sábado, 18 de novembro de 2017

IMPOSSÍVEL

Quem nunca viveu um amor impossível, não sabe o que dói amar na clandestinidade. Porque tudo é do avesso, quando isso acontece! Um amor impossível só o é - impossível - aos olhos dos outros. Dos que opinam, julgam e condenam. Para quem ama, o Amor é sempre possível, porque real. E dói para cima de imenso, quando visto de fora se veste de impossibilidade! 
A gente distrai-se e, pimba! o Amor instala-se, ignorando as regras sociais, as línguas venenosas, e as dificuldades do quotidiano. Instala-se, acomoda-se dentro de nós e toma conta da cabeça, do coração, e até das pernas e dos braços. Sim, porque temos vontade de correr para quem amamos e de estreitar num abraço quente esse outro parte de nós.
Não devia haver amores impossíveis! 
A vida devia ser boazinha, escancarar as portas da aceitação, e deixar que os amores impossíveis acontecessem sem impossibilidades. O Amor impossível, além de nos rasgar por dentro, humilha-nos para lá do razoável. Não é justo, mesmo! Quando eu mandar, vou legitimar todo o Amor verdadeiro e, então, não haverá mais impossíveis entre duas pessoas que se querem por dentro e por fora!

domingo, 12 de novembro de 2017

PAIXÃO

Embora eu seja uma má católica, e apesar de ter com excessiva frequência crises de Fé, sempre que vou à missa, o que acontece todos os domingos, venho com algo novo que ora me apazigua, ora me incomoda, ora me faz pensar. Hoje, não fugi à regra... O senhor cónego falava da necessidade de nos apaixonarmos, garantindo que a paixão nos faz agir melhor, com mais entrega e mais vontade. Achei bonito, como princípio. 
Dei comigo a pensar nas imagens dos apaixonados felizes, com cócegas na barriga, com a convicção de que o mundo tem ritmo certo e que há possíveis a cada esquina. Depois, vim para casa lembrando as minhas paixões. 
Sou uma mulher de paixões! Apaixonei-me com a força da juventude, tinha os meus 14 anos. Era um amor para sempre. O meu primeiro namorado, aquele que me fazia tremer só por me  dar a mão na fila J do velho Crisfal, era a razão do meu existir. Achava eu, então, que íamos casar e ser muito felizes. Gostava tanto, tanto dele!
Depois, mais velha, casei, de novo apaixonada. Agora, então, era mesmo de vez. O meu vestido de noiva espelhava a minha ingenuidade... Mais uma desilusão.
O tempo passou e, hoje, quando olho à minha volta penso que a paixão só me fez (e faz) sofrer! Trabalho apaixonadamente na Educação, sou agredida e magoada; amo loucamente, sou ofendida e ignorada; luto apaixonadamente por Valores como a amizade e o respeito, sou gozada e humilhada; apaixono-me pela minha Serra, venho viver na cidade; quero apaixonadamente às minhas filhas e netos, e estão longe-longíssimo!
Se eu conhecesse o senhor cónego, assim um conhecimento de conversar das coisas, havia de lhe dizer para rever a sua confiança na paixão...

sábado, 11 de novembro de 2017

ARQUITECTA

Se eu fosse arquitecta, havia de fazer uma casa para o meu eu. 
Não para mim, para a pessoa exterior, mas sim uma casa onde pudesse viver o meu eu interior. Havia de fazer um quarto grande, cama king size de edredão branco, para deixar descansar no conforto as minhas ilusões, as mágoas e as tristezas. Seria um quarto amarelo, amarelo suave, com uma larga janela para a Serra. A minha sala teria uma lareira sem fazer fumo. Aí, eu ia deixar que os meus poetas se  instalassem para falarem de outros sentidos, bebendo comigo um tinto com canela. Havia de gostar de os ouvir discutir a força da ironia, a alegria das onomatopeias, as brincadeiras das hipálages. Na cozinha, que seria enorme e cheia de cores e cheiros, eu havia de misturar canela e alecrim, hortelã e gengibre, caril e açúcar. Seria um laboratório para criação de verdadeiros sabores de vida. 
A casa de banho, essa,  seria luminosa e o autoclismo muito eficaz. Muitíssimo eficaz! Porque eu havia de enfiar lá todas as traições que sofri, todas as mentiras que me feriram e ferem, todas as pessoas más (muito más) com que me cruzei!
Às vezes, tenho mesmo pena de não ter sido arquitecta...

domingo, 5 de novembro de 2017

PROFESSORES E MOTORISTAS

Vi, nas notícias, que um motorista de um membro do governo ganha o dobro do que ganha um professor. A primeira reacção foi de indignação. Não de surpresa, porque, sendo professora há 34 anos, sei bem como, em Portugal, se ganha escandalosamente pouco... depois da indignação, fiquei a pensar nos porquês. Encontrei muitos... 
Em primeiro lugar, creio que o desrespeito pela profissão de professor decorre da ignorância da maioria da sociedade. Entende-se que ser professor é uma coisa simples, sem responsabilidade nem consequências, que qualquer idiota pode fazer. E é um pouco verdade. 
Ensinar, não é muito complicado, ser professor é que é complicadíssimo. Aprendi a conduzir, tinha 18 anos, em Lisboa, com um instrutor que não devia ter mais do que a 4ª classe e me ensinou muito bem! Não era professor, mas ensinava... 
Para além da ignorância no que à educação (e a muitas outras áreas) diz respeito, a sociedade ainda não compreendeu como a Escola e o Mundo mudaram, e como a função do professor se tornou crucial. Hoje, é na Escola que tudo se define... Os professores podem, simplesmente, formar uma geração de vigaristas ou uma geração de gente Boa. Fazem-no diariamente. Fazem-no, uns com consciência, outros de ânimo leve, mas fazem-no. Sem dúvida,  se um médico se enganar só antecipa uma inevitabilidade, mas se um professor se enganar pode tramar uma geração inteira.
Outra razão para o desrespeito pela docência tem a ver, na minha opinião, com a atitude de alguns professores. Sim, se a maioria dos professores é excepcional, há uma minoria que o não é. Os professores que não cumprem, que apresentam atestados médicos falsos, que demoram semanas a corrigir um trabalho, que reclamam constantemente dos alunos, que não têm disponibilidade para mudar, para fazer formação, para olhar cada aluno como pessoa que é, que sempre falam mal do sistema e dos colegas, que sempre fazem greve nas sextas-feiras, que nunca olham a profissão como um privilégio, contribuem, sem dúvida, para que a classe seja olhada como menor.
Não me incomoda nada que um motorista do governo ganhe bem. Nem sequer acho que se devam comparar vencimentos. Mas chateia-me imenso, mesmo MUITO, que os professores ganhem tão pouco. 
Acho revoltante que uma pessoa, com uma licenciatura, fique colocada a centenas de quilómetros de casa, que tenha de manter duas habitações, e receba pouco mais de mil euros. É humilhante!
Creio que era Gandhi que dizia que "o desenvolvimento de um povo vê-se na forma como trata os seus animais". Eu acho que o nível cultural de uma sociedade se vê na forma como trata os seus professores!

terça-feira, 24 de outubro de 2017

DESESPERO

Às vezes, desespero! 
Desespero porque, para além da voracidade do Tempo, para lá das mudanças vertiginosas de cada dia desta modernidade que integro, esbarro com quem parece querer insistir no que já foi. 
Não gosto de gente acomodada, não gosto de preguiça, não gosto dos profetas da desgraça! 
Às vezes, desespero! 
Porque esbarro com a incapacidade de mudança, porque encontro gente - profissionais - que recusam aprender a fazer diferente, a fazer melhor... Eu tenho grande admiração pela classe docente mas, infelizmente, ainda há quem se diga professor e não seja mais do  que um vendedor de informação sob a forma de aulas.
Que desespero!

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

ACONTECE COM OS BONS ALUNOS

Tenho a convicção, talvez errada, de que os alunos, todos, respondem colaborativa e assertivamente ao desempenho dos professores. 
Ou seja, eu acredito que se um professor investe no que faz, se se envolve com os alunos, se cria com eles uma relação assente na empatia e no respeito, a aula resulta, a indisciplina torna-se residual e as aprendizagens acontecem. Mas, só para eu me lembrar de que as minhas certezas estão frequentemente erradas, às vezes vivo experiências dolorosas e para as quais nem  os manuais de pedagogia, nem as muitas horas de formação, têm resposta. 
Como reagir quando, a meio de uma abordagem da poesia de Fernando Pessoa, quando tento, com a turma, desmontar eixos de pensamento, dois bons alunos brincam, jogam, com papelinhos onde registam palavras idiotas, rindo divertidos e incomodando todos?! Ralhar? A jovens de 17 anos?? Explicar? Como explicar a quem já entendeu?? A quem, deliberada e conscientemente opta pela transgressão?
Hoje, tenho trabalho para o serão: - Tentar descobrir como lidar com este comportamento que me chateia, me ofende e me entristece...Se calhar, eu estava a ser mesmo desinteressante!

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

ELEIÇÕES NA ESCOLA

Nos últimos dias, talvez nas duas últimas semanas, têm decorrido em muitas escolas e agrupamentos de escolas as eleições para as respectivas Associações de Estudantes. Todos os anos, com maior ou menor agitação, o processo ocorre e eu, sempre, acompanho tudo com interesse real. 
Gosto de ver a dinâmica, o interesse, a entrega que os alunos colocam neste processo e penso, todos os anos, que os jovens são fantásticos quando querem. Chego a pensar, só para mim, que se a sala de aula conseguisse ser, para eles, tão interessante e significativa como a Associação de Estudantes, Portugal ficaria nos primeiros lugares de todos os rankings medidores de sucesso educativo... Mas não é, hoje, da necessidade de mudar a prática lectiva, da urgência de desenvolver estratégias mais envolventes, que eu quero falar. 
O que me levou a sair do sofá, a interromper o enroscanço na minha solidão, foi mesmo não conseguir deixar de pensar no processo eleitoral para a  Associação de Estudantes... 
Toda a campanha, na Escola e no Agrupamento que pude observar mais de perto, foi feita com muitos materiais de qualidade e elevado custo: - Flyers coloridos, balões, T-shirts impressas, brindes (canetas, etc), DJ´s convidados, largas faixas em tecido, autocolantes, cartazes, para além, claro, das muitas redes sociais . Espanta-me a quantidade de dinheiro, o enorme investimento, que as famílias fazem neste processo. Espanta-me porque, frequentemente, oiço os alunos dizerem que não podem adquirir este ou aquele livro, participar nesta ou naquela actividade, exactamente porque as famílias não podem pagar. Penso, talvez erradamente, que as prioridades estão um pouco invertidas...
Mas, ao mesmo tempo, eu confesso que aprecio muitíssimo este tempo de campanha eleitoral nas escolas. Gosto do colorido, da actividade constante, da música, dos miúdos que ficam na escola muito para lá da conclusão das aulas! Só não gosto, mas nem um bocadinho, é de algumas imitações do que de pior têm as campanhas eleitorais dos "adultos". Não gosto de os ver desrespeitarem as listas adversárias, não gosto de os ver ignorar as mais elementares regras da democracia. 
Por tudo isto, eu acho que as campanhas eleitorais para as Associações de Estudantes, tal como a organização das terríveis (algumas)  viagens de finalistas, deviam implicar, de uma forma mais continuada e activa, os professores e as Associações de Pais. Mas, já sei, eu tenho a mania de achar coisas esquisitas...