quarta-feira, 17 de julho de 2013

O CALHAU

Como é possível que uma pedra tão grande, um calhau imponente, se segure assim, no alto do monte, parecendo prestes a rebolar mas, no entanto, mantendo-se firme por anos e séculos? Para ela era um mistério.
Em miúda, bem pequena ainda, o Pai levava-a ali e mostrava-lhe o mundo: - Vês ali, ao longe, aquelas casinhas? Já é Espanha... E ali, em baixo, vês os campos? É dali que vêm as cerejas de que tanto gostas. E ela perguntava pela causa da pedra. E o Pai respondia: - Há muitos séculos, tanto tempo que ninguém consegue contar, aqui havia gelo e, por isso, estas pedras ficaram assim, lisas. Um dia, se calhar, vão cair e desaparecer. Nada é eterno. E ela segurava com força a mão que a ensinava. Se não compreendia a totalidade da explicação, sentia a força de um adeus que não queria imaginar.
Depois ela cresceu. O Pai partiu e Espanha parecia-lhe mais próximo, logo ali, sem necessidade do controlo de polícias assustadores. Agora, ela voltava à pedra gigante, sem mão para a segurar, sem palavras para explicar. De novo olhava aquela superfície lisa, larga, com surpresa e alguma inveja. É que a pedra não sabia, nunca poderia saber, que nada é eterno e que as grandes avalanches da vida acontecem quando menos se espera...

6 comentários:

  1. Um conto lindo, de ternura imensa. Faz-nos bem tê-la na nossa Terra!

    Fernando

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    1. Obrigada pelo carinho. Coisas lagóias.

      Luísa

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  2. De certeza a setõra voltou a Marvão. Anda triste? Não merece!

    Ana

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    1. Não ando triste nada! Feliz com as férias a chegar...

      Luísa

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  3. Belo texto, tanta sensibilidade, e tanto amor, querida Luísa!
    Nada é eterno, mas há momentos que juntos uns aos outros fazem uma vida. E que nunca se esquecem... Como o teu pai!
    beijinhos

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