segunda-feira, 15 de junho de 2020

REINVENÇÃO

Valter Hugo Mãe, in As mais belas coisas do mundo  refere: «Eu sei que ele queria chamar a atenção para a importância de aprender. Explicava que aprender é mudar de conduta, fazer melhor. Quem sabe melhor e continua a cometer o mesmo erro, não aprendeu nada, apenas acedeu à informação.» 

É isto, em poucas palavras. 
Não podemos acomodar-nos, é impossível parar o mundo, existir não é viver e, para vivermos, temos de nos reinventar a cada passo, de tentarmos, mesmo sem conseguirmos, fazer cada hoje melhor que cada ontem. Penso isto para mim. E tento cumprir. 
Olho o meu mundo, as flores que a cada manhã gritam energia, o céu onde as nuvens se movimentam tomando, elas também, novas formas. Tento adaptar-me. Calar a raiva, desilusão e fúria, que me causa o quotidiano. Calar a minha vontade de insultar, usando as palavras mais feias que o dicionário me oferece, aqueles que destroem estátuas, grafitam monumentos, tornam pública a violenta estupidez de que padecem.
Não gosto do mundo que integro. Mas, não conhecendo outro, resta-me tornar cada amanhecer mais significativo e pacífico. Tenho de ser capaz de me reinventar. É a alternativa a desistir.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

SOU IMIGRANTE DIGITAL

Lembro Marc Prensky para assumir que eu não sou uma nativa digital.
Nasci em 1960, sem computador nem telemóvel, com a televisão a encerrar à meia-noite. Como não tinha apps, li muito. De Enid Blyton a Dostoievsky, sem deixar de lado os nossos, de Júlio Dinis a Aquilino, sorrindo com Eça, espantando-me com Camilo, pensando com Vergílio, chorando com Sophia.
Não mandava sms, nem tinha wastapp, quando comecei a trabalhar como professora. O quadro da minha primeira escola era negro, e o giz fazia-me alergia.
Não era melhor, nem pior, do que hoje. Era diferente.
No entanto, os meus alunos, em 1982, tinham sonhos, desilusões, características muito singulares e preguiça às vezes. Como hoje.
Hoje, eu sou uma imigrante digital. Aceito. Mas, mesmo aceitando e concordando, não me sinto menos professora por isso. A aprendizagem, esse processo fantástico, tem de, para além do digital, considerar a presença de Pessoas. Tem de ser individual, sendo colectivo, tem de permitir que se aprenda a pensar, mesmo que a teclar. Afinal, como desenvolver o meu documento de eleição, o PASEO (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória) sem olhares presentes?
Eu sou professora. Sou imigrante digital e quero muito que deixemos as Fadas voltar à escola, entrando pela porta principal

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O DISCURSO

Ouvi, de olhar humedecido, o discurso do Cardeal Tolentino de Mendonça, ontem, naquele espaço fantástico que é o Mosteiro dos Jerónimos. Foi ontem. Era dia de Portugal, eu estava desiludida, triste mesmo, e as palavras sábias, sentidas e cheias de Humanismo, fizeram-me bem. 
Hoje, consegui o texto e li-o, de fio a pavio, com muita atenção. Não é só uma peça literária. É um abanar de consciências, sem demagogias, sem ódio, e com muita Verdade. O cardeal Tolentino lembra a história, para exigir que o presente se cumpra com sentido; cita Camões, par falar de humanidade, de tempestades que todos sofremos, das intempéries que sempre enfrentamos. Ao longo do texto, mostra o que é o Cristianismo, sem acusar, sempre compreendendo e sentindo.
Para o ano, eu vou voltar a ter alunos. Para o ano, eu vou voltar a poder fazer pensar (e como é difícil pensar e aprender a pensar) e vou, de certeza, trabalhar este texto com os meus alunos. Porque eu acredito, mas convictamente,  que só através da Educação e da Escola, só aprendendo a pensar, será possível construir, um dia, um mundo melhor. Mais humano, sobretudo!

INDIGNAÇÃO

Tenho acompanhado a violência crescente nos Estados Unidos. Impressiona-me. Faz-me muita confusão pensar, e ver, que em pleno século XXI muitas pessoas parecem nada ter aprendido. Negros e brancos. Pessoas. Uma raça única, no absurdo de considerar que na humanidade há raças. Olho, indigno-me, e não resisto a temer que a razão da absurda violência não seja a cor da pela mas a miséria, a exclusão, a vida medíocre que muitas pessoas vivem. Nos Estados Unidos como em qualquer país, salvaguardando as óbvias dimensões, a injustiça continua a vingar, o medo a liderar. Às vezes, penso que, neste momento particular da história, há loucos a mais no poder, em simultâneo. Não há um Hitler e um Mussolini, mas vários. 
Ou talvez, não sei, a responsabilidade seja de todos os que os elegeram, dos que se deixam levar por populismos e mentiras. E o círculo volta a fechar-se. É um círculo vicioso, este em que vivemos. Haverá salvação para a humanidade? Quero acreditar que sim. Através da Educação! De sistemas educativos com Valores e para todos e para cada um. E, agora, a utópica sou eu. 
Ah, hoje desfio  sonhos desfeitos. 

quarta-feira, 10 de junho de 2020

DIA DE PORTUGAL


Nô mais, Musa, nô mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Düa austera, apagada e vil tristeza.
in, Os Lusíadas, Canto X

No Dia de Portugal, no dia em que, em 1580, Camões morreu e , no mesmo ano, Portugal perdeu a independência, não tenho coragem para mais do que para lembrar a actualidade, a Razão, da desilusão do poeta! Seremos sempre surdos aos Valores da Humanidade?

segunda-feira, 8 de junho de 2020

PREOCUPAÇÃO

Seguem as semanas e esgotam-se os tempos. Olho o mundo, as máscaras, novo adereço de moda, e já não me indigno. Terei, talvez, perdido o direito à indignação. Acho só curiosa, ridícula talvez, a preocupação de procurar máscaras "giras", a combinar com a roupa do dia. Incrível como, num instante, muitas pessoas tornaram um incómodo numa mostra de vaidade. 
Este é o mundo de hoje. O Tempo da imagem, da aparência, da preocupação com o olhar alheio, da preocupação de ficar bem na passerelle da vida. Com tanta preocupação com o exterior e com os outros, esquece-se cada eu, ignora-se e despreza-se o essencial. Há máscaras pelo chão, mas o importante é ter máscaras com florzinhas; há crianças  maltratadas e torturadas (não consigo esquecer a Síria) mas o importante é postar fotografias de meninos e meninas com máscaras de bonequinhos; há crianças sozinhas frente a um ecrã longas horas por dia, mas o importante é financiar a compra de mais computadores, etc. 
Tenho medo deste mundo. 
Não penso no passado, nem sequer sou "retrópica", mas penso no presente e no futuro. Penso, com a alma encolhida, nos meus netos, nos meus sobrinhos pequenos, e tremo com o quotidiano deles. Obviamente, eles são nativos digitais, fazem parte natural desta realidade cada vez mais virtual, mas são também, felizmente, PESSOAS. Onde fica a essência da humanidade, nesta loucura virtual, quando o outro é algo à distância??
Tenho medo. E tristeza funda

sábado, 6 de junho de 2020

CANSAÇO

Cansaço extremo. Trabalho constante, pouco ou nenhum tempo para existir como pessoa. Talvez, afinal, a vida seja só isto, esta sucessão de fazeres, tecida com urgências e desilusões, aqui e ali ornamentada com marcas de esperança.
Hoje, sábado, obriguei-me a parar. Fugindo ao confinamento, procurei Marvão, a Serra, os lugares que, para mim, estão cheios de presenças ausentes, de histórias nunca contadas. Resistir, aguentar, continuar, são palavras chave para mim, nestes tempos cada vez mais duros.