terça-feira, 24 de setembro de 2013

O BONÉ

Entra com o boné enterrado sobre a montanha de cabelos ásperos. Traz a mochila quase vazia, pendurada ao fundo das costas, riscada de negro e vermelho. Entra com um b'dia azedo, arrasta a cadeira, estica as pernas e espera. Peço-lhe, delicadamente, que tire o boné. Alego que me incomoda, porque no "meu tempo" os homens tiravam o boné dentro de casa. Ele obedece. O boné morre em cima da mesa, alto, agressivo e sujo. Cruza os braços e olha-me em desafio. Digo-lhe que tem uns olhos lindos, pergunto-lhe se está zangado comigo... Surpreende-se. Porque havia de estar?! E eu digo-lhe que estava preocupada por pensar que poderia, sem querer, ter feito alguma coisa que o chateasse. Se assim não fosse, porque falaria para mim com tais maus modos?! Ele pára, parece pensar, e conclui que não há nada vindo de mim que o incomode. Esclarecidas as relações, começa a aula. Peço-lhe que abra o livro, e responde-me que não tem disso. Os olhos saltitam, não me fixa. Olha para mim, por favor, peço. E falo-lhe com a ternura que sinto que ele pede. Sento-o ao meu lado, vamos partilhar o livro?, e peço-lhe que leia. Soletra. Os seus catorze anos lêem como se tivesse seis. Fico aflita! Que necessidade tenho de o sujeitar aquilo?! Leio eu. A sorrir, rodando o boné em cima da mesa, ele elogia a minha leitura... A aula vai correndo, ele escreve na folha que lhe dei, com a caneta que lhe emprestei.
Quando a campainha toca, todos saem e ele fica. Saímos juntos, comentando o Benfica e o Sporting. Sem saber bem porquê, sinto o meu coração mole. Talvez, apesar de muitos pesares, a compreensão e a verdade sejam a chave para abrir corações e permitir aprendizagens. 

5 comentários:

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    1. Obrigada, eu gostava de ser assim.De ter esta arte!

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  2. Tão boazinha !!! O pior é quando não gosta dos alunos..

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    1. Há sempre alunos que não gostam de professores, e o contrário também. É a vida !

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  3. Luisa, ao longo de 36 anos fui-me apercebendo aos poucos que momentos como o que relata fazem toda a diferença, mas também sei que nem sempre temos a paciência necessária...
    Há uns meses a trás encontrei um antigo aluno meu, agora na casa dos trinta, conversamos...e quando se despediu de mim com um beijo disse-me: "a professora ralhava-me muito, mas eu sabia que gostava de mim!"
    Muitas vezes só mais tarde é que tomam consciência disso!

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