Fui de barco, um barquinho sujo e velho, partindo do Porto de Belém a esforçar-se por ser moderno, bilhetes recarregáveis, entradas computorizadas, a modernidade a tornar-se dolorosamente agressiva face aos olhares gastos, à barba suja do bêbedo que, numa cantilena incompreensível, aguardava o barco onde não entrou. Depois de dez minutos de espera, oscilando sobre o Tejo irrequieto, no barquinho quase vazio, lembrei-me de Fados conhecidos, e agradeci a ausência das ninfas que, sem dúvida, iam sentir-se muito deslocadas no Tejo actual... Num instante cheguei à enseada triste.
No restaurante, com uma travessa de boa lagosta e um prato largo de frutas coloridas, bebendo uma deliciosa sangria de champanhe (o espumante português feito pretensiosismo...), vi anoitecer sobre o Padrão dos Descobrimentos, vi acenderem-se as luzes sobre a Ponte Salazar e vi Lisboa aconchegar-se no manto negro. Podia ser uma fadista, a cidade das varinas, se em vez de lixo e miséria tivesse encontrado limpeza e harmonia.
Soube-me bem o jantar. Boa companhia, boa conversa, e eu a tentar distrair os pensares das opções dolorosas que insistiam em fazer. Porto Brandão.
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