terça-feira, 23 de junho de 2020

RETROSPECTIVA

Quando me vou abaixo, quando me parece que existo sob os escombros da vida, costumam dizer-me que há quem esteja pior. Acredito. 
Sei que, infelizmente, há muitas pessoas que vivem miseravelmente, que sofrem violências várias e inimagináveis. Mas a vida tem, como uma das principais características, o facto de ser vivida individualmente. No singular. A tristeza alheia, por mais solidária que eu seja com quem a vive, não serve de panaceia à minha própria mágoa, dor. 
Aos 60 anos, olho mais para trás do que para a frente, porque, de certeza, tenho mais passado do que futuro. Vejo uma longa sucessão de falhanços, de perdas violentas, algumas por minha exclusiva responsabilidade outras que vieram esbarrar comigo, e penso que já não consigo mais. Que atingi o meu limite. Que não tenho mais energia para acordar a cada amanhecer e cumprir a minha existência. Sobretudo, sei, não tenho mais onde ir buscar coragem, e  resistência, para enfrentar mais perdas, mais doenças, mais dificuldades.
Hoje, penso e sinto que chegar ao fim, ter a coragem de colocar na existência o último ponto final, é a única forma de ter paz.

sexta-feira, 19 de junho de 2020

MIGUEL

O Miguel tinha 66 anos e, como muitos outros, foi vítima da doença horrível que ninguém controla. Morreu em período de pandemia, depois de um intenso sofrimento e de uma impressionante aceitação do mesmo. O Miguel dizia que tudo tem um momento certo mas que, infelizmente, nem sempre esse tempo é o que nós desejamos.
Ontem, numa tarde morna, na Basílica da Estrela muitos amigos juntaram-se para lembrar o Miguel. A mãe, minha prima com 92 anos, médica, que já viu morrer dois filhos, tinha no colo a caixa das cinzas que foram benzidas. Fui a Lisboa por isso. Lembrei o Miguel, e sobretudo o irmão Fernando (poeta genial) de quem era mais próxima. Fiz a viagem pensando, chorando, e perguntando mil coisas para as quais não há resposta.
O Miguel e o Fernando Tavares Rodrigues não mereciam o que lhes aconteceu. Eu acho que, às vezes, também não mereço algumas cosas que me acontecem. Esta noite, tenho pensado muito, no escuro e de olhos abertos, que uma das maiores aprendizagens que tenho de fazer é da aceitação consciente e, consequentemente, a da celebração de cada momento de vida!
Miguel, penso em ti! Que tu e o Fernando continuem a celebrar a Poesia, lá onde estão agora. 

quinta-feira, 18 de junho de 2020

quarta-feira, 17 de junho de 2020

ESPANTO

Às vezes, sobretudo em trabalho, comento que a sociedade perdeu o direito ao espanto. Quero eu dizer que, hoje, tudo parece ser repetição, adaptação, uma sucessão de déjà vu que faz com que tudo se aceite, tudo pareça natural, tudo elimine o direito à surpresa, à indignação, ao espanto. 
Eu acho que o direito ao espanto é fundamental. É porque nos espantamos que nos apetece agir, intervir, sentir até. Se nos acomodamos a tudo, se tudo parece já conhecido, qual a motivação para viver, para seguir acordando a cada amanhecer?

Hoje, eu espantei-me, surpreendi-me, emocionei-me. Porque olhei a Serra, a mistura de cores, as nuvens brancas, as folhas verdes, as lagartixas amareladas e achei que a harmonia perfeita existe. 
Fez-me bem ter-me espantado. Com o olhar húmido e a alma quase líquida, agradeci o momento. O instantâneo, talvez.


segunda-feira, 15 de junho de 2020

REINVENÇÃO

Valter Hugo Mãe, in As mais belas coisas do mundo  refere: «Eu sei que ele queria chamar a atenção para a importância de aprender. Explicava que aprender é mudar de conduta, fazer melhor. Quem sabe melhor e continua a cometer o mesmo erro, não aprendeu nada, apenas acedeu à informação.» 

É isto, em poucas palavras. 
Não podemos acomodar-nos, é impossível parar o mundo, existir não é viver e, para vivermos, temos de nos reinventar a cada passo, de tentarmos, mesmo sem conseguirmos, fazer cada hoje melhor que cada ontem. Penso isto para mim. E tento cumprir. 
Olho o meu mundo, as flores que a cada manhã gritam energia, o céu onde as nuvens se movimentam tomando, elas também, novas formas. Tento adaptar-me. Calar a raiva, desilusão e fúria, que me causa o quotidiano. Calar a minha vontade de insultar, usando as palavras mais feias que o dicionário me oferece, aqueles que destroem estátuas, grafitam monumentos, tornam pública a violenta estupidez de que padecem.
Não gosto do mundo que integro. Mas, não conhecendo outro, resta-me tornar cada amanhecer mais significativo e pacífico. Tenho de ser capaz de me reinventar. É a alternativa a desistir.

sexta-feira, 12 de junho de 2020

SOU IMIGRANTE DIGITAL

Lembro Marc Prensky para assumir que eu não sou uma nativa digital.
Nasci em 1960, sem computador nem telemóvel, com a televisão a encerrar à meia-noite. Como não tinha apps, li muito. De Enid Blyton a Dostoievsky, sem deixar de lado os nossos, de Júlio Dinis a Aquilino, sorrindo com Eça, espantando-me com Camilo, pensando com Vergílio, chorando com Sophia.
Não mandava sms, nem tinha wastapp, quando comecei a trabalhar como professora. O quadro da minha primeira escola era negro, e o giz fazia-me alergia.
Não era melhor, nem pior, do que hoje. Era diferente.
No entanto, os meus alunos, em 1982, tinham sonhos, desilusões, características muito singulares e preguiça às vezes. Como hoje.
Hoje, eu sou uma imigrante digital. Aceito. Mas, mesmo aceitando e concordando, não me sinto menos professora por isso. A aprendizagem, esse processo fantástico, tem de, para além do digital, considerar a presença de Pessoas. Tem de ser individual, sendo colectivo, tem de permitir que se aprenda a pensar, mesmo que a teclar. Afinal, como desenvolver o meu documento de eleição, o PASEO (Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória) sem olhares presentes?
Eu sou professora. Sou imigrante digital e quero muito que deixemos as Fadas voltar à escola, entrando pela porta principal

quinta-feira, 11 de junho de 2020

O DISCURSO

Ouvi, de olhar humedecido, o discurso do Cardeal Tolentino de Mendonça, ontem, naquele espaço fantástico que é o Mosteiro dos Jerónimos. Foi ontem. Era dia de Portugal, eu estava desiludida, triste mesmo, e as palavras sábias, sentidas e cheias de Humanismo, fizeram-me bem. 
Hoje, consegui o texto e li-o, de fio a pavio, com muita atenção. Não é só uma peça literária. É um abanar de consciências, sem demagogias, sem ódio, e com muita Verdade. O cardeal Tolentino lembra a história, para exigir que o presente se cumpra com sentido; cita Camões, par falar de humanidade, de tempestades que todos sofremos, das intempéries que sempre enfrentamos. Ao longo do texto, mostra o que é o Cristianismo, sem acusar, sempre compreendendo e sentindo.
Para o ano, eu vou voltar a ter alunos. Para o ano, eu vou voltar a poder fazer pensar (e como é difícil pensar e aprender a pensar) e vou, de certeza, trabalhar este texto com os meus alunos. Porque eu acredito, mas convictamente,  que só através da Educação e da Escola, só aprendendo a pensar, será possível construir, um dia, um mundo melhor. Mais humano, sobretudo!