Era um sofá moderno, cor neutra, como
neutra é a realidade vintista, feita de achismos e indiferença, com parangonas
a tentar, sem êxito, dar sentido ao vazio. Era pois neutro, o sofá. Comprido,
convidativo e neutro. Há quanto estava ali o neutro? A quantas conversas, a quantas
ousadias teria assistido, quantos rabos teria já acariciado? Ela tentava
enxotar, qual mosca incómoda, os pensamentos sobre o neutro e sorria por
dentro. Sim, pode sorrir-se por dentro, pensava, e pode brincar-se por dentro,
mantendo aparência séria, cumprindo, pretensamente, o desempenho que a vida exigia.
Porque estava ali?
Havia muitos anos que atravessava
vida, somava perdas, perdia alegrias. Trazia na bagagem uma imensidão de desilusões
e, quantas vezes?, de desistências
anunciadas. Mas seguia sempre.
Se lhe perguntassem se ainda
acreditava na felicidade, garantiria que felicidade só conhecia a Dona, a que
vendia as melhores hortaliças no mercado da sua cidade. Talvez, dizia, a
existência fosse mesmo isto, uma operação de deve e haver, de débito e crédito,
numa contabilidade complexa. Estava ali. E, incapaz de sacudir pensares e
sentires, esforçava-se por ignorá-los. Estava ali, era livre, e não queria ser
neutra. Não.
Queria, como o poeta, sentir tudo
de todas as maneiras e, não desejando ir na vida como um automóvel último
modelo, não queria ficar, à margem do rio, vendo a água passar.
Ele abraçou-a e sentaram-se. Um
Porto? Preferiu um Gin. Há momentos, na vida, em que as bebidas doces pecam por
excessiva inocência. Muito limão, pediu.
Dois copos gordos, redondos
mesmo, deixavam dançar a casca do fruto amargo.
Dançamos? E o abraço surgiu
total, absoluto, fazendo com que as almas acertassem no ritmo dos pés deslizantes.
Bésa-me, bésa-me mucho, pedia Bocceli. E ela sorria, porque ris?, pensando que não
precisava do pedido. Sentia o corpo forte, viril, a segurar o seu e deixava-se
ir. Não pensava nada, sentia só.
O Gin esperava, a quentura do
abraço ritmada fazia-a recuperar a praia, as ondas do mar imenso, a intensidade
do por do sol, a incessante busca, sem êxito, do ponto verde. Bocceli
continuava e, agora, os dois eram uma clave.
O sofá era neutro. Só ele era
neutro.
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