Hoje, vamos almoçar fora. Vamos rir-nos da crise, vamos olhar-nos no fundo do ser, cheirar o mar e almoçar conversando. - Era um convite feito desafio e ela rejubilou. Sabia-lhe bem o carinho, o cuidado de uma proposta que, ela sabia-o bem, surgia apenas para lhe agradar, para a ajudar a recuperar a confiança numa vida que, vezes demais, fora mais madrasta que mãe. Por isso, ela arranjou-se com esmero, escovou com energia o cabelo longo e calçou os sapatos de salto alto. Ele merecia. Ele merecia a sua entrega, o seu abraço, a sua confiança. Ele era a presença firme, o apoio seguro, o leitor da escrita das suas emoções de doer e/ou sorrir. Ele conhecia o Restaurante que ela sempre elegia, sabia-lhe o gosto pelo mar intenso, tratava por tu as suas divagações fantasiosas, misturando viveres e sonhares, quando, descontraída e feliz, comia com deleite as ostras que adorava. Sim, iam almoçar fora os dois, amigos e cúmplices, confiantes num futuro de possíveis e vitórias, proximidades e entregas. Sempre.
domingo, 23 de outubro de 2011
sábado, 22 de outubro de 2011
Culpas
Vai de uns para os outros, num registo mimético que incomoda e nada traz de novo. Multiplicam-se os mails reencaminhados, ora contando escândalos financeiros da responsabilidade do PS, ora fazendo o mesmo com dirigentes do PSD. Agora, corre um mail acusando Lobo Xavier, entre outros nomes próximos, ou membros, do actual governo. Já nem leio.
Sinto um enorme cansaço desta politiquice que oscila entre a infantilidade e a estupidez que querem tornar colectiva. De repente, ninguém parece ser reponsável, ter a "culpa", pela situação a que o país chegou e que todos, culpados ou não, temos de enfrentar e tentar vencer. Entre mails que acusam, e outros que desculpam, o tempo escoa-se em coisa nenhuma e o país continua encalhado! Gostava de ver nos dirigentes, e nos portugueses como eu, mais seriedade e, sobretudo, mais vontade de ajudar a encontrar soluções! Também eu acho que os sacrifícios são duros demais; também penso que tanto aperto de cinto vai sufocar ainda mais a economia; também me parece que a fuga ao fisco vai aumentar. Mas, tenho a certeza, nenhum dos governos anteriores fez melhor!!
Não quero, recuso com a pouca força que ainda tenho, acreditar que não há uma saída para Portugal. Não acredito, não posso acreditar, que todos os políticos sejam corruptos e ladrões e, por isso, gostava que me dessem alguma paz e parassem com as culpas que, para mim, soam apenas a "desculpas de mau pagador"!
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Silvo do Nordeste
Ouve-se ao longe, no longe de tempo e espaço, o silvo do combóio que passa a caminho de Espanha. Dantes, passava todos os dias, ele ouvia-o nos campos, no aparar das searas, no acerto da poda, no limpar dos cachos da uva tinta. Era jovem, então, e muitas vezes pensou como seria seguir o silvo que cortava o ar tranquilo, que assustava os sobreiros e fazia estacar, de orelhas em riste, as lebres que viviam nos marouços. Aquele silvo, que angustiava e doía, seduzia-o sempre.
Mas resistira, permanecera ali, preso por raízes fortes à terra onde nascera, murchando com a secura da planície, vendo surgirem-lhe as rugas que acompanhavam o escurecer da terra vermelha. Bem cedo, tantas alvoradas laranja!, ouvia o silvo do nordeste. Do seu nordeste. Ouvia-o na pele, na alma também, e sentia ali o poema vivo que, tantas vezes, o balir das suas ovelhas musicava.
Hoje, o silvo vinha húmido, o outono desejado a chegar, carregava cheiros frescos e promessas de mudança. Quereria ele, homem de nordeste, mudar também?
- Talvez tivesse perdido a oportunidade de o fazer. Sim, a vida faz-se de oportunidades, sem cedência a hesitações...
Talvez devesse ter seguido o silvo que o seduzia há muitos anos já. Talvez houvesse, na vida das gentes como nos tempos dos campos, momentos únicos e irrepetíveis. Tinha assistido a tantas partidas! Partira ela, cansada do silêncio, incapaz de compreender a força de uma terra que não era dela, que tentara amar por paixão a ele. Talvez devesse tê-la seguido. Talvez o olhar dela, triste e húmido ao partir, fosse o silvo silencioso que deveria ter seguido. Talvez, pensava, um homem devesse ser capaz de ouvir os silvos que, tantas vezes, soam silenciosos nos afectos das mulheres.
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
Formação
A sala está abafada, cheira a gente, as mesas não foram limpas, o chão tem presenças de muitos miúdos, de muitas horas de aulas. O dia começa a morrer, e uma nova sessão de formação está prestes a iniciar-se. Os professores vão entrando, entre um telefonema a saber dos filhos e um boa tarde esgotado, protestando contra o calor e sentando-se. Vejo olhares curiosos, alguns descrentes, e recupero os meus ensinamentos pedagógicos. Dialogo, desafio, falo alto e tento criar pontes e unir margens. Às vezes, acho que consigo.
Acredito, apesar de muitos pesares, na importância da formação contínua, na eficácia dos momentos de discussão que nos ajudam, a todos, a desempenhar cada vez melhor a nossa profissão.
Não é fácil ser professor. Mas é fantástico ser professor. Muitas vezes, penso quem seria eu sem as aulas, sem as formações, sem as cumplicidades que vou tecendo, sem as frustrações que vou vencendo. A Sophia de Mello Breyner dizia que metade da sua alma era maresia. Eu, hoje, acho que metade da minha alma é docência. Hoje. Porque, se calhar, daqui a pouco, quando o sol raiar, vou achar que a minha alma se faz de destroços apenas.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Cansaço
Diferente de Álvaro de Campos, o meu cansaço não é de tudo, não é superlativo, não termina nenhum poema. O meu cansaço faz-se de incapacidade de compreender, de solidão eterna, de medo de cada amanhã. Não me apetece mais protestar, não quero esforçar-me por aceitar, recuso com força o comodismo.
Quero o tudo. Ou o nada. Quero o prazer do paradoxo, a possibilidade do sonho impossível, a quimera da utopia. Quero ouvir os pardais ao vento, o ladrar dos meus cães na noite escura, as gargalhadas dos meus alunos face aos textos complexos. O meu cansaço veste-se do cinzento do momento que vivo e, olhando à volta, para trás também, não sei quando foi que a vida começou a descolorir.
Por isso, hoje, queria um poema a estrear, com rima livre, métrica irregular e sentido absurdo.
Agora, queria que o sono viesse vestido de azul, de camisa de dormir branca, bem pontilhado de estrelas macias, abrindo grossos portões para um sonho real.
Cansaço? Só de existir, nunca de ser.
terça-feira, 18 de outubro de 2011
Estacionamento
O sol amornou. Desistiu, talvez, teve medo da fúria colectiva, ensombrou-se com a tristeza vigente. Corre um vento um pouco mais fresco e, nos meus sentires, surge uma aragem que me dá ânimo e me ajuda a lutar. Sim, a lutar. A lutar nesta guerra de que se faz um quotidiano cada vez mais de possíveis minúsculos, de utopias eternas. "Pelo sonho é que vamos" - e eu sinto que não vamos mais. Que ficamos, estacionados com um preço altíssimo, num parque de existências que têm de caber no espaço sinalizado, no lugar que outros nos destinaram e onde não nos sentimos confortáveis. Viver é isto?
segunda-feira, 17 de outubro de 2011
O Rio e a Sveva
Saí tarde, tarde para os meus hábitos, mas é fim-de-semana e apeteceu-me conceder-me um café na cama, um banho longo, antes de caminhar ao encontro do rio. Mais uma vez, procurei a esplanada debaixo dos pinheiros, bem pertinho da Torre de Belém, lembrando outros tempos e outras glórias. Lembrando, também, os tempos em que os portugueses ainda olhavam para além das margens do rio, ainda tinham Valores e ainda perseguiam impossíveis.
Na esplanada, porque é cedo e porque há crise, troco a caipirinha por uma bica e resisto até ao pastel de nata. À minha volta há turistas, felizes com os 30 graus que o Outono lisboeta lhes oferece. Olham com atenção o menú, e tiram fotografias a tudo. Sorriem muito. Há um casal, em lua de mel?, que troca carícias ousadas. A senhora que me traz o café reconhece-me de outras manhãs solitárias, de outras tardes também, sorri-me e mete conversa. Como é a escrita da Sveva? - Pergunta, apontando o livro que hoje me acompanha. Respondo que é ligeira, fácil, marcadamente feminia. Ela sorri, diz que gosta de ler, mas nunca tem tempo. Eu sorrio.
Responder o quê? Que leio compulsivamente? Que leio noites a fio? Que estou interessadíssima em saber se o dr. Ermes Corsinni vai ceder ao pedido da filha Tea ou se, concordando comigo, vai defender que os filhos não podem determinar as opções dos Pais, que a liberdade individual, tão indispensável, não é privilégio dos jovens e adolescentes? Enquanto me perco nas linhas da minha memória, a senhora deixa-me para atender os alemães e os italianos.
O sol já incomoda e eu agradeço a presença do rio, do mesmo rio que levou à glória os meus antepassados e, agora, refresca um pouco o sufoco em que vivo, trazendo um intervalo saudável num presente de angústia. Como a Sveva. Mas de outro modo.
Na esplanada, porque é cedo e porque há crise, troco a caipirinha por uma bica e resisto até ao pastel de nata. À minha volta há turistas, felizes com os 30 graus que o Outono lisboeta lhes oferece. Olham com atenção o menú, e tiram fotografias a tudo. Sorriem muito. Há um casal, em lua de mel?, que troca carícias ousadas. A senhora que me traz o café reconhece-me de outras manhãs solitárias, de outras tardes também, sorri-me e mete conversa. Como é a escrita da Sveva? - Pergunta, apontando o livro que hoje me acompanha. Respondo que é ligeira, fácil, marcadamente feminia. Ela sorri, diz que gosta de ler, mas nunca tem tempo. Eu sorrio.
Responder o quê? Que leio compulsivamente? Que leio noites a fio? Que estou interessadíssima em saber se o dr. Ermes Corsinni vai ceder ao pedido da filha Tea ou se, concordando comigo, vai defender que os filhos não podem determinar as opções dos Pais, que a liberdade individual, tão indispensável, não é privilégio dos jovens e adolescentes? Enquanto me perco nas linhas da minha memória, a senhora deixa-me para atender os alemães e os italianos.
O sol já incomoda e eu agradeço a presença do rio, do mesmo rio que levou à glória os meus antepassados e, agora, refresca um pouco o sufoco em que vivo, trazendo um intervalo saudável num presente de angústia. Como a Sveva. Mas de outro modo.
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