quarta-feira, 23 de novembro de 2016

SAUDADES

Tenho muitas saudades dos meus netos. O mais crescido, o MB, faz amanhã sete anos e eu estou longe. Tenho saudades da pele deles, das conversas cheias de magia, da confiança deles em cada amanhã. Tenho saudades da mesa cheia de conversas cruzadas, da falta de sentido nalgumas respostas, dos pedidos para que faça aquele tal prato especial... Há sete anos, em Cambridge, fiz-me avó. Estava muito frio, nevou bastante, mas aquela criatura minúscula, no seu 1,900kg, aquecia-me o coração. Depois, o tempo foi passando, ele cresceu e, hoje, é um rapazinho curioso e bem disposto.
Agora, na noite fria, com a braseira ligada e o meu Zorba sobre os pés, lembro esse dia e as saudades doem com força demais...
Talvez eu tenha desrespeitado o destino; talvez tenha errado demais. Talvez eu devesse apenas estar feliz porque os meus netos são saudáveis e felizes. Mas, para além da razão, há esta emoção feita de memórias que, agora, dói e me rasga por dentro. 
Ah, se eu pudesse...

terça-feira, 15 de novembro de 2016

INDIGNAÇÃO

Na sala de professores de uma escola que conheço, afixado em lugar de destaque por um professor - por um professor! - está um slogan que diz: "Para que os aldrabões não vos possam manipular. filosofia devem estudar!"Olhei aquilo, lixo puro, e experimentei fundo a dor da revolta indignada. 
Defendo que a escola, e os professores, devem ser referências de qualidade e de dignidade. Defendo, convictamente, que a escola deve transmitir Valores, educar para a qualidade e para o respeito e, por isso, lamento, e incomoda-me, que haja professores que privilegiam o reles, a vulgaridade, o lixo.
Sempre defendi, e defendo cada vez mais, que as pessoas devem ser livres, autónomas e responsáveis mas, quando falta a noção de responsabilidade e  de respeito, devia ser possível interferir e agir. 
Sou grande defensora dos professoras. Sinceramente, acho sempre que é por os professores serem muito bons que o sistema ainda não ruíu e, penso, casos destes só servem para humilhar e denegrir a imagem de uma classe. Às vezes, tenho muita pena de ser professora neste país...

sábado, 12 de novembro de 2016

A História

Tia, conte-me uma história. Com meninas ou com animais? Com cavalos. Mas com meninas também, Meninas felizes? Claro, tia! E cavalos negros? Não, tia, amarelos. Ora bem, era uma vez uma menina que morava numa quinta com os avós. E os pais dela tia? Tinham ido fazer uma viagem. E porque não a levaram? Porque ela não podia faltar à escola. E os pais podiam faltar ao trabalho deles? Podiam, porque eram crescidos e tinham férias. E não podiam ter férias ao mesmo tempo da escola? Não, não lhes dava jeito. Mas porquê tia? Porque, às vezes, a vida dos adultos é muito complicada. Mas não querias a história do cavalo? Sim, mas com a menina a viver com os pais. Eles não tinham ido para férias sim? Está bem, Francisca. Era uma vez, então, uma menina que morava numa quinta com os pais. A menina gostava muito de montar a cavalo mas, um dia, o pai comprou um cavalo todo preto - todinho mesmo! - e disse à menina que aquele cavalo não podia ser montado. Se não podia ser montado, para que é que o Pai da menina o comprou, tia? Porque era muito bonito, e ele ia domá-lo. Ah... e depois? Depois, a menina resolveu ir ver o cavalo, desobedeceu... Não tia, não desobedeceu, o Pai só tinha dito que ela não podia montar. Pois, tens razão...
Uma hora depois, o cavalo voava e a Francisca dormia embalada na segurança desarmante da lógica infantil...

domingo, 6 de novembro de 2016

Lá Longe?

Do outro lado do mar, com milhões de litros de água pelo meio, com ventos, tempestades, surpresas e inúmeras possibilidades, estão os Estados Unidos. É a América dos filmes, das pradarias imensas, dos êxitos e da democracia. Cresci, como muitas pessoas da minha geração, a olhar a América como o lugar onde tudo, bom ou mau, podia acontecer. Lá longe. Uma espécie de paraíso inalcançável. Agora, porque o mundo encolheu drasticamente, a América está logo ali e, talvez por isso - egoísmo social? - as eleições que se aproximam dizem respeito ao mundo. Trump passou de anedota a ameaça. Hillary passou de mal menor, a salvação.
Hoje, olho os Estados Unidos com medo, como se eu fosse também americana, porque o que por lá acontecer terá, não tenho dúvidas, repercussões em todo o planeta. Como é possível que Trump possa vir a presidente? Estes americanos estão doidos? Ou será que o mundo inteiro enlouqueceu? É que, desta vez, não é só em Hollywood que se gravam dramas, e nenhum Super Heróis poderá voar para nos devolver a paz...

domingo, 30 de outubro de 2016

PASSEAR

O poeta diz "Viajar, perder países!" Mas eu acho que viajar é, sobretudo, ganhar vidas e emoções.
Adoro passear, sair de casa, esquecer a rotina e recarregar a alma, e a vida, de novos sentidos e diferentes sentires. Cada vez que saio de casa, e faço-o cada vez menos (infelizmente), sinto energia renovada. Gostava de poder deixar-me ir, sem amarras, ao sabor do vento como as folhas vermelhas do Outono. Gostava de poder soltar-me das muitas prisões, das algemas impostas, dos estrangulamentos paradoxalmente necessários. Ah, gostava...

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

SONHOS

Eu tenho um sonho, disse Martin Luther King. E eu tenho muitos! Ele morreu sem ver concretizado o seu, e eu temo morrer sem ver concretizado nenhum dos meus... 
Sonho com uma Escola viva. Uma Escola onde os alunos são pessoas, onde a equidade é efectiva, onde a criatividade, a originalidade e a individualidade não são palavras vãs. Sonho com uma Escola de fazeres e pensares, com salas de aulas de cumplicidades e descobertas, de relacionar e (re)criar. Sonho com uma Escola onde as crianças possam brincar, correr, rir e ser felizes. Um espaço onde os professores não se sintam constantemente ameaçados, ambientes feitos de partilhas e não de ódios. Sonho com uma Escola capaz de ter sentido hoje, de projectar sucessos de amanhã e de construir harmonia sempre.
Como Luther King, creio que vou morrer embrulhada nos destroços de um sonho por cumprir...

terça-feira, 18 de outubro de 2016

DIAS

Não sei se é porque ando, com os meus alunos, a estudar Ricardo Reis; não sei se é este calor que me atinge na inteligência e nas emoções.
 O que sei é que experimento, às vezes, um enorme - e doloroso -sentimento de desadequação ao real. Carpe diem, tento impôr-me. Mas sem sucesso. Algo há em mim que me faz ainda ter sonhos, sofrer desilusões e manter presentes ausências. Algo há em mim, será  a tal consciência social de que me rio?, que me faz doer fundo a indignação e a incompreensão perante alguns acontecimentos. Hoje, é a Escola... 
Eu queria compreender o incompreensível - lá vem Pessoa. Queria saber porque têm todos os professores de entregar à coordenação de área disciplinar as fantásticas grelhas excel onde devem, são as regras, grelhar os alunos mantendo-os em lume brando, ou forte, nos momentos dos decisivos testes de avaliação sumativa. Eu queria ser capaz de compreender, a bem da tranquilidade da minha cabeça, em que medida a entrega das grelhas excel contribui para a eficácia da avaliação e, sobretudo, para a equidade.... Queria ser capaz de não perceber por trás desta atitude a existência de mentes pidescas, de desconfiança e fiscalização abusivas!

Hoje, sinto-me particularmente revoltada. E não me tragam respostas ocas - é norma deves cumprir ; e não me iludam - a avaliação deve ser clara; porque são argumentos vazios de sentido!
Eu gosto muito dos meus alunos, gosto demais da minha profissão, mas não consigo cultivar a indiferença, não consigo  ser estóica e o carpe diem não me conforta!
Queria uma Escola de Pessoas, de profissionais respeitados e de prestígio. Uma Escola preocupada de facto com as aprendizagens e não, apenas, com o culto da imagem...
Para complicar tudo, faltam-me pelo menos dez anos para a reforma!