Há pouco, chovia muito na Serra. Vesti o meu fantástico impermeável, óptimo companheiro de muitas viagens, e fiz-me ao passeio. Caminhei pela lama, sentindo a chuva, olhando o mundo embrulhado em nevoeiro e o céu chorando. Reparei no brilho, espantoso, de um enorme campo de fetos (dizem que são das plantas mais antigas do planeta) e reparei que as ovelhas não corriam. Quietas, encostavam-se umas às outras no meio do campo. Fui desfiando pensares. Medo desta pandemia sem fim, saudades, sonhos ainda por cumprir, dúvidas sobre algumas decisões que tenho de tomar. Cheguei a casa ensopada mas de alma lavada. Um duche, roupa seca, uma belíssima caneca de café e mais três horas de Zoom que me amarfanharam a alma. Fui deitar-mecedo, cedendo ao cansaço físico, mas a estafa mental não me deixa adormecer.
quinta-feira, 30 de abril de 2020
quarta-feira, 29 de abril de 2020
O PRIMEIRO DIA

Como sempre me acontece, criei laços com algumas personagens e, agora, está-me a custar deixar partir a Keira e fechar a porta da casa de solteiro, naquela Londres que adoro, do professor Adrian.
Com Levy andei por Amesterdão, onde fui imensamente feliz, pela Londres dos meus afectos, por Paris da minha juventude. Tive medo da tempestade de areia na Etiópia e surpreendi-me com as montanhas do Chile, bem altas, quase a fazer cócegas às estrelas.
Marc Levy, escritor francês um ano mais novo do que eu, nascido em 1961, teceu um romance épico que, sem dúvida, me provocou diferentes e intensas reacções.
Aprendi que as marcas dos amores mortos nunca se apagam. E compreendi,assim, um pouco melhor a minha dor.
terça-feira, 28 de abril de 2020
PRIVILÉGIO
Depois, vem a tarde. E ligo o computador, trabalho em torno da avaliação pedagógica, sofro desilusões e gozo momentos de esperança e confiança.
Afinal, viver sem pessoas, confinada a um espaço natural assim, até sabe bem!
MALDITA DOENÇA
Continuam as mortes causadas pelo Covid-19. Os números são sempre assustadores e, quando oiço dizer que a maioria eram idosos, ou pessoas com outras patologias associadas, a minha alma treme.
Talvez inconscientemente, o que dizem é que há vidas de primeira, e de segunda; que morrerem idosos não tem grande importância... Arrepia-me ouvir isto! Porque, para mim, a vida é significativa em qualquer idade e já sofri, e sofro, com a morte de algumas pessoas idosas que continuam a fazer-me falta. Ouvir estas afirmações faz-me pensar que estamos, se calhar, a olhar a vida como uma sucessão de dias para gastar, e não como a realização de algo essencial.
Max Webber dizia que "os homens já não morrem saciados de vida, mas simplesmente cansados" e, penso, talvez por olharmos a vida assim, aceitamos a morte dos mais velhos como um facto de somenos importância.
Tenho mais medo desta maneira de ver a vida, do que do Covid-19. Tenho medo do descuidado do outro, do desinteresse, do afastamento dos mais velhos.
E eu já sou, também, dos mais velhos. Não tarda, terei desconto nos transportes e, temo, isso significará entrar à borla no último comboio de vida.
Não quero uma sociedade que banaliza a morte. Como dizia a avó Josefa, de José Saramago, a vida é tão bonita, e eu tenho tanta pena de morrer!
segunda-feira, 27 de abril de 2020
ORIGINAL

Não sabia qual era a finalidade desta forma de ornamentar uma vedação, mas achei piada à imaginação e perguntei. De facto, tudo se pode aproveitar... Esta garrafa de cerveja, presa com arames no ato do muro de vedação, afasta, garantiu a dona da casa, uma velhinha simpática, as moscas e as vespas, para que não cheguem às uvas. Se resulta? Fiquei com dúvidas mas, com um sorriso desdentado por entre um fundo de mil risquinhas de vida dura, a senhora jurou que sim.
Mais adiante, as giestas enchem tudo de branco, parece que choveu pureza. Aqui, não há ninguém, só eu, o Zorba e alguns cães vadios nada ameaçadores. Bem mais assustadoras são, penso eu, as pessoas que, sem ladrar, nos mordem os sonhos e destroem a esperança.
domingo, 26 de abril de 2020
ESCURO

É a árvore despenteada, a sugerir-me a minha própria desordem interior, é o perfeito buraco feito pelo pica-pau que gosto de ouvir, a lembrar-me que, muitas vezes, o que parece perfeito está cheio de vazio, é a velha nora a olhar com desconfiança as placas de energia solar, para que não me esqueça que a vida se faz de sucessões e não de perdas e abandonos.


E sei que ela existe sempre cheia de garantias, carregando novos possíveis, invariavelmente um diferente amanhecer. Não gosto já de surpresas. Desejo, ah como desejo, a segurança da rotina tranquila, a certeza de um adormecer profundo que raramente acontece...
sábado, 25 de abril de 2020
25 de ABRIL
O dia, hoje, acordou embrulhado num edredão de nuvens. Há muita humidade, a visibilidade é reduzida e algum frio voltou. Continua o estado de relativa emergência. Relativa porque, talvez por cansaço, ou porque estamos mesmo habituados a que tudo seja passageiro, as pessoas já circulam muito mais.
É, hoje, dia de memórias. A revolução faz 46 anos e as comemorações acontecem.
Quando aconteceu o 25 de Abril de 1974, eu era uma miúda. Não conheci a ditadura, em minha casa a política não era assunto e eu, penso agora, sempre vivi no culto da Liberdade.
Hoje, já velhota, tento colar os pedaços da Revolução. Sim, foi fundamental. Sim, não se pode viver em ditadura e a Liberdade deve/tem de ser cantada e vivida sempre. Mas, penso eu, os ideais do 25 de Abril ainda não estão conseguidos. Eu mesma vivi, há dois anos, uma situação a lembrar a PIDE, e, à minha volta, vejo ainda muitas arbitrariedades e injustiças que, curiosamente, surgem provando que o poder e o podre se escrevem com as mesmas letras.
25 de Abril não pode ser só uma data para agitar bandeiras, ainda que se possam agitar bandeiras. O 25 de Abril deve ser um dia para pensar e agir, para construir e não apenas recordar.
O 25 de Abril não tem donos, não pode ter caciques. Porque é de todos aqueles que defendem a Liberdade!
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