quarta-feira, 7 de agosto de 2013

FRONTEIRA


Quando a UE, então CEE, aboliu as fronteiras entre os países membros, tive imensas dúvidas sobre as vantagens de tal decisão. Claro que é agora muito mais fácil ir a Badajoz, mas também é mais fácil deixar que a droga, os terroristas e afins ,entrem em Portugal. Mas não adianta reclamar sobre o leite derramado, as fronteiras foram abolidas e paciência. Eu hoje, só mesmo por antinomia, fui atacada por um imenso desejo de levantar fronteiras. Fronteiras à volta de cada um, ou pelo menos à volta de mim, de modo a ficar esquecida do linguajar alheio. Devia haver uma forma de evitar que as pessoas se metessem nas vidas umas das outras, comentassem e opinassem sobre o que não sabem, ou sobre aquilo que não lhes diz respeito! E devia, também, haver forma de limitar o "eu", de o barrar à invasão alheia que se faz, tantas e tantas vezes, de conselhos desajustados, de julgamentos ingratos e cruéis. Eu queria poder ser parte do todo sendo só eu. Eu! Ficam-me curtos os conselhos alheios, ferem-me de morte as sentenças dos outros. Queria ser uma rocha, forte, capaz de deixar que as marés sociais me passassem à volta sem fazer dano, sem deixarem crateras no meu ser...

terça-feira, 6 de agosto de 2013

FANTASMA

Chega sem aviso, instala-se sem querer saber as horas, e fica interferindo nos meus sentires. Normalmente, qual encoberto, chega de noite. Aparece de mansinho, senta-se na beira da cama e começa por me despertar enovelando sentires e recordações, desejos e frustrações. Incapaz de reconhecer se vem por bem, ou com maldade, deixo-me sempre levar e abro os olhos à provocação. Muitas vezes, quanto parte eu fico chorando, o resto da noite faz-se de insónia e o levantar surge doloroso.
Este fantasma tem-me visitado vezes demais. E eu sinto um desejo absurdo de desaparecer! De fechar os olhos com força e de não ceder à sua presença exigente. Mas raramente o consigo fazer...

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

ÓDIOS (PEQUENOS)

Eu sei que odiar é terrível. Cria na gente um sabor amargo, dá dores no estômago, faz-nos sentir incómodos dentro da própria pele. Tento, por isso, e por outras razões não dissecáveis em tempo de férias, combater o ódio e evitar senti-lo. A vida ensinou-me a relativizar as coisas (algumas), e o Tempo mostrou-me que tudo passa e que, às vezes, as coisas enormes hoje são insignificantes amanhã. No entanto, e apesar da minha boa-vontade, hoje tive um ataque de ódio! ODEIO o meu computador e a mania que ele tem de me cortar as voltas. Odeio-o quando se arma em pessoa, e ainda por cima pretendendo ser inteligente, e me impede de escrever, ou de formatar os textos a meu bel-prazer! Há quem diga que eu tenho duas mãos esquerdas, uma forma eufemística de me chamarem desajeitada e inábil, mas juro que não é essa a causa dos meus frequentes conflitos com o meu computador. Odeio-o! E mesmo por isso, continuo a escrever nos cadernos de capa grossa que compro sempre que posso. Hoje, foi mais um dia assim... Resolveu que eu não posso alterar o tamanho de apresentação do meu post, e não há meio de o convencer!

domingo, 4 de agosto de 2013

REDESCOBERTA

No Verão acontecem as visitas, os amigos de longe que aparecem para passar uns dias, para conversar e, às vezes, para recuperar memórias. Foi o que me aconteceu este fim-de-semana e, por causa disso, voltei a ser turista em Portalegre, na minha cidade. Comecei pelo Museu Guy Fino, as tapeçarias únicas no Mundo, guiada por uma antiga aluna que é clara na exposição, atenta aos visitantes e apaixonada pelo que mostra. Encontrei uma exposição de Graça Morais, que ainda não tinha visto, e voltei a surpreender-me com o traço surreal de Cruzeiro Seixas. Indiferente ao calor, levei os meus amigos a São Bernardo (o obrigatório túmulo de D. Jorge de Mello e os azulejos vivos), lamentando que a GNR nos tivesse vedado o acesso por faltarem dez minutos para as cinco... Paciência, visita adiada para a manhã seguinte, e a roda a rodar, os claustros frescos a protegerem-nos, as histórias de amores ilícitos (há amor ilícito?) a prenderem a atenção de todos. Seguiu-se José Régio, a coleção de mais de 400 Cristos, a arte popular, a marca de um Homem no espaço que adoptou. De novo me comovi ao subir as escadinha estreita "Tenho ao cimo da escada, de maneira que logo entrando os olhos me dão dela// uma Nossa Senhora de madeira arrancada a um calvário de capela(...)." Recebi o olhar triste, e ainda assim esperançoso sempre, do Cristo salvo das chamas e saí da Casa com um véu ténue na alma que anda a monte. Entramos então na Igreja de São Francisco, recentemente aberta ao público, e a surpresa foi imensa! É um espaço fantástico, intenso no branco e no vazio propositado, onde as peças expostas conversam directamente connosco. Gostei do espaço infantil, finalmente começa a aperceber-se que é na infância que se começa a educação cultural, e deliciei-me com a exposição de Francisco Ladeira (quem sai aos seus...). Houve ainda tempo para mostrar a cidade toda, branca e linda, vista do velho Convento de Stº António infelizmente à venda e a cair. Talvez Portalegre não seja a cidade perfeita, talvez esteja a entristecer - como o país -, mas é a minha cidade e eu sinto-me bem nela. É bom pisar lugares que se amam, é bom ver partir os amigos prometendo voltar porque: - Dois dias não chegam para ver Portalegre, ainda fica muito por visitar!

sábado, 3 de agosto de 2013

A Matilde

Podia chamar-se Andreia, Rosa, Deolinda ou até Asdrubalina. Matilde é, apenas, um nome possível para uma mulher possível. A Matilde tem três filhos, em escadinha, entre os quinze e os sete anos, e faz parte das estatísticas das famílias monoparentais. Ou seja, está divorciada. Não é uma personagem famosa, não tem nada que a distinga de outras mulheres da sua geração. A Matilde vive numa cidade pequena, trabalha como modista e todos os dias, depois do duche matinal, coloca na cara um sorriso cuidado. A Matilde sabe que tristezas não pagam dívidas, que as clientes gostam do seu ar disponível e bem disposto, que as lágrimas da noite devem pertencer apenas à sua intimidade solitária.
Hoje, o filho mais velho, e tão criança ainda, anunciou que ia para a praia, acampar, com um grupo de amigos. A alma de Matilde encolheu-se, o sorriso desalinhou-se, mas ajudou-o a preparar a mochila, deu-lhe o dinheiro disponível no autocarro inglês de lata que uma cliente lhe ofereceu e ainda lhe fez um bolo do coco com receita reforçada. Depois, abraçou-o e viu-o partir, com mais cinco jovens, a caminho da Rodoviária, rumo à Costa Alentejana.
Agora, Matilde ouve os mais novos que brincam na pequena sala, corta cuidadosamente a saia da dona Alice e pensa que tem de retocar o sorriso. Matilde sabe que a hora é de calar a dor, de trancar a ansiedade e de sufocar a angústia. Matilde sabe que ser mulher não é, infelizmente, ter um corpo perfeito e viver feliz! Matilde sabe que, em breve, todos partirão e o silêncio tomará conta de toda a casa.
Mas Matilde sabe, também, que um dia o seu sorriso não precisará ser colocado, porque surgirá natural e verdadeiro.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

AZAR

Ando com azar. Ou ando com pouco jeito para escolher as minhas leituras... Depois de uma incursão nos novos autores portugueses, jovens que, na sua maioria, procuram desesperadamente a originalidade através do absurdo e da linguagem violenta e mal-cheirosa, (excepção para o Domingos Amaral e para o João Miguel Tavares), decidi ler o romance "Uma morte súbita", da autoria de J.K. Rowling, a autora da saga Herry Potter que os meus alunos pequenos devoram (em DVD's claro...). Goste-se ou não deste tipo de literatura, penso que é inegável tratar-se de uma escritora com imaginação fértil, capaz de criar enredos de suspense e de nos surpreender com a forma como trabalha o fantástico. Assim, esperava que o romance para adultos, obviamente num registo diferente, fosse capaz de manter viva a imaginação da autora. No entanto, para meu azar, isso não acontece. Em "Uma morte súbita" somos levados para o interior de Inglaterra, para os arredores de Londres, para partilharmos o quotidiano de uma comunidade estranha. Predominam os ambientes degradados, a prostituição, a toxicodependência, a violência sob todas as formas, o podre de uma pequena sociedade que, de acordo com a autora, sumariza a sociedade geral. De novo, para meu descontentamento, abundam os palavrões, as palavras mordidas e cortadas, o linguajar que fere e destrói.
Não sou moralista, sou até defensora da ideia de que é mais importante ser-se feliz do que ser-se perfeito, mas não consigo ficar indiferente à vulgaridade reles. Acabei de ler 494 páginas de lixo humano e, gozando o sol e a praia, sinto-me suja e incomodada pelo horror de que me encheram as páginas lidas.
Talvez estejamos a viver um período literário marcado por um realismo generalista e arrasador. Talvez. Mas eu, que ainda acredito, como Antero de Quental há mais de 100 anos, que a palavra é poderosa, gosto mais de uma literatura que traz algo de novo, que incomoda porque liberta, e não que incomoda porque destrói.
Vou voltar ao meu Aquilino, vou revisitar o Vergílio! Preciso lavar a alma.
 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

TORTURA

Em tempo de férias, estirada no sofá gozando o dolce farniente de uma noite de domingo, esbarrei com o novo programa da SIC, "Cante se Puder". Cedendo à publicidade, e porque acho uma certa graça ao César Mourão, fiquei a assistir. Valeu-me três noites de pesadelos! O que vi foi a exploração do horror, a tortura autorizada e consentida, o absurdo violento. Fiquei arrepiada com as miúdas cobertas de cobras, de larvas, de baratas e outros bichos asquerosos, fiquei impressionada com os concorrentes alvo de choques eléctricos e com o "convidado" que foi bombardeado na cabeça por bolas de ping-pong! A plateia, entre olhares de horror e gargalhadas, aplaudia freneticamente. No final do programa, (sim, vi mesmo até ao fim!), aparecia uma informação destacada: "Nenhum animal foi molestado durante as gravações"! Decerto ficaram mais tranquilas as consciências protectoras dos bichinhos, decerto a SIC ficou descansada por ter obedecido às exigências da sociedade disparatada de hoje, mas eu gostava mais de ter verificado a não agressão a seres (relativamente) humanos...
Eu sei que este formato de programas não é português, que foi comprado a outras televisões. No entanto, não consigo ficar indiferente ao que me parece um verdadeiro absurdo! Fará sentido passar por tanta violência psicológica para ganhar mil euros, ou menos? Incomoda-me a violência sob qualquer forma e, também por isso, não consigo compreender esta exploração das pessoas, ainda que os animais não sejam maltratados...