segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

2013

Está aí 2013. Chega a assustar toda a gente, veste-se de medo, de fome, de desemprego, de injustiça social, de violência fiscal, de perseguição e punição do trabalho, carrega no ventre a descrença num país que, um dia…, já foi grande. As notícias diárias metem medo, ouve-se com frequência os portugueses a afirmarem que nem olham os telejornais, que mudam de canal sempre que aparece um político. Cada um isola-se no seu casulo, tentando sobreviver, resistir, passar despercebido na caça ao imposto que vigora em Portugal. Para nos consolarmos uns aos outros, acho eu que é para isso, vamos dizendo que a crise é geral, que a Europa toda está a colapsar, que até na América de todos os possíveis as dificuldades crescem diariamente. É tudo verdade. Mas é verdade, também, que a desgraça alheia não nos alivia, não torna mais leve a nossa sina… 2013 não vem em festa, com espumante e passas de uva. Vem de negro, pesado, com água da torneira, e mesmo assim pouca…


No entanto, penso que temos de acreditar que não estamos condenados a esta tristeza. Creio, sinceramente, que é possível inverter este estado de desgraça, fazendo, cada um de nós, algo por isso. Tal como a maioria dos portugueses, como o prova a abstenção crescente, também eu não confio na maioria dos políticos. Não confio nos partidos, embora não imagine como se possa viver em Democracia sem eles, e não acredito na vigaricezinha, na cunhazinha, na mediocridadezona que impera em Portugal! Também já fiz parte de um Partido político, vivi a desilusão e conheci aquilo de que falo. Assim, consciente da utopia das minhas palavras, ouso iniciar 2013 desejando que cada pessoa dê o seu melhor à vida. Que cada um de nós se empenhe de alma e coração no que faz e que, como diz um Santo qualquer de que não sei o nome, faça seja o que for desde que o faça com Amor.


Neste 2013 que começa, um ano 13 com todo o simbolismo do número, desejo a mudança da Humanidade. Que cada um olhe o outro como igual, que o Amor seja o lema de todos os quotidianos. Mais nada. Se e utopia? É, com certeza. Mas o que seria do Homem sem o sonho que o guia e desinquieta?

sábado, 29 de dezembro de 2012

O baloiço

Força avó Gia, mais alto! Não largues as cordas, dão-badalão-cabeça-de cão. E o baloiço sobe, levando o meu menino até às nuvens. Olha o sol avó Gia, tão perto! Isso, veio aquecer-nos o dia. Dão-badalão-cabeça-de-cão. Não avó Gia, cabeça de pavão! Dão-badalão-cabeça-de-pavão. Com penacho, avó Gia. Dão-badalão-cabeça-de-pavão-com-penacho. E o jogo continua. O meu menino estica os pés pequeninos, garante que vai conseguir apagar o risco que o avião deixou no céu, e pede balanço. Eu empurro e deixo-me levar pela imaginação infantil. De repente, feliz, ele grita que viu o Menino Jesus. Estava mesmo ali, ali avó Gia, ao lado daquela nuvem gorda! E eu digo que sim, vejo também, lembro Caeiro e o Menino Jesus que, um dia, fugiu do céu...
Será isto ter Fé?

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um raio de sol ao menos...

Há uma história infantil que, ultimamente, tenho lembrado com muita frequência. Conta que uma velhota, que morava numa casa escura, fria e sem janelas, pôs um alguidar na rua e encheu-o de sol. Depois, com o alguidar a transbordar de luz e calor, levou-o para casa. Com desespero, viu desaparecer o sol que apanhara. A velhota tentou várias vezes prender o sol, mas nunca teve sucesso e, por isso, resolveu sentar-se à porta e recebê-lo mesmo ali, na rua, onde ele não se fazia rogado.

Ora, nos últimos tempos, sinto-me como a velhota. Eu bem tento armazenar Luz, Força, Resistência, Coragem, Optimismo, Confiança, mas, quando vou vasculhar os meus arquivos, está sempre tudo vazio... Então, como a velhota, sento-me e fico olhando o tamanho da escuridão que me rodeia. E fico mais triste do que ela, com vontade de chorar, porque, se me sento à porta, não há sol que me aqueça...

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Já Está!

Já passou mais um Natal. O mundo não acabou, para mim infelizmente, e a vida segue igual, indiferente às datas que o calendário insiste em destacar. Agora, ainda com o presépio em casa, com o pinheiro a perder as agulhas, com pratos cheios de sobras de doces e já enjoados de peru e bacalhau, começa a pensar-se no Ano Novo. Vêm aí, outra vez, 365 dias a estrear e muita gente, eu inclusivé, enche-se de esperança e de confiança achando ser capaz de, desta vez, construir quotidianos diferentes. No meu silêncio, ainda com o calor dos netos, escuto a noite que me acompanha. Já está mais um Natal vencido, penso sem vontade de voltar atrás. É dia 26, o mês de Dezembro voa, e em breve será... Natal outra vez! Se queria assim? Não decerto.

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

OUVE

Ouve-me aí, no longe
deixa-me falar-te de mim
das cores do Tempo,
dos cheiros da cozinha aquecida,
dos mistérios da minha alma.

Ouve-me aí, no longe
Sem respostas,
sem críticas,
sem reservas,
sem receios.

Ouve-me aí, no longe
acolhendo as palavras que calei
tempo demais...

Ouve-me aí, no longe
as palavras doridas e possíveis
 eternamente adiadas...

Ouve-me aí, no longe.
E guarda o segredo que te digo!

Natal

25 de Dezembro, dia assinalado como especial, tempo de solidariedade e de amor ao próximo. Em teoria. Na verdade, tempo de saudades, de mágoa, dia como os outros, tecido de dor, de destroços, de revolta e solidão. Vem a saudade mais forte, calam-se as vontades mais íntimas e sorri-se o sorriso impossível.
Feliz Natal! E as palavras ocas chocam com a falsidade do mundo. Feliz Natal! E o coração sangra na dor da realidade. Feliz Natal! E calam-se as lágrimas porque o dia é especial.
É Dia de Natal! (?)

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

PAZ!

A paz sem vencedor e sem vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos
A paz sem vencedor e sem vencidos
Que o tempo que nos deste seja um novo
Recomeço de esperança e de justiça.
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos

Erguei o nosso ser à transparência
Para podermos ler melhor a vida
Para entendermos vosso mandamento
Para que venha a nós o vosso reino
Dai-nos 

A paz sem vencedor e sem vencidos

Fazei Senhor que a paz seja de todos
Dai-nos a paz que nasce da verdade
Dai-nos a paz que nasce da justiça
Dai-nos a paz chamada liberdade
Dai-nos Senhor paz que vos pedimos

A paz sem vencedor e sem vencidos



Sophia de Mello Breyner Andresen
Dual (1972)

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Memória

A estes textos, explico, chama-se textos de memórias. Têm marcas biográficas, mas, obviamente, podem cruzar a ficção com a realidade. É possível sempre criar memórias. Houve um Poeta, houve O POETA, que tinha saudades do que nunca vivera, por exemplo. E os miúdos de 7º ano querem saber mais. Quem foi? Como fazia? E, porque é cedo para Pessoa, falo-lhes da possibilidade de criar memórias no mundo dos afectos, na construção de referências no cantinho da individual intimidade. Perguntam como, querem, exemplos, e eu conto do Natal que, em menina, vivo em África, sozinha, perdida. Conto que partira numa viagem de família e que, de repente, me vira perdida e sozinha. Conto que veio uma menina, como eu mas muito preta, quase nua, com uma carapinha tilitante,  que me deu a mão e me levou com ela para uma casa sem quartos, nem sala, nem cozinha. Falo-lhes das galinhas que andavam pelo chão, à solta, ciscando, do leão que ouvi rugir ao longe e das grandes fogueiras à volta das quais, à noite, muitos corpos se moviam. Estão calados, atentos, esperando o desfecho. E, para dar veracidade aos factos, lá revelo que me encontraram, que os meus pais conseguiram pôr a polícia local à minha procura e que, ainda hoje, eu e Kali somos grandes amigas.
Olham surpresos e, quando a campainha toca, dois deles arrastam o arrumar das mochilas e perguntam, a medo: - Setôra, foi mesmo verdade?!
 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

A lareira

Faz-se um lume grande. Colocam-se os madeiros mais grossos atrás, os chamiços à frente, as pinhas que estalam e risca-se o fósforo. Depois, é ver crescer  a chama. Aos poucos, tremelicando entre o azul e o laranja, vai ganhando força e dando calor. Gosto de olhar o fogo, de chegar as mãos que aqueço nestes dias gelados. Gosto da hesitação e, depois, da força imensa. Às vezes, é preciso fazer assim: - parar, hesitar, pensar, escolher e avançar com força e decisão!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

AZEVIAS

As montras já estão cheias de tentadoras azevias. Eu prefiro as de Castelo de Vide, com a massa muito fininha e o verdadeiro recheio de grão de bico, pelado à mão. As azevias são um dos meus doces preferidos! Mais até do que pelo sabor em si, que é delicioso, trazem-me sempre memórias de tempos de felicidade, de casa cheia de cheiros diferentes e vazia de saudades e ausências. Revejo os tabuleiros cheios dos fritos, bem alinhadinhos, deixando a minha mãe aflita com a falta de espaço para pôr tanta coisa... Em minha casa, tudo - tudo Natal - começava no dia 8 de Dezembro. Nesta data, dizia o meu Pai, festejava-se o Natal pequenino. Curiosamente, era, para mim, enorme...

domingo, 9 de dezembro de 2012

Ainda o Acordo

O Brasil decidiu adiar a entrada em vigor do absurdo acordo ortográfico para 2016. Portugal, pelo contrário, já o disse oficial a partir de 2011!!
 Poucos são os cientistas da língua que, em Portugal e no Brasil (porque nos outros países de língua oficial portuguesa o ignoram)  lhe reconhecem vantagens. No entanto, vá lá a gente perceber porquê, não há um dirigente que tenha coragem para o rasgar definitivamente! Tenho subscrito todos os manifestos, cartas abertas, exposições, que me aparecem contra o AO, mas sei que de nada serve. Foi um colossal erro politico e para emendar erros destes são precisos grandes dirigentes. Onde estão?! Parecem não existir...
O facto do Brasil ter adiado a oficialização do AO, deveria ser mais um factor para nos fazer parar e pensar. Tudo tem remédio e, acho eu, muito pior do que reconhecer um erro, é insistir nele.
Pela minha parte, adoptei as duas grafias: - Oficialmente, o maldito acordo; na minha expressão (por enquanto) livre, a língua dos meus Poetas!

sábado, 8 de dezembro de 2012

A ser verdade...

Se é verdade que Nuno Santos foi afastado da RTP por ter tido opinião própria, se é verdade que lhe moveram um processo disciplinar por pensar de forma diferente de Miguel Relvas, o assunto é grave demais.
Se em causa está a liberdade de expressão, Portugal chegou mesmo ao fim da linha!
Para lá da crise económica e financeira, estão em causa Valores que deveriam, acho eu, ser inquestionáveis! Será possível que continuemos a ser o país dos Relvas e afins? Será possível que a lei e a justiça continuem ao serviço de alguns, contra a própria verdade?!
Penso que é muito importante que este processo, por enquanto uma embrulhada, seja esclarecido de forma a que todos possamos entender. Se Nuno Santos for demitido, é chato, mas paciência. No entanto, se a LIBERDADE de EXPRESSÂO for limitada, é grave e não pode haver paciência que tolere este violento absurdo!
Os portugueses, nós!, não podemos continuar a fingir que não vemos, quando, em causa, está o primeiro dos direitos: - A LIBERDADE!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Renovação

Bem sei que é na Páscoa, e normalmente na Primavera, que se fala de renovação. Mas hoje, ao atravessar o Alentejo, só esta palavra me assaltava. 
O mundo, depois das chuvas violentas, parece-me renovado. Os verdes, verdes moços de Garrett, fazem jus à caracterização. As árvores parecem mais frondosas, a terra brilha, fértil, pedindo mesmo para produzir. O gado, as vacas castanhas, parecem cheias de energia e olham, com desinteresse, os carros que passam perto. Gosto deste tempo! Gosto da Natureza assim, promissora e carregada de amanhã.
Infelizmente, dói-me o contraste com a vida humana que, cada vez mais, se faz de desilusão e cansaço...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

RECAÍDA

Não tenho febre, não estou com dores de coisa nenhuma. Tive uma recaída pedagógica! 
Eu tinha decidido que ia deixar-me de sonhar actividades com os meus alunos, mas desisti. Hoje, os meus meninos de 7º ano, aqueles mesmos que me tiram do sério com demasiada frequência, aqueceram a minha alma de professora e encheram-me de razões para sonhar.
Tudo aconteceu a propósito do Natal, o conto de Miguel Torga que põe o velho Garrinchas a desafiar-nos para a ternura. Os meus meninos, as pestes que me fazem cabelos brancos, vestiram-se de seriedade e fizeram uma leitura que me convenceu. Fiquei cheia de vontade de realizar outros e novos projectos, de continuar a investir no portefólio e de ficar perto deles durante muito tempo.  
Tive uma recaída pedagógica. E, curiosamente, desejo que o tempo não me cure...

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Quase Natal

É quase Natal! E de nada adianta dizer que o tempo voou, que parece que ainda há pouco estavamos a comer as passas para tentar garantir, com pouco sucesso, um 2012 cheio de coisas boas...
O Natal está aí e, apesar da crise, é tempo de ir às compras e de escolher um presente para cada uma das crianças próximas, e dos adultos mais queridos. Eu sou uma defensora acérrima dos presentes de Natal! Ao contrário de muita gente, não acho que o facto de darmos presentes queira dizer que somos consumistas, ou materialistas. Para mim, pensar nos outros, passar tempos a imaginar o que cada um gostaria de receber, procurar aquele presente para aquela pessoa, é um acto de ternura e de fraternidade! Gosto de escolher os presentes que ofereço, com calma, conferindo identidade a cada um. Não é o presente que está em causa, menos anda o seu valor, é, sim, a oportunidade (cada vez mais rara) de se dizer a quem se gosta que pensamos nele/a.
Habitualmente, faço as minhas compras de Natal na minha cidade. É o presente, pequenino, que ofereço a Portalegre! Gosto de subir e descer a Rua do Comércio, de olhar rostos que conheço de sempre, de sair dizendo FELIZ Natal. Acho que é aquele telurismo (provinciano?) que me define...
Lembro-me de comprar o boneco que gatinhava, os polly pockets com malinhas, e sempre livros. Muitos livros!
Ontem, iniciei as minhas compras e cheguei a casa com o coração desfeito. A minha rua do Comércio, o coração da minha cidade, está a agonizar. Há mais espaços fechados do que abertos, há mais sorrisos tristes do que alegres, há mais que Deus nos ajude, do que Feliz Natal! Temos de fazer alguma coisa. Se morrem as pequenas comunidades, morre  a vida no que ela tem de mais verdadeiro! Este ano, gostava de fazer um desafio de ternura e afecto aos portalegrenses como eu: - Vamos fazer greve às grandes superfícies, vamos ignorar os grandes empresários que levam o dinheiro para outros países, e vamos gastar o pouco dinheiro que temos no Comércio Tradicional da nossa cidade!
Portalegre merece um presente de Natal! A nossa presença nas ruas, a nossa cumplicidade activa na luta pela sobrevivência.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

INVEJA

Penso, muitas vezes, nas razões que levam Portugal a estar, quase sempre, na cauda da Europa. Por obrigação profissional, e admito que por gosto, leio frequentemente excertos de Os Lusíadas e entusiasmo-me, sempre, com a narrativa épica das descobertas. Chego (ainda agora) a comover-me com a história do infeliz Adamastor, a revoltar-me com o destino cruel de Inês - Tu, só tu, puro Amor deste causa à molesta morte sua! - e a deliciar-me com a arte da Formosíssima Maria para mover o Pai feroz. Gosto, muito, de levar os meus alunos até Belém e de, com eles, partilhar as lágrimas de saudade e dor dos que partiram, e dos que ficaram. E, quando chego às últimas estâncias de Os Lusíadas, partilho o cansaço desalentado de Camões - No mais Musa, no mais!.
Tudo ficou em nada! O sonho morreu e, parafraseando Pessoa, o Império se desfez.
Portugal foi grande. Hoje, é humilhado e triste!
No entanto, lá fora, seja na Europa (na outra), seja na América, seja em África ou na Ásia, há portugueses que se destacam,  que produzem e que ajudam, de diversas formas, a fazer funcionar este mundo oco.
Qual será, então, a razão que leva a que, neste ractângulo virado para o mar, tudo pareça condenado a apodrecer?
Deu-me para concluir que a culpa é da inveja! (Camões já o dizia...) Somos um povo doente de inveja! Invejamos o carro do vizinho, a saia da vizinha, as férias do patrão, o ordenado do ministro, a casa do presidente, etc. Invejamos, inclusivamente, a desgraça alheia... É uma chatice quando a vizinha está doentinha e todos vão visitá-la e a nós, ali ao lado, respirando saúde, ninguém pergunta como estamos! Esta inveja endémica impede-nos, acho eu, de reconhecermos autoridade, de obedecermos e de cumprirmos. Expressões como "mas quem é que ele julga que é?" , "mas ela não manda em mim! Não é mais do que ninguém", são habituais no nosso quotidiano!
Além desta invejazinha, quase imperceptivel, há a inveja cruel, mazinha, feita de "se não é para mim, não é para ninguém"...É até assim que age a oposição ao governo, seja ela qual for!
Assim, hoje deu-me para pensar que, para diminuirmos a dívida externa, bastaria taxar a inveja! E podiamos, então, ter de volta a nossa vida relativamente desafogada, sem cortes e com subsídios!

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Era boato...

Afinal, era boato. Passos Coelho garantiu que nunca falou em copagamentos na escolaridade obrigatória e, assim, fica tudo em paz. Alguns jovens continuarão a ir às aulas quando não estiverem cansados, nem tiverem nada de mais interessante para fazer; outros continuarão a tentar aprender para, um dia, poderem, finalmente, abandonar o país e obterem sucesso no estrangeiro.
 Está tudo certo e de acordo com as normas de facilitismo que, há tempo demais, imperam em Portugal!
 A indignação de quem me lê, (alguns), com a minha hipótese de fazer os faltosos e vadios sentirem o custo do seu desinteresse, já não faz sentido. Ainda bem. Ainda bem, porque eu não quero escandalizar ninguém. Mas ainda mal porque, de verdade mesmo, penso (e sinto) que tem de haver uma grande mudança nas políticas educativas se queremos, um dia, ter um país que funcione!
Às vezes, quase concordo com alguns amigos que dizem que temos o que merecemos... Se queremos só direitos, só facilidades, um estado paizinho e tutor, desresponsabilização individual e igualdade de diferentes, temos aquilo que merecemos: - Um país de ignorantes e vadios!
No entanto, eu sou portuguesa e, na sua maioria, gosto dos portugueses! Recuso-me a acreditar que estejamos fadados para a miséria em que vivemos!

domingo, 2 de dezembro de 2012

ATÉ CONCORDO

Soou, numa daquelas atoardas que nos costumam surpreender, a ideia de que os alunos do ensino secundário iriam pagar propinas. Assim, dito simplesmente assim, parece um absurdo. O ensino é obrigatório, a educação deve ser uma prioridade de um qualquer país, toda a gente deve ter direito a ela. No entanto, se analisarmos bem as coisas, talvez a medida não seja descabida... 
Nada é gratuito, tudo tem custos, e a educação também. Ora, assim sendo, que sentido faz que sejam os nossos impostos a pagar a escolaridade daqueles que não estudam, não querem aprender, não são assíduos e impedem os outros de aprender?! Acho muito bem, acho até educativo, que os alunos que não estudam, que são indisciplinados e que se arrastam anos repetidos nas escolas, sejam obrigados a pagar propinas. Deviam, mesmo, ser obrigados  a indemnizar os outros pelos danos que causam. Claro que há situações de insucesso que não dependem, exclusivamente, da vontade dos alunos. Para esses casos, teriam de ser adoptadas outras medidas (nunca mais aulas "de apoio" iguais às outras). Mas há, e cada vez mais, jovens que vão à escola só porque sim. Como poderiam ir a um café, ou até ficar no jardim a namorar. Há jovens, e falo com conhecimento real das coisas, que faltam porque têm sono... Que vão à primeira aula, e faltam à segunda porque ficam cansados; que aproveitam as aulas para se maquilharem, ou para fazerem penteados, ou para porem em dia os sms trocados com amigos. Estes jovens são, se olharmos a realidade sem emotividades excessivas, potenciais criminosos: - Prejudicam os outros deliberada e conscientemente! Deviam, por isso, pagar propinas e pagar coimas sobre cada falta dada. Estes jovens deviam ter alternativas à Escola e essas alternativas não são, NÃO PODEM SER, os actuais cursos profissionais...
Felizmente, há também jovens, e muitos, que gostam de aprender, que trabalham, que se interessam, que cumprem, que tentam desenvolver competências, que sonham com um futuro de qualidade! Há jovens, eu tenho muitos alunos assim, que têm verdadeiro prazer em aprender, em fazer cada vez melhor, em crescer para fazer um mundo diferente e melhor. E estes jovens têm o direito de ser protegidos dos outros. 
A escola inclusiva, politicamente muito correcta, corre o risco de tornar-se escola de nulidades. Exclui os bons, inclui os vadios!
Assim, eu até concordo com a ideia de, no ensino secundário, haver propinas. Para alguns.

sábado, 1 de dezembro de 2012

O Vazio

É feriado, hoje. Pela última vez lembraremos a vitória sobre os castelhanos, em 1640, e a ascensão ao trono do rei D. João IV e de sua mulher, a Dona Luísa de Gusmão. Lembro-me sempre da janela de Lisboa, ali no Palácio de Vila Viçosa, de onde, dizem, Dona Luísa via chegarem os mensageiros com notícias da capital. Diz a História que D. João não tinha grande interesse em ser rei, homem sensato preferia a calma do Alentejo à politiquice de Lisboa, mas que a mulher o levou a mudar de atitude. Há mulheres com grande poder! Dantes, quando eu era miúda, a banda saía à rua e nós íamos a Badajoz, comprar caramelos e passear o nosso orgulho: - Tinhamos conseguido ver-nos livres deles!
Hoje, é tudo bem diferente! Hoje, chegamos a pensar que, se calhar, teria sido muito melhor termos continuado a ser espanhóis... Eu não acho isso. Penso, mesmo, que é o facto da União Europeia ser uma união contrária à identidade que faz com que o projecto entre em falência!Hoje, Portugal é um vazio imenso, sem rumo nem identidade, perdendo até o hábito de assinalar datas que nos fazem ser o que fomos (mas já não somos).
Este último 1º de dezembro é um dia triste e soturno. Ainda bem que, amanhã, já é dia 2!

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Palavrões

Já se sabe que as palavras são fortes. Há quem as trabalhe, quem as cante, quem as eternize, quem se envolva nelas e com elas. Eu gosto das palavras. De algumas... Porque há palavras que me incomodam. E muito! Incomoda-me, cada vez que entro nas escolas, ouvir os palavrões com que os miúdos se mimoseiam. Não consigo habituar-me a palavras que ferem! Dói-me, mas dói mesmo fisicamente, a pobreza vocabular de muitos jovens, rapazes e raparigas, de hoje. Incomoda-me ouvi-los chamarem-se por insultos, e fere-me entrar nas escolas acompanhada pelo som dos escarros que mancham o caminho. Todos os dias, cada vez mais, penso que deveria educar-se para a cidadania e para o respeito pelo outro! E todos os dias, também, sinto que esta batalha não tem tréguas... Claro que também há adultos que cultivam o palavrão. Mas esses, acho eu, já não têm cura. 
Os miúdos, pelo contrário, podem mudar! Chego a pensar que seria boa ideia instituir uma multa, ou uma coima, para quem assentar a sua oralidade no culto do palavrão....

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Alice No País das Maravilhas

Entrava pelo espelho e encolhia. Depois, a Alice fazia parte de um mundo de magia, com rainhas más, coelhos apressados, amigos fieis e lugares fantásticos. Nas suas aventuras, a Alice corria, vencia perigos e ameaças, conversava com a lagarta fumadora e desafiava a imaginação. Li a Alice No País das Maravilhas muitas vezes, em diversas idades, e adoptei uma frase sábia dita pelo coelho branco quando Alice lhe perguntou que direcção devia seguir. Respondeu ele: - "Isso depende, minha menina, de para onde tu queres ir!". 
Quando, num pequeno jardim verde, em Guidford, encontrei a Alice, lembrei-me de novo da história. E voltei a pensar que é muito importante sabermos para onde queremos ir. Definirmos um ponto de chegada, uma meta, um lugar onde possamos lançar o ferro! 
O pior, e isso o coelho branco não diz, é que o ponto de chegada, muitas vezes, parece fugir eternamente à nossa frente! 

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A propósito de conteúdos...

Todos os professores sabem que agora se trabalha, ou deve trabalhar, em desenvolvimento de competências, em vez de em aquisição de conteúdos. Faz sentido. Faz sentido que seja importante saber usar o que se conhece, ser-se capaz de desenvolver conhecimentos e capacidades, trabalhar tendo em vista progressão e não, apenas, aquisição. Concordo com tudo! Como concordo que avaliar não pode ser comparar; que classificar é bem diferente (ou devia ser) de avaliar; como concordo com pedagogias activas e não exclusivamente expositivas. Assim, convicta das minhas didácticas, gosto de encontrar estratégias que permitam aos bons chegar a excelentes e aos maus atingiram, pelo menos, o aceitável. Com esta preocupação, e talvez excessivamente imbuída do espírito algo facilitista da época, costumo perguntar a mim mesma, quando preparo aulas "O que é que isto contribui para a felicidade dos alunos?". 
Porque eu acho que ser feliz, ou procurar sê-lo, é louvável. Acredito, mas de verdade, que existimos para ser felizes e não para penar...Ora, vem isto tudo a propósito de um conteúdo recorrente nos programas de português: - A Carta! Parece fora do tempo. Alguém escreve cartas, na era do email e do sms? Mas pego nas cartas de Lobo Antunes, ou nas de Régio à mãe, e deixo-me levar. Das cartas voamos para as emoções e, aos poucos, surgem cartas impossíveis. Há cartas que não ouso classificar, avaliar ainda menos, mas que revelam, na escrita intimista, muita da dor e ternura caladas nos meus alunos. 
Gosto especialmente de estudar a Carta! 
Assim, não resisti a partilhar a carta que um miúdo, 16 anos, escreveu para se desenvencilhar da tarefa proposta: - Redige uma carta impossível!
data: dia do nunca, ano sem graça de 00e qualquer coisa
Querido Mundo,
Escrevo-te porque, imagino, não tens email. Que outra razão haveria para o fazer? Provavelmente, não tens telemóvel, e isso justifica o estado lastimoso a que chegaste. Obviamente, não tens facebook e, meu caro, quem não tem facebook não existe! Por isso, tu não existes! Não existes como aprendi a definir-te na escola, uma bola achatada nas pontas (nunca percebi bem como é que as bolas tinham pontas, mas nunca perguntei não calhasse ter de cumprir um PIT), mas apenas como uma massa húmida, relativamente harmoniosa e assustadoramente perigosa. Escrevo-te, dizia eu, para mostrar à minha professora de português que aprendi a lição: - A data em cima, a saudação inicial e, em breve, a despedida. Porque tu nunca receberás esta carta (como são importantes, as ditas...) e porque, se a recebesses, não serias capaz de a ler, esta é mesmo a carta impossível. 
Para que serviu então? Em que medida contribuiu para a minha felicidade - palavras da minha setôra -? Não sei. Mas quero acreditar que desenvolvi a minha competência da escrita. Bolas, um tipo tem de acreditar nalguma coisa das muitas que nos impingem na escola!
Então, caro mundo, chegou a despedida. Canto inferior esquerdo, (ou direito, depende da perspectiva).

Até um dia destes e cuida-te, ainda que, para isso, tenhas de usar as terríveis catástrofes ambientais.
Com amizade (porque a carta é informal)
Miguel

Tenho alunos assim. E fazem-me achar que vale a pena trabalhar!

terça-feira, 27 de novembro de 2012

O destino?

Não sou determinista, não acredito em coincidências, não quero crer em bruxas, mas há coisas do diabo (seja lá ele o que for). Deve ter sido o diabo, ou um anjo, quem me aconselhou na compra do romance que me acompanhou na última viagem a Inglaterra... Como sempre faço, já no aeroporto procurei uma leitura para companhia. Quero sempre algo fácil, que não me obrigue a pensar muito e me distraia, simultaneamente, da chatice da viagem e da rotina diária. Desta vez, porque a oferta era reduzida, escolhi uma autora feminina (gosto da escrita das mulheres), inglesa, bem cotada no país de Sua Majestade, Penny Vincenzi.
Ainda no terminal 2 iniciei a leitura, mas foi já em pleno ar, com o cinto apertado, que entrei no mundo de Guidford. EXACTAMENTE o lugar do meu destino! O livro que comprei , Promessas desfeitas, antecipava a minha chegada e, entre histórias e História, cruzando personagens reais e fictícias, fui conhecendo a cidade da minha ternura. Deliciei-me com os percursos propostos, conheci a High Street antes de, pela mão do meu neto, entrar na Toy Shop, e verifiquei que o Matt Shaw existe no meu quotidiano. Este romance levou-me, uma vez mais, a Covent Garden, fez-me recuperar memórias e reinventar vivências.
É verdade mesmo que escolhi o livro ao acaso, mas também é verdade que o acaso tece, vezes demais, a nossa vida...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Se fores Capaz...

Se fores capaz...
Dá-me o sorriso do sol,
Dá-me a frescura da chuva,
Oferece-me o vento Norte
Acolhe-me no lugar sem fim!

Se fores capaz...
Abraça-me sem amanhã,
Apaga as palavras agudas,
Faz rimas com versos brancos!

Se fores capaz...
fala-me com ternura,
fala-me de possíveis...
conta-me de eternidades.

Tu és capaz! 






domingo, 25 de novembro de 2012

E se o avião cair?

Embora não tenha nenhum medo de andar de avião, penso sempre que poderá cair. Penso com calma, creio que com a convicção de que não cairá, permitindo-me, por isso, olhar para trás, para o que deixo, e para a frente, para o que perco. Lembro os momentos bons que vivi já, e foram muitos, lembro as saudades dos que partiram, imensas, e penso que terei (ou teria) muita pena de não ver os meus netos crescidos. No meu filme interior, sempre, passam imagens múltiplas, cruzando-se em grandes planos, surgindo em narrativas ilustradas. Nem sempre, felizmente, sou personagem e delicio-me sendo público das minhas vivências. Vendo bem-bem, se o avião cair, só a ternura - a perdida e a adiada -me deixarão saudade de passado e  de futuro.

sábado, 24 de novembro de 2012

Mistério

Ela envolve-se num casaco de vison, verdadeiro vison, comprido e brilhante. Calça uns sapatos bem altos, tem o cabelo preso num rabo de cavalo descontraído e a maquilhagem é ligeira; ele, de sobretudo cinza-escuro, apoia-a com firmeza. Os dois caminham pela High Street, murmurando, olhando as montras cheias de luz e rindo sem alarde. Ele sugere um café, e sentam-se no Costa, na esplanada. Ela tira as luvas, discreta, e ele entra para, de seguida, voltar com um capuccino onde dança um pinheiro de Natal e um café que respira odor intenso. Ele abre um mapa e segue, com o dedo, o percurso a fazer. Ela, aquecendo as mãos na chávena larga, concorda fazendo perguntas breves.
Ela olha o relógio e ele, imediatamente, tapa-lhe o pulso garantindo, num murmurio perfeitamente audível, que ignore o tempo. No olhar dela passa um raio de tristeza, célere, mas profundo. Ela abraça-a. Levantam-se ao mesmo tempo, e eu quase espero ver aparecer, em grandes parangonas THE END. Mas não, não é cinema. Na vida real, ainda acontece o mistério.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Terminal 2

Eufemisticamente, designam-no de terminal. Objectivamente, é um hangar enorme, desconfortável e escuro, onde quem viaja em low cost aguarda o embarque. Há gente adormecida sobre os bancos, um pequeno espaço que tenta impingir a marca Portugal, e uma venda de café queimado, decerto não da Delta.
Sempre que viajo sozinha, distraio-me, ou tento distrair-me, a descobrir a vida dos meus parceiros de voo. Neste caso, adivinhar tornou-se fácil porque muitos deles trazem ao pescoço os cachecóis da equipa que o Benfica venceu. Não parecem tristes, falam alto, encharcam-se em cervejas e riem-se no meio de palavrões com que se presenteiam.
Neste terminal 2, onde pela primeira vez espero o avião, fazem sentido os estrangeiros embriagados. Porque o espaço é deprimente. Bem ilustrativo, penso, da porcaria em que se tornou Portugal...        

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Guildford

No meio do verde ergue-se a cidade castanha. O frio é constante, mas o calor interno é muito. Às sete, noite já, acendem-se as luzes de Natal. Há ponche bem quente na rua, muita música, crianças e coros em cada esquina. É uma Inglaterra nova, para mim, e sinto-me bem. O coração enche-se de ternura e as histórias surgem para responder aos pedidos do Manuel Bernardo.
Era tão bom poder fazer na vida como nas histórias, escolher um fim feliz...

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Conquistas

As pequenas conquistas merecem comemorações! E, nestes tempos terríveis, quando elas acontecem, mais vontade eu tenho de as assinalar. Hoje, depois de um dia de Museus, caminhadas, cantorias, concursos, chuvadas e gargalhadas, sinto que valeu a pena. Conquistei, quero crer, um espacinho mais na cabeça (e na ternura) das doces pestes que são os meus alunos de 7º ano.
Ser Professora é isto: - Ajudar a descobrir que a vida, a cultura e o saber, existem para lá da sala de aula. Sei que é uma profissão ignorada, sei que a sociedade nos despreza, mas eu não podia ser outra coisa! Os meus alunos (quase todos? Não. TODOS!) merecem   tudo. Merecem, até, a enorme estafa com que estou hoje.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

A Propósito de Ricardo Reis

Bem cedo, saio de casa para trabalhar. É Outono  a sério, um Outono suave, pintado de cores ternas e fortes. Gosto de sair cedo, mal o dia desperta, tentando, ainda que sem sucesso, iludir as horas. Oiço Reis "Não quero recordar, nem conhecer-me". E eu quero recordar. Quero recuperar outros amanheceres, outros tempos, outras existências talvez. Na minha memória, o cenário repete-se: - a minha cidade embrulhada em nuvens, o descer da Serra de sempre carregando ora sonhos, ora desilusões. Sei, como Reis, que "Melhor vida é a que dura sem medir-se", mas eu não quero ser Reis. 

domingo, 18 de novembro de 2012

ENTREGA

Numa crónica de Eduardo Agualusa, uma crónica fantástica que usei numa avaliação da minha turma de 10º ano e gerou o pânico, lê-se "Entregar-se implica esquecer-se de si". Tento esquecer as interpretações absurdas dos meus alunos e fico a saborear a frase. Desembrulho o texto e deixo as palavras rolarem em mim, tornando-se alimento, desfazendo-se em calorias de sentires. Lembro as primeiras aulas de dança, o Pedro afirmando que ninguém pode ser um bom dançarino enquanto dançar pensando que o está a fazer. Tinha razão, o Pedro, como tem razão Agualusa. De facto, entregar-se é como amar, é ser-se para o outro antes de se ser para si.
Amar é querer o Bem do outro, ter vontade de desfazer todos os escolhos da vida, ser capaz de atapetar com alcatifa terna as estradas da existência. É ser almofada onde, a cada noite, se encosta a cabeça confiante no futuro.
Nesta noite escura, (não descubro a lua), penso na entrega total, no amor, na vida, nos sorrisos, nos poemas que me deliciam, nos netos que estão longe...

sábado, 17 de novembro de 2012

0,5 - O Manifesto

0,5 foi a cedência do governo para reduzir a sobretaxa de IRS. Quando ouvi a notícia, fiquei hesitante. Seria verdade? Ou seria, apenas, uma brincadeira? Creio que esta medida é um verdadeiro insulto - Mais um! -. Em termos práticos, significa que conseguimos poupar quanto? 20 ou 30 euros?!... Este orçamento, o possível que, de facto, é impossível, vai matar a economia portuguesa, vai enterrar-nos definitivamente na miséria. Um governo que penaliza o trabalho, é um governo incompetente!
Oiço, vindo não sei de onde, o Manifesto anti Dantas. Desejo um Manifesto anti Gaspar:

- BASTA PUM BASTA!

UMA GERAÇÃO, QUE CONSENTE DEIXAR-SE REPRESENTAR POR UM GASPAR É UMA GERAÇÃO QUE NUNCA O FOI! É UM COIO D'INDIGENTES, D'INDIGNOS E DE CEGOS!
É UMA RESMA DE CHARLATÃES E DE VENDIDOS, E SÓ PODE PARIR ABAIXO DE ZERO!
ABAIXO A GERAÇÃO!
MORRA O GASPAR, MORRA! PIM!
UMA GERAÇÃO COM UM GASPAR A CAVALO É UM BURRO IMPOTENTE!
UMA GERAÇÃO COM UM GASPAR À PROA É UMA CANOA EM SECO!
O GASPAR É UM CIGANO!

O GASPAR É MEIO CIGANO!
O GASPAR SABERÁ ECONOMIA, SABERÁ CONTABILIDADE, SABERÁ ALEMÃO, SABERÁ FAZER ORÇAMENTOS PARA TRÓIKAS; SABERÁ TUDO MENOS GOVERNAR QUE É A ÚNICA COISA QUE ELE FAZ!
O GASPAR PESCA TANTO DE ECONOMIA QUE ATÉ FAZ ORÇAMENTOS COM MEIO POR CENTO!!
O GASPAR É UM HABILIDOSO!
O GASPAR VESTE-SE BEM MAS FALA MAL!
O GASPAR ESTÁ A MATAR OS PORTUGUESES!
O GASPAR ESPECULA E ROUBA QUEM TRABALHA!

O GASPAR É GASPAR!
O GASPAR PARA POUPAR GÁS ASSINA PAR!
O GASPAR É VITOR!
MORRA O GASPAR, MORRA! PIM!



sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Botija

Faço ferver a água na chaleira sonora e, com mil cuidados, encho a botija. Vejo o saco ficar bojudo, abraço-o e enfio-o na cama. Traz-me memórias. Oiço a minha avó recomendar cuidado, o meu pai insistir para, depois de enchermos as botijas, voltarmos a repor na panela de ferro, junto ao fogo, a água retirada. O perigo, dizia sempre, era que a panela rebentasse. Nunca rebentou, mas faz parte das minhas memórias de criança o ritual do encher das botijas de  cada um de nós, cada uma - (o meu irmão não tinha, acho que os rapazes não podiam ter frio) - tinha o seu saco de cor diferente. Tive amarelas, azuis e muitas cor-de-rosa. Muitas vezes, na solidão gelada da noite, feita de muitos frios diferentes, puxava a botija e abraçava-me a ela tentando aquecer-me para além do corpo. Depois, durante a noite, a água arrefecia e eu deitava-a para o chão. De manhã lá ficava, caída, sem que eu lhe ligasse nenhuma.
Esta noite, quando o vento assobia forte e a chuva cai torrencial, volto a encher a botija. De novo é cor-de-rosa, de novo a abraço para afastar fantasmas. Esta noite, não a deito fora, não a abandono. Se for preciso, voltarei a enchê-la mas não a vou largar! Sabe-me tão bem a presença quente das minhas memórias...

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

DÚVIDA

Olho a violência, as pedras arrancadas e lançadas sobre os polícias, as montras partidas, os insultos gritados, as máscaras que escondem identidades, e tenho medo.
Medo e dúvida. O que move alguns destes manifestantes?
Não parece, apenas, o desespero colectivo e justificado; não parece a revolta e o desejo de mudança. Ali, naquela gente que agride os iguais, que parte por partir, que lança pedras num acto de marginalidade gratuita, vejo mais do que os motivos reais, e válidos, que nos levam à manifestação e à revolta.
Tenho medo. Medo do aproveitamento abusivo da liberdade, medo do ódio, medo da banalização da violência.
O que fizeram ao meu País? Quem destruiu a minha gente?!

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

O DESAMOR

Às vezes, muitas vezes, o que é mau é demais. Às vezes, parece que só esbarramos com incompreensão, com ódio, com agressões e ofensas. Oiço dizer, entre amigos, que isto acontece por causa da crise. Que andamos todos mais nervosos, mais deprimidos, mais stressados (odeio esta palavra que acho ter mais de moderna do que significado) e que, por isso, disparatamos com mais facilidade, agredimos com mais celeridade. Por nada, ou por muito pouco, sucedem-se ondas de insultos e críticas e, com medo, a ternura, a confiança, o carinho, voam para longe quais gaivotas face à tempestade...
Honestamente, acho que a culpa (se se pode falar de culpa) não é apenas da crise. Talvez ela contribua, mas, creio, não é a única responsável. As pessoas tornaram-se muito egoístas e, todas, excessivamente seguras da sua razão. Com uma facilidade incrível, julga-se e condena-se, agride-se e fica-se calmamente instalado em aforismos ocos como "quem semeia ventos, colhe tempestades". Ou seja, a teoria do olho por olho, dente por dente, pré-histórica, faz lei na sociedade da informatização e do delete! Estranho, mas real. O perdão, a compreensão, o respeito pelo outro, a capacidade de ouvir, parecem ter desaparecido completamente, ou quase, do nosso quotidiano. E eu tenho pena. Tenho muita pena, porque sinto que estou a  assistir ao elogio do ódio, ao culto do desamor, e eu ainda acredito que, adaptando Sebastião da Gama,  Pelo amor é que vamos...

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Não faz mal nenhum!

Entro na sala escondendo o sorriso. Ralho para disfarçar a ternura, dito o sumário numa pressa fingida e começo a tentar - TENTAR - que os meus meninos cresçam, que me sigam nas leituras, que não se percam nos desafios que lhes lanço. São alunos de 10º ano, são a minha direcção de turma (os meus meninos), são os alunos que, este ano, me fazem companhia na viagem de aprender.
Lemos crónicas, comentamos, partilhamos ideias e sonhos e, como posso, vou puxando as conversas para a vida, vou despertando para Valores e destacando a amizade. De repente, há um aluna que, calmamente, põe creme na cara. Devolvo a minha indignação. Será normal? Sera que a culpa é minha? Esbarro com as respostas...Lá vem o habitual não faz mal nenhum. E por não fazer mal nenhum, muitas enormidades se tornam rotinas e muitas aberraçoes fazem norma.
Gosto dos meus alunos, um gostar de verdade que me faz sentir bem com eles, que me faz levantar e ir trabalhar com entusiasmo, que me faz, muitas vezes, ficar até de madrugada preparando aulas. Mas não sou capaz de calar a minha revolta, a minha indignação, a minha tristeza, quando jovens de 15 e 16 anos aproveitam as aulas para se maquilharem. E sei porque não tolero! É que estou muito farta FARTA mesmo, de uma Escola maquilhada...

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Golegã

O fumo das castanhas adoça o nevoeiro. Há poças de água traiçoeiras, lama, botas de todos os tipos e cavalos ajaezados. Passam de peito largo, peitorais de luxo, num trote certo que faz música na calçada. Desviamo-nos para os deixar passar, reparando sempre nos trajes cuidados de amazonas e cavaleiros. Gosto dos chapéus de aba larga, da varinha bem segura na mão fechada, dos coletes ribatejanos e das calças alentejanas, justas, bem elegantes. Há sempre muita gente jovem, passeando a cavalo ou a pé, enganando o frio com uma jeropiga gostosa ou um punhado de castanhas quentes. Olho os retalhos de notícias que envolvem as castanhas, dois euros a dúzia, e não consigo deixar de sentir algum prazer por ver a senhora Merkel de cara bem amachucada a embrulhar o petisco... 
Entramos nas barraquinhas, tendas de produtos diversos, e enchemos os olhos de um Portugal amado. Ali estão os correeiros, as botas, as samarras, os capotes, as polainas, as pelicas, as saias de amazonas, os calções de montar, os arreios de qualidade. O ambiente é de festa e pluralidade, de gentes ainda orgulhosas por poderem montar a cavalo, de ciganos à procura de bons negócios, de curiosos, de crianças a aprenderem Portugal. Gosto de caminhar por ali, de me desviar sempre que oiço as ferraduras, de me encostar ao picadeiro vendo desfilar os cavalos, de assistir à dressage exímia. 
A noite cai de mansinho, começa a música nas tendas, as festas que, de certeza, se prolongarão até de madrugada. 
Não sei como consegue a Golegã resistir e continuar assim, viva, igual a si mesma. Mas sei que é muito bom que isso aconteça. Vem de lá uma força anímica que me fazia mesmo muita falta...

domingo, 11 de novembro de 2012

Q10

A casa enche-se de conversas, de coisas para contar, de sonhos jovens e projectos de futuro. Acende-se a lareira, aquece-se o ambiente, deixa-se até o cão entrar e vai-se ficando, encompridando o serão, a imaginar amanhãs. Ecoam na memória outros tempos, outros sonhos, e afastam-se com força os farrapos de desilusões. É um tempo novo! E é preciso conservá-lo limpo do caruncho antigo, porque até as desilusões devem ser individuais. Até às desilusões, cada um deve ter direito... Oiço os mais novos planearem, vejo esboços de vidas certinhas e felizes, e calo o medo do que a vida poderá fazer com aqueles sonhos a haver. 
Conheço o sonho por dentro, mas sei bem como dói e fere a desilusão. Carrego em mim medos que calo, mágoas líquidas que tento secar. 
No meio das conversas de sonhos e projectos alheios, com um bebé a chegar e mil desejos de o acolher na tal felicidade ideal, a minha realidade é salpicada de ódio, de raiva, de violência também. 
Deve ser isto a vida, suponho: - Sonhos e desilusões, projectos e fracassos, possíveis e limitações. Deve ser, talvez, esta antítese escandalosamente cruel que nos faz envelhecer, que define os pés de galinha, que escurece o olhar. 
Com certeza, é isto o que nenhum creme rico em Q10 consegue eliminar.

sábado, 10 de novembro de 2012

Reparando

Quando a vida, a obrigatória, abre uma brecha, sabe bem reparar no que está perto. É que, vezes demais, andamos tão ocupados em cumprir prazos, em juntar o pouquinho que o estado não nos rouba para pagarmos contas, em responder a solicitações de familiares e amigos, que esquecemo-nos de viver. Por isso, sempre que a existência abre uma brecha, eu aproveito para enfiar por lá a vida. Então, gosto de ir para o quintal, de apanhar as nozes do chão, de brincar com os cães, de olhar os velhos muros da Casa grande que me fez pessoa, de caminhar um pouco no meio das hortenses envelhecidas. 
Ontem de tarde, tarde de sexta-feira sem bruxas nem terrores, ofereci-me um destes raros momentos  de vida. Passeei no meu quintal, vi o musgo infantil e verde, enchi o olhar de memórias vividas e esbarrei com o Outono a existir aqui bem perto. As videiras, já sem bagos, estão vermelhas e, acho eu, sentem grande orgulho na cor que, intensamente, ostentam. Gostei de ver a energia, a força das folhas pintadas qual lábios de mulheres ousadas. 
Agora, quando a noite se faz silêncio escuro, recupero a minha tarde. É bom carregar energias!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Cansaço

Sinto um incrível cansaço de certezas. Estou farta das pessoas que sabem tudo, que sempre opinam, que prontamente condenam, que não sabem compreender, que trazem na algibeira a crítica  e o insulto que despejam do alto do vazio que as forma. 
Ao longo da minha vida profissional, muitas vezes esbarrei com criaturas assim. Importantes, instaladas na sua auto-intitulada distinção, a olhar os outros com desprezo e inveja, com rancor e cobiça. À medida que fui envelhecendo, porque a vida é mesmo assim, fui desenvolvendo resistências, criando carapaças, treinando o hábito de desligar e de ignorar, de sorrir e calar.
Mas agora, talvez porque a situação é grave e ando (andamos) todos mais sensíveis, tenho dificuldade em suportar a estupidez da sabedoria total, cansa-me a frequência da crítica idiota. Estou cansada e farta do meu quotidiano profissional. Tão, tão, tão cansada...

O Amor

AMOR
Se fosse fácil, 
teria instruções.
Se fosse real,
teria corpo.
Se fosse razoável,
teria explicação.
Se fosse eterno,
nunca morreria.
Se fosse possível,
sempre existiria.

Mas é difícil.
Faz doer.
Faz sofrer.
Faz-se de loucura.
Faz-se de desejo.
Faz-se de mágoa.
Faz-se de culpa.
Faz-se de impossível!

E, ainda assim, há
Quem o cante,
Quem o procure,
Quem o chore,

Quem envelheça por ele,
Quem viva morrendo nele!

É uma coisa assim, o Amor.
Um tirano de asas angélicas,
Um ditador de ausências,
Um destruidor de sonhos.

Talvez não.
Ou talvez sim.
Se e quando,
Apenas, 
Tu és para mim.

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mais do que posso


Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor ... não cante
O humano coração com mais verdade ...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude
Vinicius de Moraes

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

OBAMA


Nos tempos do farwest, dos cowboys e dos índios, a América era um lugar distante, feito de pradarias a perder de vista, de desfiladeiros assustadores e de muito cheiro a pólvora. Os cavaleiros, todos muito machos e cheirando a animália, salvavam as donzelas que, invariavelmente, amavam depois desesperadamente. Mais tarde, a América corporizou sonhos de liberdade, construiu-se no imaginário colectivo como o lugar de todos os possíveis, como a terra da igualdade, como o mundo onde, a par das estrelas de Hollywood, os comuns mortais conseguiam fazer da vida o que o desejo lhes pedia.
Na América, um dia, um negro teve um sonho. Foi morto por esse sonho de igualdade mas, depois de Martin Luther King, o mundo, mesmo fora da América, não voltou a ser o mesmo. 
O mundo, essa bola amachucada, elíptica e  absurdamente perigosa, continuou rodando e, de repente, a América surgiu poderosa e dominadora. Podia tudo, ou quase. Veio à Europa para ajudar a terminar a II Grande Guerra, foi morrer para o Vietname e, mais recentemente, invadiu países fazendo guerra. Para alguns, a América é o perigo, o materialismo no que ele tem de pior, a ganância e a violência. Para outros, como para mim, a América é a possibilidade de sonhar, é a diferença, é a oportunidade de uma vida diferente. 
A vitória de Obama, uma vez mais, veio materializar a diferença americana. É jovem, é negro, não pertence a um clã dominador. Mas tem um sonho, tem vontade, tem convicções e não desiste da mudança. Este homem não faz milagres e, por isso, é também fortemente condenado. Mas é também por isso que o admiro. Gosto da alegria deste americano poderoso, da forma ágil como sobe as escadas dos aviões, do sorriso pronto, do andar elástico, do olhar profundo.
No estado em que se encontra o meu país, quando não há uma ideia com sentido, a tristeza domina, a depressão é colectiva, as vozes são dolorosamente monocórdicas e os governantes se apresentam envelhecidos, curvados e cinzentos, fico com alguma inveja dos americanos. Porque Obama não vai resolver todos os problemas, não vai fazer felizes todas as pessoas, mas vai, tenho a certeza, dar confiança à maioria, revitalizar o povo e devolver a muitos a esperança num futuro que tem de ser possível. 
Hoje, gostaria que um dos nossos cinzentíssimos dirigentes, um só (não peço muito) reparasse que fazer diferente é possível, que continuar a colocar números à frente de pessoas a nada leva, que Portugal merece recuperar o sorriso e a cor com que se deve, creio eu, pintar o quotidiano.
Se, de repente, um Ministro Português, um qualquer, viesse a público sorrir, propor medidas de fazer e não de destruir, sugerir crescimento em vez de empobrecimento, emprego em vez de miséria, quero crer que Portugal faria eco das palavras de Obama e gritaria:- Sim, nós podemos!

SEM RAZÃO

As Sem Razões do AmorAS SEM RAZÕES DO AMOREu te amo porque te amo. 
Não precisas ser amante, 
e nem sempre sabes sê-lo. 
Eu te amo porque te amo. 
Amor é estado de graça 
e com amor não se paga. 

Amor é dado de graça, 
é semeado no vento, 
na cachoeira, no eclipse. 
Amor foge a dicionários 
e a regulamentos vários. 

Eu te amo porque não amo 
bastante ou de mais a mim. 
Porque amor não se troca, 
não se conjuga nem se ama. 
Porque amor é amor a nada, 
feliz e forte em si mesmo. 

Amor é primo da morte, 
e da morte vencedor, 
por mais que o matem (e matam) 
a cada instante de amor. 

Carlos Drummond de Andrade, in 'O Corpo'

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Outono

A  Serra a que chamo minha, os muros da Casa onde cresci, a nogueira que vi plantar, os plátanos da minha cidade, vestiram-se com as cores do Outono. É a minha estação preferida! Gosto das cores, dos cheiros, do fresco, das primeiras chuvas e o amanhecer cinzento. Gosto das noites perfumadas de fumos, dos vermelhos das trepadeiras, dos dourados envelhecidos das hortenses. O outono é um embrulho colorido de passado e de futuro. Deve ser por isso que gosto tanto desta estação, por acreditar que, apesar de muitos fins, há sempre oportunidade de recomeço.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

A Caça

Era sempre assim, dantes, nas manhãs escuras de inverno. A azáfama começava de véspera, com o preparar da merenda, o transportar das armas desde a cave até ao hall de entrada onde, oleadas e descarregadas, esperavam a madrugada. Trazíamos também as cartucheiras de cintura, os sacos dos cartuchos, os oleados, as botas verdes de borracha boa, as meias grossas e os casacos quentes. 
O meu Pai organizava, o que significava dar ordens que nós, refilando mais ou menos, cumpríamos. As raparigas não iam caçar, mas nem por isso se livravam de ajudar nos preparativos. 
Lembro, intenso, o cheiro do cabedal, sinto nas mãos o toque do oleado (arrepiava-me!) e recordo como gostava de ensebar as botas do meu Pai. Fazia-o com cuidado, hoje penso que com amor, e gostava de ver a forma como o couro ia ficando escuro e brilhante. Ajudava também a fazer a merenda, grandes tortilhas com cebola e batatas, pão bem fatiado com presunto gostoso, garrafas de vinho, boleimas cortadas e, sempre, peças de fruta para comer à mão. Na véspera das caçadas, a agitação era muita. O meu irmão,  sempre reservado, tornava-se eléctrico, vibrava com aquelas saídas, arreliava-nos por não podermos partilhar a magia dos caminhos silenciosos e húmidos onde espreitavam os bichos. Empolgava as narrativas no regresso, acho que para que nós, as raparigas, nos sentíssemos mais diferentes ainda...
Na madrugada da caça, caçadores e ajudantes, todos acordávamos. Noite escura, ficava na cama, muito quieta, ouvindo o despertar masculino. O meu Pai não prescindia do duche, de barbear-se, de comer as suas habituais torradas- muito fininhas e com manteiga dos dois lados. O meu irmão, pelo contrário, desconfio que nem lavava a cara, tal era a excitação... No sobrado do corredor ouvia-lhes os passos, de trás para a frente, a carregar o carro. Depois, partiam. A casa voltava ao silêncio e eu ficava desperta, imaginando aqueles dois homens a pisarem o lavrado molhado, envolvidos em névoa, esperando, no silêncio, o correr de alguma lebre, o voo de um perdigão descuidado. 
Mais velha, quando o meu Pai já não caçava de salto, passei a poder acompanhá-lo. Metiamo-nos os dois no jipe, já não de madrugada, e fazíamo-nos ao campo. Clandestinamente, o meu Pai, já com dificuldade em caminhar, atirava do jipe e eu, inevitavelmente, fechava os olhos e dizia foge bicho!, levando sempre um sermão pelo meu conselho inoportuno. Nesses passeios, aprendi a distinguir o voo das rolas do das perdizes, as orelhas dos coelhos das das lebres, o saltitar das codornizes do dos tordos. Aprendi, também, o amor que os caçadores têm ao campo, à caça, à natureza pura e real. Com o meu Pai, senti misturarem-se as lágrimas da saudade com o nevoeiro matinal.
Hoje, com a chuva intensa lá fora, numa madrugada feita de silêncios, tenho dolorosas saudades das manhãs de caça, quando " eu era feliz, e ninguém estava morto"!

domingo, 4 de novembro de 2012

Bolo Finto

 Cortou duas fatias fininhas, com cuidado para que não se desfizessem, e untou-as com manteiga. Depois, consciente do excesso, regou com mel. Encheu a caneca de café bem forte e sentou-se no chão olhando o fogo na lareira.
Chovia muito lá fora, ouvia os cães a uivarem aos trovões distantes, e foi-se deixando ficar, lambendo o mel que escorria pelos dedos.

   Deveria ser assim a vida, frágil como o bolo finto, doce como o mel, forte como o café. 

Adorava bolo finto e sempre, ou quase, se deliciava ao pensar que era o sabor da sua terra, exclusivo, com sementinhas, escuro, bom mesmo duro se bem torrado.  
E se houvesse sementinhas para temperar a vida?!

sábado, 3 de novembro de 2012

Gabriela

Não me lembro, com grande pormenor, da primeira versão da novela Gabriela. Recordo o seu Nacib, tivemos um cão com esse nome, tenho uma vaga ideia do Dr. Mundinho (era o José Wilker, à época muito charmoso), mas não me lembro dos pormenores. Talvez por isso, tenho seguido a nova Gabriela sem preconceitos. 
Já há muitos anos, talvez desde o Casarão, que não seguia uma novela, mas rendi-me à Gabriela. E não é o erotismo (quase pornografia), nem sequer a hipocrisia violenta dos coronéis, o que me prende ao ecrã. 
O que me faz ficar esperando as dez e meia na SIC, é a alegria e a ingenuidade da nova Gabriela. Esta mulher é jovem, sonhadora, ignorante, ingenua mas, acho eu, cheia de magia e verdade. Com um sorriso, deita por terra as rigorosas normas sociais, com uma gargalhada desarma as imposições de  uma sociedade limitada e obtusa.
 Com ternura, Gabriela ama o seu Nacib sem cobranças, com a facilidade com que a chuva cai do céu e as plantas germinam.
Sem ser vulgar, a Gabriela traz-me uma visão doce do Amor. Um amor de fazer, de tocar, de sentir e saborear, sem regras nem obediências. Agora, ouvindo a chuva forte, muito intensa mesmo, lá fora, lembro a ternura da Gabriela e penso que Jorge Amado soube decifrar as emoções de qualquer mulher. Há alguns homens assim, mas são raros...

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Mulheres

Tenho um livro gordo, escandalosamente gordo, que conta a história de 100 - CEM - mulheres famosas da História de Portugal. Da Ferreirinha à Maria Amália Vaz de Carvalho, passando pela Maria Lamas e pela Luísa Todi, vão desfiando histórias de mulheres que, no seu tempo, fizeram a diferença. 
À medida que as conheço, que desvendo dores e sonhos, desistências e batalhas, vou pensando que nascer mulher é um privilégio mesmo. Se elas conseguiram impor-se, ajudar a mudar o mundo, criar lugares onde conseguissem ser elas mesmas, porque não poderemos nós, mulheres também, fazer o mesmo? 
Como disse Maria Judite de Carvalho, "a realidade e a ficção nunca estão muito longe uma da outra". 

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A terra vermelha, o céu plúmbeo, a humidade intensa receberam-na com violência. Pegou no saco pesado no hangar do aeroporto, colocou os óculos bem escuros e enrolou o casaco caqui. África! Ali estava, longe, numa procura de sentidos, de experiências, no cumprimento, talvez, do tal fado a que se não pode fugir. Ao longe, via o mar. 
Um mar escuro, estranho, bem diferente do azul do atlântico onde gostava de nadar, escandalosamente distante do mediterrâneo mole onde, há quanto tempo?, fora feliz em cruzeiro de sonho. Respirou fundo. A decisão estava tomada, seria um ano de alheamento, de trabalho num outro mundo. O saco pesava, começava a lamentar o vício de viajar arrastando livros, e não descobria a cartolina com o seu nome. Alguém deveria ter vindo esperá-la. Ouvia, na memória, as recomendações do chefe - calma, o Tempo, em África, tem outra velocidade, as urgências outros ritmos. Comprou água e sentou-se esperando.
África emocionava-a. Não pelas imagens que construíra,  decerto conduzida por África Minha, mas pelo excesso. Excesso de humidade, excesso de luz, excesso de cor, excesso de miséria também. 
Com a máquina a tiracolo, foi caminhando. Disparava sem grande cuidado, tentando apenas captar instantâneos, imortalizar aquela chegada, aquele início de aventura. Sentia na alma as saudades picarem, morderem em dentadinhas dolorosas, mas resistia. O que deixara? Destroços de uma existência dorida? Desilusões acumuladas? O conforto de uma rotina de doer? E continuava disparando, fotografando, caminhando como se fugisse, ou como se fosse possível fugir, de si mesma, das memórias, dos fantasmas de ontem que temia se eternizassem. 
Quase à noite, deixou o Hotel Fez e voltou à caminhada. Uma esplanada vermelha acolheu-a. Pediu um capuccino, (que saudades de Roma), pousou a máquina e ficou olhando. Pena que os romances não se escrevessem com o alfabeto real, pena que não fosse possível, simplesmente, mudar de pele como de lugar. 
Dia 1 de novembro. Em Portugal dia de romaria aos cemitérios, dia de pedir santinhos também. Ela não gostava das rotinas, trazia com ela, sempre, os mortos amados, e eram mesmo a sua melhor companhia. Hoje, não teria de fingir-se enquadrada. Hoje, ali estava ela, numa África desconhecida, cumprindo um desafio profissional e tentando, com desespero, encontrar-se. Ou perder-se de vez. A seu lado instalaram-se as ausências. Ali estavam os juízos alheios, as certezas dos outros, os conselhos que não queria. Olhou-os de frente. Não os mandaria embora, sabia que partiriam quando quisessem, mas desprezou-os ao abrigo da força daquela África intensa que a acolhera assim, só, sem perguntas nem sentenças. Começava a sentir-se bem. 

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Recado


Manhã
é ter-te ao lado.
Lembrar-te como um recado
de ontem para amanhã.

Fernando Tavares Rodrigues, in Depois do Amor


Na noite, soam recados letras sentidas.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Absurdo

Assistir às notícias políticas nos últimos dias, meses!, tornou-se uma experiência traumática. Somos confrontados com incompetência, ainda que porventura envolta em boas intenções, e esbarramos com a estupidez e a injustiça certificadas. As medidas impostas, castradoras de sonhos, inibidoras de possíveis, limitadoras do desenvolvimento de um país que já não é de todos, tiram-me o sono e o sossego!
Portugal está a caminhar para a morte, para a miséria total, e  o que mais dói é, exactamente, a violência e injustiça exercidas sobre os mais fracos: os jovens e os idosos. Aos últimos, tira-se o pouco que têm, reduzem-se reformas, aumenta-se o custo dos medicamentos, rouba-se - é o termo! - aquilo que, durante décadas, entregaram ao estado confiando estarem a prevenir o futuro. Aos jovens, rouba-se a possibilidade de construir quotidianos de sucesso. Às escolas, reduzem-se os financiamentos, aprofundam-se as assimetrias, desenvolve-se o sentido de injustiça e de revolta. Não pode fazer sentido viver-se assim!
Hoje, bem cedo, esbarrei com mais uma dificuldade: - Embora os alunos de 7º ano estejam na escolaridade obrigatória, embora tenham direito a subsídios no escalão A, a escola não pode pagar as visitas de estudo, não pode suportar o custo das actividades de complemento curricular. Assim, o que fazer? Irão só os que podem pagar? A escola pública é mais para uns do que outros?! Cancelam-se as visitas e actividades? Ou faz-se um ranking com as oportunidades de cada escola? Absurdo é, agora, a palavra de ordem.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

As Horas

Vem comigo. Está frio, há vento, os ouriços começam a cair dos castanheiros enormes, a solidão escurece mais cedo. Mudaram a hora, fizeram a noite maior e os serões mais longos. Agora, sai-se dos empregos de noite, acorda-se de noite também. De repente, aproveitando a cumplicidade forçada de um domingo inócuo, encolheram as horas de sol.
Não gosto de chegar a casa de noite!
No entanto, gosto do perfume das castanhas que enche o ar, acho piada ao fumo que enche o Rossio, e não resisto a sorrir perante os narizes de vermelho gelado dos meus alunos.
A noite cresceu, o escuro alastrou. Vem comigo, tu. Por favor.

domingo, 28 de outubro de 2012

Realidade

Corpos hirtos, musgosos, acolhem o meu caminhar.
Podia ser o pinhal de D. Dinis, esse "plantador de naus a haver"; podia ser o crescer de sonhos, sempre em direcção ao céu, sempre apontando a distância; podiam ser dedos de gigantes, procurando o longe; podiam ser bosques de enganos. Podia até, apenas, ser um hino à amizade: juntos, próximos, diferentes na igualdade.
Podiam ser muita coisa. Mas eu sei que são só árvores, que servem para explorar a madeira, que não falam, não sentem e estão-se nas tintas para as minhas divagações. Sei que o sonho de nada serve e que, um dia, já não verei mais as árvores de troncos rugosos.

sábado, 27 de outubro de 2012

Orgulho

Quero lá saber que o orgulho seja condenável! Eu tenho orgulho na minha gente, nos lagóias que fazem parte do meu mundo real! Tenho orgulho no Maestro Redondo, no Eustáquio do guitolão, no Grupo de Cantares do Semeador, nas pessoas, tantas, que são Portalegre no seu melhor e que, sem cachets nem jantares grátis, cantam e mostram a sua arte para divulgar a nossa cidade. 
Eu adoro Portalegre, digo-o tantas e tantas vezes..., mas às vezes desespero, só consigo ver abandono e fracasso. Hoje, não foi assim! Hoje, ou seja ontem..., a minha gente encheu-me de alegria orgulhosa. Portalegre é isto: - é gente boa, alegre, agarrada às raízes, capaz de sorrir e continuar cantando quando tudo parece ter perdido a melodia. Perante os estrangeiros, muitos, Portalegre mostrou-se, há pouco, altiva e alegre, honrando a sua história, dignificando as suas tradições. Foi bom ter ouvido elogios à minha gente, foi muito bom ter ouvido dizer que "valeu a pena ter vindo a Portalegre!".
Hoje, uma vez mais, compreendi que, ainda que muitos cães (rafeiros) ladrem por aí, a caravana segue em frente. 
Vou tentar não perder o transporte.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Castanheiro

Mudaram de instalações, os bichos que ali viveram. Durante anos, o grande castanheiro abrigou a raposa matreira, protegeu os coelhos e deu abrigo à coruja assustadora. Ano após ano, sem protestar contra a monotonia, a grande árvore cumpriu os ciclos: - Encheu-se de ouriços, viu caírem as castanhas, cobriu-se de verde, amareleceu. Sempre ali, no mesmo lugar, preso no chão que o alimentou sem cobranças. O Anteu castanheiro viu muita coisa. Calou o que viu. Às vezes, famílias procuravam a sombra para tardes domingueiras, crianças dormiam sestas sob a sua copa, namorados ensaiavam carícias ao abrigo do seu silêncio. 
Hoje, o velho  está morto. Secou, foi varado por um raio, deixou de se vestir de castanho no outono. Mas, mesmo morto, ainda que esburacado e esventrado, continua de pé, firme, no lugar onde nasceu. Em breve, provavelmente, será transformado em lenha. Até lá, tenta aproveitar a chuvinha boa e, impossibilitado de chorar, olha o longe sem crer no futuro.
Olho o meu castanheiro. Choro as lágrimas que não tem agradecendo o poema que me oferece.