Chegara de noite, cansado, com os olhos a doerem dos quilómetros de condução, dos destroços líquidos de uma vida desfeita. Procurava paz, descanso, um espaço sem memórias, um lugar onde os fantasmas noturnos não o encontrassem. Uma sugestão de um amigo fizera-o rumar ao Alentejo profundo, à imensidão de amarelos interrompida, apenas, por alguns sobreiros espalhados. Estranhara o verde das vinhas, não era este o Alentejo que aprendera nos livros, mas sentira a força das searas, o branco das aldeias, as rugas das gentes sozinhas sentadas às portas caiadas. Mesmo com a ajuda do GPS, perdera-se e, por isso, chegara tarde e desejando apenas dormir. De manhã foi o silêncio do hotel rural que o acordou. Deixou-se ficar, no quarto invadido de sol, organizando a cabeça. Vinha de um fim. Mas, ainda assim, e certo da inevitabilidade dessa chegada, sofria. O amor deixa-nos sempre alarme. Alarma-nos enquanto dura, mesmo se correspondido, e alarma-nos quando termina, como lhe acontecera a ele. Os porquês agora de pouco serviam. Como justificar os abandonos, os silêncios sempre crescendo, as prioridades erradas? Como explicar a desconfiança, o frio da cama, a surdez face aos sinais de alerta? Nada poderia, nunca, fazer o tempo voltar atrás e, olhando-se assim, nu sobre uma cama de hotel, perdido num lugar desconhecido, pensava que talvez nem quisesse recuperar nada. Fechou os olhos e sonhou.
terça-feira, 18 de junho de 2013
Concretizações
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Lindo, lindo, lindo! intenso, real, a pedir continuação!
ResponderEliminarMª da Graça
Cara amiga,
EliminarÀs vezes, a vida não tem continuação. Fica mesmo definitivamente interrompida.
Luísa
Adorei o texto. É tão bom lê-la, assim, levando-nos pela mão, ou pelos olhos, para outras realidades.
ResponderEliminarAna
É um texto lindo. Acontece tantas vezes só darmos pelo Valor das pessoas quando as perdemos.
ResponderEliminarAntónio