quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Orelhas grandes e Suicídio

Uma criança, de orelhas grandes e dez anos, suicidou-se. Era vítima de bullying. Era, com certeza, vítima também de desatenção dos adultos, de indiferença talvez, vítima de uma rotina demasiadamente cheia de insignificâncias para deixar espaço às importâncias. Este miúdo suicidou-se no seu quarto, uma vez mais sozinho, procurando a fuga que deve ter considerado possível.
Não consigo deixar de pensar nesta criança. Não importa agora, é tarde demais, procurar culpados, mas, creio eu, é necessário pensar esta morte. O que está a acontecer nas nossas escolas, no nosso mundinho aparentemente moldado de acordo com normas sociais? Como se sentirá uma escola que permitiu esta morte? Sinto, como professora sobretudo, que urge pensar a dinâmica educativa com verdade e não apenas à sombra de parangonas pedagogicamente sonoras. A nossa Escola precisa de tempos de afectos, de tempos de comunicação, de tempos de ser, e não, como nos impõem, de tempos feitos exclusivamente de OPTE's e aulas de apoio. Se a família falha, e está a falhar (ou em mudança) a função da Escola tem de ser, também, a de desenvolver competências sociais, afectivas, facilitadoras (e promotoras) de integração. O suicídio deste miúdo, de orelhas grandes, tira-me o sono. Sei que há como minimizar estas situações comportamentais que constituem o bullying e desespera-me a passividade (e até indiferença) com que se encaram estas situações!
Urge fazer com que as fadas voltem à Escola, com que a magia dos afectos ganhe sentido! A Escola não pode ser um lugar de medo, onde a única forma de libertação é a morte!
Hoje, tenho muita vergonha de ser professora e queria pedir desculpa a todos os miúdos a quem, por vezes, não dei, ou não dou, o tempo com a qualidade necessária. Hoje, penso que ser professor deve ser, antes demais, estar atento e disponível, agir e mimar, proteger e ensinar. Hoje, tenho a alma tão negra como o céu plúmbeo que cobre a minha cidade e, dolorosamente, os meus sentires embrulham-se levados por um vendaval de emoções intenso.

5 comentários:

  1. Sim, as escolas deviam ser mais humanizadas.
    E os professores deviam ter mais horas de calmia, de sossego, para analisar e avaliar devidamente todos os sinais de cada aluno, para além de ensinarem,ás vezes cheios de stress e debaixo até de revoltas, provenientes de meia dúzia de "leizinhas de chacha",vindas de «ministérios de fazer de conta». É que há pais, que, por mais que tenham amor aos filhos, não têm tempo também, para verem, que o mau desempenho, as chamadas de atenção escolares , podem ser pela tal hiperactividade, que traz associada a doença de "Asperger", um ramo do "Autismo".
    Fá-los isolarem-se,não respeitar horários nem as normas de rigor nas aulas, falam sozinhos,não param nem à mesa nas refeições, não têm a sensibilidade de perceber que têm que acabar os trabalhos de aula ao mesmo tempo que os outros todos.Quanto mais respeito têm pelos professores, mais evitam olhá-lo nos olhos e respondem ao contrário do que querem dizer, tornando-de "Espírito de contradição";...daí, vem, o serem marginalizados pelos outros todos, até, claro, pelos professores "desatentos", e começa a tal »chacota» que provém dos colegas que o acham "uma coisa esquisita"!!
    Quase sempre são os melhores a assimilarem tudo que se lhes ensina, melhor que os outros e só de ouvido.Conforme tem uma inteligência acima da média, mais entristecem quando sós!!!
    Pela escassez de tempo, os pais não reparam nestes pormenores, mas Srs.Professores, vós que tendes mais preparação, tomai atenção, pois esta doença abunda por aí!!!
    Incutam nos alunos mais velhos a sensibilização para isto, afim de se evitarem casos como o deste menino!!

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  2. Também a mim me faz imensa confusão. Como pode um miúdo de dez anos(uma criança!)suicidar-se?!?! Que sociedade é esta? que pais são estes? Que escola e educadores são estes? Como é possivel que ninguém tenha reparado nesta criança?!
    Cada vez mais penso se é neste mundo que quero ter os meus filhos e criá-los... Cada vez mais tudo isto de desilude.

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  3. As sociedades vão sendo desenhadas em função de objectivos e esquecendo as pessoas, as diferenças, ignorando os afectos, os tempos para cada um.

    Acho que as Escolas deviam reflectir sobre estes fenómenos, actualmente ainda pouco abundantes mas de um significado extremo. Mas não só reflectir, tomar as medidas colectivas necessárias.

    Cumprimentos.

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  4. Sublinho inteiramente as suas palavras.
    Um abraço

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  5. Normalmente, estes meninos quando nascem apresentam sintomas de stress.Quase nunca, os pais ligam ao que disse o médico. Ia agora um bébé ter stress...
    O modo como se liga melhor com estas crianças, é a delicadeza e carinho.Mesmo em actos de rebeldia, é a forma de desarmá-los.
    Também é importante louvá-los em alguma função que tenham desempenhado bem ou mesmo regularmente.

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