 4 em 4!
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