segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Re-Começo

Está a chegar, depressa demais, um novo ano lectivo. Há anos, este era o tempo de ir à rua do Comércio, à papelaria do Senhor João, e de escolher o material escolar com as minhas filhas. Vinham os livros a cheirar a novo, as borrachas perfumadas, os cadernos coloridos e as mochilas para carregar. Compravamos sempre papel para forrar os livros, etiquetas e as obrigatórias canetas de feltro que, dois dias depois, tinham as tampas trocadas. Mas esse tempo passou. 
Hoje, sem crianças já, o meu retorno à escola faz-se de esperança desiludida. Sim, eu sei que é um paradoxo, mas é isso mesmo que eu sinto: - Esperança de que, finalmente, a mudança aconteça; desilusão por temer que o sistema (seja lá isso o que for) prefira manter tudo igual... Para mim, que não sou socialista, as propostas que o actual Ministério da Educação está a fazer às Escolas são as necessárias. As políticas educativas fazem sentido. (Lamento...)
À Escola, aos professores, estão a ser dadas as condições necessárias para fazerem o sucesso acontecer! Há exemplos de sucessos conseguidos (Projecto Ancoragem; Fénix; Ninho; Grupos de homogeneidade relativa; etc) e só não acontecerá a mudança se, realmente, os professores não quiserem. 
Este é o tempo dos Professores! Agora, já não há como dizer que "eles" nos obrigam a fazer assim, ou assado...
Acredito, seriamente, que a sala de aula pode ser um lugar de construção de saber, de descoberta e experimentação, de individualização e humanidade. 
Eu costumo dizer que, se me saisse o Euromilhões, faria uma Escola a meu jeito. Agora, já não preciso do Euromilhões, basta-me a cumplicidade efectiva dos meus colegas professores!
Este ano, eu queria muito recomeçar com salas diferentes, práticas inovadoras e vontade de colaborar. Eu sei... são sonhos. Mas como encarar mais um ano de trabalho sem uma dose de sonho?

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Itália

O horror do terramoto não sai do meu olhar. De repente, cidades ficam destruídas, familias desfeitas, vidas tornam-se cadáveres. Incrível a força da Natureza, como que a protestar, como que a querer dizer que há Algo mais poderoso do que a vontade e a maldade humanas. 
São muitos os fenómenos naturais que me assustam mas, e admito a minha fraqueza e talvez hipocrisia social, faz-me mais impressão quando o horror acontece aqui ao lado. Ali mesmo, na Itália que eu adoro, no cenário dos meus livros preferidos, no palco das histórias sonhadas que nunca chego a escrever. 
Oiço na minha ignorância atenta as explicações científicas - pode ter explicação? - sei que há placas que se movimentam, que se ajustam - ou não - que podem provocar estes sismos violentos. E tenho medo! Medo para além do razoável. Medo feito partilha de dor daqueles que, nos escombros, procuram um ente querido...
Também eu, às vezes, procuro vida nos escombros dos terramotos da minha vida e, agora, parece-me que a busca é absolutamente desnecessária. E injustificada também.
Eu sou Charlie. Mas, hoje, eu sou Itália!

sábado, 13 de agosto de 2016

A LOTA

Há muito tempo já que não ia à lota. Lembrava-se de, miúda, ir à lota em Quarteira, sempre madrugadora acompanhava o Pai, e achava bem mais triste do que acompanhar a avó ao cemitério porque, pensava no silêncio de menina, no cemitério os mortos estavam sossegadinhos, tinham muitas flores e jarras bonitas e, ali, os mortos-peixes sangravam, tinham olhos a saltar das orbitas e pareciam tristes por não poderem nadar. Um dia, contara ao Pai da impressão daqueles peixes tristes e ele explicara que os peixes não estavam tristes, porque não tinham memória e não sabiam o que era  a dor. Ficara às voltas com a ideia de não ter memória, mas não ousara fazer mais perguntas... Adulta, desejara muitas vezes não saber o que era a dor.

Agora voltava à lota, sozinha. Durante anos esquivara-se à compra do peixe, agora, livremente, decidira vir à lota. Decidira, também, abrir a velha casa de onde via o mar forte, o mar do Norte. A Casa. E lá vinha Saramago, a Casa que visitara em Tenerife, então a dois. E o pregado a mostrar os olhos vermelhos - pode ver, freguesa, a frescura vê-se aqui, no vermelho do olhos - e ela fugia com o olhar ao gel do olhar vazio do pregado anunciado. Sim, pode levar à confiança, este foi pescado agorinha mesmo. E era um polvo mole, e era António Vieira a ecoar com as repreensões, e o aspecto amorfo a desinteressá-la - que ideia a sua, a de ir à lota! Mas queria um peixe fresco, bom para fazer ao sal, fácil e saboroso para dar início ao que desejava ser uma nova fase de vida. Respirou fundo - que pivete deita o peixe moribundo! - e lá se aventurou num robalo grande - por favor amanhe-mo! - que com certeza ficaria bonito na mesa. Com alívio deixou a lota, comprou fruta, uvas e melão, flores do campo, canelinhas - deliciosas! - e foi para casa. Colocou no frio o Alvarinho - bem gelado seria um acompanhamento perfeito - faria, de tarde, um gelado de lima e coco. Agora,  praia. Embrulhou-se no casaco que ele esquecera - cheirava ainda a muitos passados - e sentou-se na esplanada invejando a coragem dos surfistas. 
O dia correu com a velocidade da expectativa e, ao anoitecer, abriu a janela para deixar que o ar do mar intenso enchesse a sala. Gostou da mesa, da toalha branca, dos copos altos e das flores coloridas. Quando ouviu o carro, descalça, abriu a porta e sorriu. Às vezes, é bom sorrir.

domingo, 31 de julho de 2016

EXEMPLOS

Na missa de hoje, um casal assinalava 50 anos de casamento. 100, dizia o senhor padre, porque cada um viveu 50 com o outro. Mas não foram as contas que me impressionaram. Não foram, sequer, os 50 anos, que também os meus pais felizmente assinalaram. 
O que me tocou, nos sentires e pensares, foi ouvir o senhor Benvindo (que não conheço) dizer, em voz tremida mas sincera, que nem tudo foi fácil. Que houve muitos espinhos, desentendimentos e dificuldades. Mas que, o segredo - que não é segredo - é sempre ser capaz de perdoar, de ouvir e não julgar. Porque, dizia ele, amar é assim - aceitar mesmo sem compreender e estar presente, sempre, para partilhar e ajudar.
Mais do que as leituras ou a homilia, foi o depoimento breve e intenso do senhor Benvindo que marcou o meu domingo. Tenho um pouquinho de inveja, inveja boa, dos casais que conseguem construir cumplicidades efectivas, que conseguem tempo para ouvir, perdoar e compreender. Talvez, no fim da minha vida, a maior mágoa que leve seja mesmo esta - a impossibilidade de ter tecido teias de afectos reais com alguém especial. 
Enfim, é domingo! Vou fazer uma boa salada de tomate, regá-la com orégãos, abrir um bom vinho branco gelado e gastar o tempo com o meu cão e um bom livro.

terça-feira, 19 de julho de 2016

Vargas Llosa

Acho que era um livro do Vargas Llosa - não, ainda não tinha casado com a Isabel Presley - e eu andava a lê-lo com entusiasmo. Às vezes, comentava contigo passagens - sim, nunca gostaste muito de ler - e manifestava o meu desagrado face a alguma violência verbal. Há quem goste de palavrões - fazem parte da vida, não é? - mas a mim ainda incomodavam. E incomodam. Mas acho mesmo que era um livro do Vargas Llosa. E falava de máfias, de amores clandestinos - os amores não são sempre clandestinos? -  da América a saber a índios. No meio das páginas, mesmo quando a personagem principal - sim, as personagens são todas principais -, ia ser esfaqueada pelos mafiosos, saltou o bilhete. 
Era um bilhete gasto, escrito à mão em letra descuidada, e apenas uma palavra se lia com clareza - deve ser uma das tuas listas de compras -. Não era. A palvra única, legível, era amanhã. E riste-te. Há sempre um amanhã! 
Infelizmente, agora não me rio. Sabes, nem sempre há amanhã. Por vezes, só sobram ontens...

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ENCERRADO
FÉRIAS DA VIDA

sábado, 2 de julho de 2016

O Portão Verde

O portão verde, da velha casa amarela, está sempre fechado. O portão verde abria-se de par em par e dava entrada a familiares, amigos, aos filhos e aos donos da casa. No início, era um portão estreito que se impunha, violentamente, riscando os automóveis desconhecidos. Depois, o dono da casa mandou alargar a passagem, ele tinha também um coração largo, e o portão tornou-se, ainda que por imposição, mais receptivo. 
Do portão verde vê-se a velha casa amarela. Na velha casa aconteceram partos, mortes, amores, discussões, festas e desentendimentos.  
A vida revelava-se, a cada dia, nas manifestações de momentos que as muitas memórias haviam de eternizar. A velha casa enchia-se de risos de crianças, as hortênsias guardavam segredos, e os velhos muros não contavam nunca as ousadias que presenciavam. Na velha casa, os passos faziam estalar as madeiras, as vidraças enchiam-se de mosquinhas minúsculas quando o Verão chegava e, às vezes, uma ou outra osga abusadora instalava-se na parede da sala. Na velha casa amarela, tinha havido sonhos infantis, lágrimas muitas e ternuras sem limite.
Agora, o portão verde está sempre fechado. A velha casa está vazia e as madeiras, quando gemem, é de dor pela ausência imposta. No quintal, as ervas assustam as hortênsias, as rosas cruzam-se com cobras e a relva faz inveja às árvores. 
Quem fechou a velha casa chora inda. E a vida impõe silêncio garantindo que são apenas paredes... Paredes. Mas paredes com vida, com presenças que, tendo partido, ficarão para sempre. 
Se eu pudesse, eu havia de abrir de novo, de par em par, o grande portão verde!