quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

2016

Quando era miúda, gostava de fazer a lista de decisões para o Novo Ano. Depois, guardava-a numa gaveta e, no 31 de dezembro seguinte, verificava o seu incumprimento... Hoje, nem sei porquê, lembrei-me desse velho hábito e, como não resultava, decidi fazer o oposto: - A lista do que não farei, do que não desejo, do que vou fugir a sete pés!

Em 2016:
Não farei dietas malucas;
Não brincarei aos sonhos impossíveis;
Não acreditarei em falsas amizades;
Não colecionarei desilusões;
Não abdicarei da minha vontade;
Não cederei lugar à estupidez alheia;
Não chorarei de raiva face à maldadezinha quotidiana e reles;
Não direi que sim, quando o meu coração gritar NÃO;
Não deixarei os meus alunos entregar trabalhos fora do prazo;
Não deixarei de contemplar o pôr-do-sol;
Não escreverei de acordo com o acordo ortográfico;
Não beberei mais de cinco cafés por dia;

Para 2016:
Não desejo mais solidão;
Não desejo adiamentos;

Não desejo Medo;
Não desejo fracassos;
Não desejo estupidez;
Não desejo desilusões;
Não desejo invejas;
Não desejo escassez de tempo;

Em 2016:
Vou fugir da má língua;
Vou fugir da humilhação;
Vou fugir da agressão;
Vou fugir da imposição;
Vou fugir da aberração;
Vou fugir da insistência da recordação...

Depois, quando chegar ao último dia de 2016, quando estiver à espera de adormecer para acordar no 2017, vou ver se o Não resultou...

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

MORIBUNDO

Chegou cheio de brilho, foguetes, champanhe e música. Surgiu vestido de branco, oferecendo esperança, confiança e sucesso. Por causa da chegada festiva, deram-se abraços e beijos, uniram-se corpos e esgotaram-se créditos. Depois, ele foi sendo. Fez-se terrorismo, guerra, crise, dor, lágrimas, medo, pânico e desilusão. Ele parte agora. Esgotado e vazio. Feito coisa nenhuma, sem deixar saudades, tendo já trocado a roupa branca de esperança, pela negra de desalento. Que vá em boa hora, que não volte mais o 2015!
Agora, há já 2016 a estrear o fato branco. E a gente sacode a alma, olha a garrafa de espumante a que chama champanhe, e volta a acreditar que, desta vez, o Branco não vai encardir...

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Noite de Natal

 E aí está a noite de Natal mesmo a chegar... Os doces enganam os amargos da vida, a chuvinha pede calor e ternura, o bacalhau (este ano com broa, para variar) já estala no forno. As crianças garantem ouvir o trenó do Pai Natal, a Carlota jura que viu o gnomo de barrete amarelo, aquele que nas histórias da avó é sempre o mais disparatado, passar junto ao cume da árvore com uma boneca gigante. Eu brinco também e recordo o Papa Francisco pedindo que conservemos a Alegria, que combatamos o Medo. Quero combater os meus medos, TANTOS!, e reinvento a alegria nesta Noite que é sempre mágica!
Feliz Noite de Natal!

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

REZAR

Natal As minhas crianças ouvem-me contar a história do maléfico rei Herodes, escutam com olhos atentos a caminhada dos reis Magos, fazem-me perguntas sobre Maria e José  desejando, eles mesmos, terem um burro e vaca solidários e amigos. Falo-lhes de bondade, de coisas bonitas e ternas, de amigos e de amor. Depois, as minhas crianças vão dormir e eu abraço a solidão dando Graças por ser resistente e por saber rezar só para mim.           

domingo, 20 de dezembro de 2015

FALTAS

Este é o Tempo das cores intensas, das correrias, das ilusões., das crianças a tossir e da roupa desarrumada... É, também, o Tempo das ausências, dos desejos e memórias. E eu tenho essas memórias a doer! Sinto-te presente, sabendo que não estás. Fazes-me falta, sim. Não consigo apertar o colar, aquele de pedrinhas, lembras-te? Não consigo montar o candeeiro... Sim, já comprei a chave de fendas mas, sei eu lá porquê, os parafusos insistem em ganhar vida e vontade própria e não ficam onde fazem falta. Fazes-me tanta falta... Faz-me falta a tua presença à mesa, a refilice porque insisto no bacalhau, a ternura no olhar onde afundo o meu.
Desisti de pôr o colar, paciência. Desisti do candeeiro alto e já não cozinho mais bacalhau. Sem ti, não tem graça.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

NATAL

Cheira a Natal, sabe a Natal, soa a Natal. Na minha casa o presépio já está feito, o abeto decorado e os enfeites saíram das caixas para dar nova cor à sala. Já me ofereceram chocolates, já comprei açúcar para fazer doces, já há presentes escondidos. Este é o primeiro de outros Natais. E olho para trás somando primeiros Natais, afastando a nostalgia.... O primeiro Natal casada, o primeiro divorciada, o primeiro com filhas pequenas, o primeiro com filhas casadas, o primeiro carregado de temores, o primeiro sem o meu Pai, o primeiro com destroços de ser, o primeiro com esperança recuperada, o primeiro com mágoas fundas, o primeiro sem Serra. Afinal, e embora a vida sempre se cumpra sem ligar nenhuma a hesitações, cada Natal é sempre especial para mim. E seja porque vou envelhecendo, ou mesmo porque sempre foi assim, gosto imenso do Natal!

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

PORTALEGRE

Bem cedo, antes que o sol incómodo começasse a inundar o meu mundo, atravessei a minha cidade. 
A velha rua do Comércio, com os arcos que a caracterizam, está já preparada para o Natal e, em cada porta, há vasos, flores, bolas coloridas e enormes presentes de laços largos. Acabada de lavar, a calçada brilhava Cruzei-me com alguns bons-dias, daqueles que nos ajudam a perceber quem somos, e  subi até à Sé, para cumprir o meu  objectivo, levantar um certificado no IPP. Voltei a descer, agora com menos esforço, atravessando o jardim. 
Cheirava bem, cheiro de relva acabada de cortar, e um tapete de folhas de plátano amaciava-me os passos.
Portalegre pode ser uma cidade envelhecida, as pessoas jovens podem estar a partir, as lojas podem estar a empobrecer, muitos políticos podem não valer o dinheiro que ganham, a maldicência pode ser intensa... Mas esta é a minha cidade, o meu espaço de conforto, o lugar onde as minhas memórias despertam a cada caminhar.

sábado, 28 de novembro de 2015

ANIMAIS DE ESTIMAÇÂO. E OUTROS...

Em minha casa sempre houve bichos. O meu pai era caçador, o meu irmão seguiu-lhe as pisadas, porventura com mais gosto e empenho, e não me lembro de  haver em minha casa, no quintal, algum vazio de cães. Houve o Romel, a Princesa, aqueles de que mais eu gostei, mas houve muitos outros. Houve até um Nacib, influência da novela Gabriela Cravo e Canela.
A vida foi correndo e vieram os animais de estimação das minhas filhas: - A cadelinha Romy, o teckel Xanax, o labrador Vodka e o terrível Buda. Seguiram-se os netos e com eles vieram galinhas baptizadas, tartarugas, porquinhos da índia, e os gatos, a Lola e o Black, que eles adoram.
O que eu nunca tinha tido, e agora me chegou de presente, foi um inimigo, ou inimiga de estimação... Obviamente, há muita gente que não gosta de mim, o que eu compreendo. Se nem Jesus Cristo agradou a todos, como poderia eu fazê-lo?!
O que eu tenho, há já uns tempos, é muito especial. É mesmo um/a inimigo/a de estimação! E eu adoro!! Esta inimiga, (sim eu sei quem é..., )gosta tanto de mim que, embora num paradoxal ódio, não me esquece, nem me abandona um só dia. Eu escrevo no meu blog e, logo, vem um insulto. Anónimo, obviamente. Diz o que quer, chama-me nomes, diz que eu não ensino, despeja o seu veneno, mas não descola. Eu delicio-me. Às vezes, admito, já faço de propósito para me divertir... Ao contrário dos meus cães, que se denunciavam ladrando por não poderem falar, esta figurinha querida esconde-se ao abrigo do anonimato que o virtual permite. Em conversa, um destes dias, com uma amiga, rimo-nos imenso com a coisa. Porque há muita gente que tem amigos de estimação, eu tenho imensos, felizmente!, mas uma inimiga assim fiel leitora, sempre preocupada com o que eu faço, escrevo, vivo ou digo, é mesmo privilégio meu. E eu agradeço! Agradeço o tempo dispendido  a ler, sempre, as patetices que escrevo, agradeço a fidelidade e presença constantes desta leitora e agradeço, também, a oportunidade que o meu blog me dá de poder ajudar a dar algum sentido à vida de alguém que, com certeza, é um enorme vazio...

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

AS PEQUENAS COISAS

O céu está absurdamente azul, as horas correm dolorosamente arrastadas, a vida escoa-se incrivelmente sem sentido. É Outono, a loja dos chineses vende Natal e, ainda assim, o cinzento interior não deixa entrar o brilho. Tenho testes para corrigir, aulas para preparar, e os meus pensares trazem-me folhas caídas, amarelos diferentes, cheiros de abóbora com nozes. Sinto-me em conflito comigo mesma: - O meu eu real, sabe a força do quotidiano; o meu eu emocional, conhece o saber do sonho. E assim aos poucos, a vida vaise fazendo de pequenas coisas: - Pequenas cedências, pequenas desistências, pequenas conquistas. Hoje, agora, a vida em miniatura.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

CONVERSA

Vem conversar comigo. Senta-te aí, frente a mim, assim, olhos nos olhos, e ouve-me. Não precisas de me responder, menos ainda de me acusar. Ouve só. Deixa-me contar-te da minha revolta face à situação do país, deixa-me falar-te do som intenso do vento que, na noite sozinha e escura, me sopra medos de futuro, revoltando destroços de passado. Não me respondas, ainda. Escuta, agora, a minha história de possíveis, os meus anseios sempre adiados, as narrativas das viagens que nunca fiz. Queres um vinho quente? Sirvo-to no copo largo, aquele onde gosto de beber Gin, aquecendo-o primeiro. Ponho um pau de canela. Gostas? E continua aí, sem pressas, eu desliguei o telemóvel. 
Deixa-me contar-te do meu desejo de silêncio partilhado, do meu encantamento ao ler o Amante Japonês, do meu desejo de encontrar um verdadeiro edredon de penas. Sim, fica mais um pouco. Continua olhando no fundo dos meus olhos porque, agora, não tenho receio que espreites a minha alma...

terça-feira, 24 de novembro de 2015

ANVERSÁRIO

Quando ele nasceu, nada ficou como estava. Foi há seis anos (já) que nasceu o meu neto mais velho. Era uma coisinha minúscula, nem chegava aos dois quilos, tinha um gorro azul enfiado na cabeça e, quando lhe peguei, olhou-me com olhar turvo. Ali, num país diferente, num hospital distante, senti que a vida mudava. Mudava o foco do meu interesse, da minha ansiedade e ternura. O MB era, então e agora, o meu foco essencial, o centro do meu viver. Estava muito frio, nevava, e o pequenino ser, envolto em mantas e protegido no carrinho, passeava comigo por Cambridge. Preservo intectos esses primeiros dias de vida do meu primeiro neto com uma intensidade incrível. Conservo os cheiros do Café Costa, as cores da praça e do mercado, os cheiros das caminhadas da manhã pelos campos do King's College.
Hoje, o meu MB já faz seis anos. Já sabe ler, já diz que tem saudades, já me abraça com uma força mágica que só ele tem. Hoje, como há seis anos, a minha vida tem sentido nele. Por ele.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

NEOLOGISMOS

Há muitas palavras que, com o uso, ou com o tempo, se vão banalizando e perdendo sentido. De repente, a gente vai a querer dizer alguma coisa, a querer expressar uma emoção, ou um pensamento, e sentimos que falta originalidade, ou força, às palavras que usamos. 
Isto acontece, por exemplo, com o termo felicidade. Fala-se dessa "coisa", de um estado de alma talvez, no quotidiano, a propósito, muitas vezes, de tantas insignificãncias que, quando a Coisa se torna maiúscula, o que a define se esvaziou... 
Afinal, o que é esse conceito, ou esse sentir, de se ser feliz? Dir-me-ão, avisadamente, que cada um é feliz à sua maneira e, imediatamente, eu me oiço responder no silêncio: Vulgaridade! Isso não quer dizer nada...
Assim, senti-me hoje angustiada para explicar aos meus alunos que também as palavras precisam ser preservadas, protegidas de usos abusivos, reinventadas na verdade do seu sentido. Se eu tivesse de explicar o sentido de algumas palavras, acho que teria mesmo de entrar nos neologismos porque, um pouco como a vida, há palavras excessivamente gastas....

domingo, 15 de novembro de 2015

SUSTO

O Terminal Sul  estava caótico. Malas, casacos, conversas em muitas línguas, crianças, choro, olhares assustados. Dirigi-me, na minha solidão triste e com o coração a doer de saudades, ao shuttle que me haveria de levar ao terminal Norte e esbarrei com fitas vermelhas e polícias armados. Caí, então, na realidade, e percebi que, para além do simpático polícia que me dizia, calmamente, que por questões de segurança o terminal Norte estava encerrado, havia dezenas de outros bem atentos e armados. Esperei por notícias. Havia uma suspeita de terrorismo em Gatwick! Na sequência dos horrores de Paris, o alerta era imenso e, assim, o terminal foi encerrado e evacuado. A situação que, vezes demais, acompanho na televisão era agora o meu próprio cenário. Indiscritível a sensação de insegurança, o MEDO. Olhava à minha volta, assustada e sem saber bem o que fazer, ouvindo a indicação de regressar ao Hotel, quando surgiu a hipótese de conseguir um voo TAP que sairia do Terminal sul. Corri como louca à procura da TAP, comprei o bilhete, passei a segurança, corri até à porta de embarque e quando, finalmente, entrei no avião e a hospedeira me disse, em português, uma boa tarde e bem vinda, tive vontade de chorar. Deve ser isto o tal sentimento de pátria. Senti-me protegida por estar entre gente minha! Lisboa, desta vez, nem me pareceu a cidade barulhenta e caótica que sempre encontro quando volto...

domingo, 8 de novembro de 2015

Será do Sol?

Está um sol excessivo. Sol que, como diz o poeta,  peca quando, "em vez de criar, seca".
Olho a vida, o mundo, e tudo me parece de um absurdo que, para além de me assustar,  me entristece. Será do sol??
Oiço que chegam os primeiros refugiados, mulheres de rosto tapado, homens de nariz largo, crianças de olhos espantados. São pessoas, como eu, à procura de paz, de segurança, de compreensão. Depois, oiço os protestos, que me revoltam, de quem os rejeita sob o falso argumento de que já há em Portugal miséria nacional que chegue. Dentro de mim, desperta a recente leitura de João Pedro Marques, Do Outro Lado do Mar", e o horror da escravatura torna-se presente. Mudamos tanto, evoluindo tão pouco...
Quero acreditar que é possível fazer um mundo melhor. Tenho confiança no amanhã da humanidade, creio que, apesar de tudo (e como esse tudo é imenso), a compreensão e a bondade vão vencer mas, olhando o agora, tremo. Como fazer?
Obviamente, a teoria é fácil: Amar! Acreditar no outro, abrir o coração, compreender e não julgar. Mas, infeliz e eternamente, da teoria à prática há um oceano revolto que parece sempre afogar-nos...

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sou Criminosa?

No meu país, na terra que outrora foi de sonhadores e conquistadores, somos todos criminosos. Neste Portugal de hoje, aos olhos do estado, somos todos potenciais agentes de violência. Mais grave ainda, somos todos potenciais pedófilos. Só assim posso ler a ordem superior que me obriga, bem como a todos os profissionais da educação, a apresentar, anualmente, um registo criminal.
Sou obrigada, ao fim de 32 anos a trabalhar com jovens, a ir ao tribunal pedir que me passem um documento, um registo, onde fique expresso que não violo criancinhas, nem sequer as como a qualquer refeição. Pensava que, até julgamento ou indício de culpa, gozávamos todos, cidadãos, da presunção de inocência. Mas enganei-me. Somos todos culpados, até que o papel diga o contrário. Como se pode aceitar este facto sem estupefação? Então o estado, na era da informática, não terá como saber quem é, ou foi, indiciado por crimes ? Então o tribunal não deverá informar as entidades responsáveis do registo dos criminosos? Não... Cada um de nós deve fazer prova que é uma pessoa de bem. Ainda que essa prova custe cerca de 5 euros, o preço moral a pagar é bem superior. Que vergonha! Onde estão, agora, os Sindicatos??

Que Irritação

Olho com espanto o meu país. Não vou tendo paciência para tanta gincana política, para tanto vazio cheio de absolutamente coisa nenhuma. Ainda por cima, não suporto a Catarina com o seu ar de jovem contestatária fora de prazo e aquela mania, que uma certa esquerda cultiva e que a mim sempre irritou, de que sabe o que é melhor para toda a gente. O discurso pela liberdade, na boca de quem se acha superior a todos e capaz de apregoar verdades pessoais destilando veneno, cansa-me. Começo a pensar que a maior estupidez dos portugueses é mesmo a calma com que aceitam que decidam pela cabeça deles...

domingo, 1 de novembro de 2015

Os SANTINHOS

Bem cedo, ignorando o nevoeiro húmido das manhãs da Serra, os miúdos chegavam aos grupinhos. Batiam à porta e entre risos envergonhados, estendiam os sacos de pano pedindo "Dê-me os Santinhos"...
Qualquer coisa os encantava, de chocolates a nozes mesmo pão que fosse. Depois, felizes por terem atingido o objectivo, partiam a rir, a correr, para logo pararem no muro mais próximo partilhando os tesouros. Eu nunca pedi Santinhos. Talvez por isso, a vida ofereceu-me diabinhos em abundância...
Hoje, com netos já, ninguém me pediu os Santinhos. Hoje, ouvi dizer "gostosuras ou diabruras", num vício de imitação acrítica que me incomoda e agride. Há abóboras por todo o lado, eu fiz doce delas, e os miúdos pintam a cara com teias de aranha, vestem-se de cadáver e dizem ser fantasmas ou vampiros. Talvez, no fundo, estas alterações culturais não sejam, apenas, o resultado da importação do alheio. Talvez, afinal os santinhos, com o que de bondade e partilha implicavam, já não tenham lugar neste mundo que é, ou parece ser, cada vez mais povoado por teias negras e animais repelentes...

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

MORTE

O Poeta disse "Quando eu nasci, ficou tudo como estava". Eu, que não sou Poeta, digo "Quando eu morrer, fica tudo como estava". E, às vezes, apetece-me assustadoramente a paz, o silêncio, o escuro, o adeus eterno da Morte. Sempre tive dificuldade em compreender o suicídio que via, porventura erradamente, como uma forma de desistência, ou mesmo uma violência sobre os outros. Hoje, já não penso assim. 
A Morte pode atrair-nos, pode seduzir-nos até. E esse é o maior risco... Nestes últimos tempos tenho-a sentido perto. 
E, curiosamente, não me assusta. Se devemos fazer o que queremos da vida, talvez possamos, também, fazê-lo com a Morte.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

ESCREVER

Li ontem, não sei já dizer ontem, que  cada pessoa que escreve fá-lo, em primeiro lugar, para si. Eu faço-o quase diariamente. Gosto do meu diário, da minha forma pessoal de estar com a pessoa que mora em mim e que, por vezes, anda tão ocupada em existir (e sobreviver) que se esquece que é inquilina na alma do outro eu-ela. 
Mas gosto, também, de escrever para ninguém, que é um pouco como escrever para toda a gente, deixando divagar, relativamente livres, pensares e sentires. Às vezes, imagino o meu leitor, aquele, ou aquela, que do outro lado me encontra e sorri, ou chora, comigo. Escrever ajuda, a mim pelo menos, a esvaziar um pouco o peso da vida. Ainda por cima, há sempre a hipótese de quem não gosta não ler! Ou seja, a gente despeja a alma sem correr o risco de incomodar ninguém! Que bem isto me faz!

domingo, 25 de outubro de 2015

PRACETA DE OS LUSÍADAS

Quando eu era jovem, miúda mesmo, passava muitas tardes fantásticas na Praceta de Os Lusíadas. Sentada no muro da casa da minha maior amiga, nas festas de garagem, nas motas do grupo de amigos, vivi os melhores momentos da minha juventude. Era a época dos grandes amores, o primeiro!, o tempo dos possíveis, os dias sem ontem nem amanhã. Corria de minha casa para a Praceta sempre que podia... Lá, vigiada apenas pela curiosidade de uma vizinha, descobri o verdadeiro significado da Amizade!
Agora, 40 anos depois, voltei à Praceta. Afinal, Os Lusíadas são uma obra que sempre se relê com gosto...

sábado, 17 de outubro de 2015

O arco-íris

Infelizmente para mim, não sou uma católica exemplar. Tenho dúvidas, erro, procuro corrigir o percurso e, volta que não volta, erro de novo. Não tenho a sorte de ter uma Fé inabalável e, às vezes, chego a interrogar Deus com alguma violência. No entanto, Jesus Cristo, o Homem, é meu confidente e eu acredito, mas acredito mesmo, que ele me compreende e guia...
Apesar da minha Fé cheia de falhas, Fátima é, para mim, um lugar intenso.
Hoje, indiferente ao mau tempo, fui assistir à missa das 12,30h na Capelinha das Aparições. Chovia muito, o vento era forte, os guarda-chuva viravam-se mas, ainda assim, muita gente tentava manter as velas acesas rezando sempre. Rezei também, naquela conversa boa que gosto de ter com Deus...
A dada altura, no momento da comunhão, o vento parou, a chuva deixou de cair e no céu apareceu um imenso arco-íris, perfeito e brilhante. Foi, com certeza, um fenómeno atmosférico, mas eu sinto, sei lá porquê, que foi mais alguma coisa para além de coincidência.
Cheguei a casa ainda era dia, chovendo sempre, e deixei-me ficar, num espaço novo agora, pensando na vida. Um dia, quero crer, haverá também um arco-íris para mim...

domingo, 11 de outubro de 2015

À Moda de António Vieira


Neste domingo de muita chuva, entre fazer doce de tomate e preparar aulas, saíu isto:

SERMÃO da Professora Aos Alunos

Vós sois o jardim da terra. E, tal como os jardins, floridos, dão cor e aroma aos espaços urbanos, tantas vezes cinzentos e carregados de cheiros desagradáveis, vocês, jovens, devem dar à humanidade cor, alegria e perfume. Mas, ou seja que vocês deixaram crescer excessivas ervas daninhas no vosso coração, ou que o mundo está de tal modo negro e empedrado que não tem terra fértil para que floris, a verdade é que vós não conseguis alegrar a existência.

Faltará perfume às flores do vosso jardim? Será que viveis mais preocupados em olhar as ervas daninhas, do que em contemplar a forma harmoniosa como as pétalas se abrem ao sol? Fernando Pessoa, esse grande Poeta português, disse “o melhor do mundo são as crianças”. Saberia, talvez, que essas são tenras ainda, puras, não tentadas a perder tempo com ervas daninhas. Talvez Pessoa devesse ter dito que vós, jovens, sois a mudança concretizada. Reparai que Camões, esse grande Poeta do Classicismo, afirmou que “Todo o mundo é composto de mudança” e, cremos nós, a mudança constrói-se convosco, com a seiva renovada que, enxertada das melhores qualidades, consegue colorir e perfumar a existência humana.

Olhemos, então, a rosa. É bela, carregada de simbologia, capaz de dizer amor, paixão, saudade e até esperança. A rosa vermelha, brilhante, faz sorrir o olhar mais infeliz. Também um sorriso sincero, jovem, alegra a existência dos que sofrem. Mas, cuidado, muitas vezes a rosa perde as pétalas, basta que o vento sopre com força desusada, e ficam só os espinhos, fortes e agressivos, fazendo sangrar e chorar. Os espinhos, esses, rasgam e não acarinham, ferem e não curam. Poderia haver, então, rosas sem espinhos? Reparem no que diz o povo: Seria um jardim sem flores!. Sim, da bela rosa fazem parte os espinhos, como da vossa juventude faz parte a tentação do mal. Mas a rosa, naturalmente, serve-se dos espinhos para se alimentar, para se proteger de  mãos abusadoras e vós, jovens, servis-vos da tentação para, muitas vezes, destruir o perfume e a beleza que vos define. A rosa agride, com os espinhos, aqueles que a colhem. Vocês agridem, e destroem, o vosso próprio eu quando, em vez de pensardes na cor e perfume da vossa condição, vos deixais agarrar pelos espinhos da vossa idade. A rosa tem vida curta. Também vocês, jovens, não a tendes longa. A juventude é um período passageiro, ligeiro como o voo da andorinha, que perde o perfume e deixa cair as pétalas antes de ter tempo de ser admirada.

Pensais que apenas a rosa embeleza o jardim? Não! Oh! Quantas cores, quantos aromas, quanto néctar delicioso encontramos num jardim. No meu jardim, do qual cuido diariamente, há uma cameleira. É uma árvore vestida de verde brilhante, viçosa, carregada de flores brancas e bem trabalhadas. Ao longe, quando chego ao jardim, a cameleira encanta-me. Quanta cor! Quanto viço! Quanta promessa de vida nos botões que a preenchem! Porém, como me ilude a imagem… As camélias têm o pé curto, não podem ornamentar a jarra da minha sala; as pétalas são tão frágeis que, mal lhes toco, caem no chão; os troncos da árvore, parecendo tão perfeitos, são fracos e sem resistência. Perguntais-me porque tenho tal árvore no meu jardim? Porque me enche o olhar, sem me tocar o coração. Porque me ilude na sua aparência de perfeição sendo, afinal, tão imperfeita. Sabeis que a camélia não tem odor? Ah! Quantos de vós sois apenas camélias neste jardim que é a humanidade. Como a camélia, quantos de vós viveis da imagem falseada, da aparência trabalhada para ocultar a essência desleixada! Mas a camélia, essa, não tem opção que não seja render-se à sua condição. Vós, jovens, tendes a possibilidade de inverter a condenação da flor e de, livremente, sobrepor a essência à aparência. Oiço-vos a protestar, o sermão vai longo e aborrece-vos já. Mas tende paciência, lembrai-vos das palavras desse poeta que também era cientista, António Gedeão, quando afirmava que “Cada vez que o homem sonha, o mundo pula e avança”. Não sois vós, também homens e mulheres em embrião? Então, ouvi-me um pouco mais e depois, se assim quiserdes, contrariai Fernando Pessoa que, em sofrimento, afirmava “Querendo, quero o infinito//fazendo nada é verdade”. Vós podeis ser a Verdade. A diferença. A mudança. Não, não olheis para quem vos antecedeu, não olheis para os jardins que desprezais. Não. Olhai sim, e vede, o mundo onde cresceis e os desafios que vos são colocados. Sim, tendes razão, também a rosa precisa regada, também os jardins precisam limpos das ervas daninhas que dão abrigo à destruição e à doença. Mas esse tratamento tende-lo vós, diariamente, na escola, na palavra dos professores, nos autores que ledes, nas aprendizagens que fazeis. Estudais filosofia? É a água fresca que permite que cresça robusto o vosso caule de ser; estudais português? É o fertilizante eficaz para que as vossas folhas e pétalas cresçam viçosas; estudais história? É o ancinho do jardineiro cuidadoso que permite que compreendeis o canteiro onde cresceis; estudais geografia? É o sacho cuidadoso a preparar espaço para que cresçais. Não estudais nada? É a doença da ignorância, a praga da estupidez, a dominar o vosso crescer, a viciar a vossa existência. Julgais, talvez, que a escola de nada serve, que as aulas são a seca que mata a exuberância livre. Como estais enganados! O que aconteceria à beleza da rosa, sem o amor do jardineiro? O que aconteceria ao jardim, sem a atenção terna do que o cuidam? Cuidais, talvez, que vos basta a natureza da vossa condição jovem. Bastará ao jardim o selvagem crescer? Bastará à rosa o natural desenvolvimento? Não! Ao homem cabe enriquecer o belo, desenvolver o Bem. Sim, oiço-vos dizer. Não, ouvi-me gritar. Porque a rosa torna-se mais viçosa, o lírio mais brilhante, a orquídea mais perfeita quando o jardim é cuidado, limpo, enriquecido e regado. Vós sois o jardim da terra. E como esta Terra, cada vez mais feita de alcatrão e cimento, precisa de jardins! Termino agradecendo a António Vieira a grande lição e a vós, alunos jovens, deixo uma missão: - Perfumai de sentido a existência, sede corajosos para que, com o vosso florir renovado, sejais capazes de exterminar as ervas daninhas que, agora, livremente ocupam jardim e florestas… Lembrai-vos que o Tempo, esse jardineiro atento, todos os dias colhe e todos os dias semeia. Fazei parte da sementeira, não querereis ser o lixo que ele sempre recolhe.

Maria Luísa Moreira

Outubro 2015

sábado, 10 de outubro de 2015

Mudam-se os Tempos, mudam-se as Vontades



No século XVI, Camões, num dos muitos fabulosos sonetos que escreveu, garantia que "todo o mundo é composto de mudança". Tenho sentido essa mudança, ao longo da vida, numa vivência de 1ª pessoa nem sempre suave. Já perdi muita coisa, já ganhei muitas outras, mas, sem dúvida, de monotonia não me posso queixar. Hoje, a minha paisagem mudou. Acordei num espaço urbano, com o Outono arrumado em árvores geometricamente colocadas, com o vermelho das folhas gritando no sangue revoltado. Com chuva intensa, fiquei vendo os carreirinhos nas janelas novas e, quero crer, na alma iniciei uma nova arquitectura paisagística.
Para perfumar a coisa, fiz doce de dióspiro. Ficou óptimo, o doce. Eu, nem tanto.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

NÃO QUERO TER RAZÃO

As surpresas, ou aberrações, não param de acontecer na minha vida. A todos os níveis... Hoje, foi no que à Educação diz respeito. Eu ainda não consigo, sequer, encontrar um adjectivo que consiga ilustrar o que sinto. 
O programa de português do ensino secundário foi alterado, as metas curriculares para este ciclo homologadas e, assim, o 10º ano iniciou, este ano, o novo programa. Os professores, alguns, fizeram formação, as planificações foram elaboradas e as aulas iniciaram-se. Ora, foi então que "reparei" que o ensino profissional continuava a trabalhar de acordo com o programa antigo. Fui informar-me, ciente de que haveria uma confusão... ,Perguntei ao Ministério da Educação que me disse, espante-se!, que nada tem a ver com o Ensino Profissional, devendo dirigir-me à ANQUEP. Assim fiz. Hoje, recebi a resposta: - Não há alteração no programa o ensino profissonal. 
Pode parecer indiferente, afinal o importante MESMO é que os alunos saibam ler, falar, interpretar e relacionar..., mas acontece que o ME diz aos alunos do profissional que podem, se quiserem, fazer exame de 12º ano e ingressar no Ensino Superior. Ou seja, se os alunos quiserem mesmo fazer exame, daqui a três anos, devem preparar os conteúdos sozinhos (pagando uma explicação). Parece-me, (como desejo estar enganada), que o Ministério da Educação está a enganar os alunos do Curso Profissional lesando, claramente, os seus interesses. 
Era tão bom que hoje eu não tivesse razão...

terça-feira, 6 de outubro de 2015

ELEIÇÕES

Obviamente, acompanhei com atenção, e preocupação, as eleições. O resultado não foi o que eu desejava, mas, afinal, também não foi tão mau como temia... Agora, lendo e ouvindo os comentários dos entendidos, pasmo de surpresa indignada. Para mim, não há dúvida que a coligação obteve a maioria das preferências dos portugueses. A esquerda afirma que não, que venceu. Como? Havia, e eu não dei por isso, algum partido a sufrágio chamado esquerda? O que eu vi foi uma série de partidos, com propostas diferentes, que recolheram votos dispersos. Agora são só uma força? Se assim é, que diferença faz votar PS, ou BE, ou PC?? Não percebo. Não percebo e indigna-me ouvir afirmar que a Esquerda, a tal que não sei o que é, à qual não reconheço filosofia de base, deve governar. Estes romanos são doidos, dizia o Astérix. E a mim apetece-me dizer que os portugueses, como bons herdeiros dos romanos, seguiram-lhes s passos e mantiveram as características.

domingo, 4 de outubro de 2015

O CASAMENTO

A Joana nasceu em Janeiro. Era um bebé moreno, com muito cabelo e olhar curioso. Depois, a Joana foi crescendo. Lembro a idade em que perguntava tudo, a adolescência e a afirmação, a entrada na Universidade, a Joana Mulher.
Ontem, numa festa linda, a Joana casou. Acho sempre que casar vale a pena, lamento a modernidade das uniões de facto, ou dos companheiros mais ou menos de facto. Ontem, a Joana estava feliz, sentia-se a felicidade emocionada na maquilhagem cuidada, no olhar, nas palavras às vezes tremidas e, acho eu, até na renda do vestido longo. A Joana e o Duarte encheram de sentido o dia de muita gente e, do fundo do coração, eu desejo que a vida os deixe ser felizes. Sobretudo, que saibam perdoar e compreender. Deitei-me tarde, muito tarde para os meus horários habituais, mas acordei com fé renovada na vida.


quarta-feira, 30 de setembro de 2015

MUDANÇA

Quanto mais leio, estudo, observo, ensino, mais me convenço (como se precisasse de ser convencida) que a Escola, como Instituição, tem de mudar. Obviamente, trata-se de uma estrutura complexa, secular, que lida, essencialmente, com seres humanos e, por isso, as mudanças são lentas e nem sempre visíveis ou mensuráveis. Mas, para além de todas estas verdades indiscutíveis, eu acho que a escola tem de acelerar o seu processo de mudança. Não falo daquelas pedagogias irrtantes (para mim) que defendem que não é preciso ensinar, que os meninos descobrem, que tudo é alegria e prazer, que uma equação pode ser uma descoberta fantástica, e compreender Fernão Lopes uma revelação mágica. Não. Eu defendo que aprender implica, sempre, esforço e trabalho. Defendo, cada vez mais, aprendizagens activas, que resultam do envolvimento de cada um. Mas também defendo, com muita força, que a escola silenciosa, com os meninos em fila e o professor a projectar slides, ou a mostrar youtubes, ou a usar o quadro interactivo,  não ensina e de nada serve! 
Na escola onde trabalho há portas de vidro e, sinceramente, passar no corredor e ver os rostos desinteressados, o olhar desesperado, da maioria dos alunos fechados nas salas de carteiras alinhadas parte-me o coração. A Escola que defendo é uma Escola de acção, de muitas narrativas, de discussão e construção, de colaboração efectiva. 
Não acredito na Escola de hoje, e tenho pena. 
Tenho pena de verdade, porque uma sociedade onde a Escola não funciona nunca será uma sociedade de sucesso!
Se eu pudesse, obrigaria a Escola a reconstruir-se, faria compreender que, por exemplo, coadjuvância não é ter dois professores a tentar manter a turma calada, que supervisão não é penalização, que aprendizagem colaborativa não é apenas realizar trabalhos de grupo. Se eu ainda tivesse forças, havia de lutar por uma Escola diferente...É que eu SEI, cum saber de experiência feito, que é possível fazer diferente. E melhor!

terça-feira, 29 de setembro de 2015

COMPRAS

Embora eu seja mulher, e embora goste imenso desta condição, não gosto de fazer compras. Devo ser uma excepção, mas a verdade é
 que as lojas, os expositores, os sorrisos das funcionárias, os preços, a muita oferta, tudo me cansa. Ir às compras é, por isso, algo que evito o mais que posso... Mas um casamento muito especial já no sábado próximo, obrigou-me a enfrentar o meu Adamastor. Bem cedo, lá fui a caminho de Lisboa e lá me enfiei nas lojas. Tenho de reconhecer que tive sorte... É dia de semana, fui de manhã, não tive de enfrentar ondas de gente. Fiz as minhas compras, com a ajuda das funcionárias, e sentindo a falta das minhas filhas (óptimas conselheiras de moda), e regressei a casa.
Quando cheguei, uma violenta trovoada recebeu-me com estrondo. E eu adoro trovoadas! Olhando os relâmpagos rápidos, escutando os estrondos dos trovões e cheirando a chuva sobre a terra seca, senti que, de algum modo, a natureza me compreendeu e explodiu por mim...

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Do Outro Lado

Dizem-me, muitas e muitas vezes, que tenho de me esforçar por ver o outro lado dos problemas. Eu protesto. Do outro lado dos problemas vejo, habitualmente, outros idênticos ou um cinzentismo assustador... Mas, desta vez, o milagre aconteceu!
Eu explico: - Uma besta qualquer, é mesmo assim, amachucou o meu carro e fugiu. Eu fiquei com o prejuízo e, para complicar tudo, fiquei a pé. Lembro, para quem não sabe, que moro a três klms do meu local de trabalho.
E foi aqui que a magia aconteceu: - Quando me preparava para gastar uma data de dinheiro em táxis, e uma considerável sola de sapatos, os amigos revelaram-se. Ainda não andei a pé, ainda não chamei um táxi. Tenho tido queridos motoristas, bons e confortáveis automóveis e, melhor ainda, ganhei mais algum tempo de boa conversa. Acho mesmo que a cavalgadura que me amachucou o carro acabou por me fazer um favor: - Revelou-me mais amigos verdadeiros do que eu julgava ter! De facto, há sempre que ver o outro lado do problema

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O TEMPO

Eu ando de mau humor. Reconheço que ando com pouca paciência, que as coisas insignificantes (como a cobardia e estupidez ) me irritam muito mais do que deviam. Ando triste, desiludida, sofrendo intensas e escandalosas saudades. Ando com pouca, ou nenhuma, paciência para o culto das aparências, para o silêncio socialmente correcto face à maldade vigente. 
Não sei porque ando assim. Não sei se a culpa é de estar a envelhecer (afinal, já estou a envelhecer há 55 anos, devia estar habituada), se é porque está calor e eu detesto calor, se é porque a campanha eleitoral causa excessivo e incomodativo ruído, se é porque o meu Benfica não vence sempre. Não sei. O que sei é que ando neura e com uma enorme vontade de não existir. 
No entanto, a existência impõe-se e eu vou vivendo. Vivendo, agora. Neste tempo de nihilismo, nesta era de novo Homem eternamente adiado. Este é o tempo do ruído, da internet, dos telemóveis inteligentes, do MEO 4 cheia de humor, dos políticos em quem ninguém acredita, dos jovens com os boxeres à mostra e cristas no alto na cabeça. Mas este é, também, o meu tempo! Por isso, não percebo porque me perguntam se isto, ou aquilo, era "do meu tempo"! O meu tempo é este. É este presente futuro do passado, é este passado de um futuro a haver!

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O 1º Dia de Escola

Com as aulas a começar, e a rádio que me acorda a falar de primeiros dias, tenho hoje carregado mais viva a memória de alguns dos meus primeiros dias de aulas. 
Quando tinha seis anos, onde ficou esse tempo?, entrei para a primeira classe. Então, não havia nada básico, era mesmo primário. Como, em Portalegre, não havia, nesse ano, vaga para mim no Colégio onde andavam os meus irmãos mais velhos, a minha mãe, que sempre foi uma senhora de ideias estranhas, decidiu enviar-me para a Alagoa com a professora Rita. 
A professora Rita era uma solteirona, na altura só solteira, de bochechas vermelhas, baixinha, sempre corada e que, para além de ter um Anglia, na época eu só sabia que o carro dela tinha bancos vermelhos, tinha em casa um piano e cheirava a naftalina. 
A professora Rita ia buscar-me a casa, bem cedo, e levava-me com ela para a Alagoa. Na escola da aldeia havia a sala dos rapazes e a das raparigas e, para meu azar, a professora Rita dava aulas aos rapazes. Eu, menina da professora, ficava sentada na secretária dela, de frente para os meninos, tipo rata sábia. Nos intervalos, em vez de brincar, ficava "a conversar" com a professora Rita e, penso agora, morria de inveja dos meninos que, na terra, esfolavam os joelhos ou saltavam na lama. Almoçava com a professora, um almoço que ela preparava para mim e aquecia, na escola, num fogareiro de um só bico. Ainda sei o sabor do arroz de carne... Quando voltavamos da escola, eu continuava em casa da professora, até que, ao fim do dia, alguém me fosse buscar. Era, então, o meu momento de descoberta. A casa era enorme, muito escura e cheia de cheiros, e eu podia tocar no piano (não tocar piano...), regar as flores e espreitar as pessoas que iam aos Correios (hoje Correios Velhos).
Em casa, os meus irmãos chamavam-me alagoense, campónia, e outros epitetos igualmente simpáticos e elogiosos...
No meu primeiro dia de escola não houve, por isso, adeus à mãe, lágrimas ou mimo. Lágrimas estavam guardadas para outros dias, mimos para outros momentos.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Mudanças

O mundo está sempre a rodar, ensinam-nos na escola. Assim, não devia eu, que vivo na escola, admirar-me das grandes mudanças e voltas da minha própria vida. Afinal, tento convencer-me, mudar é bom, E vou mudar. Mudar de atitude, de casa, de maneira de viver, de forma de encarar a vida. Já passada mais de metade da minha existência, com os afectos numa amálgama e o coração a transbordar de netos, carregando uma montanha de ausências, prepararo-me para mudar de casa...

terça-feira, 8 de setembro de 2015

ESQUECER

Um dia, tudo passa, tudo se esquece. Mas ela não queria esquecer. Não queria que se esfumasse o rosto amado, que arrefecesse a memória do calor com que a abraçava quando, todas as noites, adormeciam num novelo de pernas e braços. Tudo passa, garantiam. E ela não queria que passasse! Sim, ele partira. Sim, ele não voltaria mais. Mas ela tinha com ela as memórias que não queria perder. Ouvia, no silêncio,  a voz risonha ensinando-lhe Florença, o mão firme apoiando a caminhada em Siena, o sorriso provocador tentando-a para as trufas de chocolate. Sim, tudo passa... E juntos descobriam Viena, passeavam em Bruges, exploravam Bratislava. E ele tinha partido. Ela ficara e não queria esquecer. Queria segurar a presença que tanta falta lhe fazia. E garantiam-lhe que ia esquecer. E ela não queria esquecer...

domingo, 6 de setembro de 2015

COISAS

Levanto-me cedo, cedo para  domingo..., para trabalhar. Iniciou-se o ano lectivo, há que planificar, que organizar, que, enfim, acreditar de novo. O meu computador não concorda comigo, coisas do século XXI, e recusa colaborar. Diz-me, talvez para me consolar, que ganhei um IPad. Só que, o computador enganou-se e usou mal o verbo. Afinal, não ganhei. Hei-de ganhar se. Mas, este ano, pelo menos por agora, não quero saber de ses e faço-o reiniciar-se. Teimoso, a lembrar-me que as turmas aí estão, continua a não me deixar trabalhar. Os documentos não abrem, a impressora não imprime, o Google chrome não aparece, o rato não é reconhecido. Lembro-me, então, de ter lido ontem que os ratos podem vir a atingir o tamanho de vacas (??) e desligo-o.
Passo, então, a ler a legislação. Agora, é a minha cabeça que não funciona. Que confusão! tanta letra ordenada em nulidades de sentido. Vou buscar um café. Volto, e o computador pisca a luz verde exigindo-me paciência. Tento usar a pen. No way, diriam os meus netos... Recorro aos amigos e a sentença apavora-me: - Prepara-te para comprar outro, o teu deve ter chegado ao fim.
Era tudo o que não me apetecia! No meio de tantas coisas  aborrecidas, de tantas dores e mágoas, de tantas dúvidas e receios, só me faltava a morte anunciada do meu computador!

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

CONVERSAR

Conversar é tão bom! Gosto de trocar ideias, de ouvir, de ser ouvida, de reformular e de, por vezes, conseguir que outros reformulem opiniões. Por isso, ou também por isso, cada vez suporto menos os todo poderosos(ou todas poderosas) detentoras da verdade. talvez porque estou a ficar velha, acho um desperdício o tempo que algumas pessoas levam a cochichar, a intrigar, a armar rasteiras e a tecer silêncios perigosos. Se Deus nos deu o privilégio da fala foi, penso eu, para agirmos através da expressão de opiniões, e não mordendo nos calcanhares alheios, como os outros animais.
Haverá alguém que possa, com verdade, garantir que nunca errou, que nunca falhou? Haverá alguém que possa orgulhar-se (?) de ter sempre razão? Só, com certeza, os estúpidos e burros que não conseguem perceber que há vida para além das suas mentes obtusas. E a conversa serve, para além de muitas outras coisas, para ajudar a apender e a (re)conhecer.
Haverá melhor forma de gastar o tempo do que sentarmo-nos num lugar agradavel conversando? Não é tão bom sair com amigos para conversar? 
E estou eu com esta conversa porque, no meu dia a dia, a conversa me faz falta. Só mesmo por isso...

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O Senhor Taborda

O sr. Taborda chega à praia pelas onze da manhã, carregando o jornal, a toalha ao ombro, e arrotando sentenças. Para quem quer, e não quer, ouvir, informa que tem dois clubes, Sporting e Benfica, um que gosta de ver ganhar, outro que adora ver perder. Sempre bem alto, continua afirmando, com convicção, que Costa e Coelho são iguais e, por isso, desta vez vai votar no Costa para chatear o Coelho. Um amigo, suponho, pergunta pela senhora Taborda e o sr. Taborda, qual actor atento à deixa, declara que a sua senhora ficou em casa, a preparar a caldeirada que ele, apregoa ufano, não dispensa um cozinhado apurado e a mulher já veio à praia dois dias, já lhe chega. Que isto de deixar as mulheres virem muito à praia, não pode dar bom resultado. Mulher dele, sabe bem o lugar que lhe compete. Indiferente ao silêncio incomodado dos que o acompanham, o sr. Taborda apregoa em seguida as qualidades do filho. Um grande engenheiro! Um homem que sabe o que faz, e sabe mandar, garante. Ah, a ele ninguém engana, não há-de ser um 44... Nesta altura, os que com ele ocupam o lugar debaixo do guarda-sol vão dar um mergulho.   Mas o sr. Taborda continua, falando para a praia inteira que tenta ignorá-lo, a vomitar enormidades.
É tão aborrecido a gente cruzar-se com o sr. Taborda! E há tantos Tabordas...

domingo, 30 de agosto de 2015

FERRAGUDO

Férias na Praia da Rocha obrigam, naquela lei da rotina que tanto contesto às vezes, a ir almoçar a Ferragudo, ao restaurante Sudoeste, para saborear o peixe grelhado fresco e gostoso que só lá consigo encontrar. Ir a Ferragudo tem, ainda, o fascínio da viagem... Chama-se o barquinho e, numa navegação silenciosa protegida por um toldo azul, atravessa-se o rio. Hoje, o barquinho transportou-me só a mim e, talvez por isso, a conversa foi correndo. Que o mês da Agosto não foi tão bom (leia-se rentável) como noutros anos, que a vida está difícil, que até os estrangeiros parecem ter cada vez menos dinheiro... Corria um ventinho fresco, deixei-me embalar pela conversa. Sim, sabia já que seria hoje a maior amplitude de marés de todo o ano, confirmei. E lá disse da minha surpresa por ter conseguido passar por um lugar que, para mim, sempre fora o fim da caminhada.
Gentilmente, o meu condutor estendeu-me a mão para apoiar o meu "desembarque" e prometeu levar-me de volta. Foi tempo, então, de linguado grelhado, sangria branca bem fresca e um doce algarvio a lembrar a gulodice religiosa de frades e freiras de outros tempos...
No regresso, a conversa variou para a gastronomia e o percurso fez-se célere. É tão bom estar em férias da vida!

sábado, 29 de agosto de 2015

Praia

 
Ao fim do dia, sem aviso prévio, o céu encheu-se de nuvens e o vento soprou forte. Habituada a muitas tropelias do destino, não me assuste com as conversas que anunciavam um tornado mas, como não gosto de vento, arrume o meu livro e vim para casa, que é como quem diz para o apartamento alugado. Agora, sentada na varanda sobre o mar, vejo a praia a esvaziar-se e assisto à.  chegada das gaivotas. A esta hora, quando o dia se prepara para morrer, as cores do mundo, o dourado brilhante, enchem-me de encantamento!

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

LEMBRANÇAS


Hoje o meu Pai faria 90 anos. O meu Pai amava a vida, os amigos, a alegria, o campo, o mar, a família e o trabalho. Quando estava bem disposto, o meu Pai contagiava o mundo com a sua alegria... Para mim, quando era miúda, ele era um super-herói. Depois, mais crescida, percebi que ele era muito mais do que um super-herói porque, ao contrário deles, ele era real, combatia por causas efetivas e enfrentava monstros humanos. Nos momentos mais marcantes da minha existência, desde a operação ao apêndice, ao meu casamento e divórcio, passando pelo nascimento das minhas filhas, o meu Pai esteve ao meu lado.
Casei no dia dos anos dele, e lembro sempre as palavras segredo que me disse então. Ainda me guiam...
O meu Pai gostava de encher a casa de amigos, gostava de grandes almoços e de muita conversa. Para o meu Pai, toda a gente devia ter direito ao melhor e, por isso, lutou contra grandes poderes para conseguir uma Unidade de Cuidados Intensivos Polivalente em Portalegre. Com o meu Pai, aprendi a amar Portalegre, a escolher um bom vinho, a preservar os amigos e a semear compreensão...
Hoje, o meu Pai já não está ao alcance da minha voz, já não pede que conduza pela Serra que tanto amava, já não me faz esperar no carro enquanto ia, num instante, ver um doente a casa, já não me ensina a distinguir o voo da perdiz, do da rola no céu. Hoje, o meu Pai já não me diz que o sol volta sempre a nascer, que é proibido dizer não sou capaz, que é obrigatório agarrar a vida pelas orelhas. 
Hoje, o meu Pai faz-me uma falta de doer!! Hoje, sinto um enorme desejo de ir ter com ele.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Aniversário

Há trinta e três anos passei um dia horrível. Fui para o hospital de manhã e, pelas nove  da noite, numa cesariana de urgência, nasceu a minha filha mais velha. Não recordo esse dia como agradável mas, sem dúvida, foi a partir de então que a minha vida mudou definitivamente. O meu foco de amor, de preocupação e de alegria, tornou-se aquela miniatura de gente que saira de mim e me olhava como se me conhecesse desde sempre. Hoje, com netos, vejo ainda o mesmo olhar na mulher que é a minha filha e acho que, pelo menos na educação que lhe dei, acertei em cheio!  Tenho uma filha amiga que me escuta e compreende, vejo uma mulher corajosa e alegre, e rezo ao meu Deus para que a proteja sempre. Podia eu morrer agora, em paz, porque sei que o meu maior objectivo foi alcançado: As minhas filhas têm asas para voar!

sábado, 22 de agosto de 2015

INDIGNAÇÃO

Há já muitos dias que não assistia a um noticiário. A casa cheia, os netos, o calor, o desejo de fuga, tudo me tem afastado daquilo que, ainda que incómodo, a todos diz respeito. Hoje, no meu silêncio habitual, assisti às noticias e arrepiou-me. Não é a campanha eleitoral, mais do mesmo, desfile de vazios, que me incomoda. O que me deixa angustiada é o problema insolúvel dos migrantes. Famílias desfeitas, crianças mortas, homens humilhados, mulheres desesperadas e a policia a usar gás! Que mundo é este, meu Deus?! Sei que a indignação nada resolve, mas a minha revolta é também comigo mesma. Como posso desesperadamente sofrer só porque a vida não se faz a meu gosto?!
 

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

La Palissadas

Estar em férias é muito bom, claro. Mas, às vezes, é também incómodo porque não temos desculpa para fugir ao encontro com nós mesmos, com aquele eu que mora em cada um de nós, que para o Pinóquio podia ser o grilo falante, mas para mim é mesmo a voz da Razão. Nestes dias de ausência de trabalho, sem ter de pensar em estratégias de sucesso, nem em aulas divertidas e interessantes (ainda acho que se aprende mais e melhor com prazer!), tenho tido muitas horas para gastar comigo. E, apesar de alguns desentendimentos dolorosos, nem sempre eu e o meu eu estamos de acordo, concluí algumas verdades: - Não adianta, por exemplo, querer manter alguém na nossa vida. Se esse alguém quiser ficar, vai saber como; não adianta, também, acreditar que se alguém fez parte do passado tem de fazer parte do futuro, porque só o presente existe de facto... Sobretudo, não adianta querer acertar sempre, porque desistir e errar, às vezes, é só sinal de inteligência!

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

Duvida

l


 A vida não tem livro de instruções. Por um lado, é bom, torna a existência mais suportável. Por outro lado, é terrível porque a gente sofre que se farta...
Agora, olhando o meu mundo a deixar de o ser, desfiando erros e falhanços, desejava ter tido um livro de instruções porque, pelo menos hoje, não sei como encaixar as peças da minha existência...


segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O BAPTIZADO

O dia declinava já quando o Alentejo amarelecido nos viu passar. Esperava-nos, no silêncio belo daquele Lugar, a capela do Senhor Jesus dos Aflitos. Cá fora, as crianças brincavam, corriam, faziam perguntas e, quero crer, aprendiam afectos que há muito marcam pais e avós. Os amigos chegaram, poucos mas certos, e Sebastião da Gama deu início à cerimónia. Desta vez, não ficou tudo como estava, porque a pequena Constança, vendo a avó junto ao altar a ler, decidiu correr para ela..., aflita, pedindo para fazer xixi! É assim, afinal, a vida: - as urgências da existência sobrepõem-se à Fé...Depois, perante o sorriso amigo de todos, o pequeno António, feliz na segurança inconsciente dos seus cinco meses, recebeu a água sem choro e prestou atenção às palavras de oração.
A festa acabou em torno da mesa, na verdadeira fraternidade que só os amigos conseguem, e eu acredito, mas acredito mesmo, que o meu neto António ficou mais rico porque, na sua inocência e fragilidade, sentiu que terá sempre amigos para o ajudarem a sorrir à vida. Obrigada a todos, digo eu por ele!

terça-feira, 11 de agosto de 2015

O PRESENTE

Entrou em casa com as mãos atrás das costas e encontrou-a na cozinha. Tinha colocado o grande avental vermelho e, no nariz bronzeado, havia farinha. Reparou nas rugas em torno dos olhos, nalguns cabelos brancos que fugiam do elástico com que prendera o rabo de cavalo e sorriu-lhe. Para ele, cada ruga fazia sentido e ela era, ainda, a miúda por quem há muitos anos se apaixonara.
 Trago-te um presente. Ela levantou para ele os olhos escuros e sorridentes. Vou adivinhar... Trazes-me chocolates, after eight!! Ele não se mexeu. Frio, muito frio... chocolate não é presente, é gulodice. Ela, esquecendo as mãos sujas, levou-as à testa. Era agora um olhar enfarinhado que insistia: Então, trazes-me flores! Já sei, trazes a rosa amarela do quintal! Frio, muito frio... A rosa continua lá, no lugar dela. Sabemos os dois que há coisas que são sempre mais belas no lugar de origem. Ela ofereceu-lhe um sorriso total e rendeu-se. Desisto! O que me trazes? Ele abraçou-a, sentiu a camisa de linho encher-se de farinha e apertou-a junto ao coração. Trago-te a mim, inteiro e total, para um abraço eterno. Sentiu as lágrimas mornas molharem-lhe a camisa, mas nem pensou que a farinha daria agora uma papa...

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

CUMPLICIDADE

Ele trouxera a guitarra, ela o vestido longo. Sentaram-se no velho muro, aquele mesmo onde, em crianças, procuravam musgo, e ficaram olhando o campo. Ela lembrou Cesário, o leite baptizado antes de vendido; ele dedilhou Graça Moura. As cigarras, sempre seguras da sua musicalidade, responderam em coro e, sem que Deus desse por isso, as lágrimas aqueceram o rosto dela. 
Ele, então, fez soar Pessoa, e ela sorriu.

terça-feira, 4 de agosto de 2015

FILMES

Deixou o telemóvel fechado na gaveta da velha cómoda, vestiu os calções informais, escolheu a Lacoste que ela preferia e fechou a porta. No automóvel, protegido do Verão excessivo pelo ar condicionado, reviu a vida: - Adiamentos, prioridades, frequentes impossíveis, afazeres, urgências, julgamentos precipitados, culto de aparências.
E o amor aguardando uma oportunidade, o momento certo, as condições que os outros impunham. Tinha acordado agora, e acelerava devorando quilómetros. Seria, talvez, tarde demais? No coração levava a esperança envolta em medo. E se ela tivesse partido? E se o The End tivesse encerrado o seu filme antes do termo da história?

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

MÚSICA


O dia quente, aos poucos, despedia-se, dava lugar a uma noite calma, musical, trazida por vento oportuno e refrescante. Marvão, seguro na força da história já vencida, esperava-me. Como Anteu, na paradoxal insignificância do meu ser, preciso pisar os lugares que me fazem, que são meus também, para seguir existindo... E Marvão abraça-me, sempre, oferecendo-se para, sob a protecção das águias, me ajudar a reacreditar no mundo. 
À entrada do castelo esculturas recortadas contra o vale imenso, a ideia de que, de facto, somos apenas sombras! Lá dentro, no pequeno pátio do velho castelo, protegida pelas muralhas limpas, a orquestra desafiava sentires e sentidos. Sentei-me, fechei os olhos e deixei-me levar pelas cordas dos violinos, pela energia do violoncelo, pelo entusiasmo do maestro alemão que, a custo, dizia em português "Obrrigaaada Márvão!!"
Depois, a noite. O escuro do manto que o silêncio faz, tantas vezes, assustador. A cama, o sonho que insiste em ganhar forma de pesadelo e a oração, silenciosa, pedindo um amanhecer diferente. Como música, então, apenas o coro de cigarras vadias.


quarta-feira, 29 de julho de 2015

PARTIR


Alguém me dizia, com certeza e sabedoria, que tudo na vida é uma questão de escolhas e que, afinal, isso é o concretizar do livre arbítrio. Sei que é verdade. Mas sei, por um saber de experiência feito, que escolher não é só optar. Que  não estamos sozinhos no mundo, que seguir o nosso desejo (Razão?) nem sempre é tarefa fácil, ou sequer possível...
Mas acredito que é preciso força para viver, para marcar os dias com a nossa vontade, para resistir ao que, tantas vezes, desejamos sabendo que nos faz mal. E assim, como o coração embrulhado numa Razão que tento reconhecer, faço a mala e parto. Procuro o mar do Norte, o mistério do nevoeiro, as caminhadas com camisola quente à beira-mar. Partir!

segunda-feira, 27 de julho de 2015

CASAMENTOS

O Verão é o tempo dos casamentos. Nos sábados, sobretudo, tocam buzinas, surgem cortejos e muitas noivas felizes. Olho-as e, em silêncio, rezo para que a vida não as atraiçoe...
Lembro, sempre, o meu casamento. Um dia inesquecível, e eu a achar que ia ser sempre feliz. Lembro o nervoso, a esperança, o vestido longo, o abraço seguro e apaixonado, o braço do meu Pai conduzindo-me ao altar.
Lembro a minha velha Dyane Argent, a viagem rápida e a cumplicidade de dois jovens que acreditavam ganhar o mundo.
Agora, à luz de 34 anos de distância, penso que, mesmo com sonhos desfeitos e esperanças rasgadas, valeu a pena. E desejo que todos os sábados valham a pena para aqueles que ainda acreditam, como eu continuo a acreditar, que a vida só tem sentido a dois!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

VENTO

Sopra um vento quente, intenso, incomodativo. Tenho à minha frente mais dois sacos de exames para corrigir, e a minha cabeça, cedendo à solicitação da minha alma (ânimo mesmo!) anda a monte. 
As letras confundem-se, a Mensagem torna-se viagem interior às minhas Ilhas Afortunadas e o trabalho não rende... 
Pego ao colo no meu António de quase cinco meses e falo-lhe de ternura, de azul e de chocolate, de compreensão e cumplicidade. Ele adormece nas minhas palavras e eu finjo que acredito que ele vai sempre ter um colo para adormecer. Os exames aguardam o regresso da minha atenção. Talvez mais tarde...

quinta-feira, 16 de julho de 2015

JULHO

Ainda não estou em férias. Os exames continuam, as provas para corrigir somam e seguem e os momentos de paz e alheamento custam a chegar. Contrariada, vou olhando o mundo. E quanto mais olho, e escuto, menos compreendo. Não compreendo os pequenos/grandes ódios que destroem existências, não compreendo a distância imposta aos afectos, não compreendo as palavras agudas, não compreendo a solidão mesmo que no meio da multidão.
Tenho saudades da paz do mar, da compridura das noites olhando o oceano futuro do passado,  da harmonia que nunca aconteceu, das páginas de romances que nunca vivi, da cumplicidade efectiva que nunca conheci. 
Os meus passos seguem a fileira da desilusão, pisam destroços de sonho e fazem-se de palavras caladas. É Julho a chegar ao fim.

segunda-feira, 13 de julho de 2015

A GRÉCIA

Tenho andado com calor a mais para escrever. 
Não gosto de calor! Num abuso de poder, as altas temperaturas roubam-me energia, destilam-me ideias e dão-me um humor terrível... Mas, ainda assim, estou viva e vou olhando o mundo e os seus (e meus) problemas.
Talvez seja por causa do calor, mas acho  que os gregos não têm razão nenhuma e não percebo porque raio de razão haviam (ou hão) de ser financiados sem pagar os empréstimos. Não querem cortes nos vencimentos? Não querem privatizações? Também Portugal as não queria! A UE é um monstro, concordo. Mas é um monstro bom quando socorre, e um monstro feroz quando cobra o que emprestou? 
O que eu acho mesmo, concordando com Saramago, hoje pelo menos, é que a democracia é um sistema que permite que se tomem democraticamente medidas que nada têm democráticas! Deve ser do calor...

quarta-feira, 1 de julho de 2015

SEDA

Todos os dias o via, no armário, protegido pelo plástico da lavandaria que, tantas vezes, ela desejava poder colocar sobre os sentires. Tinha escolhido com cuidado o feitio, muito simples como ela, aproveitando ao milímetro aquele tecido suave, carregado de histórias, que ele trouxera da Índia. Olhava-o, mas não o vestia. Temia, talvez, que as desilusões de um passado, então futuro, se lhe colassem mais ainda à pele e à alma. 
Naquele dia, mudou de ideias. Retirou com cuidado o vestido de seda verde e fê-lo deslizar sobre a pele, ajustando-se imediatamente ao corpo num afago terno e suave. Passou as mãos no tecido recuperando momentos, outros toques, muitas saudades.
Onde acontecera o rasgão no seu tecido emocional? Porque não voltara mais a magia da seda à sua existência áspera?
Saíu de casa na suavidade da seda verde, abusou da canela no café e foi almoçar caril. 
A vida faz-se, também, de paladares fortes e tecidos suaves.

domingo, 28 de junho de 2015

INSÓNIA COM FADAS

Esta noite, de verão intenso, a minha insónia trouxe companhia: - Uma enxaqueca terrível! Segui, por isso, a recomendação de um médico velhote de quem tenho muitas saudades: - "Se não conseguires dormir, levanta-te, lê, faz qualquer coisa e deita-te só quando o sono chegar. Estar na cama às voltas só aguça a insónia". Levantei-me, fui para a varanda e fiquei a ver a noite. Há tantas estrelas! Lembrei-me, por isso, das histórias que gostava de contar às minhas filhas pequenas, das fadas que moravam nas estrelas e, quando não conseguiam dormir, faziam visitas umas às outras parecendo, aos olhos dos adultos, estrelas cadentes...  Tenho tantas saudades das fadas!

sexta-feira, 26 de junho de 2015

UMA QUESTÃO DE WC??

Neste serão muito quente, uns amigos desafiaram-me para uma sangria ao fim do dia. Porque ando falha de ternura, ou só mesmo porque aos amigos não se diz que não, lá fui. A conversa correu fácil, saborosa, e a sangria ajudou. A dada altura, falando de livros, contei que ando a ler o último romance de Domingos Amaral, "Assim nasceu Portugal", e que estranho a linguagem que ele utiliza.  Com sentido de oportunidade e humor, mas também com muita verdade, um amigo afirmou ter concluído, há tempos, que a diferença maior que acontece ao longo da História é apenas em termos de WC... 
Ou seja, tanto no século XII, como no XVI, como no XXI, o poder vive de subornos, de contrapartidas, de jogos escuros, de troca de influências. As pessoas, no essencial, mantêm-se iguais, apenas tomando, agora, mais banhos do que no séc. XVI e usando a retrete em vez da rua. Ri-me e contestei mas, vendo bem as coisas, o meu amigo tinha razão: - A evolução da humanidade acontece na relação directa da evolução do WC...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

JIBOIANDO

Chegou exausta, com o calor sempre lhe acontecia assim, um cansaço potenciado, uma vontade de ficar jiboiando ignorando as exigências da vida. Vestiu o velho vestido branco, calçou os chinelos de horroroso conforto, pôs o chapéu de boas memórias e esticou-se na cadeira da piscina. Fechou os olhos para escapar à violência do sol, e deixou-se amolecer. Aos poucos, foi despertando para a vida em seu redor. Podia adivinhar a curiosidade da lagartixa verde, ali mesmo na base da roseira branca, ouvia distintamente o ressonar do cão, à sombra da velha ameixoeira, dormindo atento aos movimentos dela, conseguia captar excertos de conversas vazias na piscina próxima. Felizmente, pensou, tinha a sebe verde e grossa a salvaguardar-lhe a privacidade do fim de tarde. 
Quase adormecida, sentiu chegar um carrerinho de pensares de doer e, rapidamente, tirou o chapéu e entrou na água. Sorrindo, ficou a ver o vestido colar-se-lhe ao corpo sem conseguir deixar de desejar que o vestido fosse humano.

terça-feira, 23 de junho de 2015

NÃO DITOS

Ficou tanta coisa por dizer. Não te disse, vezes suficientes, como o teu cheiro me dá vida, como o toque da tua pele me acalma o desespero. Não te disse como é bom ver-te dormir, como sabe bem a minha perna na tua, como é bom quando, sentados à mesma mesa, partilhamos a refeição. Não te disse, tantas vezes como seria ncessário, que o teu silêncio me fere, que as tuas prioridades me dilaceram.
Acho que não te disse, também, que me fazem falta as caminhadas à beira-mar, os toques ousados na areia. Não te contei da compridura da solidão, da imensidão do ciúme.
Disse-te, apenas, Adeus. Agora, vou fazer dos não ditos um molho de lixo inútil!

VAZIOS

Gostava de se sentar ali, na amurada que gritava palavras de amor eterno em graffitis de gosto duvidoso, olhando o mar. 
No Inverno, gostava do abraço que as nuvens davam às ondas, no Verão divertia-se com os corpos desnudos, o cheiro dos cremes, os gritos das brincadeiras infantis. Para o seu poiso, farol térreo, trazia às vezes um livro, outras vezes nada. Bom, nada nunca acontecia porque quando a idade é redonda as memórias nunca descolam, as saudades não dão paz. Tanta vida vivida, tanto sonho por sonhar... E um vazio tão grande, tão imenso, que nem a grandeza do mar conseguia preencher!

domingo, 14 de junho de 2015

NECESSIDADE


Era Julho. Ou Junho ainda? Eu levava os exames para corrigir, sim, esses mesmos que a polícia transporta com mil seguranças e que nós, professores, levamos para onde queremos para corrigir. Tu levavas um livro, tinhamos combinado aproveitar a manhã para, junto ao mar, trabalhar um bocado. O silêncio, aquele mesmo cúmplice que conhecemos, pousava nas chávenas da bica . De repente, o vento soprou forte, ficou frio, e tu embrulhaste-me no teu casaco azul. Eu, como sempre descuidada, não tinha sequer levado casaco... 
O abraço que me deste era da cor do casaco, misturava-se com a maresia e fazia-me entrar na paz do céu. Ainda tens esse casaco? 
É que continuo a precisar de me aproximar do céu...

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Dia de Portugal

Foi ontem o Dia de Portugal. Dia de lembrar a Poesia (acho que somos o único país que tem como Dia Nacional o Dia de um poeta), dia de pausa e de discursos. Não ouvi os discursos, infelizmente, outros valores mais altos de alevantaram... mas vi a lista dos nomeados, perdão, dos condecorados e tive pena. Pena que o meu país seja tão hipocritamente festejado; pena que a grandiosidade se tenha perdido; pena da pequenez das grandes figuras.
Este não é Portugal a entristecer. É Portugal entristecido...

domingo, 7 de junho de 2015

VIAGENS.

A viagem fora longa mas a conversa boa, no conforto do ar condicionado, tornara-a rápida e agradável. No caminho, entre sorrisos cúmplices, acontecera a pausa, a boa esplanada frente ao mar, as brincadeiras entre os dois a propósito da multidão de corpos nus a fazer iguais todas as diferenças. O peixe, acompanhado pelo vinho frisante gelado que ela sempre pedia, soubera-lhes divinamente e o tempero de cumplicidade efectiva tornara-o inesquecível.
Ali, naquele lugar de sonho, no exacto ponto onde toda realidade é possível, ela adormeceu a desilusão e o desespero dos erros acumulados. Porque, afinal, enquanto o sonho existe a vida não está perdida! 

domingo, 31 de maio de 2015

A TORRE DE BELÉM

A Torre de Belém fez 500 anos e eu, mesmo sem ser convidada, tive a sorte de ir à festa. A acompanhar-me, para além de centenas de pessoas, a fantástica banda da marinha que, juro, fez o meu sangue valsear! A Torre, como qualquer pessoa em dia de festa, parecia maior e mais bela e foi recebendo, com orgulho, os sucessivos video maps que recordaram os momentos mais marcantes da História de Portugal. Foi fácil identificar os descobrimentos, o terramoto de 1755, a ditadura de Salazar. 
Mas foi emocionante, para mim que sou insuspeita, ouvir a Grândola Vila Morena ser cantada, quase como se fosse impossível calá-la, pelas centenas de pessoas presentes! Às vezes, quase acredito que o sonho de Liberdade é um componente do sangue...

terça-feira, 26 de maio de 2015

UM DIA...

Um dia, eu vou abrir o coração e deixar voar as palvras caladas, os sentires proibidos também. Um dia, eu vou ser capaz de dar uma violenta estalada na cara da madrugada que insiste em fazer-me acordar nos braços de um pesadelo. Um dia, eu vou pegar nas rédeas da minha vida e travar o corcel de angústias que tomou o freio nos dentes. Um dia, tenho esperança, o meu acordar vai fazer sentido!

domingo, 24 de maio de 2015

VIDA?

A conversa já não é. A aprendizagem escolar: emissor - mensagem-receptor -, não existe mais. Ele fala, antecipa as respostas que, não o sendo, lhe convêm, e vai semeando ausências, mágoas, destroços de vida. Ela cose a revolta magoada no silêncio triste e, aos poucos, a mensagem cresce num vazio de desistência. E os prefixos des, os da negação, ganham, paradoxalmente, sentido: - Vem a desilusão, a desesperança, a desistência, a desvida - que é uma forma de existir sem respeitar a vida.
Um dia, de sol e praia, vem uma onda maior e lava tudo. Lava  a alma, leva os despojos daquela guerra que já o não é. Ficam migalhas escuras, onde, ainda assim, ela enterra a desilusão nunca de facto limpa do silêncio não dito.
É a vida. Como muitas, hoje.

sábado, 23 de maio de 2015

DE NOVO

Quente e intenso,o raio de sol entrou pelo quarto adentro sem pedir licença. Ela sentiu-o, destapou-se e deixou-se ficar, jiboiando, no esforço de prolongar a noite que terminara. Reparou no pó que, apesar da sua obsessão com a limpeza, pousava abusivo nas molduras que enchiam a velha cómoda. Era uma narrativa de encaixe, sempre dava esse exemplo aos alunos, aquele velho móvel de gavetas, de onde  espreitavam memórias, ausências, instantâneos de felicidade. Gostava das molduras. Sem protestos, eram companhias atentas e vigilantes. 
Lá no cimo da parede, bem no cantinho onde só com muito esforço a vassoura chegava, uma aranha de corpo minúsculo e pernas enormes tecia, tranquila a sua teia. 
Também ela gostaria de poder tecer uma teia e de se fechar lá dentro, casulo de possíveis, saindo apenas borboleta segura da cumplicidade efectiva, do abraço firme... E a mágoa voltou, lembrando a insónia da noite que agora terminava!

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Festas do Concelho

A minha cidade está a preparar a Festa. E eu antevejo-a festa triste... Porque, afinal, continuamos mais preocupados em mostrar o que não somos, a adquirir o que não é nosso, sem valorizarmos o MUITO que temos cá. 
Passei há pouco no recinto das ditas festas e vi um aglomerado de barracas e roulottes, mistura de cheiros, cerveja aos montes, gritos e desordem. Vi, claramente visto, o fantástico e abandonado Convento de São Francisco a tentar passar despercebido no meio da vulgaridade. Pelas ruas, nos cafés, oiço desinteresse e tristeza. 
Páro e penso que, se calhar, as Festas do Concelho se estão a tornar, apenas, no cumprimento de um calendário obrigatório e não sentido. Se podia ser diferente, com o mesmo pouco investimento? Tenho a certeza que sim. Bastava combater a vulgaridade, evitar a repetição e desafiar as almas lagóias a fazerem a Festa!! 

sábado, 16 de maio de 2015

O MEU POEMA

PODIAS SER O MEU POEMA

Se fosses o meu Poema escrevia-te  sem
consoantes surdas
Para que me ouvisses sempre!
Usaria muitas vogais para
te lembrar as campainhas que
tocam quando me abraças.

Se fosses o meu Poema havia de
roubar-te a Cesário para que
fosses a corveta fina e eu
o teu mar de calmaria.

Se fosses o meu Poema evitaria
a pontuação para
que procurasses livremente
o sentido no meu Ser.

Se fosses o meu Poema aprender-te-ia
de cor para
no silêncio cinzento
te ler em linhas de possíveis.

Se fosses o meu Poema
não terias palavras agudas.

Se fosses o meu Poema serias
uma edição limitada.
Um edição de autor!
 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

DOENÇAS

Tal como a maioria das pessoas, não gosto de doenças. Detesto sentir-me debilitada, ter dores, suspeitar que algo não funciona e, pior, saber que não depende de mim mudar o estado das coisas. Detesto ir ao médico mas, às vezes, não há outro remédio... Por causa dos anos, e de outros factores que quero desprezar, precisei de uma consulta de ortopedia. 
Agarrei no telefone e procurei um especialista... Nas minhas tentativas, fui até ao Porto, ao Hospital da Prelada. Fui então informada que, se quisesse servir-me do apoio da ADSE teria consulta lá para julho mas, se fosse particular, podia ir já para a semana...
Não consigo calar a minha indignação! Vivemos no Farwest? Como podem acontecer situações destas? A mim, no final do mês, nunca me perguntam se quero, ou não, fazer descontos!

domingo, 10 de maio de 2015

Surpresas!


Precisava de alguma coisa para ler. Sim, o tempo é pouco. Mas sim também, não consigo viver ser um livro por companhia. O título "Aquilo que nunca dissemos", não era sugestivo. Cheirava um pouco a Nicholas Sparks, numa pieguice vulgar que eu não aprecio. Mas o autor, Marc Lévy, era francês e eu, desde Flaubert dos meus 15 anos, de Marguerite Yourcenar a marcar os meus vinte, cedo sempre à literatura francesa... Iniciei a leitura, e às primeiras páginas já previa uma história chalada. Felizmente, não gosto de deixar livros em meio, tenho sempre esperança que, no meio de um qualquer maçador parágrafo, aconteça algo surpreendente e, desta vez, foi o que aconteceu. Conjugando na perfeição o humor e a realidade, o autor fez-me pensar em coisas sérias, e na forma como essas coisas sérias se prendem, sem que demos por isso, com as insignificâncias do quotidiano. De facto, ao longo do voo até Berlim, ou mesmo durante a viagem desde Paris para assistir à queda do Muro, somos confrontados com essa "coisa" que são as palavras. Falamos todos muito, às vezes demais e, ao mesmo tempo, o que é essencial fica quase sempre por dizer. Depois, quando o fim chega, ou quando a Morte aparece, ficamos a pensar que devíamos ter dito mais isto, e mais aquilo. 
Eu calo muita coisa e, ao virar de cada página, pensava no peso desses silêncios que são, por vezes, de cobardia; mas são, outras tantas vezes, de desistência. E a vida é valiosa demais para que possamos desistir dela. Como Jesus Cristo disse, nós temos a obrigação de tentar ser felizes! Marc Lévy será, a partir de agora, um nome a reter nas minhas escolhas de novas leituras.