terça-feira, 18 de junho de 2013

Concretizações

 Chegara de noite, cansado, com os olhos a doerem dos quilómetros de condução, dos destroços líquidos de uma vida desfeita. Procurava paz, descanso, um espaço sem memórias, um lugar onde os fantasmas noturnos não o encontrassem. Uma sugestão de um amigo fizera-o rumar ao Alentejo profundo, à imensidão de amarelos interrompida, apenas, por alguns sobreiros espalhados. Estranhara o verde das vinhas, não era este o Alentejo que aprendera nos livros, mas sentira a força das searas, o branco das aldeias, as rugas das gentes sozinhas sentadas às portas caiadas. Mesmo com a ajuda do GPS, perdera-se e, por isso, chegara tarde e desejando apenas dormir. De manhã foi o silêncio do hotel rural que o acordou. Deixou-se ficar, no quarto invadido de sol, organizando a cabeça. Vinha de um fim. Mas, ainda assim, e certo da inevitabilidade dessa chegada, sofria. O amor deixa-nos sempre alarme. Alarma-nos enquanto dura, mesmo se correspondido, e alarma-nos quando termina, como lhe acontecera a ele. Os porquês agora de pouco serviam. Como justificar os abandonos, os silêncios sempre crescendo, as prioridades erradas? Como explicar a desconfiança, o frio da cama, a surdez face aos sinais de alerta? Nada poderia, nunca, fazer o tempo voltar atrás e, olhando-se assim, nu sobre uma cama de hotel, perdido num lugar desconhecido, pensava que talvez nem quisesse recuperar nada. Fechou os olhos e sonhou.
Estava na praia, de máquina em punho, fotografando. Gostava de se sentar nas rochas e de ficar flashando os surfistas ousados, as ondas a rebentar, as crianças a brincar. A fotografia era um vício, talvez o único. Fora com a máquina que a descobrira, jovem, de rabo de cavalo escuro, passeando no areal, sem pressas, brincando com a espuma das ondas. Eram jovens os dois, ele gostou das pernas bronzeadas e longas, do fato de banho de flores, do olhar escuro que mergulhava  no oceano. Fora ela quem começara a conversa, sem vergonha, perguntando-lhe se conseguira já fotografar o ponto verde. Perante a sua ignorância, ela explicara: - Era um privilégio de seres especiais, ver o ponto verde! E ele sentia-se já especial, e ela era já o seu ponto verde. A conversa correu, o casamento aconteceu e, agora, o fim chegara também. Talvez ele devesse ter sido diferente, mais atento. Talvez ela devesse ter sido diferente, mais exigente. Talvez, no mar que fotografara, não devesse existir uma mulher, umas pernas longas, um fato de banho florido. Talvez só devesse ter olhado as gaivotas... Talvez a vida não devesse fazer-se de talvez, mas de concretizações!


4 comentários:

  1. Lindo, lindo, lindo! intenso, real, a pedir continuação!

    Mª da Graça

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    1. Cara amiga,
      Às vezes, a vida não tem continuação. Fica mesmo definitivamente interrompida.
      Luísa

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  2. Adorei o texto. É tão bom lê-la, assim, levando-nos pela mão, ou pelos olhos, para outras realidades.

    Ana

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  3. É um texto lindo. Acontece tantas vezes só darmos pelo Valor das pessoas quando as perdemos.

    António

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