sábado, 20 de março de 2021

SOBRINHOS

 Diz-se que ser avó é ser mãe duas vezes. Eu acrescento que ser tia é ser mãe de coração. 

Tenho com os meus sobrinhos uma relação de amor intenso, e já vou na segunda leva, nos sobrinhos filhos de sobrinhos! Mesmo distantes, mesmo adultos e com filhos, ainda que não os veja com a regularidade que desejaria, penso muito neles e adoro-os. 

Cada um é especial. O Bernardo foi o primeiro, é o meu menino de olhos negros e intensos, carrega o Alentejo no sangue e eu tenho uma profunda admiração pela sua autenticidade. O João é o teimoso mais doce que conheço. Maroto em miúdo, conservou o sorriso irresistível e eu estou desejosa de o ter por vizinho. A Leonor é a minha afilhada. Cresceu comigo nos primeiros anos, dormia muitas vezes na minha cama, fazia-me perguntas embaraçosas com aqueles olhões pretos que ainda hoje me encantam. O António era o mais divertido. Sempre pronto para abrir o coração, acreditava na magia e na ternura e, jovem adulto, persegue a utopia de um mundo Humano e justo. A Carolina, a mais pequena, foi sempre a independente. Curiosa e calada, observava e silenciava-se. 

Todos eles fazem parte de mim! 

Amanhã, a Leonor faz anos. 31! e eu acho que Cronos se enganou, que não é possível que a minha Leonor já seja uma campeã de equitação, já seja uma vencedora, já vá apagar 31 velas. Queria muito dar-lhe um abraço, sentá-la ao meu colo, como quando a embalava para a adormecer, ter o poder de afastar para longe todos os papões do quotidiano. Faz-me falta esta menina mulher!

quarta-feira, 10 de março de 2021

REVOLTA

Estou incrédula. Como é possível? Onde chega  a estupidez mascarada de intelectualidade? Não queria acreditar quando li um excerto de uma tese de mestrado onde se lê que Eça de Queirós é racista. Mas está tudo doido? Parece-me absolutamente descabido, para ser suave, olhar e interpretar autores fora do seu contexto, e querer forçar interpretações consideradas politicamente correctas. Querer deitar abaixo o Padrão dos Descobrimentos, dizer que o Padre António Vieira é defensor da escravatura, querer ver manifestações racistas na obra Os Maias, excede tudo o que pode ser considerado razoável. 

A literatura deve ser promotora da Liberdade, como o conhecimento promove a consciência e o sentido crítico. Quanto mais conhecemos, mais livres somos, disse alguém. 

Não posso compreender, menos ainda aceitar, que queiram aprisionar pensamentos de grandes autores, destruir obras como Os Maias. Às vezes, é muito difícil ser pessoa no meu país!


segunda-feira, 8 de março de 2021

DIA DA MULHER

Sempre que é Dia da Mulher, eu oiço na minha cabeça o woman de John Lennon. Acho, ainda, que o woman casa bem com o Imagine, a minha música de eleição. Sim, o Dia da Mulher é especial. Porque ainda há mulheres vítimas de violência, muitas vezes causada por alguém que um dia amaram, porque ainda há mulheres na miséria, porque ainda há mulheres que deixaram o sorriso perdido, colado algures num tempo inexistente.

Como Mulher, exageradamente mulher, não gosto que este dia seja assinalado com strip-tease masculino, nem com mulheres a embebedarem-se "à homem". Acho deprimente, sinceramente, que uma mulher considere felicidade imitar os homens...
Este ano, alguma coisa de bom a pandemia teria de ter, esses momentos devem ser poucos e, por isso, o Dia ganha ainda mais sentido.
É tempo de pensar na magia de ter uma vida dentro de nós, de afagar um filho antes de alguém o ver, de sentir a dor alheia por antecipação, de poder acolher, inteiro, o amor dentro de nós, de fazer xixi sentada, calma e confortavelmente.
Sim, o Dia da Mulher é especial! Tempo de lembrar enormes mulheres, tantas. Tempo de pensarmos em nós, corajosas lutadoras pelos outros.
Feliz Dia da Mulher, para todas nós. Feliz Dia da Mulher para os homens que têm o privilégio de conhecer uma mulher que seja

segunda-feira, 1 de março de 2021

OUTRA VEZ

 Ao meu lado sentam-se duas senhoras. Uma, jovem, 21 ou 22 anos, outra, grisalha já, risquinhas no olhar, 61 anos sem dúvida. Conversam comigo. A mais jovem, fala dos sonhos, das certezas de muitos impossíveis, garante que a vida se ganha e que a felicidade existe. Vai casar, acredita convictamente no amor, tem um vestido ligeiro, florido, e ri-se troçando dos avisos da senhora grisalha. A senhora de risquinhas no olhar fala de desilusões sucessivas, de muitos vazios, de solidão e desesperança, de tristeza e abandono. Desafia promessas ocas, passa as mãos nos cabelos esbranquiçados constatando o vazio que a envolve. As duas senhoras não se conhecem. Viveram em épocas diferentes!! Mas foi pena... A senhora grisalha devia ter avisado a jovem Luísa dos perigos a haver.

Hoje, faço 61 anos. 

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

CEFALEIA

 Quando alguém se queixa de dor de cabeça, costumo dizer, brincando, que é muito bom que tal aconteça, porque é a prova de que tem cabeça. Hoje, só para não me armar em engraçadinha, acordei eu com uma cefaleia violenta (assim, com nome pomposo, ganha outro estatuto), e mal consigo abrir os olhos. Obviamente, já fiz um cocktail de comprimidos, já andei a cheirar o Zorba, para confirmar que não é COVID, e já agradeci o facto de ter cabeça.

No entanto, a cefaleia aguda, felizmente não grave, não desaparece.

Para complicar as coisas, a vida moderna faz-se de ecrãs, e o brilho do meu computador dispara setas no meu cérebro. Penso que tenho muita sorte por não dar crédito à vida. Se assim não fosse, estaria fechada no quarto, às escuras, maldizendo a incómoda cefaleia.

Era capaz até de lhe chamar dor de cabeça, só para a minimizar!

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

REVOLTA

Fecharam-me em casa, trancaram-me a existência, impuseram-me os ecrãs gelados, envolveram-me em virtualidades. Ignoraram que o Tempo não pára, que o monstro Cronos a cada dia come vinte e quatro irrecuperáveis horas. 

Proíbem-me vivências irrecuperáveis, não há adiamentos para momentos marcantes! Amanhã, a minha neta Constança faz 8 anos e eu estou longe, sem possibilidade de lhe dar um abraço, de a ouvir contar das descobertas da vida que está a fazer, sem poder contar-lhe


mais uma história,  dizer-lhe ao ouvido que está linda com o vestido novo!

Não é justo, não é democrático! 

Não devia ser permitido proibir os afectos, prender cidadãos que não cometeram qualquer crime entre quatro paredes. Eu quero de volta a minha liberdade de circulação! Quero voltar a ser responsável pela minha vida, pelas minhas opções!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2021

PARADOXOS E APRENDIZAGEM

 

Li, não há muito tempo, durante a preparação para uma sessão de trabalho, mais uma entrevista à Drª Luísa Tavares Moreira (não, não sou eu, mas tenho pena. Admiro profundamente a minha homónima) onde ela lembrava que enquanto diretora de uma escola, via os rapazes e raparigas saírem e entrarem pelos portões e percebia que aquela não era a Escola de todos. Também eu senti, e pensei, e penso, isso mesmo muitas vezes. Há escolas que são gaiolas, há escolas que dão asas. Ou, talvez com mais propriedade, eu possa afirmar que há professores que ensinam a voar e há outros, felizmente cada vez menos, que trancam gaiolas nem sempre sequer douradas.

Quando eu era menina, frequentando o então ciclo preparatório, tive um professor que me aterrorizava. Sempre fui leitora, leitora quase compulsiva e, à época, aquele professor, alto, nariz adunco, dedos enormes, lembrava-me sempre o conto do barbeiro Mestre Finezas, do Manuel da Fonseca, sendo eu o infeliz Carlinhos de saias. Juro, sem exagero, que tinha pesadelos na véspera das aulas de matemática e que, mesmo que eu tivesse estudado, o que fazia com a mente presa no pavor, mal entrava na aula começava a tremer. Sem grande esforço, oiço ainda a voz nasalada, grave, daquele terrorista de almas que era o meu professor de matemática.

No mesmo ano, tive uma professora de francês que devia ser a personificação do sorriso, ou ter sido feita num dia de sol radioso, pois tinha açúcar na voz e embrulhava em seda as aprendizagens. Aprendi a cantar as conjugações, a1ª a 2ª e a 3ª, sabia dizer frases inteiras e lia os textos com prazer. Quando, à noite, por imposição da minha mãe, preparava os livros para o dia seguinte, era com muita alegre ansiedade que confirmava se teria francês.

O tempo passou, porque o tempo passa sempre ignorando ansiedades juvenis, e fui para o Liceu. Aí a matemática já não era o Mestre Finezas, era mesmo a tesoura do dito. Resolvi arrumar o assunto de vez e, com muito gosto, sempre que possível trocava a aula de números e equações por uma hora de namoro nas escadas do corro, ou uma boleima no Café Alentejano. Obviamente, os meus conhecimentos matemáticos limitam-se à vaga ideia de que havia umas equações com um X de valor duvidoso, e uns números de dois andares que se multiplicavam de forma complexa.

Hoje, professora também, partilhando o desejo de uma Escola efetivamente para todos, e por isso para cada um, procuro uma forma de ensinar a voar. De eliminar os sucedâneos do aterrador Mestre Finezas, de fazer proliferar os professores que deixam crescer os sorrisos.

Sim, recordo muita Escola e parafraseio a Drª Luísa Tavares Moreira: - Temos de ser capazes de fazer uma Escola para cada um!