quinta-feira, 25 de julho de 2013

FADISTA


No cais, fadista espera a hora de partir. De pé, olhando-o vigilante, o jovem pescador trabalha as redes preparando a noite. Usa umas calças enormes, de borracha verde, tem o rosto já marcado por muitas marés, por muitos sóis e ventos agrestes. Começou criança, às ordens do avô, saindo de casa acompanhado pelas orações da mãe, pelas lágrimas duras da avó. Hoje, compreende as orações que, em criança, lhe pareciam ineficazes por não terem salvo o pai de uma noite de naufrágio. Tantos anos ligado ao mar, tantas noites vividas num inferno líquido e sempre viva aquela vontade estranha: - Cantar! Cantar como o Camané, um jovem que o espantava pela força do fado alegre. Sabia de cor muitos fados, cantava-os no mar, tendo por público a lua, as ondas e as estrelas. Às vezes, quando a disposição era boa, animava as noites no Café da terra. Mas  a mãe não gostava e garantia sempre, carregando na voz o eterno luto, que as cantorias não enchem a barriga de ninguém. Ele não deixava o sonho naufragar e, pelo menos na faina, fadista era a sua identidade

1 comentário:

  1. É uma história linda. Comumm. Quantos sonhos perdidos são realidade hoje?

    Teresa

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