domingo, 20 de outubro de 2013

DÚVIDA

O senhor presidente tem dúvidas sobre o orçamento do estado e pondera, dizem os Media, pedir o parecer do Tribunal Constitucional. Eu tenho a certeza, absoluta, que mesmo que o orçamento seja constitucional, é injusto, violento, agressivo, desumano e disparatado. Se governar é roubar quem trabalha, então qualquer um pode ser governante...Nem de propósito, recebi hoje esta pequena história, muito elucidativa, que não resisto a partilhar:
" Era uma vez um rei que queria pescar.
Chamou o seu meteorologista e pediu-lhe a previsão do tempo para as próximas horas.
Este  assegurou-lhe que não iria chover.
A noiva do monarca vivia perto de onde ele iria e colocou a sua roupa mais elegante para o acompanhar.
No caminho, o rei encontrou um camponês montando seu burro que viu o rei e disse: "Majestade, é melhor o senhor regressar ao palácio porque vai chover muito".
O rei ficou pensativo e respondeu: "Eu tenho um meteorologista, muito bem pago, que me disse o contrário. Vou
seguir em frente".
E assim fez. Choveu torrencialmente.
O rei ficou encharcado e a noiva riu-se dele ao vê-lo naquele estado.
Furioso, o rei voltou para o palácio e despediu o meteorologista. Em seguida, convocou o camponês e ofereceu-lhe emprego.

O camponês disse: "Senhor, eu não entendo nada disso. Mas, se as orelhas do meu burro ficam caídas, significa que vai chover".

Então, o rei contratou o burro.
E assim começou o costume de contratar burros para trabalhar junto ao Poder...

Desde então, os burros ocupam as posições mais importantes junto ao poder!

sábado, 19 de outubro de 2013

O PRESENTE

Mal entrou em casa, viu-o. Minúsculo, papel vermelho, laço branco, enorme, cheio de frufrufrus, estava instalado na camilha de trabalho, bem ao centro, sem cartão, como se por si só bastasse. Ela olhou-o e desprezou-o. Com calma, arrumou as compras no frigorífico, atirou os saltos altos para um canto e vestiu o casaco velho e gasto. Voltou a olhar o presente, agora com alguma curiosidade, parecendo-lhe que ele estava amuado por ter sido votado ao esquecimento. Quem teria enviado a caixinha? Olhou o embrulho de um lado e de outro, buscando o remetente, mas nada. Agitou a caixinha, seria um anel?, mas nenhum som se denunciou. Voltou a colocá-lo na camilha e foi preparar trabalho. O presente continuava ali especado, ofendido já. Foi antes de aquecer a sopa do jantar que resolveu abri-lo. Com mil cautelas, puxou a ponta do laço. Depois, descolou a fita cola e, finalmente, ficou com a caixa na mão. Não era de veludo, não era um anel. Com crescente curiosidade, abriu a tampa e saltou de lá um abraço vermelho, ternura azul e mil beijinhos salpicados de arco-íris. Era riu com gosto: - Era tudo o que mais desejava! 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

RECONHECER O MÉRITO

Julgo que toda a gente, obviamente pessoas normais, gosta de ver reconhecido o seu esforço, o seu trabalho, o seu mérito e as suas competências. Claro que, profissionalmente, associa-se a este gosto o do vencimento adequado ao trabalho e ao esforço... Mas, excluindo mesmo o desempenho profissional, penso que nas pequenas coisas do quotidiano todos gostamos de um reconhecimento, de um elogio, de um mimo. Eu, por exemplo, fico feliz quando recebo um sorriso verdadeiro da Bia, ou um olhar desafiador do Miguel, ou mesmo uma confidência do Afonso. São as pequenas ENORMES coisas que dão sentido a uma vida que, cada dia que passa, tem menos sentido. Hoje, na minha escola, foi tempo de entrega de Diplomas e Certificados de mérito, valor e excelência. Os melhores alunos, MUITOS!, com média superior a 16 valores, receberam diplomas e, sobretudo, viram o seu nome brilhar no ecrã gigante do anfiteatro. Eu, como professora, mas, também, como cidadã, estava orgulhosa e comovida.
Temos gente muito boa e, às vezes, parece que só lembramos os maus, ou os medíocres, ou os vadios, ou os preguiçosos. Pensamos em soluções para esses, inventamos e reinventamos estratégias e esquecemos os outros. Esquecemos esta gente boa, que vai vingando no silêncio e que precisa  (e merece) ser reconhecida e elogiada; precisa ser mimada e acarinhada.
Ver o grande ginásio a bater palmas aos bons alunos, encheu-me a alma de professora. É bom sentir que faço parte de uma escola assim, viva e lutadora, capaz de encher de sorrisos de vitória um ginásio imenso!

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

OS PAIS E A FELICIDADE

Muitas vezes, quase me atrevo a dizer que diariamente, comento, e oiço comentar, a culpa/responsabilidade dos pais nos comportamentos dos filhos. Aliás, já há alguns anos o Dr. Daniel Sampaio publicou um livro intitulado, exactamente, "Inventem-se Novos Pais"... De facto, sinto e constato que os pais são, muitas vezes, os principais responsáveis pela infelicidade dos filhos.
Mas eu também sou Mãe e, como tal, não falo de cor e sei que os pais querem sempre o melhor para os filhos. Onde, então, está o problema? Penso e repenso e concluo que o que faz falta é aprender a educar para a felicidade! Se os pais querem que os filhos sejam felizes, e querem!; têm de os educar para tal. Como? Seguindo algumas, "pequenas" ideias minhas (e como tal carentes de fundamentação científica e enformadas de mil erros):
1º Tempo de Qualidade - É preciso dar tempo, e ter tempo, para estar com os filhos. Para os ouvir, para colher flores, para caminhar ao ar livre, para partilhar um jogo. E para ouvir os telejornais e opinar, ouvindo e não impondo conclusões! Tempo para falar e para ouvir. Ouvir muito, falar o suficiente.
2º Regras - Fundamental impôr regras, os pais não são o amiguinho lá da escola..., e obrigar ao seu cumprimento. Implica a dolorosa, mas imprescindível!, tarefa de castigar. De dizer Não! Não ceder às lágrimas de arrependimento fácil, mas fazer valer a palavra do adulto e o cumprimento da regra definida.
3º Respeitar - Essencial respeitar o espaço de cada um. Há coisas que são dos pais, há coisas que são dos filhos. Não ler emails, não abrir correspondência, não questionar sobre amizades até à exaustão.Não querer controlar tudo, até a realização dos trabalhos de casa, mas estar disponível para orientar quando a orientação é pedida.
4º Afecto - Usar e abusar da ternura, do mimo, do carinho, do abraço, do beijinho e do "colo". Fazer elogios, achar lindos os patinhos feios! É que eu acho que não há quem não goste de ser gostado...
5º Pensos rápidos - Ter sempre à mão pensos rápidos é fundamental. Em pequenos, faz-lhes bem cair e esfolar joelhos e mãos; mais velhos é importante arranhar a alma, rasgar o coração, e saber que em casa há pensos rápidos...
6º Verdade - Nunca premiar a mentira e valorizar sempre a verdade. Ainda que. Mesmo que.

É tarde na noite, a insónia está dura, o "Homem de Constantinopla" já chegou à última página e isso tudo, confesso, toma conta do meu texto. Mas, ainda assim, e de verdade mesmo, penso que a felicidade é uma competência que se pode desenvolver e gostava muito, mas gostava mesmo, que entrasse em vigor a pedagogia da felicidade! 

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

AO MURRO

" Mas se me chamam nomes, eu parto-lhes a cara!" - Eu falo da importância de não dar ouvidos, de responder com frieza e distanciamento, de ignorar e desprezar a violência. Falo-lhes da força da palavra, da importância da ternura e do respeito. Não resulta. As minhas palavras esbarram na rotina aprendida, na violência conhecida e há muito praticada. Em casa, confronto-me com a notícia de um jovem que esfaqueou colegas e funcionários, em Portugal, ali mesmo em Massamá e, para meu espanto, oiço um psicólogo garantir que o jovem deu sinais de alarme e que os professores o negligenciaram. Ou seja, os professores têm a culpa! Será que os psicólogos conhecem o trabalho constante dos professores, entre alunos que se agridem, outros que faltam, outros que não trabalham e ainda outros que se calam? Será que os psicólogos sabem que os professores assistem a trinta necessidades específicas ao mesmo tempo? E que mudam de "clientes" de hora a hora? E que funcionam ao toque da campainha, sem hipótese de fazer crescer tempos? E que são diariamente bombardeados com alterações ao programa, currículos alternativos, diferentes níveis de aprendizagem, reuniões, formações, exercícios e avaliações?!
Lido com jovens há mais de trinta anos e nunca desisti de nenhum. No entanto, hoje, sinto resvalar o chão que piso e isso, honestamente, apavora-me! No entanto, não aceito com indiferença as "culpas" que querem fazer-me carregar. A violência crescente nas escolas não é responsabilidade dos professores. É, apenas..., a consequência lógica de uma sociedade desumanizada e cada vez mais injusta!

terça-feira, 15 de outubro de 2013

METAS

Afinal, as metas curriculares continuam em vigor e, agora, tudo parece depender das mesmas. Curiosa e estranhamente, fala-se em operacionalizar metas (não é a meta o lugar onde se chega?), em desenvolver as metas, em centrar o ensino nas metas. Vai daí, organiza-se formação e vende-se o que não faz nenhum sentido. Como sempre sobra para mim, obviamente também vou frequentar a formação das metas... Mas não vou ficar a saber como atingir as metas, o que muito me chateia!
Este sistema educativo, deste país que é o meu, não para de piorar e de me desiludir. Agora, para complicar, os "génios" da educação parecem ter eliminado a palavra aprendizagem e tudo se resume ao ensinar. Ensina-se, ensina-se, ensina-se e ninguém aprende. Mas não faz mal, porque aprender também não está nas metas...

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

Partida

Finalmente, depois de desencontros magoados, depois de muitas rasteiras da vida, vencida muita solidão abandonada, a vida parecia encarrilar. Lembrava Pessoa, "gira a entreter a razão, esse comboio de corda que se chama coração" e revia-se no engodo. Quantas vezes cedera ao coração, quantos adiamentos não fizera, sofrendo, dando crédito a emoções traiçoeiras? Mas tinha decidido não olhar para trás (para trás mija a burra) e, por isso, olhava em frente com esperança.
 Não tinha sonhos, porque os sonhos nunca acontecem, (e quando acontecem, deixam de o ser...,) mas tinha certezas e coragem. Se o mundo colapsava à sua volta, ela lutaria para se salvar. Por isso, olhava o coração com a força da razão, desligava as culpas e os olhares alheios, e fazia a mala. Ia partir! Para trás (no tal lugar para onde a burra...enfim...) deixava os preconceitos, os medos, os conselhos que não pedia, as verdades alheias que nada lhe diziam. Ficavam reflexos que alteravam a realidade, perspectivas agudas e espelhos modificadores onde não se revia.
Na mala metia a força do sorriso, a energia forte do abraço a dar, a ternura quente a partilhar. Partia numa viagem definitiva, sem paragens nem recuos, com destino conhecido e desejado. O coração ia arrumado, firme e seguro, amparado na compreensão mútua e no carinho constante. O Tempo tem sempre tempo, quando o Tempo faz sentido!