sexta-feira, 18 de agosto de 2017

ADIAMENTO

Lembras-te da viagem que, um dia, haveríamos de fazer os dois? A dois? Lembras-te da conversa que haveríamos de ter, a dois? Lembras-te das promessas, tantas, de um dia..., a dois, para dois, sempre? lembras-te dos copos de pé alto que compraste para, um dia, bebermos aquele champanhe francês que jaz na garrafeira há dez anos? Lembras-te da promessa de voltar a Barcelona? De passear por Roma e nos perdermos, um no outro, a dois, nas ruelas ruidosas? 
Pois se lembras, esquece. Porque há um Tempo marcado para o sonho. Um Tempo em que os possíveis acontecem, ou não. 
Se não,  diluem-se nos adiamentos. Por isso, se te lembras, esquece agora! Esquece porque a viagem já não faz sentido, o copo partiu-se e o champanhe poderá sempre ser um presente de Natal para um amigo especial.
Esquece. 
A mim, dai-me Senhor, a paz do esquecimento!

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

DANÇAR

Olá,
Escrevo-te a ti. A ti que não  existes, a ti que, às vezes, pareces existir no outro lado do meu eu. Escrevo-te porque me apetece conversar. Não quero conselhos - estou tão farta de quem sabe tudo! -, não quero razões alheias - ficam-me curtas -, não quero sequer concordância - não podes concordar com o absurdo!
Quero, só, que oiças. Ou leias, o que, neste caso, é exactamente a mesma coisa. Ouve então. 
Ouve o descompasso do meu coração, ouve o desejo contido de um quotidiano diferente. Não fales! Ouve a minha mágoa de não conseguir ser outro eu, escuta o meu desejo de paradoxos absolutos. Com atenção, sem suspirares de cansaço, deixa-me enumerar os meus medos. Os medos de cada hoje. Dessa fileira de hojes que, abusivamente, transformam o futuro em ontem.
Estás cansado de ler? Só mais um pouco. Um pouco para te contar da macieza da areia, na zona da rebentação do mar que me assusta. Um pouco para te lembrar a música que faz o barco, quando rasga ondas. Música... Aquela que nos ilumina no abraço ritmado. 
Isso. Vamos dançar?

OPTIMISMO

O Verão não contribui mesmo nada para a minha felicidade. Sou, invariavelmente, atacada por uma lassidão, uma vontade extrema de jibóiar que me causa uma inexplicável angústia. Normalmente, esgoto as horas de calor à beira da piscina, na companhia de um bom livro e de muitos sonhos. 
Este ano, por força das circunstâncias, ainda não pude hibernar (ou deveria dizer hiveranizar?) e o meu  quotidiano escaldante está a dar cabo de mim. É um processo de transformação, este de passar as manhãs na escola, durante o mês de Agosto... Mas, afinal, transformação é o que eu, muito sinceramente, gostaria que acontecesse na Escola, em particular naquela onde trabalho, por isso não é mau que eu sofra na pele algumas das dores que transformar implica.
E é assim. Apesar do calor, de alguma irritação, de muitos receios, de confrontos adivinhados, estou optimista. 
Vá lá eu entender-me...

segunda-feira, 3 de julho de 2017

FUMO E NEVOEIRO

Nunca fui apoiante deste governo mas, admito, cheguei a pensar que as coisas estavam a correr de forma aceitável. Claro, eu sabia, como toda a gente, que a Sorte bafeja os incautos... Aconteceu sermos campeões europeus, ganharmos a Eurovisão, sairmos do policiamento económico, e tudo isso ajudou a levantar a moral dos portugueses. Para mim, acresceu o facto de estar absolutamente de acordo com as medidas educativas, ser uma confessa admiradora do actual secretário de estado e acreditar, mesmo!, que o caminho do sucesso educativo pode ser feito já.
Ora, infelizmente, os últimos acontecimentos fizeram-me cair bruscamente na realidade: - Este governo não governa, faz gestão à linha de margem, o que significa gerir para a fotografia. 
O horror de Pedrogão, com 500 casas destruídas, 64 mortes, muitas empresas e milhares de hectares ardidos deixaram a nu o desnorte do governo. Ninguém age de facto, ninguém explica, ninguém assume responsabilidades. No entanto, alguém pede um estudo para ver se o fogo chamuscou a imagem dos governantes... 
E ainda mal refeita desta barbaridade, confronto-me com o assalto a Tancos. Armas importantes e numerosas a desaparecer, ausência de vigilância, desgoverno total. 
O ministro dos negócios estrangeiros, acabei de ouvir, diz que também acontece noutros países, o general diz que a rede estava a ser consertada, o ministro da Defesa diz que já tinha autorizado a recuperação da video vigilância...
É uma situação grave demais para se poder asneirar assim! Demitem os coronéis, mas continuam os ministros e os generais. 
Este governo, afinal, não governa. Não sabe sequer guardar a casa! Este governo assusta! Este primeiro-ministro, tão optimista e sorridente, faz férias em Espanha enquanto o país é assaltado...
Ah Portugal! Hoje, já nem és nevoeiro... Tornaram-te fumo apenas!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Os Grandes Egos

Freud nunca deve ter imaginado o que a sua constatação científica havia de provocar no mundo. Cada vez é mais difícil, acho eu, gerir egos. Porque toda a gente, ou muita gente, sobretudo se de inteligência reduzida, apresenta um ego do tamanho do mundo! Da altura do ego, colocando-se em bicos de pés, exigem protagonismo, um lugar na primeira fila da vida, reconhecimento de coisa nenhuma. Os grandes egos são, um pouco, como os pseudo-sábios, aquelas pessoas que estão tão seguras de tudo saber que não conseguem olhar para além do seu umbigo! Normalmente, os grandes egos vestem-se de hipocrisia, gostam do anonimato, da conversa escondida, da rasteira desonesta...Por tudo isto, e por mais muitas coisas que nem ouso escrever, os que incham o ego não sabem pedir desculpa, não sabem reconhecer falhas. Apontam sempre o dedo, adoptam a técnica da vitimização e chateiam que se farta quem com eles se cruza!
Se fosse possível recuar no tempo, eu diria a Freud que reconsiderasse as suas descobertas científicas...

domingo, 18 de junho de 2017

HORROR

Ainda não foram criadas as necessárias palavras para dizer o horror e o violento absurdo que aconteceu, e continua a acontecer, na zona centro do país. Pedrógrão Grande, Leiria, muitas pequenas aldeias que nem sabia que existiam, tudo engolido pelo fogo, pintado de negro pela morte. Carros carbonizados, corpos perdidos numa tentativa de fuga desesperada, o inferno a fazer-se verdade.
Não sei se há culpados. Talvez, no fundo, todos sejamos culpados pelos sucessivos atentados à natureza, pela construção desenfreada, pelo desrespeito pelas espécies autóctones e a inserção de árvores invasoras; ou talvez não haja culpados, porque as trovoadas secas acontecem, porque os horrores o são em si mesmo. Vejo as lágrimas de tanta gente e sinto uma dolorosa impotência. Não consigo deixar de pensar que todos devíamos fazer mais...
Olho a Serra e penso que podia ter acontecido aqui. De repente, as minhas tristezas e desilusões tornam-se ridículas e insignificantes. Os meus desamores, as minhas revoltas, as minhas lutas por algo melhor, nada faz sentido face à imensidão do horror que o fogo espalhou. Queria, agora, a paz do esquecimento, como canta o Zambujo na minha solidão.

domingo, 4 de junho de 2017

TERRORISMO E MEDO

Continua o terrorismo, o ódio, a violência sempre injustificada. Olho Londres, essa cidade de que tanto gosto, os lugares onde fui imensamente feliz, e a raiva revoltada cresce. Porquê?! A responsabilidade não é de Alá, de Deus, ou seja lá qual for a divindade que queiram invocar. Não me convencem os argumentos de que os cristãos, no movimento das cruzadas, fizeram o mesmo. Era outro mundo, era outro saber (ou não saber) eram outras circunstâncias. O que vejo, hoje, são jovens que procuram a morte matando, movidos por fraquezas, por inadaptações diversas, por maldade manipuladora e gritante. 
Sou professora e tenho medo. Como explicar às crianças, aos jovens, este fenómeno em que se tornou o terrorismo? Como explicar as contínuas mortes no mediterrâneo, afinal outra forma de terrorismo da responsabilidade de tantos actores? Olho com medo físico aqueles com quem me cruzo, abraço os meus netos com a angústia que o pânico provoca. 
Que mundo é este? O que fizeram do nosso mundo e, mais grave, o que continuamos nós a permitir que façam da humanidade que integramos? Uma vez mais, penso que a educação tem responsabilidade. É urgente educar pessoas, muito mais do que instruir criaturas. É tempo de trabalhar valores, de dar o exemplo do Amor, da entrega ao outro, da Liberdade e do respeito. É tempo de substituir a Escola dos testes e da segregação. Urge incluir, trabalhar o direito à diferença e respeitar a tal Pessoa que mora em cada aluno... Nietsche falava no Novo Homem. Está a acontecer, mais de 100 anos depois do anúncio?
Olho as notícias que me chegam de Londres e penso que há muito para fazer. Acredito que é possível fazer alguma coisa! 
Talvez, nesta loucura de dinheiro e tecnologia, tenhamos esquecido de que massa se fazem os humanos. Talvez ainda seja tempo de  construir um mundo possível!

domingo, 14 de maio de 2017

DOMINGO

Eu devia estar a trabalhar. Tenho um terrível trabalho de contabilidade (?!) para fazer... mas não me apetece! Então, revolvo a minha memória de afectos e recupero histórias:
CAMPONESA
Era uma escola antiga, daquelas a que, mais tarde, pomposamente se chamaria do Estado Novo, ainda que o estado delas fosse velho, e o Estado também… situava-se na única rua alcatroada, aquela rua /estrada que atravessava a aldeia. De um lado do edifício, gémeo, pintado das mesmas cores e com o pau da bandeira ao meio, nariz austero e ameaçador, estudavam as meninas; do outro lado, os rapazes. As professoras, de bata branca e sapatos rasos, entravam pela porta da frente, de madeira escura, forte, parecendo disposta a, diariamente, engolir a juventude das mestras. As crianças, que então se chamavam gaiatos sem a distinção por sexos que o edifício impunha, chegavam pelas nove, elas penteadas, eles de boné, carregando sacolas e, alguns mais endinheirados, pastas de cabedal que algum sapateiro jeitoso lhes fizera. Não havia toques. As senhoras professoras, que tinham um grande relógio teimoso na parede, chegavam à porta e baiam as palmas. A criançada alinhava e entrava nas salas, respeitando a ordem e procurando a carteira onde os mais pequenos, os do primeiro ano, nem chegavam com os pés ao chão.  Habitualmente, juntavam-se várias classes, até as quatro, se fosse preciso, e a professora lá ia distribuindo tarefas e orientando trabalhos. A minha sala, a sala dos rapazes embora eu fosse rapariga (hei-de explicar porquê) tinha uns enormes mapas rasgados pendurados num gancho. Era o mundo onde eu me perdia, tentando descobrir nomes de países que me pareciam tão impossíveis de alcançar como o País das Maravilhas que eu lia, à noite, num enorme livro ilustrado que uma tia me tinha oferecido.
Mas vou contar porque estava eu, menina, na sala dos rapazes. Vivia eu, então, numa cidade de província com apenas um colégio e, quando fiz seis anos, tendo aprendido a ler sem que ninguém percebesse como nem onde, foi preciso matricular-me. Então, nesse ano, o Colégio estava cheio e eu não tive vaga. Como não tinha ainda sete anos, poderia ter esperado um ano, mas eu já lia! Então, a minha mãe, que sempre foi profícua em ideias estranhas, lembrou-se de me enviar para a aldeia, todos os dias, no velho Anglia da professora Rita.
A Rita era uma professora vermelhinha, cheirando a naftalina e sabão azul, solteirona e que gostava muito de nós – de mim, e dos meus irmãos. Como, nesse ano, a Rita dava aulas no lado dos rapazes, eu lá fiquei, isolada do perigoso género masculino, estando no meio deles…, sentando-me, qual rata sábia, na secretária da professora. Lembro-me de me olharem com estranheza, de abanar os pés que não chegavam ao chão, e do cheiro de feijão com couve que a Rita levava numa marmita e aquecia num fogareiro para comigo partilhar o almoço.
Nesse ano, não tinha amigos de escola. Via-os de longe, a jogar à bola, a correr, mas a Rita nunca deixou que eu alinhasse nas brincadeiras masculinas e, assim, o meu primeiro ano, então primeira classe, foi um tempo triste, numa escola que eu nunca compreendi.
Como se não bastasse, o meu irmão chamava-me camponesa e eu, embora não percebendo o insulto, detestava a palavra que me cheirava a terra por lavrar!
Seria compreensível, creio eu, que tivesse ganhado uma profunda aversão à Escola. Mas, por razões que talvez o diabinho possa explicar, isso não aconteceu e, desde os meus tempos de camponesa, nunca mais abandonei as salas de aula…




sábado, 13 de maio de 2017

13 de Maio

O Santo Padre Francisco esteve em Portugal. Na impossibilidade de o acompanhar ao vivo, estive sempre colada à televisão. 
A minha fé não tem a força que eu gostaria, eu não sou tão boa pessoa como desejo, mas o Papa Francisco emociona-me, comove-me, faz-me repensar a minha existência.
Creio em Deus. Num Deus Ideia de bem, sem céu nem inferno, que nos dá o fascínio do livre-arbítrio, que nos oferece a Vida cheia de opções, de caminhos e possibilidades. Muitas vezes, muitas mesmo, olho o meu Cristo, aquele que me foi oferecido no dia do meu casamento pelo Dr. Rodrigues, e desabafo com ele, peço ajuda, peço um mapa. A presença Dele é constante e eu sei, mas sei mesmo, que no silêncio me acompanha. 
Gostava de ser uma pessoa melhor. Gostava de ser capaz de perdoar muito mais, mas sei que, mesmo falhando, Ele me aceita. O Papa Francisco é um pouco/muito esse Ele que eu conheço. Olhando o Papa Francisco tenho imensa vontade de me ajoelhar e, simplesmente, chorar...

terça-feira, 2 de maio de 2017

APRENDIZAGEM

A vida ensina-nos muito. A mim, pelo menos, tem-me ensinado imenso, de forma dura, e de forma suave também. A vida ensinou-me, então,a conhecer as pessoas que valem a  pena e a ignorar, sem que isso me magoe, aquelas pessoas negativas que se divertem insultando e ferindo. Cada vez mais, felizmente, sou capaz de ignorar completamente o lixo humano e, talvez por isso, tenho cada vez melhores amigos. É que há muitas pessoas que valem a pena e, tenho a certeza, são muito mais as que importam, do que as que nem para reciclagem servem...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

INDIGNAÇÃO

A minha revolta indignada hoje não tem tamanho. O 25 de Abril festejou-se há três, aconteceu há 43 anos, e os absurdos que limitam e condicionam a Liberdade continuam a verificar-se. Cala-te! - Dizem-me os mais avisados; desiste. 
Mas eu não me calo, e não desisto. Não posso calar-me perante a injustiça. não desisto nunca da minha luta pelo que são valores essenciais numa sociedade humanizada.

A minha indignação revoltada cresce quando tudo acontece numa Escola. Num espaço de, teoricamente, aprendizagem de cidadania e de valores!
É numa escola que alunos, insatisfeitos com a avaliação e com a dinâmica na sala de aula, manifestam, pelos meios que têm ao seu dispor - o director de turma! - a sua opinião. O director de turma, de forma aberta, verdadeira e leal, apresenta em conselho de turma  os documentos e o assunto é analisado. Estaria o caso encerrado porque, parece, o ser humano dispõe da capacidade de dialogar e de reformular... mas não! Os alunos são, posteriormente, criticados, confrontados com cartas (que me abstenho de classificar) enviadas aos encarregados de educação. Mais grave: - A culpa, porque há quem viva de culpados..., é do director de turma. Porquê? Porque foi leal, porque ouviu os alunos, porque considerou que os jovens devem dizer o que pensam, devem ser ouvidos e devem ver tidas em conta as suas opiniões.

Como é possível que, em pleno século XXI, jovens sejam condenados por expressarem as suas opiniões? Por manifestarem o seu descontentamento? Como é possível que, numa Escola, se reúna sem a presença dos envolvidos, amedrontando jovens?
Ah! Curiosamente, esta é a Escola onde a cidadania pesa 10%... Talvez isto explique muita coisa.
Não me calarei. Nem com processos de averiguações, nem com ameaças veladas, menos ainda com o triste sucesso da mentira e da hipocrisia!

sábado, 22 de abril de 2017

DÉCIMAS

Não consigo compreender o mundo em que vivo. Amanhã, há eleições em França, há dois dias houve novo atentado e o meu país fala de futebol. Vivemos com um louco ignorante a comandar uma das maiores potências do mundo, e discutimos se o Benfica é melhor do que o Sporting...Olho à minha volta, estou sozinha com o meu cão no silêncio da minha casa,  e penso que as pessoas que têm poder no mundo enlouqueceram. 
Na Europa, nesta Europa que alguns pretendem ser unida, enquanto o mediterrâneo se transforma num cemitério de sonhos, discutem-se, com pompa e circunstância, as décimas dos défices e dos lucros! Nas escolas, perante o aumento do desinteresse e da indisciplina, os professores inventam novas grelhas excel. Falamos de cidadania, e executamos a hipocrisia. Apregoamos a solidariedade, e praticamos o egoísmo. Eu não percebo o mundo que integro! Sinto que vivemos de décimas e isso, francamente, parece-me excessivamente insuficiente!

terça-feira, 18 de abril de 2017

KEN FOLLET

Acho que li todos os romances de Ken Follet. Descobri-o por acaso, há uns anos, e tenho lido com interesse tudo o que publica. Não é, penso eu, um Nobel, mas é, sem dúvida, um óptimo contador de histórias que mexem connosco - comigo. Acabei, ontem, tarde na noite, de ler "Uma terra chamada Liberdade" e, uma vez mais, ainda tenho comigo as emoções do enredo, a intensidade das descrições e a radiografia rigorosa feita às personagens. 
Não foi o cinzentismo da Escócia do século XVIII,  a escuridão de uma Londres enegrecida pelo carvão, ou sequer o verde que pinta a esperança do Novo Mundo que mais me marcaram. Desta leitura, desta vez, ficou-me a constatação revoltada da maldade que existe nalgumas pessoas e que, seja no séc XVIII ou XXI continua a fazer-se notar...

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Marias e Manéis

Chamava-se Maria. Como mil e muitas miúdas da sua idade, como muitas meninas sem idade porque sem identidade. Esta Maria, da minha ficção, era aluna aplicada e, diziam-lhe, aprendia a crescer e a ser Pessoa. Curiosa, perguntava, por vezes, se ela não era já pessoa. E explicavam-lhe que existir não é, afinal, sinónimo de ser. Que há quem exista, e nunca seja pessoa. E falavam-lhe de coragem, de garra, da necessidade de lutar por aquilo em que acreditava, da importância de ter opinião, de ser frontal e justa. Diziam-lhe, muitas vezes, que tinha a obrigação, mais do que o direito, de participar e ajudar a construir um mundo diferente.
E a Maria ia à Escola.
Um dia, a Maria esbarrou com a hipocrisia adulta, com o cinismo, com a maldade que, tantas vezes, reveste a estupidez. E a Maria interrogou-se: - Afinal?...
Pois é querida Maria, lutar por um mundo melhor é isto: esbarrar com a estupidez, muitas vezes até licenciada e mestrada, e continuar lutando pela Verdade e pela Justiça.
Que as Marias nunca desistam! E os Manéis as acompanhem!

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Era sempre assim. Do mosto da vida fazia, com a máquina da memória, a bebida que a alimentava na rotina da vida, Sucediam-se Invernos, Natais, Primaveras e Páscoas e ela, religiosamente, como quem reza a oração do silêncio, acumulava memórias. Todas lhe faziam falta. As boas, muitas felizmente, davam sabor aos momentos que, agora cada vez mais, se tornavam amargos; as más, muitas infelizmente, serviam-lhe de alerta, luzes no corredor da vida, evitando, por vezes, outros erros ou enganos... 
Agora, de novo Páscoa, saltava o mosto de outras eras de renovação. 
Em miúda ouvia a sirene, comia borrego (que saudades daquelas batatas), trincava amêndoas e esperava o coelho branco que, garantiam os adultos desaparecidos, era um ser mágico que semeava ovos coloridos para as crianças. Era bom ter sido criança. Talvez, agora pensava, fosse bom ser criança por nunca se esperar do mosto senão que fosse mosto. Depois, crescendo, a mania de esperar por outras bebidas, o vício de desejar diferentes sabores, acabavam por estragar muitos menús...

sábado, 8 de abril de 2017

COISAS ABORRECIDAS

Não gosto nada de calor. Pior, não gosto de calor antes do tempo e odeio os espirros e as comichões que a Primavera sempre me impõe. Ao contrário do comum dos mortais, prefiro a chuva e o frio, a protecção abraçada de um casaco quente e o conforto das botas. Mas como, felizmente, a Natureza se está nas tintas para as preferências de cada um, aí está Primavera e os polens na sua máxima força.
No meio deste mau estar, que nada alivia, tenho de trabalhar e, o que para mim é o pior, tenho de continuar a cruzar-me com a hipocrisia e  cinismo personificados. Gostava de conseguir compreender, para poder aceitar mesmo discordando, as razões que levam a que professores - logo, pessoas com cultura e formação - actuem nas costas, critiquem na ausência e, pior, utilizem espaços onde eu não tenho assento para criticar o que defendo. E o que defendo de tão grave? Uma Escola preocupada em ajudar os alunos a aprender, salas de aula de século XXI, investimento em  metodologias de projecto, critérios de avaliação que fomentem as aprendizagens, menos horas de aulas formais, actividades de enriquecimento cultural ao longo do ano, equipas pedagógicas centradas no conselho de turma. Talvez eu não tenha razão, mas, de certeza absoluta, quem não tem coragem de discutir ideias e age com processos de averiguações movidos contra quem discorda, está definitivamente perdido.
Às vezes, não tenho nenhuma consideração por alguns professores. Felizmente, para mim, conheço outros que são profissionais excepcionais! 

sexta-feira, 24 de março de 2017

POUCA VERGONHA?? Ou...

Quando eu penso que está esgotada a minha capacidade de indignação, eis que algo surge para me lembrar que, afinal, o absurdo é infinito. 
Estou revoltada, indignada e, admito, também ofendida. Falo, concretamente, do que acontece com os Agrupamentos de Exames que funcionam dois meses no ano, coordenando os exames por distrito, que são constituídos por PROFESSORES CONVIDADOS que são pagos com valores elevados. Não sei se é este o valor real, mas não será menos de três mil euros por cada professor, a juntar ao vencimento mensal. 
Acho absurdo que sejam professores convidados, mais ainda podendo ser docentes que nem sequer têm vínculo ao sistema. Mas acho ainda mais absurdo, e escandaloso, que seja possível um professor passar um ano lectivo gozando - literalmente!- de atestado médico e ingresse nesta privilegiada equipa. 
Duvido da necessidade de um Agrupamento de Exames, questiono a complexidade do trabalho desenvolvido mas, muito para além disso, revolta-me o que encaro como oportunismo e sem vergonhice. Estou revoltada! Porque eu acho que os professores são, ou deveriam ser, profissionais sérios e isto é, para mim, uma clara desonestidade! Será que a comunicação social sabe disto? Será que os Sindicatos pactuam com esta forma de agir? Infelizmente, de nada serve a minha revolta indignada. Somos um país de hipocrisia e aparência...

segunda-feira, 20 de março de 2017

AZEDUME

Há pessoas azedas. Não azedas porque passou o prazo de validade, como os iogurtes, mas azedas por terem, muitas vezes elas próprias, falhado os prazos de validade de vida. São pessoas que carregam na boca balas, atingem quem se aproxima e nunca, ou raramente, são capazes de elogiar a diferença, sobretudo se ela é de qualidade. Estas pessoas circulam por aí, orgulhosas e frias, arrotando sentenças e verdades que, quase sempre, ficam curtas aos outros. As pessoas azedas, acho eu, deviam usar um rótulo identificativo, como os da ASAE, para que soubéssemos, incautos mortais, os riscos que corremos por andar por perto.
Não gosto de pessoas azedas. Não gosto de quem nunca sorri, de quem sempre agride e insulta, de quem não é capaz de elogiar ou mimar.
Gosto de pessoas positivas, que se entregam e se dão, que aceitam mesmo sem compreender, que discordam sem condenar. Gosto de palavras boas, e acredito, como o Principezinho, que podemos sempre cativar o outro para, exactamente, cuidar dele. 

domingo, 19 de março de 2017

Dia do Pai

Olá, Pai,
Estás aí? A minha fé insegura diz-me que sim. Que continuas vendo-me, amparando-me. O pragmatismo do meu neto faz-me sorrir, avó no céu não está ninguém porque eu já lá fui muitas vezes, e duvidar também. Dizem-me, as vozes da razão, que estás vigilante. Pai, às vezes não te sinto mais. E tenho tantas saudades, fazes-me tanta falta.
Tenho-te na memória, nas conversas pelos campos espreitando a caça, nos almoços de domingo que sempre gostavas de fazer fora, na mesa
cheia de amigos, ao pé da fonte. Sabes Pai, já não há fonte. Já não há a varanda de onde, garantias tu, se espreitássemos por baixo das pernas se via ao mar. Não há nada, Pai! 
Há, agora, um imenso vazio, uma ausência de colo que me fere e faz sofrer. Tudo desapareceu, como tu, deixando em mim uma dor que sangra a cada dia. Um dia eu vou também, com o Tempo, para esse lugar talvez inexistente onde, se não estiver mais o teu abraço, estará a paz do nada. Fazes-me tanta falta... Hoje, era o teu dia. Coisas os homens, porque, quando se ama um Pai como eu te amo a ti, o calendário não chega. Agora Pai, já não vou para casa. Porque não há casa, não havendo tu. Queria tanto-tanto dar-te o beijo que te envio ...

domingo, 12 de março de 2017

AVALIAR?

Um destes dias, na escola onde trabalho, discutia-se a avaliação. É, admito, um tema que me é caro, que me preocupa e mobiliza. Avaliar, não tenho dúvidas, é sempre formular juízos sobre algo, ou alguém, e tem sempre, necessariamente, uma carga de subjectividade. Penso, pois, que muito mais importante do que avaliar aquisições, ou aprendizagens, a Escola devia avaliar PARA as aprendizagens. Ou seja, não se limitar a classificar instrumentos de avaliação e, muito para além disso, fornecer ao aluno, a cada aluno individualmente, ferramentas, pistas, indicações, que lhe permitam ultrapassar as dificuldades e aprender de facto Dizia-me então uma colega que com trinta alunos isso é utopia. E eu SEI que não o é! Basta que cada professor trabalhe de outra forma, que organize a sala de aula de modo a permitir que o processo se centre mais no aprender, do que no ensinar. Eu acredito, e sei como fazer!, que a Escola de hoje tem de se transformar num lugar de desenvolvimento de competências, de inclusão, e não de exclusão. Eu acredito que a Escola tem de ser um lugar de sucesso e não de frustração.
Às vezes, quando encontro alguns colegas como esta que refiro, apetece-me desistir de lutar por uma Educação melhor. Mas desistir da Educação é desistir das PESSOAS, e isso eu nunca farei.

quarta-feira, 8 de março de 2017

DIA DA MULHER

É hoje o dia da Mulher. Sim, devia ser todos os dias. 
E o dos homens, também! Devia ser a cada dia, a cada hora, Tempo das Pessoas. Das dos afectos, das dos saberes, das das cumplicidades efectivas. Devia ser sempre tempo de homenagear todos, de sorrirmos, de brincarmos e ofereceremos flores. Mas, como isso não é possível, é bom que haja no calendário o Dia da Mulher. 
Não por causa das rosas vermelhas, ou dos jantares no feminino (nunca fui, não sei como é), ou sequer pelos cumprimentos mas, sobretudo, porque faz sempre sentido, pelo menos para mim,lembrar a luta que, desde há séculos, talvez desde sempre, a mulher vem travando para provar a sua identidade.
Eu gosto de ser Mulher. Gosto de usar vestidos e saias, gosto não ter pelos, gosto de poder carregar um filho dentro de mim. Mas, sobretudo, eu gosto de ser pessoa no feminino e, para não tornar o meu texto circular, vou mesmo acabar por aqui sem frisar que o importante mesmo é, sendo homem ou mulher, ser-se Pessoa!

terça-feira, 7 de março de 2017

Perfil do Aluno

Está em discussão a proposta de perfil do aluno, apresentada pelo Ministério da Educação. Estranhamente, nas escolas pouco (ou nada) se ouve dizer. 
Parece-me, sem dúvida, uma proposta necessária, urgente e pertinente. O Mundo mudou, o telefone mudou, o automóvel mudou, a forma de cozinhar mudou e a Escola, por absurdo, parece insistir em não mudar! O aluno de hoje não é nem parecido com o aluno que tínhamos há 10 anos. DEZ anos, não cem! Mas a Escola insiste em pouco fazer e, hipocritamente, parece surpreender-se com o insucesso crescente e com a agressividade latente.
O perfil do aluno vem dar forma de letra a um novo paradigma, vem sugerir (impôr) uma nova forma de ensinar, uma nova forma de olhar a Escola e, sobretudo, muitas novas formas de dinamizar a sala de aula. São enormes os desafios que se colocam aos professores e, por isso mesmo, não consigo compreender tanta indiferença, ou resistência?, por parte de grande parte do corpo docente.
Pessoalmente, agrada-me o que li sobre o novo perfil do aluno. Acredito que é possível transformar a Escola num espaço com sentido e, decididamente, defendo que a Escola é um lugar vocacionado para o sucesso, e não para o insucesso e exclusão. Talvez a minha jornada seja solitária, mas vou continuar a fazê-la...

domingo, 5 de março de 2017

Reles

À hora do almoço, o telejornal abriu com a notícia da reeleição de Bruno de Carvalho. Foram dez minutos dedicados ao futebol, foi o discurso de presidente que, com voz rouca, garantia seguir as pisadas do tio avô, o ex-ministro Pinheiro de Azevedo, anunciando, e cito "Badamerda para todos os que não são do Sporting"!. Nem pestanejei. Nem me indignei porque, afinal, a gente acostuma-se a tudo... É elucidativo, contudo, a escolha do vocabulário. 
Eu não sou do Sporting, nem sequer é o Sporting que está em causa. O que está em causa é a pouca (ou nenhuma) educação, ou  competência cívica. O que o presidente do Sporting disse, infelizmente, qualquer outro dirigente, desportivo ou não, poderia dizer... Talvez seja moderno, e eu esteja velha. Mas ninguém me convence que modernidade seja sinónimo de mediocridade!

sábado, 4 de março de 2017

TEMPO

Há muito tempo já que não venho ao meu blog. A vida, ou o que eu tenho feito dela, ocupa-me o tempo, distrai-me, afinal, do que me dá prazer: a escrita. Pensei deixar morrer o portugalagoia - afinal, que falta faz? -mas, agora, mudei de ideias. Preciso da escrita! Preciso da liberdade que alinhar letras me dá e, se bem que um texto só existe se for lido, alivia-me produzi-lo, dar-lhe forma. De alguma forma, estranha talvez, a escrita liberta-me de algumas angústias, tal como falar me ajuda a ser mais pessoa.
Volto, então, ao meu blog. Imagino que ele está ressentido, afinal continuei sempre escrevendo no facebook..., e peço perdão pela pequena traição. O blog é mais pessoal, mais íntimo, do que o face. Tem menos visibilidade e, talvez também por isso, permite textos mais longos, mais pessoais também.
Volto ao meu blog, como tantas outras vezes, por causa da educação, por causa da escola... Acredito, convictamente, que é possível transformar a Escola num espaço de sucesso, sem retenção, capaz de responder individualmente a cada aluno. Não acho, sequer, que seja uma tarefa hercúlea! Basta que os professores, a maioria, acredite nesta possibilidade e compreenda que, afinal, hoje formam-se os adultos de 2020 e ... Ou seja, não podemos (não devemos) continuar a formar para o passado, para um modelo social que, sem dúvida findou há pelo menos 20 anos!
É sábado. Trabalhei a manhã inteira. Tenho para fazer um trabalho de Seminário e, em vez de estar a cumprir obrigações, dou-me ao luxo de partilhar reflexões. A Escola também devia ser isto: - Um leque de possibilidades, um conciliar de diferenças!