sexta-feira, 20 de julho de 2018

OLHAr

Tens certezas? Verdades? Guarda-as. Tranca-as nas paredes dos possíveis. Eu não quero verdades outras. Como Régio, não sei por onde vou, mas sei que não vou por aí. Gosto de espreitar cada amanhecer com a esperança, secreta, de ver o sol brilhar sorrindo, de respirar um ar calmo que me não sufoque. Gosto de me sentar à beira-mar, de deixar que o vai-vem das ondas calmo me anestesie a emoção. Gosto da incerteza de não ter certeza nenhuma! 
Foi por isso, ou foi por coisa nenhuma, que procurei a mesa da esplanada vermelha mais distante da entrada. Sentei-me ali a olhar. Há tanto para olhar...Olhei as meninas velhas, maquilhadas na alma, sorvendo com golinhos tristes duas longas imperiais. Olhei os homens de olhares cobiçosos, lustrosos, com calções infantis e t-shirts prometendo o humor que decerto desconhecem. Olhei. E quando olho temo. 
Sim, eu reconheço que, às vezes, as minhas inseguranças me fazem tremer. Nesses momentos, afasto o amanhã. Hoje. Agora. E olho as ondas em carneirinhos, as gargalhadas felizes das crianças verdadeiramente livres. Ah, essas sim, não têm certezas nem inseguranças!

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Dia-a-dia

O Papa João XXIII dizia que devíamos ser tudo por um dia. Ou seja, a cada dia, sem ontem nem amanhã, sermos tudo o que justifica ser Humano: - Apaixonados pela vida, amigos de verdade, solidários, bons e entregando-nos a cada 24 horas na plenitude. 
Às vezes, penso nisto. 
Viver cada dia, não no espírito do carpe diem mas no verdadeiro dia-a-dia que em somas e subtracções formam a vida que vivemos. Também me sinto a dias: - Dias de entrega e vontade, dias de profunda desilusão e desalento; dias em que faz sentido sorrir, dias de lágrimas em carreirinho. 
Mas, porque não sou o Papa João XXII, nem sou de certeza uma pessoa perfeita, não suporto este dia-a-dia sempre a prazo. Queria, preciso mesmo, de alguma estabilidade a prazo longo.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

PARA LÁ DAS NUVENS


É bom esticar-me no chão a olhar o céu. 
Gosto de ver as nuvens mudarem de forma, imagino narrativas por acontecer, espanto-me perante a elasticidade daquelas construções de anjos. 
Tenho muita gente especial que mora para lá das nuvens. Às vezes, fico tentando acreditar que me observam, me protegem, me orientam sem violência ou presença física. Penso, então, que não me importaria de ir viver para lá, para o tal lugar acima das nuvens onde eu acredito que existem todos os possíveis... 

terça-feira, 3 de julho de 2018

Quase Praia

Olá! Ainda estás por aí? Sim, eu sei, tinha decidido que ia encerrar-te, que não ia mais dar a alma à palmatória, que ia deixar que o silêncio se impusesse, de forma definitiva, entre mim e o mundo. Tinha decidido que há palavras que não merecem ser escritas, porque não merecem ser lidas, porque não se dirigem a todos mas, e apenas, a alguns olhares feitos de maior transparência. 
Tinha prometido... 
Mas eu falho, talvez vezes demais, nas minhas promessas. Cedo às emoções, não calo os sentires e deixo-me levar por esta necessidade, inexplicável, de escrever. É assim uma garra que me aperta, que me obriga a teclar, a tirar o pipo desta câmara de angústias que parece sufocar-me.
Estás aí? 
Então ouve.E não partas, estou cansada de adeus.

domingo, 24 de junho de 2018

FOME

Está calor. Mas é Verão... É, por isso, o clima certo no tempo certo. Chega a ser estranho porque, nos últimos tempos, nada parece adequar-se ao lógico, ao sensato, ao natural.
Nesta tarde de muito Verão, fui buscar Sophia. E voltei  ao Tempo dos Chacais, voltei à Liberdade ansiada que ela canta e pede como poucos. 
Eu também tenho fome de liberdade! Também temo os chacais e também desejo - TANTO que dói!, poder escrever e pensar sem medo nem receio... 

quinta-feira, 14 de junho de 2018

PROFESSORA

Sou professora. Escolhi livremente a minha profissão, lutei bastante pelo meu lugar na carreira e gosto do que faço. Gosto dos meus alunos, gosto dos conteúdos que lecciono (excepção para o Frei Luís de Sousa), gosto de alguns colegas, gosto do cheiro da escola, gosto das ousadias que a descoberta dos textos sempre me permite.
No entanto, como professora de quase final de carreira, como cidadã activa,  não percebo porque razão, em Portugal, os exames são um caso de polícia... E menos compreendo que, nesta época de exames, os professores continuem a ser maltratados. 
Como se pode aceitar que se convoquem docentes para trabalhos a mais de 50 kms da sua escola? 
Pior, pagam-se as deslocações (não se sabe quando porque as escolas não têm verbas para o fazer) a onze cêntimos o quilómetro! Ou seja, os professores vão ter de pagar do seu bolso para o exercício de tarefas para as quais são convocados! 
É justo?
Será que faz sentido? A meu ver, não faz mesmo sentido nenhum! Como não faz sentido nenhum, nenhum mesmo,  dar aos exames esta aparência quase pidesca! 
Nunca fiz greve. Não discuto a pertinência de tal forma de luta, mas não é a minha maneira de lutar pela dignificação da carreira. 
Entendo, contudo, que os professores são  muito maltratados pelos sucessivos governos, que o desprezo por esta profissão é enorme e que os docentes deveriam impor-se unindo-se, agora, numa recusa total à realização desta paranóia que o IAVE coordena...

domingo, 3 de junho de 2018

PROVOCAÇÕES

Viver não é fácil, mas isso já não é novidade. Cada amanhecer é, sempre, um novo desafio, como se se abrisse uma gaveta sem sabermos o que lá está guardado... Tenho tido muitas surpresas na vida, diria mesmo que muitas mais do que as necessárias, muitas desilusões também. Às vezes, acho mesmo que basta eu afirmar nunca que logo o indesejável surge...
Desta vez, não foi um indesejável. Foi uma provocação da existência! 
Quando eu estava de corpo e alma num projecto, quando abraçava um desafio apaixonada, veio uma provocação diferente. E se? E porque não? Mas eu estou...! Pois, mas talvez faça sentido...
E a vida, a existência, a convocar-me, a desinquietar-me (mais ainda), a tirar-me o sono. Será que o meu sonho merece mais este desassossego?
Como adivinhar é proibido, vou experimentar.