sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Outono(s)

Decididamente, adoro o inverno. Gosto da chuva, dos dias cinzentos, da humidade que escorre nas vidraças, do vento que uiva nas noites longas. Nesta época, a minha terra ganha novas cores e o meu coração aquece na antominia que me caracteriza. Hoje, bem cedo, encontrei a Serra vestida de vermelho e dourado. O ar cheira a fresco puro, a resina, a dióspiro também.
Um poste de electricidade está embrulhado em vinha virgem vermelho vivo. É um grito de paixão em direcção ao céu que me comove. Queria também chegar ao céu, seja lá isso o que for...
As cores de fora mexem com os meus sentires. A minha tristeza, a minha incompreensão do real vivido, é também intensa e vermelha. É o vermelho da paixão que me faz levantar a cada amanhecer e, apesar de todos os pesares, olhar o mundo e agir. É a paixão intensa que me faz acreditar que sim, que é possível ser feliz, que sim, que vale a pena seguir lutando, que sim, que no Outono da minha existência há essências a realizar.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Sapos

É verdade que a nossa língua tem sofrido muitas alterações. Umas parecem-me lógicas, outras abruptas e idiotas, outras decorrentes da modernidade mas, sempre que esbarro com elas, surpreendo-me com as mudanças. Hoje, tive uma experiência nova... Hoje, senti que não havia forma de expressar o que senti. Eu, eu que tanto gosto das palavras e dos livros, eu que acho que até domino um vocabulário alargado, fui confrontada com um facto que não soube definir. Não fui capaz, sequer, de verbalizar o que senti e, por causa disso, fiquei com uma impressão estranha, com uma espécie de sapo que não consigo engolir entalado nos sentires, preso nos pensares. Afinal, ainda há palavras por inventar e, creio eu, enquanto existirem homens surgirão situações indizíveis (neologismo também). Infelizmente, não há situações que não possam não acontecer por não terem como ser classificadas.
Hoje estou assim. De vocabulário insuficiente.

A Mesma canção

Diz o Rui Veloso, com o inconfundível sotaque nortenho que o caracteriza, que não se ama alguém que não ouve a mesma canção. Gosto de o ouvir e, muitas vezes, é ele quem me acompanha nas minhas peregrinações pelo meu Alentejo. De noite, a coberto do escuro, chego a atrever-me a cantar com ele... Hoje, estou de acordo com ele, profunda e completamente de acordo, e sinto que, de verdade e sem romantismos, não se pode amar alguém que não ouve a mesma canção. Que não tem os mesmos objectivos, a mesma forma de ver a vida, as mesmas preferências. Não se pode amar quem não se comove com o mesmo pôr de sol. Ou seja, um amor assim não pode ter sucesso! Porque, se calhar, o ser humano é um animal de hábitos e não muda; ou porque vivemos na era do umbiguismo e ninguém faz cedências; ou apenas porque para um amor se acertar é preciso que os dois dancem ao mesmo ritmo. Hoje, com muita chuva lá fora, embrulhada no silêncio escuro  que o vento interrompe, concluo que de nada vale empenhar anéis de rubis, saldar corações de ouro ou estilhaçar sentires dourados se a canção que se ouve só a um agrada.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Bruxas e Poções

As bruxas andaram ontem à solta, mas eu oiço-as hoje. Oiço-as rindo-se de mim, troçando da minha noite sozinha, gargalhando face aos meus sentires sempre exagerados. Sinto as bruxas maléficas apropriando-se das rédeas da minha vida e desejo o absurdo. Queria ter baba de caracol, pelos de pulga, patas de escaravelho, cuspo de mosca, visco de sapo, bigodes de gato preto, latidos de cães mansos e, num grande caldeirão, ser capaz de fabricar uma poção que me tornasse invulnerável à desilusão, impermeável à saudade, insensível à dor.

A Gaivota e o Poema

De um lado para o outro, ignorando a espuma das ondas desfeitas, pensava na existência. Estava sozinha, como quase sempre, mas aliviada por, finalmente, poder ter a praia só para si, sem intromissões humanas que sempre a irritavam. Gostava de caminhar assim, marcando a areia, saltitando quando encontrava uma concha no trajecto. Gostava, também, daquelas manhãs frias, silenciosas, quando abandonava o ninho escondido na rocha antes de todas as outras aves.
Caminhava até ao fundo da praia e voltava, na mesma direcção, tentando encontrar para a vida o alinhamento preciso daqueles passeios matinais. Era difícil...
Sentia-se diferente. Estupida e singularmente diferente no bando que integrava. Talvez, porque não?, fosse mesmo herdeira de Fernão Capelo Gaivota; ou talvez tivesse nascido de um ovo tresmalhado. A razão da diferença, desconhecia-a, mas a certeza dessa mesma diferença sentia-a viva. Sentia-a agora, quando desafiava a orla branca da espuma contente com o frio que libertava a sua praia. Sentia-a quando todas voavam no bando grosso e ela ficava observando, no ninho, os voos regulares. Gritavam-lhe a diferença as outras, avisando que nunca seria como elas, que nunca iria longe. Nem sabiam que não queria ir longe, que não queria ser igual às iguais.
Era uma gaivota apenas. E ainda assim conhecia o prazer de ser levada pelo vento, o mistério das noites estreladas, a força daquele mar cheiroso que lhe entontecia os sentidos. Um dia, sabia-o bem, iria desaparecer, aí como todas, na igualdade imposta. Até lá, tinha esse sonho, havia de escrever um Poema Real naquela areia da sua realização. E caminhava, sempre, na berma daquela ondulação.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Dia de Todos os Santos

Apesar da chuva (como gosto dela!), as crianças sairam à rua para cumprir a tradição. Não pedem, aqui, pão por Deus, mas dizem dê-me os santinhos e levam no saco rebuçados, nozes e algumas (poucas) moedas. Lembro outros dias de santinhos. Então a casa enchia-se de cheiro a broas, com mel e noz, bem feiosas mas muito saborosas, e os sacos para pedir eram de pano. Normalmente, eram sacos surripiados à minha mãe e eu era arrastada pela minha irmã Nô que adorava todas estas coisas. Lembro-me de detestar andar a pedir. Tinha vergonha, nunca era capaz de bater às portas, detestava que me dessem coisas que para nada me serviam. A minha irmã gostava de tudo o que fosse fazer coisas, como ela dizia, e rebocava-me contra a minha vontade. Mais tarde, eram as minhas filhas que queriam ir pedir os santinhos e, como moravamos longe da cidade, as vítimas eram sempre as mesmas: - o Dr. Falcão e a Srª. Dona Zélia. A Filipa adorava vir de lá com um postal pintado, com um conto bem contado, ou com um poema recitado pelo velho amigo. A Joana preferia as bolachas e os chocolates que nunca comia...Um dia, trouxeram um Pinóquio articulado, uma das muitas maravilhas que a casa daqueles vizinhos especiais tinha para elas, e o Pinóquio manteve-se, bem preservado, no quarto delas durante anos.
Agora, hoje, vejo outras crianças nas ruas e lamento que não venham bater-me à porta. Queria, também poder dar-lhes um poema, poder contar-lhes da ternura que faz (ou não?) a vida das gentes.

Cordão umbilical

Quando nascem, indefesos e frágeis, tiram-nos o sono com gemidos fora de horas. São as cólicas, as noites que se perdem embalando-os, afastando os medos e os temores. Depressa demais, crescem. Ganham autonomia, fazem escolhas e nós ficamos vigilantes, agora nós os indefesos, incapazes de fazer a transferência da nossa experiência, sem poder para travar e impedir os trambolhões da existência. No entanto, seja em que idade for, o cordão umbilical continua ligado, de pouco serve a tesourada que lhe dão à nascença, o cordão permanece ali, unindo-nos para sempre aos nossos filhos. As dores deles doem na nossa pele, doem fisicamente até, dilaceram por dentro. Não se deixa nunca de ser Mãe, e Pai, e parece que quanto mais crescidos são os filhos mais intensas as nossas dores. Às vezes, acho que me apetecia ter o dom de fazer as minhas filhas voltarem a ser bebés, poder pegar-lhes ao colo e fechá-las no meu casulo protector. O cordão umbilical invisível é forte, eterno, e continua deixando passar todos os alimentos. Só que, agora, são os alimentos da alma que passam e vêm dos filhos para os pais e vice-versa.