quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

O ADAMASTOR

Sentava-se ali, acompanhada pela solidão, desfiando memórias e sentires. A força das águas, o frio que lhe pintava o rosto, ajudavam-na a passar as páginas do sonho. O que queria? Em que acreditava? O  que tinha feito da vida, cumprindo urgências, preenchendo agoras? Sentia as rochas ferirem-lhe a pele e pensava como essa dor, tão física, ajudava a iludir a outra, a dor funda da alma que, talvez por não ser, ou ainda não sendo, doía demais. As gotas salgadas caiam-lhe nas calças, fazendo carreirinhos ordenados, numa lógica certa que a vida não tinha. 

Do céu, vinha Gama devolver-lhe o Fogo de Santelmo. Também ela tinha o seu Adamastor, o seu cabo das Tormentas que gostaria de tornar da Boa Esperança!

2 comentários:

  1. Dizem que há um Gama em cada português!
    João

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  2. Gostei! É um texto lindo...
    Lena

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